"Não é a velhice que está a ficar mais longa, é a meia-idade. E pode ir até aos 80 anos"

A adolescência pode ir até aos 25 anos, a meia-idade até aos 80 e a velhice sabe-se lá aonde chegará, com os avanços da ciência. Certo é que a esperança de vida está a aumentar e há que perceber como viver num mundo em envelhecimento. A jornalista e política britânica Camilla Cavendish responde a esta e outras questões no livro Tempo Extra - 10 lições para um mundo em envelhecimento (Ed. Vogais). E nós entrevistámo-la.

Vivemos mais tempo e a grande questão é como viver melhor esse "tempo extra". O assunto é caro a Camilla Cavendish, jornalista premiada que foi conselheira do ex-primeiro ministro britânico David Cameron para a área da saúde e da assistência social, é investigadora em demografia na Harvard Kennedy School e foi recentemente chamada por Boris Johnson como consultora para o Departamento de Saúde.

Pelo meio, fez uma investigação exaustiva sobre envelhecimento, durante a qual entrevistou cientistas, especialistas, académicos, responsáveis políticos, e viajou, entre outros países, até ao Japão, onde chegar aos cem anos já não é uma proeza e o envelhecimento tem que se lhe diga. O resultado foi Tempo Extra - 10 lições para um mundo em envelhecimento, recentemente lançado em Portugal pela Vogais.

Tempo Extra - 10 lições para um mundo em envelhecimento é o título do seu livro. Qual é a lição mais importante?
A lição mais importante que quero que os leitores levem deste livro é que a idade deixou de ser a característica definidora que imaginamos. Somos obcecados pela idade - todas as entrevistas a celebridades falam da idade - mas, na verdade, a nossa idade cronológica - o número de anos que vivemos - tem cada vez menos relação com nossa idade biológica - quão saudáveis e enérgicos somos. Não é a velhice que está a ficar mais longa, é a meia-idade. E precisamos ser muito, muito mais ambiciosos sobre o que isso significa nas nossas vidas.

O Japão, em 2013, vendeu mais fraldas para idosos do que para bebés. Esta é uma imagem forte, que usa no seu livro, para tornar evidente o desequilíbrio demográfico que afeta grande parte do mundo. O que pode ser feito - além de bebés - para recuperar algum equilíbrio ou qual a melhor forma de lidar com esta realidade?
O Japão está num dilema: a sua população está, na verdade, a diminuir. Tendo entrevistado mulheres japonesas, não creio que queiram ter mais filhos. Muitas delas sentem-se libertadas por, pela primeira vez, poderem ter uma carreira. Muitas não querem mesmo casar-se, e muito menos querem ter uma sogra a dar-lhes ordens! O Japão também é hostil à imigração, portanto não resolverá o problema por aí. Em vez disso, o país está a fazer elevados investimentos em tecnologia - incluindo robôs cuidadores e veículos sem motorista - para substituir os humanos. E, encaremos a realidade, populações mais pequenas são muito melhores para o planeta.

É realmente estranho que nos irritemos tanto com os mais velhos quando todos envelhecemos, todos os dias. Não temos estômago para ver o nosso futuro eu. Mas se olharmos para a nova realidade, não precisamos de assustar-nos assim tanto.

No seu livro, propõe uma "revisão" das fases da vida humana. Acha que a idade é subjetiva? Os 80 são os novos quê?
Para muitos de nós, os 80 são os novos 60. Vemos todo um novo grupo de pessoas enérgicas, capazes e saudáveis com 80 anos ou mais. A adolescência dura até aos 25, que é a média de idades atual com que se sai de casa dos pais nos países ocidentais. A meia-idade para muitas pessoas dura até aos 80. A velhice só começa depois, para muitos.

O idadismo é o próximo preconceito a combater e abolir? O politicamente correto tem falhado às pessoas mais velhas? E não é estranho que assim seja, uma vez que toda a gente, se tudo correr bem, vai ser velho?
Esta é uma ótima pergunta. É realmente estranho que nos irritemos tanto com os mais velhos quando todos envelhecemos, todos os dias. Não temos estômago para ver o nosso futuro eu. Mas se olharmos para a nova realidade, não precisamos de assustar-nos assim tanto. A nova realidade é que muitas pessoas na meia-idade estão a começar negócios de sucesso ou a reinventar-se; os avós estão a ir buscar os netos à escola e a manter a família unida; até o aparecimento de demências está a acontecer cada vez mais tarde. O idadismo vem do medo, mas hoje há menos o que temer.

