"Tenho 24 anos e estive quase a morrer de coronavírus"

O contágio está a aumentar entre os mais jovens, na faixa dos 20 aos 30 anos, com a ideia de que não sofrem com a covid-19 como os mais velhos a ser desmentida por muitos dos infetados.

"Pessoas na faixa dos 20, 30 e 40 anos estão a espalhar a doença. Muitas não sabem que estão infetadas, o que aumenta o risco de contágio para os mais vulneráveis.​​" O alerta foi dado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na semana passada e os dados parecem comprovar, com um crescente número de pessoas destas faixas etárias a testar positivo para a a covid-19 nas semanas mais recentes.

Em Espanha, os infetados entre os 15 e os 29 anos são 25% do total de contagiados no país. O jornal El País recolheu vários testemunhos de jovens que estiveram doentes com covid-19. É o caso de Anshy Loaiza, 24 anos, que estava grávida e não tinha registo de doenças anteriores. "Os jovens deveriam pensar mil vezes antes de não usarem máscara. Tenho 24 anos e estive quase a morrer de coronavírus." Apesar de jovem e saudável, Loaiza passou dois meses no hospital, com mais de quatro semanas na Unidade de Cuidados Intensivos (UCI), a maior parte do tempo em coma induzido, depois de contrair covid-19.

Há explicações para o contágio acelerado entre os mais jovens. "No início testava-se apenas casos graves. Agora há mais testes e vemos mais casos ligeiros e assintomáticos. Além disso, os jovens são as pessoas que têm mais mobilidade e saem mais à noite", afirmou ao diário de Madrid Pedro Gullón, da Sociedade Espanhola de Epidemiologia. "A grande capacidade de interação durante o período de verão devido aos encontros com amigos e familiares faz que os jovens, que são as pessoas que mais interagem, corram mais riscos. E também pode haver um relaxamento das medidas preventivas", acrescenta o professor de Saúde Pública, Ildefonso Hernández.

A marca da traqueostomia no pescoço serve como lembrança para Anshy Loaiza de que o vírus poderia ter-lhe custado a vida. Esta empresária de 24 anos que reside em Madrid foi ao hospital no dia 19 de março para dar à luz. Houve uma complicação na gravidez e fizeram-lhe uma cesariana. "Deram-me alta dois dias depois, mas três dias passados tive de voltar, não conseguia respirar. Quando me disseram no hospital 'desculpe, você está com coronavírus', foi como se me tivessem dito 'desculpe, você vai morrer'. Naquele momento na TV só havia mortes, mais mortes", recorda. Ficou 27 dias em coma induzido, mais uma semana em observação na UCI e mais 20 dias no hospital. Dois meses depois, conseguiu ver o bebé novamente. Por isso, não economiza nos alertas: "Isso não é brincadeira. Realmente existe e também mata jovens. E lembrem-se de que também têm pais e avós."

Meses depois, ainda sem olfato nem paladar

Vários jovens que já passaram pela doença levantam a voz para pedir que as medidas de prevenção sejam seguidas. "Pela mentalidade de comunidade, devemos tentar ser cuidadosos. Mesmo que não corra o risco de fica em estado grave, pode sempre infetar o seu círculo próximo", disse ao El País Irene Martínez, 25 anos, de Majorera. A jovem das Canárias foi infetada quando trabalhava como médica no hospital de Fuenlabrada (Madrid) durante o primeiro fim de semana de confinamento, e teve de passar um mês e uma semana sem sair do quarto. Apresentou apenas sintomas leves, mas perdeu o paladar e o olfato e ainda não os recuperou totalmente: "Não consigo diferenciar os cheiros maus, não sei se é lixo, ovo podre ou esgoto."

