Lágrimas e muitas fotos na despedida das tartarugas Quibi e Querubim

As tartarugas Quibi e Querubim regressaram a casa, ao oceano Atlântico. Houve lágrimas, muitas fotos, como em qualquer boa despedida.

Lágrimas e muitas fotos marcaram a despedida da tartaruga Quibi, que esta manhã o Zoomarine e a Marinha Portuguesa devolveram ao mar, a partir de Portimão. Tanta emoção que nem Tiago, o mais novo da família Ramos, que a acolheu durante umas horas na banheira de casa, sabe explicar. Apenas diz: "Cresceu tanto".

O pai, José Ramos, é biólogo e técnico da Câmara Municipal de Loulé, que tem feito um trabalho de sensibilização junto dos pescadores para a recuperação e reabilitação de animais marinhos. Pede-se-lhes que avisem as autoridades quando virem algum um animal marinho a dar à costa ou em perigo. O destino é então o Porto de Abrigo do Zoomarine, em Albufeira, o único hospital para estes animais em Portugal. Foi o que aconteceu com a Quibi, um nome escolhido pelo Tiago, de 12 anos. A condição para a "batizarem" era que começasse pela letra Q, a de 2019, ano em que foi encontrada. O rapaz juntou-lhe Bi, em homenagem à irmã Beatriz, a quem tratam por Bi. Aos 20 anos, Beatriz é a irmã do meio desta família de três filhos e também fez questão de se despedir da tartaruga, às 08:00, no Zoomarine. Ela, o pai e o irmão.

A Quibi tem um chip, para que se possa saber a sua história se algum dia voltar à costa, o que não é desejável. O ideal é que estes animais possam regressar ao habitat natural e por aí permaneçam até aos 70 ou mais anos, a esperança de vida destes animais.

"Há duas opções quando um animal sobrevive: não pode ser devolvido ao mar porque ficou paralisado, cego, etc, e vai para outro centro, processo que é da responsabilidade do Instituto da Conservação da Natureza (INC), ou é devolvido ao mar. O Zoomarine nunca fica com estes animais. Esta decisão, além de proteger os animas, é para que as pessoas tenham a noção de que nunca nos estão a fazer uma oferta", explica Élio Vicente, biólogo marinho e diretor do Porto d'Abrigo, Centro de Reabilitação de Espécies Marinhas, criado em 2002. O técnico trabalha com a empresa proprietária do parque desde ainda antes de o Zoomarine abrir ao público, a 3 de agosto de 1991.

Espécie rara

A Quibi é uma tartaruga-verde. Ficou presa numa rede de pescadores, a duas milhas (3,5 km) de Quarteira, no dia 13 de setembro de 2019. Pesava 5,8 Kg e media 33,3 cm. "Deu entrada com suspeita de pneumonia por aspiração, visto ter estado numa rede de emalhar por tempo indeterminado e ter passado um ou dois dias no porão de um navio. À entrada, mostrou sinais nítidos de exaustão", descreve o relatório médico.

Meses depois, estava completamente recuperada, com mais 1,3 kg e 1,2 cm.

Eram 11:24 m desta segunda-feira, quando o comandante Fernando Rocha Pacheco, responsável pela Zona Marítima do Sul, a devolveu ao mar, num rápido "esbracejar" de barbatanas e um bom mergulho. A dez milhas (17 km) do porto comercial de Portimão e depois de estarem garantidas as condições de segurança, o que significa estar longe das redes de pesca.

"A Marinha tem uma parceria com o Zoomarine há alguns anos, uma vez que este não dispõe da capacidade de transporte que possibilite que estes animais sejam devolvidos ao seu habitat sem acidentes. O objetivo é contribuir para a preservação das espécies e proteção da natureza, tornando o ambiente mais sustentável", sublinha o comandante Fernando Rocha Pacheco.

A operação foi realizada por uma lancha rápida de fiscalização, sob a responsabilidade do comandante Yazide Suriname, um português com origem indiana e paquistanesa, que optou por seguir uma profissão na Marinha Portuguesa. E que controlou ao segundo todo o processo.

