Ordem dos médicos quer acabar com o Dr. Google

A partir desta sexta-feira passam a estar disponíveis a todas as pessoas, no site da Ordem dos Médicos, recomendações para reduzir os exames desnecessários, que podem resultar em problemas para a saúde.

Quase todos os portugueses em idade adulta acham que devem fazer exames de saúde todos os anos, os chamados check-ups, e quase 90% acabam mesmo por realizá-los. Mas não os deviam fazer. Na realidade, estas análises em pessoas saudáveis e sem fatores de risco podem levar a muitos outros testes desnecessários e podem resultar em problemas para a saúde. Da mesma forma que não se devem tomar antibióticos para atacar gripes e constipações ou realizar radiografias ao tórax por rotina. São recomendações para reduzir os exames desnecessários e acabar com alguns mitos e más práticas em saúde que passam hoje a estar acessíveis a todos no site da Ordem dos Médicos.


O programa Choosing Wisely - Escolhas Criteriosas em Saúde foi criado em 2012 nos Estados Unidos da América, foi exportado para países como Austrália, Brasil, Reino Unido ou Japão e chega agora a Portugal. A partir desta sexta-feira passam a estar disponíveis 90 recomendações ( em https://ordemdosmedicos.pt/escolhas-criteriosas-em-saude/ e no Facebook https://www.facebook.com/choosingwiselyportugal/ ), elaboradas pelos 52 colégios das especialidades da Ordem dos Médicos, que vão continuar a publicar todos os meses boas práticas clínicas em várias áreas, da cirurgia, à saúde pública, passando pela reumatologia, a radiologia e até a estomatologia. O objetivo, explicou esta manhã o presidente do Conselho Nacional para a Formação Profissional Contínua da ordem, é combater a sobreutilização dos exames e o sobrediagnóstico, que muitas vezes levam apenas a tratamentos desnecessários.

Programa arranca com 90 recomendações mas vai ser atualizado todos os meses


"Muitas coisas são inúteis e podem induzir em erro", sublinhou António Vaz Carneiro, que também dirige o Centro de Investigação de Medicina Baseada na Evidência. "Tomemos um exemplo. A Coreia do Sul é o país do mundo com a taxa mais elevada de cancro da tiróide, porque investiram fortemente nessa área, mas têm excesso de rastreio, porque a mortalidade é a mesma, não conseguiram fazer descer o nível de mortalidade. Só veio criar ansiedade nas doentes".

Acabar com o Dr. Google

Aos que podem ver neste programa uma forma de poupar dinheiro na área dos exames, António Vaz Carneiro responde que essa questão não se coloca. "O que está em causa é a qualidade em saúde, porque as poupanças até são pequenas".
"Estamos a falar de recomendações, não estamos a falar de obrigações, que podem dar aos doentes e à relação médico-doente uma partilha naquilo que é a decisão sobre determinado tipo de circunstâncias, seja sobre um exame auxiliar de diagnóstico, que pode ou não pode ser feito, ou sobre um determinado tratamento, que pensamos que pode ser útil a breve prazo" acrescentou o bastonário da Ordem dos Médicos.

O programa português terá uma novidade em relação ao resto do mundo, com a publicação de situações que não devem ser tratadas nas urgências, para evitar idas desnecessárias ao hospital

Miguel Guimarães deu também alguns exemplos de boas práticas, como o caso de um doente que tem uma apendicite aguda e que não tem indicação para fazer uma TAC (Tomografia Computorizada), mas sim uma ecografia. Apesar de a TAC dar um diagnóstico quase 100% seguro de apendicite aguda e a ecografia ter um diagnóstico de 96, 97%, se for analisada "a eficácia do meio de diagnostico versus os seus efeitos laterais, a ecografia é o exame recomendado", justificou. O bastonário informou ainda que o programa português terá uma novidade em relação ao resto do mundo, com a publicação de situações que não devem ser tratadas nas urgências, para evitar idas desnecessárias ao hospital.


Questionado sobre o que distingue esta informação da existente na Internet, Vaz Carneiro disse que é baseada "na melhor evidência científica". "Se se pesquisar no Google a palavra 'health' há milhões de milhões de sites, 99,999% dos quais são mentirosos, corruptos, comerciais e inválidos. Ainda assim restam centenas de milhares de sites excelentes que os doentes infelizmente não são capazes de identificar". O que este programa quer fazer é "substituir esse campo de pesquisa extraordinariamente difícil para um doente, com uma informação de alta qualidade baseada na melhor evidência científica". Contudo, salientou o bastonário, estas recomendações "nunca substituem a relação médico-doente, que é a joia da coroa, porque aquilo que o doente quer é falar com o médico".

Algumas das Recomendações

Check-ups


Recomendação
Não fazer "check-ups" anuais a adultos assintomáticos, sem fatores de risco e sem problemas de saúde diagnosticados.