Também Melani Correa, uma empregada de mesa de 24 anos, esteve infetada em julho, no surto de Burela (Lugo), que atingiu quase 200 pessoas. Durante os 15 dias que viveu confinada no seu apartamento, na cidade galega, não sentiu grandes incómodos, mas teve de se separar dos seus dois filhos, que ficaram a cargo da sua bisavó, primeiro, e da sua avó, depois. Antes do teste positivo, Correa procurava protegê-los "porque o trabalho de empregada de mesa, mesmo que não tire a máscara durante oito ou mais horas por dia, é muito exposto".

Guillermo, de 21 anos, foi atingido pelo vírus em março. "Pode ter sido durante um fim de semana. Antes do confinamento, saía muito à noite, mas não dá para saber", afirma. Ficou em quarentena na sua casa em Pozuelo de Alarcón (Madrid), que divide com a mãe, a irmã e um colega de quarto. "Quando dei positivo, tive aquele sentimento de culpa e responsabilidade, de saber com apanhei, se poderia infetar alguém da minha família." Quanto aos sintomas, perdeu o paladar e o olfato, mas já os recuperou. "Tive sorte que nada de grave aconteceu comigo, mas nunca se sabe." Agora tem outra atitude: "Saio muito menos do que antes, procuro usar pouco os transportes públicos, e para o escritório só vou um ou dois dias por semana, o resto trabalho à distância. Não vejo o meu avô desde fevereiro​​."

Ser infetado e ver o pai morrer

Menos sorte teve Marina Siles, uma enfermeira de 27 anos que trabalha num hospital público de Madrid. No dia 17 de março, começou com sintomas que aumentaram sempre: dores de cabeça, perda do paladar e do olfato, fortes dores musculares, falta de ar, ansiedade. "Quando fui infetada, era o pico da epidemia em Espanha. A minha única preocupação era que, se os meus pais adoecessem, não haveria lugares na UCI", recorda. Passou 22 dias confinada no seu quarto, saindo o mínimo possível. "Passei muitas horas a chorar, meditando, insegura. Senti-me muito culpada por trazer o vírus para casa", acrescenta. "Deixei de acreditar na sociedade, porque não vejo consciência nos jovens. Tenho até grupos de amigos que não usam máscara", denuncia.

Ángel Pérez, 24 anos, não esteve no hospital - foi infetado no final de março, no auge da pandemia, e passou por um período muito difícil. "Fiquei oito dias de cama, não tinha forças, tinha crises de tosse e dores muito intensas nos brônquios. No início, o meu pai não acreditou que fosse coronavírus. Mas percebi que progredia muito depressa e isolei-me no meu quarto", explica. Os pais, com quem vivia em Leganés (Madrid), também foram infetados, e o pai morreu em abril. "Culpa? Já pensei nisso, porque fui o primeiro. Mas isto é imparável, não sabemos quando foram infetados. Fiz o meu melhor e ele também. Não sei o que poderia ter feito melhor, realmente. Não saio de casa desde 12 de março." Este licenciado em Engenharia de Computação adverte as pessoas da sua idade: "Eu, com 24 anos, passei por momentos terríveis. E penso nas pessoas com problemas cardíacos, respiratórios. É ridículo que haja quem não acredite ou não use máscara."

Em muitos dos casos mais graves de jovens não havia patologia prévia. Foi o que se verificou com José Alfredo Ruiz, mexicano de 28 anos que mora em Madrid. "Não tinha doenças, não fumo nem bebo", explica. Foi infetado em 15 de março e passou dez dias muito mal em casa até ser internado. "Cheguei ao hospital sem respirar. Começaram a dar-me oxigénio e adormeci. Quando acordei, não sabia se tinha passado um dia ou algumas horas. Fazia mais de um mês", afirma. A mulher, uma americana, estava grávida de 2 meses e perdeu o bebé. "Quando acordei fiquei frustrado, porque não tinha forças para me levantar nem para andar", diz. Um mês e meio depois, teve alta do hospital. Agora alerta: "As pessoas deveriam levar isto mais a sério. A vida pode ir embora num momento."

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