Papa lança aviso contra políticos que promovem discurso do medo

Francisco critica "discursos políticos que tendem a acusar os migrantes de todos os males e a privar os pobres da esperança". Mensagem para o Dia da Paz foi divulgada pelo Vaticano

O Papa Francisco lançou um sério aviso contra os políticos que promovem o discurso do medo. Na mensagem para o Dia Mundial da Paz, que se celebra a 1 de janeiro e foi revelada esta terça-feira, é claríssimo na rejeição do ódio contra imigrantes, que muitos políticos replicam pelo mundo fora, de Donald Trump nos EUA a Viktor Orbán na Hungria, sem fundamento.

Recordando os 100 anos da I Guerra Mundial e "a terrível lição das guerras fratricidas", notando "que a paz não pode jamais reduzir-se ao mero equilíbrio das forças e do medo", Francisco apontou o dedo de forma clara: "Não são sustentáveis os discursos políticos que tendem a acusar os migrantes de todos os males e a privar os pobres da esperança."

Imediatamente antes, o bispo de Roma tinha afirmado que "manter o outro sob ameaça significa reduzi-lo ao estado de objeto e negar a sua dignidade". E é por isso que reitera "que a escalada em termos de intimidação, bem como a proliferação descontrolada das armas são contrárias à moral e à busca duma verdadeira concórdia". Para concluir: "O terror exercido sobre as pessoas mais vulneráveis contribui para o exílio de populações inteiras à procura de uma terra de paz."

"O terror exercido sobre as pessoas mais vulneráveis contribui para o exílio de populações inteiras à procura de uma terra de paz."

Como proposta contrária, defende o Papa, "deve-se reafirmar que a paz se baseia no respeito por toda a pessoa, independentemente da sua história, no respeito pelo direito e o bem comum, pela criação que nos foi confiada e pela riqueza moral transmitida pelas gerações passadas".

Na mensagem, intitulada "A boa política está ao serviço da paz", o Papa Francisco argumenta que "a política é um meio fundamental para construir a cidadania e as obras do homem, mas, quando aqueles que a exercem não a vivem como serviço à coletividade humana, pode tornar-se instrumento de opressão, marginalização e até destruição".

As crianças são também elas recordadas por Francisco. "O nosso pensamento detém-se, ainda e de modo particular, nas crianças que vivem nas zonas atuais de conflito e em todos aqueles que se esforçam por que a sua vida e os seus direitos sejam protegidos. No mundo, uma em cada seis crianças sofre com a violência da guerra ou pelas suas consequências, quando não é requisitada para se tornar, ela própria, soldado ou refém dos grupos armados", aponta.

"No mundo, uma em cada seis crianças sofre com a violência da guerra ou pelas suas consequências, quando não é requisitada para se tornar, ela própria, soldado ou refém dos grupos armados"

Para além de este enunciado contra o discurso populista e extremista que tem feito caminho, sobretudo na Europa, em que o Papa diz um rotundo "Não à guerra nem à estratégia do medo", Francisco apresenta uma proposta de bem-aventuranças para os políticos, recuperando um texto do cardeal vietnamita Francisco Xavier Nguyen Van Thuan, que morreu em 2002:

"Bem-aventurado o político que tem uma alta noção e uma profunda consciência do seu papel.
Bem-aventurado o político de cuja pessoa irradia a credibilidade.
Bem-aventurado o político que trabalha para o bem comum e não para os próprios interesses.
Bem-aventurado o político que permanece fielmente coerente.
Bem-aventurado o político que realiza a unidade.
Bem-aventurado o político que está comprometido na realização duma mudança radical.
Bem-aventurado o político que sabe escutar.
Bem-aventurado o político que não tem medo."

Segundo Francisco, "a par das virtudes, não faltam infelizmente os vícios, mesmo na política, devidos quer à inépcia pessoal quer às distorções no meio ambiente e nas instituições". São estes vícios da vida política que "tiram credibilidade aos sistemas dentro dos quais ela se realiza, bem como à autoridade, às decisões e à ação das pessoas que se lhe dedicam" e acabam por enfraquecer - o verbo é do Papa - "o ideal duma vida democrática autêntica" e "são a vergonha da vida pública e colocam em perigo a paz social".

Para Francisco, estes vícios têm nome: "A corrupção - nas suas múltiplas formas de apropriação indevida dos bens públicos ou de instrumentalização das pessoas -, a negação do direito, a falta de respeito pelas regras comunitárias, o enriquecimento ilegal, a justificação do poder pela força ou com o pretexto arbitrário da «razão de Estado», a tendência a perpetuar-se no poder, a xenofobia e o racismo, a recusa a cuidar da Terra, a exploração ilimitada dos recursos naturais em razão do lucro imediato, o desprezo daqueles que foram forçados ao exílio."

Há muito político que, pelo mundo fora, só pode ficar com as orelhas a arder.

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