Um gato inspirado em Louis Armstrong

Em 1970, a longa metragem de animação Os Aristogatos tornou-se um dos maiores sucessos de sempre da Disney. Cheio de música, levou ao grande écran um grupo de gatos inspirados por figuras bem reais do mundo do espetáculo.

Ninguém tinha mais swing do que Louis Armstrong. Por isso, quando, a meio da década de 60, a Walt Disney pensou numa longa-metragem de animação com uma banda de jazz composta por gatos, o trompetista começou por ser desenhado a pensar no bom velho Sachtmo, o negro de Nova Orleães que conquistou a América anterior à luta pelos Direitos Civis e, com ela, o mundo graças à sua forma pessoalíssima de estar na música.

Mas a produção atrasou-se, em boa parte devido à doença e morte do próprio Walt Disney, em Dezembro de 1966. Quando finalmente avançou, Os Aristogatos tornar-se-ia o último filme ainda aprovado pelo "pai fundador da empresa", mas tinham passado três anos e Louis Armstrong já estava muito debilitado pela doença cardíaca que o vitimaria em 1971. Por isso, o papel de Scat Cat, ou Gato Pilantra em Portugal e no Brasil, (em vez de Satchmo Cat, no original) foi para o músico e ator Scatman Crothers (1910-1986). No entanto, basta ver um número musical do filme como o delicioso "Everybody wants to be a cat" para perceber que a personagem continuava a ter muito do ritmo e humor de Armstrong.

Os Aristogatos, um dos maiores êxitos de sempre da Disney baseia-se no livro de Tom McGowan e Tom Rowe, que contava a história (aliás, verídica) de uma família de gatos que, na Paris de 1910 (mais de cem anos antes de Choupette se tornar herdeira de Karl Lagerfeld), herdara uma colossal fortuna da sua dona. No filme, a ação decorre na mesma época e local mas o destino dos requintados bichanos (a bela gata branca Duquesa e os seus três bebés, Marie, Toulouse e Berlioz) é incerto já que, ao saber das intenções testamentárias da patroa (Madame Bonfamille), Edgar, o mordomo, decide dar sumiço aos animais, considerando que, dessa forma, seria ele o beneficiado.

Mas estes fogem aos objetivos homicidas do homem, no que serão ajudados por um bando de irmãos de espécie, habitantes da rua, e conhecedores de um conjunto de truques de sobrevivência totalmente desconhecidos de quem se habituara ao filet mignon de Madame Bonfamille. Nesse novo ambiente, a sedutora Duquesa (na versão original, dobrada e inspirada pela atriz Eva Gabor) apaixonar-se-à por um "vira-lata" galanteador, Thomas O"Malley, e descobrirá que há mais música para além da clássica que embalava as suas sestas na mansão da dona.

Realizado por Wolfgang Reitherman, um histórico da Disney (trabalhara como animador em clássicos como Pinóquio ou Cinderella e realizara, entre outros, A Espada era a Lei ou O Livro da Selva) teve música da dupla Robert e Richard Sherman, premiados com o Óscar de melhor canção noutro clássico da Disney, Mary Poppins. Depois de muitas e perigosas peripécias que apertavam o coração dos mais pequenos tudo acabará bem para Duquesa, os filhos e para os novos amigos da família, os vira-latas do jazz e o simpático rato Roquefort. Imaginemos que, no final das suas sete vidas, o Gato Pilantra tenha ronronado para si mesmo a frase atribuída a Louis Armstrong: "Tive o meu trompete, a minha família e o jazz. Creio que estou completo."

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