Um esteve 340 dias em órbita e o outro ficou na Terra. O espaço mudou a saúde de um dos gémeos Kelly

Um dos irmãos passou 340 dias em órbita e o outro ficou na Terra. Quase todas as mudanças biológicas que o primeiro sofreu durante a viagem reverteram quando regressou, mas há algumas que se mantêm e que podem ter consequências potencialmente negativas para a saúde celular.

Um astronauta norte-americano sofreu inúmeras mudanças biológicas no espaço, mas voltou ao normal -- com algumas exceções -- depois de regressar à Terra, de acordo com um estudo que envolveu dois irmãos gémeos e que revela os efeitos dos voos espaciais no corpo humano.

No estudo publicado esta quinta-feira, os cientistas compararam Scott Kelly ao seu irmão gémeo idêntico Mark Kelly, depois de Scott ter passado 340 dias em órbita, na Estação Espacial Internacional, e Mark ter ficado na Terra. Ambos já deixaram de ser astronautas da NASA e Mark é candidato a senador pelo Arizona.

Scott Kelly, durante a viagem, sofreu o espessamento da artéria carótida e da retina, perda de peso, alterações a nível dos micróbios nos intestinos, redução nas capacidades cognitivas, danos no ADN, mudanças na expressão genética (processo pelo qual a informação de um gene é processada num produto genético), e o alongamento das extremidades dos cromossomas chamadas telómeros (que garantem a sua replicação e estabilidade).

Depois de regressar à Terra, o alongamento dos telómeros foi substituída por um encurtamento acelerado e perda, uma consequência potencialmente negativa para a saúde celular, segundo os cientistas.

"O regresso foi muito pior do que a adaptação de estar lá em cima, especialmente no caso do voo de um ano", disse Kelly aos jornalistas na quinta-feira. "Senti que tinha gripe nos primeiros dias. Fiquei cansado durante muito tempo."

O estudo vai ajudar os cientistas a perceber melhor as mudanças que os astronautas passam durante longas viagens especiais, conhecimento crucial numa altura em que a NASA contempla a hipótese de expedições à Lua e a Marte.

Os cientistas notaram também alterações na expressão genética de Scott Kelly durante o tempo que esteve no espaço, mas a maioria -- não toda -- voltou ao normal depois de seis meses na Terra. Uma pequena percentagem relacionada com o sistema imunitário e a reparação de ADN ainda não regressou ao normal, o que denuncia um potencial dano a nível genérico permanente.

Os cientistas identificaram cinco possíveis causas para as mudanças genéticas, incluindo a radiação espacial e a leveza de um ambiente de gravidade zero. A estação espacial onde Scott Kelly viveu está na órbita abaixo de cinturão de Van Allen -- um invólucro de partículas energéticas carregadas construídas fora do campo magnético protetor da Terra.

"A radiação é muito mais baixa do que o esperado numa viagem para Marte", disse Steven Platts,

O sistema imunitária de Scott Kelly trabalhou bem no espaço e a vacina da gripe que administrou em órbita funcionou como se tivesse sido administrada na Terra, de acordo com o estudo. A NASA considera um bom sistema imunitário muito importante para longas missões espaciais para garantir que os astronautas estão protegidos das doenças causadas por micróbios num ambiente fechado das naves espaciais.

Andrew Feinberg, da Universidade Johns Hopkins, um dos líderes do estudo publicado na revista Science, notou que a publicação das descobertas coincide com o 58.º aniversário do primeiro voo espacial humano, pelo cosmonauta soviético Yuri Gagarin. Feinberg considera o estudo "o amanhecer da genómica no espaço".

Os investigadores estão a planear outro estudo de vários anos para acrescentar aos dados. "Ponham-me em económica, estou preparado para ir", brincou Scott Kelly.

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