São Ivo tem muito para nos ensinar

Artigo sobre São Ivo, padroeiro dos bretões, que fundaram uma igreja em Lisboa no século XV.

Não é só de agora que Lisboa atrai os estrangeiros. Em 1463, durante o reinado de Afonso V, já por aqui andavam Bretões. Portugal já está em Ceuta, os seus mercadores já começam a negociar com a África e trazem para Lisboa os produtos que farão a riqueza do país. Para os vender em Bruges, contratam-se navios estrangeiros. A independência da Bretanha, que se irá manter até 1532, dá-lhes a vantagem da neutralidade com a França e com a Inglaterra, facilitando a viagem. Os Bretões eram numerosos em Lisboa, fundando com os Franceses a igreja de São Luiz. Trouxeram com eles a figura do seu padroeiro, São Ivo.

A pequena estátua ao fundo desta lindíssima igreja, na rua das Portas de Santo Antão, testemunha tão antiga presença. Depois de Roma, onde evidentemente os Bretões lhe ergueram uma igreja em 1455, Lisboa é a mais antiga presença do Santo fora da sua Bretanha natal. Todos os anos, São Ivo é celebrado pelos Bretões de Lisboa e seus muitos amigos, no dia do aniversário da sua morte, a 19 de Maio de 1303.

Segundo Arthur de la Borderie, São Ivo é primeiramente um sábio muito letrado. Estudou durante 12 anos as letras, o direito, a teologia, nas universidades de Paris e Orleans. Na sua prática como juiz e clérigo, durante 20 anos, destaca-se na defesa dos pobres. Mas não parou também de investigar e reforçar o seu conhecimento do direito, que faz evoluir de uma forma exemplar. Leva os seus recursos até Tours e Paris, e ganha uma reputação de jurista competente em toda a França. Consagra os 13 últimos anos da sua vida a pregar. Toda a Bretanha vai ser transfigurada pelo seu ensinamento, que todos querem ouvir. Veem-se os Bretões "nobres ou plebeus, ricos ou pobres, honrar São Ivo como seu pai e, seja onde aparecer, se levantar perante ele por respeito"

São Ivo é o padroeiro dos Juristas.

Em Maio de 2003, o Papa João Paulo II, proferiu uma mensagem no VII centenário do nascimento de Santo Ivo. Dessa extensa mensagem, recorda a Ordem dos Advogados, podemos retirar que os valores propostos por Santo Ivo conservam uma actualidade surpreendente: a Europa dos direitos humanos deve fazer com que os elementos objectivos do direito natural permaneçam no fundamento das leis positivas.

O decálogo de Santo Ivo faz parte da formação de todos os juristas e não perdeu utilidade:

1. O advogado deve pedir a ajuda de Deus nas suas demandas, pois Deus é o primeiro protetor da Justiça;

2. Nenhum advogado aceitará a defesa de casos injustos, porque são perniciosos à consciência e ao decoro;

3. O advogado não deve onerar o cliente com gastos excessivos;

4. Nenhum advogado deve utilizar, no patrocínio dos casos que lhe são confiados, meios ilícitos ou injustos;

5. Deve tratar o caso de cada cliente como se fosse seu próximo;

6. Não deve poupar trabalho nem tempo para obter a vitória do caso de que se tenha encarregado;

7. Nenhum advogado deve aceitar mais causas do que o tempo disponível lhe permite;

8. O advogado deve amar a Justiça e a honradez tanto como as meninas dos olhos;

9. A demora e a negligência de um advogado causam prejuízo ao cliente e quando isso acontece deve indemnizá-lo;

10. Para fazer um boa defesa, o advogado deve ser verídico, sincero e lógico;

Santo Ivo recorda-nos que o direito foi concebido para o bem das pessoas e dos povos em geral, e que a sua função essencial consiste em salvaguardar a dignidade inalienável do indivíduo em cada uma das fases da sua existência, desde a concepção até à morte.

Nestas últimas semanas, só temos falado do Covid e da crise sanitária. A Bretanha é a região de França com menos contaminação. Os Bretões, mais de 230 anos depois da Revolução Francesa, mantém uma cultura e uma maneira de estar distinta das outras nações de França. Essa maior distância, esse respeito da privacidade do outro, une a cultura bretã com a portuguesa, feita de mar e de terra. Diz Xavier Grall "A Bretanha é uma invenção mística, poética. O meu país, invento-o". A Saudade não é bretã, mas os bretões serão, porventura, dos povos que melhor a saberiam celebrar.

São Ivo tem muito para nos ensinar. Como um avô muito, muito velho. E muito sábio. E muito justo. No mundo inteiro, constatamos a força dos "interesses" sobre a Justiça e a honradez. Apesar da literacia e do nosso sistema democrático, não é claro que os pobres terão hoje mais justiça e mais solicitude que tinham há algumas décadas. O sentimento da impunidade dos "poderosos" destrói a nossa sociedade. Este modesto Santo, que viveu em Treguier e está hoje sepultado na sua bela catedral de granito, merece continuar a inspirar-nos. Hoje, 19 de Maio, não vamos poder cantar por ele em Lisboa como todos os anos na Igreja de São Luiz, mas com muito sentimento, celebramos a sua mensagem.

Gestor francês residente em Lisboa

Mais Notícias