Foi assim que Conceição transformou a cidade na Capital do Espantalho

Inspirou-se para começar a fazer espanta-pássaros numa viagem ao sul de França. Em 20 anos, fez centenas de bonecos e até entrou no Guinness. Agora, a cidade de Oliveira de Azeméis recupera a ideia de Conceição Ferreira e organiza o Festival Nacional do Espantalho.

Há uma noiva na varanda do salão nobre da Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis. Tem cabelos loiros, um vestido branco e um véu na cabeça. Ao lado, na outra varanda, estão sete pretendentes de fato e gravata. Faça chuva ou faça sol, permanecerão ali, imóveis, pelo menos até 31 de julho. São feitos de paus, palha e desperdício. Fazem parte da primeira edição do Festival Nacional de Espantalhos de Portugal - Francisca OAZ, uma iniciativa do município de Oliveira de Azeméis, que recupera a ideia de Conceição Alves Ferreira, uma munícipe que se apaixonou pelos espanta-pássaros há cerca de 20 anos e, graças a estas figuras, fez que uma pequena freguesia do concelho entrasse no Guinness World Records no ano 2000.

Por esta altura, há mais de 700 espantalhos espalhados pela cidade e pelas freguesias do concelho. À porta da padaria, uma padeira. Junto ao centro de enfermagem, um enfermeiro. Na varanda da farmácia, um farmacêutico. E por aí fora. São representadas profissões, gentes do quotidiano. Mas também há figuras mais arrojadas, como o Inspector Gadget, que, tal como outras personagens, habita a Praça José da Costa. É também lá que encontramos uma "mulher" sentada no banco do jardim. Veste saia vermelha, avental azul às flores e casaco bege de malha. "E há pessoas que pensam que é mesmo uma mulher real", diz Conceição Ferreira, de 65 anos.

"Foi uma paixão fulminante"

Falamos dentro do salão nobre, que serve agora de oficina para fazer os bonecos. Lá dentro, dezenas de figuras "à espera de melhores dias" para saírem à rua. Cirurgiões, enfermeiros, artistas de rock, camponeses. Adultos e crianças. Afinal, Conceição, de onde vem esta paixão pelos espantalhos? "Estava de férias com a família em Cotê D'Azur [sul de França]. Subimos ao alto da montanha e vi uns espantalhos numa casa", recorda. Estávamos em 1997 e, com aquela imagem na cabeça, já só pensava em voltar para casa. Queria fazer os seus próprios bonecos.

Nesse ano, Conceição fez oito espantalhos. No ano seguinte, cem. No outro, trezentos. "Comecei a falar com as pessoas, vi que havia vontade e lembrei-me de fazer uma candidatura ao livro dos recordes", conta, com o brilho nos olhos de quem realmente sabe que fez história. Fizeram 1113 espantalhos na freguesia de Macinhata da Seixa, que, naquela altura, tinha menos de 1300 habitantes. Um feito inédito, que os levou ao Guinness.

Com esta paixão, reavivou "uma tradição que é de Portugal e de muitos outros países". Na freguesia onde tudo começou, os espantalhos eram usados para espantar os pássaros das cerejeiras. Questiona, no entanto, se cumpriam essa função. "Costumo dizer que eles chamam os pássaros. Tenho-os ao longo de todo o ano na varanda e os pássaros vão lá buscar palha. Além disso, também é comum encontrar ninhos nos próprios espantalhos". Diz que as aves se "habituaram à cor e à figura".

Capital do espantalho

Desde 2006 que a mentora deste projeto não fazia espantalhos em larga escala. "Para voltar, teria de ser de forma grandiosa. A única maneira era fazer um festival com outras iniciativas culturais." Aos espantalhos feitos por si juntaram-se centenas de outros feitos por voluntários, movimentos associativos, escolas, juntas de freguesia, privados. "Dão muito brilho e muita cor à nossa cidade, à zona histórica, mas também a todo o concelho", diz o presidente da Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis.

Joaquim Jorge revela que o objetivo do festival era "recuperar uma iniciativa que já existia no passado e que permitiu inscrever uma freguesia pequena como Macinhata da Seixa no Guinness". Segundo o autarca, "sem o entusiasmo, a dedicação, o esforço, o carinho e a paixão da Conceição - e das pessoas que consegue reunir -, esta iniciativa não era possível".

Esta será a única manifestação do género no país e, por isso, não será arriscado dizer que Oliveira de Azeméis se transformou na Capital do Espantalho. "É um símbolo da cidade, do concelho", sublinha o presidente da autarquia.

Oportunidade para voltar à costura

Para Rosa Maria, de 70 anos, o festival foi uma oportunidade de voltar a costurar, já que, ultimamente, quase só faz os arranjos da própria roupa. "Estou a sentir-me realizada. E isto está a ser inédito, bonito, dá vida a uma terra que costuma estar morta", diz, enquanto aplica os remendos nas camisas. "Cada uma leva 13 e nas mangas cozemos a palha." É a primeira vez que se envolve na loucura dos espantalhos, mas diz que não podia estar mais satisfeita. "E a Francisca! Adoro a Francisca."

Francisca é a espanta-pássaros gigante que dá cor à praça do centro da cidade. Foi feita em colaboração com uma escola e é a figura central do festival. É uma "espantalhinha" solidária, criativa, responsável, que quer ser uma inspiração para os mais pequenos. É a personagem principal do livro criado por Conceição Ferreira, que é também uma contadora de histórias. Diz que Francisca "é a espantalha de Portugal".

Proprietária de uma imobiliária, a impulsionadora do evento diz que algumas das figuras têm histórias, outras ficam ao dispor da população, para que dê largas à imaginação. Todos os espantalhos são especiais, mas confessa que há uns que se destacam: "As noivas. Gostava de as fazer com dez metros."

"Vestir 300 corpos não é fácil"

Existem várias formas de fazer os espantalhos, mas Conceição diz que costuma usar quase sempre a mesma técnica: um pau em cruz, mangas de plástico para fazer braços e pernas, arame para articular, um pano para a cara e rafia ou palha. Há roupa oferecida, peças feitas de origem e muita que leva de casa. "Vestir 300 corpos não é fácil", graceja.

Do festival fazem parte iniciativas de música, animação de rua, arte urbana, um almoço de emigrantes, concursos infantis, entre outras atividades.

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