Justificação
Os chamados exames de rotina ("check-ups") são uma razão comum para que muitos adultos saudáveis, sem fatores de risco, consultem o médico. Aliás, entre os adultos portugueses, 99.2% acreditam que devem fazer exames de rotina ao sangue e à urina com uma periocidade anual, sendo que 87.4% referem ter realizado esses exames. A prescrição de exames gerais, de rotina, em adultos assintomáticos, sem fatores de risco, é um procedimento que não reduz a morbilidade ou a mortalidade em geral, por doença cardiovascular ou cancro. Além disso, a realização destes exames pode resultar em danos não-intencionais para o utente. A evidência disponível demonstra que a aplicação de exames complementares de diagnóstico de forma indiscriminada conduz a falsos positivos que podem conduzir a uma sequência de testes desnecessários. A decisão de se efetuarem testes laboratoriais de rastreio, assim como a escolha dos testes a fazer deve ser baseada na idade, sexo e fatores de risco de cada pessoa. Não há, portanto, uma lista de exames que se deva aplicar a toda a gente de forma indiscriminada.

Antibióticos


Recomendação
Escolha não tomar antibióticos na maioria das infeções respiratórias superiores ("constipações e resfriados"), exceto se prescritos pelo médico.


Justificação
Os antibióticos atuam contra bactérias e não contra vírus. A maioria das infeções respiratórias superiores não complicadas ("constipações e resfriados") que dão tosse, corrimento nasal, rouquidão, dor de garganta e febre são provocadas por vírus.
O uso de antibióticos pode causar alguns efeitos secundários como náuseas, vómitos, diarreia e reações alérgicas. Alguns destes efeitos secundários podem acontecer pelo desequilíbrio entre as bactérias causadoras de doença (patogénicas) e as bactérias necessárias ao nosso organismo (comensais). O uso excessivo de antibióticos, em especial quando não são necessários, pode levar ao aparecimento de bactérias resistentes aos antibióticos. Estas bactérias levam ao aparecimento de infeções graves, difíceis de tratar e que muitas vezes levam à morte.

Vacinas

Recomendação
Escolha não adiar a vacinação em situações de doença aguda ligeira, com ou sem febre, ou de convalescença de doença aguda.


Justificação
As doenças agudas ligeiras, como infeções respiratórias das vias áreas superiores não complicadas são falsas contraindicações para a toma de vacinas. Adiar a vacinação, neste contexto, pode constituir uma oportunidade perdida de vacinação.

Mamografias

Recomendação
Escolha não substituir a mamografia de rastreio pela ecografia mamária.


Justificação
Muitos cancros não têm tradução na ecografia. Algumas formas precoces de cancro da mama estão associadas a microcalcificações só visíveis em mamografia. Muitos dos achados suspeitos na ecografia que requerem biopsia não são cancros.

Radiografias ao tórax

Recomendação
Escolha não realizar radiografia de tórax por "rotina".


Justificação
A realização de radiografias do tórax deve basear-se na avaliação criteriosa dos doentes através da história clínica e do exame físico.

TAC em crianças

Recomendação
Não realize uma tomografia computorizada (TC) na avaliação de uma suspeita de apendicite numa criança antes de considerar como opção a realização de ecografia.


Justificação
Apesar da TC ser precisa na avaliação de uma suspeita de apendicite na população pediátrica, a ecografia tem quase a mesma capacidade, se realizada por profissionais experientes. A apendicite pode ser diagnosticada com base no exame objetivo do doente. Nos casos em que é necessário recorrer à Imagiologia, a ecografia (incluindo ecografias seriadas) é a modalidade inicial de eleição na criança. Se os resultados forem inconclusivos, podem então ser complementados com uma TC. Esta forma de atuação diminui os potenciais riscos da radiação e tem uma excelente acuidade, com sensibilidade e especificidade na ordem dos 94%.

Tiroide

Recomendação
Ecografia da tiroide não deve ser feita em doentes com função tiroideia normal e sem nódulos palpáveis.


Justificação
A ecografia da tiroide é um exame indispensável na avaliação da doença nodular da tiroide permitindo diagnosticar e caracterizar morfologicamente os nódulos tiroideus, sendo o método de eleição para a estratificação do risco de malignidade. Contudo, este exame não deve fazer parte da avaliação de rotina de doenças funcionais da tiroide na ausência de doença nodular palpável.

Escolher flúor

Recomendação
Escolha uma pasta de dentes com flúor.


Justificação
O benefício de pasta de dentes com fluoretos resulta do seu efeito tópico no esmalte dentário, interrompendo a desmineralização do esmalte causada por ácidos provenientes do metabolismo bacteriano e reforçando a remineralização da superfície do esmalte. O benefício anti-cárie (anti cavidade) começa com a erupção do primeiro dente deciduo. O uso de pasta de dentes com fluoretos nas quantidades recomendadas para a idade, minimiza o risco de fluorose dentária, uma descoloração esbranquiçada do esmalte.

Paracetamol depois de ir ao dentista

Recomendação
Escolha não usar opioides na dor do pós-operatório de cirurgia oral e maxilar até que tenha sido usada uma dose de anti-inflamatórios / paracetamol.


Justificação
Para controlo da dor pós-operatória de cirurgia oral e maxilar, a dose e a frequência de um analgésico não opiáceo (ibuprofeno e / ou paracetamol) devem ser otimizadas.

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