Estudos atrás de estudos mostram que ter uma vida com objetivos e significado é a melhor maneira de se manter saudável. Todos precisamos de nos sentir úteis, de sentir que precisam de nós.

Abolir ou adiar a idade da reforma é uma das suas propostas para um envelhecimento saudável. Acha que as pessoas querem passar o seu "tempo extra" a trabalhar? Não devia ser opcional?
Cerca de uma em cada quatro pessoas nos Estados Unidos e no Reino Unido está agora a "desreformar-se" e a voltar ao trabalho, por vezes dez anos depois de estar oficialmente reformada. Algumas estão a fazê-lo por razões financeiras, outras porque sentem falta da camaradagem e das rotinas de um local de trabalho. Para muita gente, especialmente aqueles que têm mais habilitações académicas, uma profissão é fundamental para o seu sentido de identidade e bem-estar e faz sentido para eles trabalhar mais tempo porque vão viver mais tempo. Contudo, é verdade que não estamos todos a viver mais tempo de forma igual. Para os menos afortunados, trabalhar mais anos pode significar prolongar um trabalho stressante, pouco gratificante e que exige esforço físico para os quais já não se sentem capazes. Falando genericamente, as pessoas mais mal pagas e menos qualificadas nas nossas sociedades serão as que têm uma esperança de vida menor e com menos saúde, por isso temos de ter cuidado para não forçar todos a voltar ao trabalho se isso significar que alguns quase não terão tempo de reforma.

A forma como encaramos o envelhecimento tem influência na nossa saúde e na forma como envelhecemos? Qual é a melhor maneira de não nos sentirmos velhos cedo de mais?
Estudos atrás de estudos mostram que ter uma vida com objetivos e significado é a melhor maneira de se manter saudável. Todos precisamos de nos sentir úteis, de sentir que precisam de nós. Quero pôr esta enorme reserva de antigos talentos a trabalhar na resolução de problemas sociais.

O exercício é uma cura milagrosa e não significa correr maratonas. Basta subir mais escadas ou fazer caminhadas, deixar o carro estacionado e ir às compras a pé.

"Se o exercício e uma dieta saudável fossem um comprimido toda a gente o tomava", diz no seu livro. Todos sabemos o que é preciso para ter uma vida e um envelhecimento saudáveis. Porque é que é tão difícil pôr em prática o que sabemos?
Muita gente tenta comer melhor, mas poucos têm noção da enorme diferença que faria se se tornassem mais ativos. O exercício é uma cura milagrosa e não significa correr maratonas. Basta subir mais escadas ou fazer caminhadas, deixar o carro estacionado e ir às compras a pé. Focar-se apenas na dieta torna muito fácil descambar quando se está cansado ou stressado - eu tenho o péssimo hábito de ficar desesperada por chocolate quando me dá a neura das quatro da tarde. A questão é que tem de fazer as duas coisas, se se tornar mais ativo abre um círculo virtuoso em que se sente mentalmente melhor e mais resiliente para resistir às tentações de descambar.

Encara o envelhecimento como uma doença que pode ser tratada. Os humanos não têm um "prazo de validade"?
Temos um prazo de validade, explico a ciência em torno disso no livro - embora alguns multimilionários de Silicon Valley estejam a tentar a "velocidade de escape" à morte. Mas sinto mesmo que precisamos de substituir o antigo modelo médico - em que tratamos cada órgão isoladamente - por novos tratamentos que podem ajudar a regenerar o ADN e a adiar o envelhecimento no corpo todo.

Aprender uma língua ou a tocar um novo instrumento musical são comprovadamente formas de melhorar a capacidade cognitiva nos mais velhos e de prevenir a degeneração cerebral.

O que tem a ciência a oferecer de revolucionário em termos de soluções antienvelhecimento?
Dedico um capítulo inteiro do meu livro a este assunto, com base em entrevistas a biólogos, geneticistas e cientistas que estão a ser pioneiros numa série de novos tratamentos antienvelhecimento baseados em descobertas genéticas. A investigação está a desenvolver-se a um ritmo acelerado e estamos a começar a ver os primeiros ensaios em humanos. Acredito que estes novos tratamentos serão tão importantes no século XXI como foram os antibióticos no século XX.

