O que sabe sobre gatos? A "encantadora" Vicky Halls conta-lhe tudo

Chamam-lhe "encantadora de gatos", mas é uma das melhores especialistas em comportamento felino. A britânica vai estar amanhã, pelas 10.00, no CCB, em Lisboa, para explicar o que vai descobrindo sobre os seus animais preferidos.

Vicky Halls tinha uma grande paixão: carros. E muito jovem começou uma carreira como vendedora, mas, a certa altura, teve de ceder "aos encantos" dos gatos. Um dia descobriu que, afinal, pouco ou nada sabia sobre esta espécie, que define como "caçadora solitária".

Quanto mais procurava saber, mais percebia que "afinal, nada sabia". O que a entusiasmou e encaminhou para uma nova vida. "Quanto mais informação adquiria, mais animada ficava", respondeu ao DN numa entrevista realizada por e-mail, dias antes de chegar a Portugal. "E acabei como especialista em comportamento felino - ou, como carinhosamente a definem, 'encantadora de gatos' - sem realmente ter tido um plano definido ou um plano de mestre para que tal acontecesse. Só queria fazer o que me fosse possível para melhorar a vida dos gatos."

A britânica vai estar amanhã, no CCB, para dar uma palestra sobre a vida dos gatos e dicas para os donos. É a segunda vez que vem a Portugal e diz que o seu grande desafio de agora "é o cuidar de gatos sem dono, tentando dar-lhes o melhor possível para que se possam tornar animais de estimação, mas sem lar".

Mas não esquece os que são verdadeiramente de estimação e que têm casas. "Quando se trata destes, tento entusiasmar os donos a descobrirem o máximo possível sobre os animais que têm para lhes darem vidas felizes e confortáveis." Porque, diz, não há dois gatos iguais e "não passo um dia que não descubra algo de novo sobre eles..."

É a segunda vez que está em Portugal para falar sobre gatos, quais são os segredos de um gato que precisam de ser desvendados?

A beleza de um gato está "nos olhos de quem o vê"! Eu acho que a beleza de um gato é inquestionável e o que o torna tão adorável é a sua incrível capacidade de fazer que façamos coisas inacreditáveis por eles e com eles sem que nos sintamos culpados por isso - o que demonstra uma grande inteligência da parte deles. O gato é um animal muito misterioso. Podemos viver com eles durante toda a vida e, no entanto, nunca os conhecer verdadeiramente. São uma espécie independente, que não evoluiu como espécie social, e, por isso, não são muito expressivos. Por vezes, é até muito difícil saber o que realmente estão a sentir. Mas essa tem sido a minha missão. Descobrir o máximo possível sobre eles, e ao fim destes anos todos tenho a noção de que ainda há muita coisa para saber.

Diz que não há dois gatos iguais, cada um tem a sua personalidade?

Sim! Neste aspeto os gatos são muito parecidos com as pessoas - conhece duas pessoas exatamente iguais? Eu não. Os gatos desenvolvem a sua personalidade através da genética, ambiente precoce e experiências de vida. É claro que se pode encontrar e perceber vários tipos e até tendências de comportamento em alguns gatos, mas, honestamente, acredito que não há dois iguais.

O que define um gato? A raça e as suas características ou o meio ambiente?

A raça de um gato, se é de pedigree, pode dar-lhe certas características comportamentais, mas não é isso que o define. Por exemplo, um siamês pode ser muito vocal, mas não acontece sempre, pois é o seu temperamento e o ambiente em que está que dita o seu comportamento nas diferentes situações. Conheci muitas pessoas que dizem que o seu gato tinha características e comportamentos particulares, mas se os colocarmos num ambiente diferente e com donos diferentes o gato pode ser diferente também. Se, nós, pessoas, podemos ter comportamentos diferentes dependentes do ambiente em que estamos e com quem estamos, os gatos também podem... Portanto, em vez da raça é mais importante ter em conta as características e o seu temperamento. Os gatos precisam de ser criados em casas de pessoas e de famílias felizes, educados e treinados com uma atitude positiva. Ou seja, precisam de donos amigáveis, livres de stress.

Quando se escolhe um gato deve-se então ter em conta a raça, mas também o meio ambiente para onde vai?

Em grande medida sim, um gato nascido na rua, e que vive junto de outros gatos, pode ter dificuldade em se adaptar à vida de animal de estimação. Um gato que é criado a partir de dois gatos de estimação, que vivem num ambiente feliz, tem sempre mais hipóteses de se tornar também num gato de estimação, amigo e descontraído, criando ele próprio um ambiente confortável. Não é garantido, mas ajuda muito termos esta perspetiva quando se escolhe um animal.

