"Nenhum dos barcos abandonou a frota". Sagres poderá retomar circum-navegação em 2021

A pandemia obrigou a alterar planos das comemorações dos 500 anos da circum-navegação de Fernão de Magalhães, nomeadamente o cancelar da viagem do navio-escola Sagres que poderá ser retomada já em 2021, mas inúmeras iniciativas avançaram e outras estão a ser reprogramadas.

A viagem à volta do mundo do navio-escola Sagres, iniciada em janeiro no âmbito das comemorações do V Centenário da Circum-Navegação do navegador português Fernão de Magalhães e cancelada em março por causa da pandemia, poderá ser retomada já em 2021, disse o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva. Logo que a situação epidemiológica o permita.

A verba para tal (no limite máximo de 5,5 milhões de euros) já está prevista na proposta de Orçamento de Estado, atualmente em discussão, referiu Santos Silva, numa conferência de imprensa de balanço do primeiro ano das comemorações e de antecipação das iniciativas do próximo ano.

A conferência surge no dia em que se assinala, no Chile, os 500 anos da descoberta por Magalhães do estreito (que viria a ser batizado com o seu nome). A cerimónia conta com a presença do presidente chileno, Sebastián Piñera, e no local está também o navio-escola espanhol, o Juan Sebastián Elcano, nome do navegador basco que, após a morte do português nas Filipinas, concluiu em 1522 a viagem de circum-navegação.

"A viagem de circum-navegação da Sagres foi pensada e idealizada desde o início com este duplo objetivo: recriar a viagem, mas recriar a viagem tornando a travessia que a Sagres faz, uma ocasião para desenvolver atividades culturais, diplomáticas, científicas, académicas, educativas, em torno da viagem de Magalhães e daquilo que ela representou. Ter um navio ao largo, sem poder aportar, não nos pareceu ser condição bastante", referiu Santos Silva, questionado sobre a presença do navio-escola espanhol e não do português.

Projetos

"A viagem [do Sagres] foi suspensa e isso comprometeu todo um conjunto de iniciativas previstas", lembrou o presidente da Estrutura de Missão para as Comemorações da Circum-navegação, José Marques, explicando contudo que está em curso um processo de reprogramação.

"Como aconteceu com Magalhães, que também teve que parar aqui e ali, encontrar refúgio antes de continuar a viagem, isto também tem sido feito", referiu o ministro do Mar, Ricardo Serrão Santos, responsável dentro do governo pelas comemorações. "Nenhum dos barcos abandonou a frota. O programa está a realizar-se, está rico, está a envolver a sociedade, está a envolver a cooperação internacional", acrescentou.

Dos cinco navios que partiram de Sanlucar de Barrameda, na Andaluzia, a 20 de setembro de 1519, numa viagem às ordens do rei espanhol Carlos V, só um navio, o Vitoria, chegou ao destino. Dos mais de 200 homens que partiram, só 18 sobreviveram e regressaram a Espanha a 6 de setembro de 1522.

Rica

rdo Serrão Santos lembrou que "este felizmente é um projeto que comemora uma visão, um percurso e uma exploração que demorou três anos. Não está focado na partida, não está focado no evento único e fantástico que hoje se assinala, que é a passagem do estreito das Onze Mil Virgens, como Fernão de Magalhães lhe chamou, não está focado na chegada. Está de facto focado no percurso de exploração" que foi "o início da globalização".

Segundo o ministro, "o facto de as comemorações terem sido pensadas para durar três anos está a dar-nos a oportunidade de adaptar as comemorações às circunstâncias do impacto inesperado do covid-19, que ao contrário da viagem de Magalhães, deu a volta ao mundo em muito pouco tempo".

Entre os projetos que avançam está a edição e lançamento de uma publicação académica sobre os roteiros e relatos das travessias do estreito de Magalhãs no século seguinte à sua descoberta, intitulado "Atravessando a Porta do Pacífico". "Demorou um século para os navegadores de diferentes países poderem aprender a navegar com segurança no estreito", indicou o ministro Augusto Santos Silva. Também haverá uma edição especial do "Diário de Antonio Pigafetta", o cronista italiano que viajou com Magalhães e Elcano, numa tradução e análise crítica e interpretativa do seu trabalho.

A aposta é também ao nível dos mais jovens, com diferentes projetos com escolas (não só em Portugal, mas também no estrangeiro), tendo já sido lançado um livro de banda-desenhada, intitulado "A Viagem mais Longa".

A grande exposição sobre Fernão de Magalhães abrirá em maio, no Museu Soares dos Reis, servindo de base à parte portuguesa da exposição itinerante que Portugal e Espanha decidiram fazer. E a RTP exibirá a 2 de novembro um documentário sobre a viagem, coproduzido pela televisão pública portuguesa e a espanhola.

Entretanto, o processo de candidatura conjunta entre Portugal e Espanha da Rota de Magalhães a património da Unesco está também em fase de estudo.

Oito projetos de investigação

Esta quarta-feira, são apresentados os oito projetos que ganharam o concurso financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, num valor total 2,3 milhões de euros (300 mil euros para casa), nas áreas de observação da Terra, clima, mobilidade e biodiversidade.

As propostas de trabalho selecionadas propõem-se, por exemplo, aplicar a inteligência artificial à previsão de ondas (Instituto Superior Técnico), "desenvolver a próxima geração de sensores geoquímicos para a monitorização em tempo real do movimento do magma em profundidade" (Fundação Gaspar Frutuoso) e explorar dados da expedição de circum-navegação antártica para "um melhor conhecimento de nuvens e precipitação" (Universidade de Aveiro), segundo informação facultada à Lusa pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e do Ensino Superior, que tutela a FCT.

Outros projetos incidem sobre a monitorização e gestão de recursos pesqueiros ao longo da rota Atlântica de Magalhães-Elcano (Universidade do Minho), as toxinas de serpentes da Amazónia (Requimte - Rede de Química e Tecnologia), aditivos de base nanotecnológica para revestimentos anticorrosivos marítimos (Universidade de Aveiro), a gestão da polinização e agricultura sustentável (Ciimar - Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental) e genética, história e cultura humanas no espaço da circum-navegação (Ipatimup - Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto).

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