A teatralidade de Julien Fournie

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Alta costura em tempos de pandemia: tarot, saltos rasos e cinema

Sem oportunidade de usar a passerelle para mostrar o melhor da criatividade, o punhado de designers que empenha em criar alta-costura mudou-se para o YouTube. E os realizadores entraram em cena.

Moda inspirada no cinema sempre existiu. Teatralidade na semana da moda de Paris também. Desta vez, o desafio em tempo de covid-19 era mostrar nas plataformas digitais o que aí vem. E, para isso, as principais casas da moda socorreram-se da criatividade dos realizadores de cinema para trazer espetáculo às apresentações, ainda que alguns admitam um desespero crescente para voltar ao desfiles ao vivo.

Se as apresentações parisienses da moda de homem já tinham levantado o véu sobre a espetacularidade - e o grande amor a espelhos e superfícies que refletem -, a alta-costura só veio confirmá-lo desde o primeiro dia, na segunda-feira até esta quarta-feira, dia em que Kim Jones se estreou à frente da Fendi, após três anos na coleção masculina (a semana francesa é quatro dias e os shows terminam hoje com os convidados)

O trabalho de Kim Jones era muito aguardado. Até onde se conseguiria afastar da cultura urbana que o trouxe para a marca? Segundo a Vogue, a prova foi superada, graças a Virginia Woolf e à forma como trouxe o universo do bairro de Bloomsbury para a sua visão.

De volta ao cinema. A casa Dior chamou o realizador italiano Matthew Garrone, autor de filmes como "Gomorrah" ou "Pinocchio", para transformar a mais recente coleção, inspirada em cartas de tarot, numa aventura semelhante a um sonho. Uma mulher atravessa caminhos com personagens de cartas de tarot como justiça, louco ou morte.

"A abordagem artesanal à realização de cinema de Garrone com uma linguagem que é poética, extremamente pitoresca, casa muito bem com a visão da alta -ostura, disse a designer italiana à frente da Dior, Maria Grazia Chiuri à AFP.

As cartas de Tarot foram um refúgio para o próprio Christian Dior, que muitas vezes se virava para elas quando criava as coleções da sua casa nos anos incertos após a guerra e voltaram a servi a Dior no século XXI. No caso de Chiuri, a inspiração veio de um famoso tarot de Visconti do século XV, com tons dourados e metalizados, verdes de um quadro renascentista e padrões geométricos.

As suas criações misturam o feminino - um longo vestido de renda com volumosas mangas - com o masculino, reinventando o fato de bar Dior, segundo a AFP. Desta vez, em veludo e com calças e mocassins. Mantém-se fiel à política (e estética) dos saltos rasos, extremamente rara quando se fala em alta costura.

Desta vez, porém, Maria Grazia Chiuri não esteve sozinha. Estreando-se em nome próprio, Alber Elbaz criou um conjunto de vestidos brilhantes, curtos, algo retro-80's usados com ténis - rasos e bicudos.

A energia positiva tem sido difícil de manter ao mesmo tempo que se atrasa o regresso ao glamour dos eventos de moda. É a segunda vez que as marcas e casas francesas (e não só) têm de usar as versões digitais para chegar aos consumidores.

"É inútil negar que os desfiles são um elemento-chave, não apenas para a Dior, mas para todo o mundo da moda. Os convidados são parte do espetáculo", disse Maria Grazia Chiuri.

A designer está a preparar uma coleção pret-a-porter para próxima semana da moda, em março, ainda sem saber o que vai acontecer.

"O início do ano tem sido muito difícil. Tem havido altos e baixos. É fatigante estar constantemente à procura de força para continuar a avançar. Mas a criatividade é um refúgio nestes tempos difíceis", disse ainda.

O que diz Chanel?

A apresentação da Chanel, esta terça-feira, foi assinalada com um curto filme e fotos da autoria de outro realizador de culto: Anton Corbijn, conhecido pelo biopic "Control" de Joy Division e as suas muitas fotografias de ícones do rock. Para esta coleção, o artista também fez uma série de fotografias com as modelos Chanel e ainda Lily Rose Depp, Vanessa Paradis e Penélope Cruz.

"Sabia que não podíamos organizar um grande desfile numa passerelle, que tínhamos de fazer outra coisa. Então, tive a ideia de um pequeno cortejo que desce as escadas do Grand Palais. Como uma celebração de família, um casamento", disse Virginie Viard, diretora criativa da Chanel desde 2019, mão direita e esquerda de Karl Lagerfeld durante mais de 30 anos.

Indiferente à pandemia, segundo a imprensa, Giambatista Valli, que em matéria de alta-costura se vê mais como um escultor do que como um designer, criou uma festa de verão de inspiração flamenca, sem cedências a confinamentos. - ainda que tenha sido o único a criar uma estética que vagamente recorda uma máscara. Antecipa bailes de gala no bom tempo e está preparado para eles.

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