Fátima Campos Ferreira: "O mundo passou pelo Prós e Contras"

O Prós e Contras despede-se esta noite dos portugueses com um debate sobre o Portugal do passado e do futuro. A jornalista Fátima Campos Ferreira espera que ter contribuído para se compreender melhor a sociedade portuguesa.

O último Prós e Contras vai para o ar esta noite, ao fim de 18 anos e com regresso à Casa do Artista, onde nasceu. É um programa de balanço?
Este último programa tem justamente por missão articular o tempo que passou, desde o início do século XXI, estas duas décadas do programa, e a década que se está a iniciar, com uma fratura exposta provocada pela pandemia em toda a humanidade e com duas revoluções, que creio que se vão acelerar. São a revolução tecnológica, digital e a inteligência artificial, por um lado, e a revolução biológica, das neurociências, por outro. O programa vai equilibrar-se entre as duas situações: o país que existia no início do século XXI e o que se projeta para a próxima década.

Como é que vai ser assinalado o fim do programa?
Há algumas peças que recordam alguns dos momentos mais épicos desses debates. A sociedade respirou aqui durante duas décadas, fosse do ponto de vista político, económico, social, das causas sociais mais fraturantes. Isso faz com que estejamos orgulhosos e tenhamos hoje um acervo de património que fica no arquivo público e que poderá ser estudado no futuro.

Mas houve momentos difíceis.
Houve sempre. Levar a sociedade ao debate é muito complicado, porque não há unanimidades, não há consensos. Pode haver entendimentos e foi sempre isso que procurei. A meio do percurso percebi que o grande problema do país era a falta de articulação, entre instituições, entre cooperações, entre poder, entre governantes, havia uma grande dificuldade de articulação e de entendimentos. A minha grande preocupação foi provocar essa discussão para chegar a um entendimento. O contraditório teve sempre essa missão: chegar a bom porto com as dificuldades que a sociedade tinha por falta de articulação. Uma das grandes lacunas da sociedade é que as pessoas não se entendem, não procuram o entendimento.

Houve quem se queixasse precisamente da falta de amplitude no contraditório.
Nunca pode haver contraditório a 100 %, é impossível, não há 100 % em nenhum lado e menos em televisão. Há sempre pessoas com pontos de vista divergentes, não se podem colocar todos os pontos de vista em cena, não pode haver contraditórios que abranjam todos os lados, é impossível. A Entidade Reguladora da Comunicação para a Comunicação (ERC) fez um relatório sobre o Prós e Contras, em 2006/2007, em que disse que o contraditório estava a ser garantido não apenas em cada programa, mas na continuidade, naquilo que consideraram a periodicidade e o contraste ao longo dos vários programa. E, durante muitos anos, à terça-feira de manhã, tinha que escrever os critérios e enviá-los para a ERC, é assim que funciona o Serviço Público, que sempre os considerou bons. Nunca tive queixas que me tivessem tirado a razão, houve várias queixas mas nunca tive um problema na ERC e nunca um programa esteve em tribunal. É uma coisa fantástica para um jornalista, 18 anos sem nunca ter ido a tribunal por causa de uma queixa ao programa, é avassalador. Significa que houve um grande jogo de cintura para encontrar estes sentimentos e com uma grande abrangência dos pontos de vista. Ainda assim, sempre me preocupei em dar as diferentes versões sobre os temas. Além de que há temas onde essa questão não se coloca, num programa sobre velhice ou sobre a existência humano não há contraditórios., são programas de análise. No Prós e Contras não é obrigatório ter sempre contraditório. Foi uma marca fortíssima que a sociedade portuguesa adotou, tem sido base de muitos doutoramentos, de debate nas instituições, de tema de café, tornou-se numa coisa que a sociedade se apoderou.

Não houve momentos em que terá faltado outras versões, pessoas?
​​​​​​​Com certeza que sim, não podemos apontar pistolas às pessoas para aceitarem convites, continua a acontecer, até no programa de hoje. As pessoas têm as suas agendas, na política têm agendas pessoais, sabem quando interessa ou não falar. Não se tem o ideal, tem o que se consegue, agora, se toda a gente conseguir o que conseguimos não é mau.

Quem faltou levar ao programa?
É provável que sim, mas não estou a ver quem. O mundo passou pelo Prós e Contras, os presidentes Jorge Sampaio, Ramalho Eanes, até Cavaco Silva me deu uma entrevista no 10 de Junho, todos estiveram lá. Há figuras internacionais que obviamente gostaria de ter tido, mas são coisas líricas.Hernâni Lopes, André Gonçalves Pereira, que não gostavam de ir à televisão, estiveram no Prós e Contras, Jerónimo de Sousa, os dirigentes partidários, António Costa, Marcelo Rebelo de Sousa ... Claro que há críticas e que aceito olimpicamente e democraticamente.

Quais são os momentos mais marcantes para a jornalista?
Não vejo o programa assim, vejo o programa pelos debates que fizemos e, nesse campo, as questões das mentalidades são as mais fraturantes. Talvez a última década tenha sido a mais complicada porque teve os grandes debates sobre a interrupção voluntária da gravidez, o casamento homossexual, a adoção por casais homossexuais e outras causas sociais fortíssimas, foram os mais difíceis de gerir. Aliás, como mais recentemente o programa sobre o racismo. Obviamente que não havia ninguém que defendesse o racismo em estúdio, nem podia ser de outra maneira, mas mesmo assim os ânimos exaltaram-se. Não tanto as questões económicas, políticas, mas as questões do foro das mentalidades foram as mais difíceis de gerir. Curiosamente, onde detetei mais lobbys e dificuldade em os gerir foi na área ambiental. Tem imensos lobbys, as corporações estão muito bem organizadas e há uma grande dificuldade em se articularem uns com os outros, esse é o grande drama.

O que é que vai ser o novo programa?
´É o Primeira Pessoa, um projeto radicalmente diferente, com entrevistas sobre as circunstâncias da vida, o pensamento de muitas personalidades portuguesas de todos as áreas, desde a música ao desporto. O primeiro é com o António Barreto e o xsegundo com a Lídia Jorge, vamos viajar por todos os quadrantes. A diferença deste projeto é que traz uma gramática nova em termos de imagem, de qualidade visual, é feito em articulação com uma jovem equipa do departamento de Inovação da RTP, em conjugação com o conhecimento de uma pessoa da minha idade e com uma viagem profissional grande, que traz novidade à televisão portuguesa.

Qual é o sentimento na despedida?
Espero entregar este património documental aos portugueses esta noite com dignidade. Não é para as pessoas do presente, que terão memória durante algum tempo, mas para os do futuro, para que os historiadores possam analisar os milhares de testemunhos desta sociedade nos últimos 18 anos. Sinto-me orgulhosa por ter contribuído. O programa é dos portugueses, não é da RTP, muito menos meu.

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