Mas existe alguma raça específica de gatos para se ter num apartamento?

Não há propriamente uma raça. Será mais fácil se se conseguir encontrar um gato que seja filhote de gatos que já vivam felizes dentro de uma casa. Mas há sempre um trabalho árduo a fazer por parte do dono, que o deve ensinar a comportar-se naturalmente, permitindo que inicie o seu contacto com o meio ambiente e dando-lhe a oportunidade de explorar esse mesmo espaço.

Os gatos podem ser animais agressivos?

O ser agressivo é uma consequência de um estado emocional, não uma característica do seu temperamento ou personalidade do gato. Se um gato está assustado ou receoso no meio onde está, não encontrando alternativas para se defender ou fugir, pode reagir agressivamente contra as pessoas, ou contra qualquer outra coisa que o esteja a assustar. Mas isto é uma consequência da situação, não é que ele seja assim.

Defende que os gatos são animais solitários, porquê?

Os gatos evoluíram de uma espécie solitária e têm muitos traços que mostram que são capazes de viver sozinhos e independentes, embora haja muitas condições que precisam de estar asseguradas para que possam viver bem dessa forma, como terem alimentação, água, etc. Mas há gatos que conseguem viver socialmente, apesar de ainda haver um debate grande sobre se os gatos estão a evoluir rapidamente para uma espécie de animais mais sociável ou se estão só a desenvolver uma tolerância à proximidade de outros gatos. Alguns são genuinamente sociáveis e reagem bem aos outros, mas não é um dado adquirido que se relacionem uns com os outros. Eles são uma espécie de "caçadores solitários".

Também há gatos depressivos?

Mais uma vez, a depressão ou comportamentos depressivos não são um traço ou uma característica da sua personalidade, mas a consequência de uma situação stressante à qual não consegue escapar. E, nesse sentido, sim, os gatos podem ficar deprimidos.

Os gatos sentem o que o dono sente?

Se os donos sentem uma emoção muito forte de qualquer tipo e a demonstram, isso pode refletir-se no comportamento do gato, porque o dono mostrou-se imprevisível para ele. Se eles pudessem falar, eu diria que fariam a seguinte pergunta: "Estou seguro?" E ao invés de sentirem a mesma emoção do que o dono, podem ficar assustados, preocupados e reagir de forma inesperada.

Por vezes, diz-se que os animais têm síndrome de abandono. Existem estudos científicos que provem isso? O que sente ou que comportamento pode ter um gato abandonado?

Tony Buffington, um investigador que trabalha com gatos a quem já foi diagnosticada cistite, uma infeção bacteriana na bexiga ou no trato urinário inferior, devido aostress, sugeriu que, se um gato for abandonado no início da sua vida, isso pode afetá-lo e mudar a forma como os seus genes se desenvolvem, podendo ter um impacto profundo a nível longo prazo. O certo é que os gatos também lidam com os desafios da vida. Portanto, há aqui duas situações diferentes: se nos estamos a referir à chamada "ansiedade de separação" sentida pelo gato ou se estamos a falar de síndrome de abandono. Por exemplo, há gatos que foram seletivamente criados para serem altamente sociais e que podem desenvolver a faceta de precisar mais do dono do que querer o dono ao pé de si. É uma necessidade, como consequência do treino que lhe foi dado. Se for abandonado, pode ficar em pânico ou reagir com frustração ao facto de a situação não ser a que gostaria. Ou seja, será ansiedade ou frustração? É uma questão que ainda precisa de ser mais analisada para se entender completamente.

Há pessoas que têm dois, três e até mais gatos. É benéfico ou prejudicial ter tantos gatos, especialmente quando estão em espaços pequenos?

De um modo geral não é ideal, mas todas as situações são diferentes. Depende do temperamento dos gatos que estão nesse espaço e das condições que estão ao seu dispor. Se, por exemplo, as condições lhe permitem ter uma área só para ele, de forma a afastar-se dos outros quando quer ou precisa. Não há uma resposta fácil para se saber como o gato reage quando pensa: "Estou com medo."

Quando se quer um gato e se é alérgico há algo que se possa fazer?

Existem alguns gatos que são definidos como "hipoalergénicos", mas não foi provado que tal é mesmo assim. Se a pessoa vive num ambiente em que lhe permite ter o gato ao ar livre, pode ser uma solução para ter um animal destes. Ou seja, ter a hipótese de cuidar de um gato no exterior e sem estar muito exposto a ele ou no mesmo espaço. Porém, é preciso ter algum cuidado e aconselho sempre que as pessoas falem com os seus médicos.

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