Exclusivo Como um grupo de amigos faz renascer das cinzas a lagoa da Ervedeira

Consumida pelas chamas em outubro de 2017, a zona envolvente da lagoa da Ervedeira, em Leiria, renasce das cinzas graças ao voluntariado. Há um grupo de amigos a garantir que as árvores (não) morrem de pé.

Virgílio Cruz sabe de cor cada passo que deu naquele 15 de outubro de 2017, quando a meio da tarde brincava com os amigos: "Se o fogo aqui chegar, metemo-nos todos dentro da lagoa." Nessa altura, a nuvem de fumo via-se ao longe, as chamas consumiam o Pinhal de Leiria, mas era tudo demasiado distante. Talvez mais de 30 km, algures entre São Pedro de Moel e a Praia da Vieira, no vizinho concelho de Leiria. Mas ao final do dia deixou de haver margem para ironias. No café que serve de apoio à lagoa, há vários anos concessionado a Virgílio, alguém avisou que o fogo tinha galgado o rio Lis e que se dirigia assustadoramente para a mata. "Fui para casa, reguei tudo. À meia noite voltei para aqui. Ainda tive tempo de cortar as cordas a uns cavalos que estavam presos num terreno aqui ao lado. E de repente veio o fogo."

Ainda hoje se emociona quando recorda a velocidade das chamas a consumir os passadiços de madeira à volta da lagoa. "Propagou-se em cinco minutos", recorda, sentado na esplanada do bar que explora há vários anos e que agora também serve de ponto de encontro do Grupo de Amigos da Lagoa da Ervedeira (GALE), entretanto constituído em associação, e do qual Virgílio é vice-presidente. Nascido e criado na aldeia da Ervedeira, freguesia de Coimbra, foi ali que aprendeu a nadar, que brincou na infância e se fez homem. Nesse tempo não podia adivinhar que seria também dela que adviria parte do seu sustento, depois de um grave problema de saúde que lhe veda emprego aos 44 anos. Tão pouco imaginava que, para lá do bar que explora (nesta altura apenas aberto ao fim de semana), seria ele o guardião daquele espaço de rara beleza: uma lagoa de água doce, a caminho da Praia do Pedrógão, o lugar onde o sol descobre mesmo quando a meia dúzia de quilómetros tudo é nevoeiro ou vento. "É um ecossistema único, com uma fauna e uma flora muito particulares", conta ao DN. Sabendo disso, mal as chamas cederam, começou a pensar em arregimentar amigos para limpar os despojos que o fogo deixara. Fez um apelo nas redes sociais, criou um grupo (que ainda se mantém), e, sem saber como, apareceram 600 pessoas, vindas de todo o país. Tinha passado apenas uma semana do fogo.

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