Retirado estudo que conclui que mulheres com endometriose são mais atrativas

Ao fim de mais de sete anos e de muitas críticas na comunidade científica, a revista médica Fertility and Sterility retirou um estudo italiano em que se apontava que as mulheres com endometriose são mais atrativas.

Um estudo que mediu a atratividade de mulheres com endometriose foi retirado da revista médica Fertility and Sterility, ao fim de sete anos e após muitas críticas dos especialistas que fizeram a revisão científica do trabalho produzido em Itália.

O estudo, que se chama "Atratividade de mulheres com endometriose retovaginal: um estudo de controlo", foi publicado pela primeira vez em 2013 e foi defendido pelos autores e pela revista nos anos seguintes, apesar das fortes críticas de médicos, outros investigadores e pessoas com endometriose por motivos éticos e pela suas conclusões ambiguas, tendo mesmo sido classificado como "nojento".

Nas suas conclusões, o estudo indicava que mulheres com endometriose eram vistas como mais atraentes do que as restantes dos grupos analisados: "Têm silhueta mais delineada, seios maiores e a coitarca [primeira relação sexual] ocorre geralmente mais cedo."

A endometriose retovaginal é uma forma grave da doença, na qual o tecido semelhante ao revestimento do útero - chamado endométrio - cresce fora do útero, muitas vezes ligado a outros órgãos e causando dor, cicatrizes e, às vezes, infertilidade. Uma em cada 10 mulheres com um útero em idade reprodutiva tem a doença.

Segundo relata o jornal The Guardian, as mulheres que participaram do estudo não deram consentimento para serem avaliadas pela sua atratividade e não sabiam que isso ia fazer parte das consultas médicas. O estudo recebeu aprovação ética e foi financiado pela Faculdade de Medicina da Universidade de Milão. Os autores perguntaram às mulheres sobre a sua história sexual e mediram o índice de massa corporal, a relação cintura-quadril e a relação peito-barriga. Apenas mulheres caucasianas foram selecionadas para inclusão no estudo.

Em sua defesa, os autores alegaram que saber se certos fenótipos - ou características corporais - eram mais suscetíveis à endometriose grave seria útil. O investigador principal Paolo Vercellini, obstetra e ginecologista da Universita degli Studi em Milão e ex-presidente da Sociedade Mundial de Endometriose, justificou que "vários investigadores acreditam que existe um fenótipo geral associado à doença".

Sete anos depois, e com muitas críticas pelo meio, o estudo é retirado a pedido dos autores, anunciou a revista. "Realizamos o estudo de boa-fé e de acordo com a metodologia correta. Acreditamos que as nossas descobertas foram parcialmente mal interpretadas, mas ao mesmo tempo percebemos que o artigo pode ter causado sofrimento a algumas pessoas. O respeito das mulheres é uma prioridade para nós, e lamentamos profundamente o descontentamento que a publicação originou ", afirmam os autores, numa carta difundida pela Fertility and Sterility.

Sylvia Freedman, co-fundadora do grupo de defesa de doentes EndoActive, disse ao jornal britânico estar satisfeita por o estudo ter sido finalmente retirado. "Quando li o estudo pela primeira vez e vi que era de Vercellini, pensei estar a ler mal, pois é um especialista em endometriose poderoso e respeitado. Mas parece que tempo, dinheiro e energia foram desperdiçados num estudo que tenta estabelecer uma conexão entre endometriose retovaginal e a aparência de uma mulher, da perspetiva de outras pessoas. É nojento."

Jennifer Gunter, ginecologista norte-americana, comentou que a revista Fertility and Sterility "deveria envergonhar-se da publicação", já que "objetificar mulheres não tem lugar na medicina", e disse não compreender como demoraram mais de sete anos para retirar o estudo.

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