Champanhe, a rainha, 007 e o Brexit. Uma história com final feliz

O acordo de saída do Reino Unido da União Europeia protegeu uma das bebidas preferidas dos britânicos, de Isabel II a 007. Em França, respira-se de alívio. Tchim, tchim.

O acordo comercial pós-Brexit entre Reino Unido e União Europeia pode celebrar-se com champanhe não só por terminarem as longas negociações entre as duas partes, mas porque a bebida - uma das preferidas dos britânicos e o principal mercado de exportação dos produtores franceses - pode continuar a cruzar o canal da Mancha sem obstáculos.

O champanhe associado à classe alta no Reino Unido tem uma marca de eleição - Bollinger - consumida pelo herói da ficção James Bond e uma das poucas autorizadas a usar o selo de preferida da família real britânica.

Todos os anos chegam à ilha de Sua Majestade entre 25 e 30 milhões de garrafas de espumante francês.

Estes números ajudam a explicar por que razão um acordo sem tarifas adicionais ou quotas foi recebido com "um enorme alívio" neste setor. A expressão é de Jean-Marie Barrillere, presidente da federação de casas de champanhe. "É o final feliz para uma história que dura há demasiado tempo".

Passaram mais de quatro anos desde que em junho de 2016 os britânicos votaram a saída da União Europeia em referendo, após 50 anos de uma história comum. Até à véspera de Natal, a dúvida sobre um não acordo manteve-se, deixando o setor do champanhe em suspenso.

No início de dezembro, Barrillere perguntava: "Compreende que, sem um acordo, os ingleses serão estrangeiros e o Reino Unido um mercado tão distante quanto África ou a Ásia?" Temia novos impostos, formalidades alfandegárias, burocracia e um pesadelo logístico. Tanto pior quanto, notava, perante a possibilidade de se encontrar nesta situação, os ingleses começaram a fazer o seu stock de... champanhe. "Cidadãos ou importadores, os ingleses estiveram a acumular. Nós continuámos a entregar."

Barrillere acredita que 10% das vendas anuais estão agora nas prateleiras de lojas inglesas.

O responsável pela marca preferida do agente ao serviço de Sua Majestade, Charles-Armand de Belenet, contou à AFP que exportaram "o equivalente a um ou dois meses de stock antecipadamente para se adiantarem à logística".

O suficiente para brindar à estreia da próxima aventura de James Bond, No Time to Die, agora previsto para a primavera de 2021, depois de ter sido adiado por duas vezes este ano devido à pandemia.

Bond sempre apreciou espumante, e a primeira garrafa de Bollinger aparece em 1956, mas foi apenas há 41 anos que a relação se tornou oficial.

Como conta Charles-Armand de Belenet, "um simples aperto de mão entre o produtor Cubby Brocolli e o produtor do Bollinger Christian Bizot prevalece desde 1979". Um feito tanto maior quanto a Bollinger "é a mais pequena das grandes casas de champanhe".

"Os ingleses são resistentes"

A Bollinger foi fundada em 1829 por um aristocrata francês, Athanase de Villermont, que viu na sua extensa propriedade em Ay-Champagne o potencial para produzir este vinho, um alemão que se ocupou das vendas, Joseph Bollinger, e um francês, Paul Renaudin, que se encarregava das vinhas. Com o casamento de uma filha de Athanase com Joseph Bollinger a sucessão ficou assegurada. Foi um dos netos do casal, Jacques, que estreitou, já no século XX, as relações com o Reino Unido.

com o Reino Unido.

Ainda no final do século XIX, a Bollinger tornou-se uma das poucas casas que pode dizer que ostenta uma recomendação da casa real britânica - by Appointment to HM Queen Elizabeth II, Purveyors of Champagne, como se lê na fachada da sede da companhia em Ay-Champagne, 150 quilómetros a leste de Paris.

Foi a rainha Vitória, em 1884, que concedeu à Bollinger o estatuto de fornecedor da Casa Real britânica, confirmado de novo em 1950 pelo rei George VI, pai da atual rainha, também ela uma apreciadora de champanhe. Uma das suas primas contou à imprensa britânica que Isabel II toma espumante todos os dias.

Foi a relação de longa data que, segundo De Belenet, manteve a empresa confiante numa boa solução durante os altos e baixos das negociações do Brexit.

"Os ingleses são muito resilientes. Esperávamos uma sacudidela na confiança [por causa do Brexit], mas o mercado está a aguentar-se bem. É mais robusto do que o mercado francês", disse.

Anualmente, cerca de um terço das receitas da Bollinger - 1,5 milhões de euros - vêm do Reino Unido. As edições deste espumante são inúmeras - dos 52 aos 902 euros.

Os produtores que vendem menos do que os três milhões de garrafas por ano da Bollinger sentem mais ansiedade, temendo um período de seca do outro lado do canal da Mancha. É o caso da Joseph Perrier, que vende cerca de 20% das suas 800 mil garrafas anuais para o Reino Unido, não tendo escala para absorver um golpe como aquele que um cenário de no-deal poderia ter no seu negócio. "Não estamos numa posição de poder lidar com toda a papelada alfandegária de um mercado distante" fora da União Europeia, preocupava-se o CEO da empresa Benjamin Fourmon antes de o acordo ser anunciado.

Fornecedor não oficial da família real britânica, a casa temia uma "catástrofe" se novas barreiras comerciais fossem impostas.

As perspetivas, porém, eram animadoras. "Os vinhos de Champagne capturaram os corações dos ingleses há três séculos", disse o presidente da região de vinhos, Maxime Toubart. "Vamos manter os nossos olhos abertos, mas os laços entre Champagne e o Reino Unido dão-nos confiança", apesar de estarem de saída do mercado comum.

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