"Burro velho aprende línguas". Porque é que isto é tão importante?
Pensávamos que os nossos cérebros não se desenvolviam depois da idade adulta e que a partir daí as nossas células cerebrais começavam a diminuir, mas as neurociências estão a provar que isso não é assim. Na verdade, o nosso cérebro continua a desenvolver-se ao longo da vida. Por isso é que algumas pessoas recuperam de acidentes vasculares cerebrais ou aprendem novas línguas aos 70 anos. Não vamos aperfeiçoar o sotaque aos 70, porque essa janela fecha-se na infância - e pode levar mais tempo a dominar a língua do que se a aprendesse em criança -, mas é possível. Mais, aprender uma língua ou aprender a tocar um novo instrumento musical são comprovadamente formas de melhorar a capacidade cognitiva nos mais velhos e de prevenir a degeneração cerebral. Receio que o mesmo não seja verdade para as palavras cruzadas, mas a mensagem é que temos de continuar a desafiar os nossos cérebros depois dos 50 porque estes estão de facto sedentos de aprender novos truques - e conseguem fazê-lo.

A depressão e a ansiedade são dois fortes inimigos da longevidade e de um envelhecimento saudável. Num mundo como o atual, em que estas duas doenças são quase uma epidemia, como é que podemos combater isso e promover uma melhor saúde mental entre os mais velhos?
O meu pai sofreu de depressão nos seus últimos anos de vida e eu não fui capaz de o ajudar. Escrevi este livro depois de ele morrer e é-lhe dedicado porque, apesar de ter sido incrivelmente saudável fisicamente quase até ao seu último dia na terra, não usufruiu bem o seu "tempo extra". É muitas vezes dito aos mais velhos que a depressão e a ansiedade são uma parte natural de envelhecer, mas isso não é verdade. A depressão pode afetar a memória e a função cognitiva, o que é incorretamente confundido com demência. A neurociência está a começar a encontrar saídas alternativas, incluindo mindfulness e TCC [terapia cognitiva comportamental], mas têm de ser oferecidas a pessoas de todas as idades com igual ambição.

Um dos estudos que estão a decorrer há mais tempo no mundo demonstrou que pessoas com relações fortes e significativas são mais felizes, vivem mais tempo e são fisicamente mais saudáveis do que as que se sentem isoladas.

A solidão é outra epidemia que afeta os mais velhos. É um obstáculo a um envelhecimento saudável?
Há uma estatística que diz que a solidão é tão má para os seres humanos como fumar 15 cigarros por dia. Quando soube disso, pensei que não podia ser verdade, mas desde então li muita investigação sobre o assunto e é verdade. É por isso que temos mesmo de pensar com muito cuidado no isolamento e no confinamento dos mais velhos devido à pandemia de covid-19. A solidão é cada vez mais sentida em todas as faixas etárias e é nociva para a saúde porque os seres humanos florescem, desenvolvem-se, vingam, graças às relações sociais. Um dos estudos que estão a decorrer há mais tempo no mundo - o Harvard Study of Adult Development - demonstrou que pessoas com relações fortes e significativas são mais felizes, vivem mais tempo e são fisicamente mais saudáveis do que as que se sentem isoladas. A chave não é o número de amigos que temos, mas o sentimento de que há alguém em quem podemos confiar e com quem podemos contar. Vale a pena pensar nisto nesta época em que estamos todos tão ocupados e nem sempre temos tempo para os nossos amigos.

O co-housing como solução para combater a solidão e substituir os lares é uma ideia maravilhosa, mas é possível desenvolvê-la em larga escala e para todos?
Sim, penso que é. Há 300 comunidades desse tipo na Holanda, mais na Dinamarca e nos Estados Unidos. O Reino Unido, onde vivo, é particularmente mau na construção de soluções como o co-housing ou as residências protegidas. Os Estados Unidos, a Austrália e a Nova Zelândia estão mais avançados neste aspeto, e, em parte, isso tem que ver com as nossas leis de planeamento.

As soluções que existem desse tipo são, na sua maioria, acessíveis apenas aos mais ricos. A pobreza é obviamente um obstáculo a um envelhecimento saudável, fala disso no seu livro. Os pobres têm menos tempo extra e pior tempo extra?
A pobreza é um fator de risco maior para as desigualdades na saúde. Se for ao nordeste de Inglaterra, uma região relativamente pobre, encontrará pessoas que em média têm menos oito anos de vida saudável pela frente do que as do sudoeste. Combater isto é uma missão de longo prazo, mas implica melhorar a proteção laboral, garantir melhor educação e resolver os problemas da habitação.

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