A devolução foi ainda acompanhada pelo biólogo Gonçalo Tirá, para garantir que a Quibi fosse retirada da caixa em segurança, embrulhada numa toalha molhada e levada num bote até um local seguro para entrar no mar. Operação que demorou cerca de dez minutos.

Mas a Quibi não esteve sozinha nesta aventura. Uma segunda tartaruga, a Querubim - uma espécie mais comum: caretta - mergulhou uns minutos antes, eram 11:13. Esta foi encontrada pelos pescadores no terminal de contentores de Sines, a 21 de dezembro de 2019. Transportada para o Zoomarine, diagnosticaram-lhe os biólogos e veterinários: "Pequenas lesões na pele na zona do pescoço, cabeça e cloaca". Bem mais pequena que a Quibi, pesava 506 gramas e media 14, 29 cm. Cresceu quase 10 cm e aumentou dois quilos, tinha 2,5 kg e media 23,9 centímetros quando mergulhou esta manhã no Atlântico.

Não se sabe ao certo a idade das duas tartarugas, nem o sexo - dizem os técnicos que ainda se sabe pouco destes animais -, apenas que são jovens, terão à volta de dez anos. A Querubim foi colocada no mar pela jornalista da RTP, Ana Daniela Soares, que começou por fazer reportagens e se apaixonou por estes animais e tem colaborado em campanhas para a sua reabilitação.

"É um grande momento poder dar uma ajuda e contribuir para que o nosso meio ambiente fique melhor. Ainda por cima, são animais jovens, o que significa que podem resultar em várias gerações de vidas. É uma emoção", descreveu a jornalista.

Porto d'Abrigo

O Porto d'Abrigo do Zoomarine (Pd'AZ) tem uma equipa multidisciplinar, que abrange as diferentes áreas de intervenção na reabilitação de espécimes. Permanentes são dois biólogos e uma enfermeira veterinária, com a colaboração de equipas de medicina veterinária, controlo de qualidade de água, manutenção dos equipamentos, etc.

Pertence a uma empresa privada, a Mundo Aquático, sem qualquer apoio do Estado. As entradas dos visitantes no Zoomarine têm pago a reabilitação dos animais. A pandemia fez com que o número de visitantes ficasse reduzido a 8 % da frequência em anos anteriores, embora a afluência esteja gradualmente a aumentar. O que significa, também, a abertura gradual dos equipamentos de diversão e das atividades.

"Começámos a fazer salvamentos de animais marinhos ainda antes da abertura do Porto d'Abrigo, há mais de 20 anos, com os golfinhos de Miami em Lisboa [para o Jardim Zoológico]. A nossa empresa era a única que tinha especialistas em biologia marinha e medicina veterinária e começámos a ser chamados pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. Nessa altura, um animal dava à costa e ninguém fazia nada, à medida que a mensagem foi passando, tornou-se regular". As pessoas protestam se nada for feito", conta Élio Vicente.

Com a pandemia e menos gente junto à costa, têm sido encontrados menos animais. Não significa que não estejam doentes ou que não tenham morrido, significa que não houve quem os visse e os corpos foram levados pelas ondas. Os golfinhos e focas que acabam nos areais, normalmente estão sem vida, já com as tartarugas, a recuperação é muitas vezes viável.

Também já foram encontradas tartarugas em cativeiro como é o caso da Miss Murphy, que estava num aquário.

A primeira tartaruga devolvida ao mar foi a Quinas, a 7 de agosto de 2019, depois de 49 dias a recuperar no Centro. Tinha ficado presa nas redes de pesca. Pesava 300 quilos e estava a ser monotorizada pelos técnicos do parque (via satélite e que é um processo muito caro), tendo-se perdido o sinal 69 dias depois.

O Porto d'Abrigo tem atualmente cinco cágados em recuperação, dois a três vão ser devolvidos ao seu meio natural dentro de semanas

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