Erotismo na Comporta. Festas de olhos bem fechados também há em Portugal

O anúncio da realização de uma festa erótica na Comporta em plena pandemia chamou a atenção do público para uma prática que se alimenta do secretismo. Mito urbano ou realidade, estas festas despertam a curiosidade de muitos mas nem sempre se parecem com as do cinema

Capacidade de guardar segredos e grande disponibilidade orçamental são dois dos requisitos indispensáveis à participação em festas de cariz erótico como a que Purília realizou no passado sábado, na zona da Comporta. Em troca proporciona-se um ambiente sofisticado, digno de uma produção de Hollywood, assumidamente inspirado no último filme de Stanley Kubrick, De Olhos Bem Fechados (1999), com Tom Cruise e Nicole Kidman (na altura no final do seu próprio casamento) como protagonistas.

Festas como esta, ou outras mais low cost, em Portugal como no estrangeiro, não são em si uma novidade nem tão pouco tema de notícia. O que as trouxe para o escrutínio público foi a sua realização em plena pandemia, quando o distanciamento social se tornou uma norma muito recomendável. No entanto, em declarações públicas Ricardo Champallimaud, fundador da Purília, assegurou terem sido cumpridas "todas as normas impostas pela Direção-Geral da Saúde", incluindo a obrigatoriedade do teste prévio à covid-19 por todos os participantes e a adequação do espaço às novas regras, o que teria levado a empresa a investir uma soma muito elevada. De resto, esta não foi a primeira festa da Purília em tempos de pandemia. A anterior terá ocorrido em Cascais, a 26 de junho. As mulheres solteiras pagavam 995 euros, os homens solteiros 2 995 e os casais 1 995. Na festa da Comporta o preço do ingresso por casal atingia os 3000 euros.

Portugal não é caso único naturalmente. Em países como a Venezuela, Argentina ou Colômbia festas eróticas de caráter clandestino, reunindo várias dezenas de pessoas, foram notícia e objeto de intervenção policial, enquanto em Amsterdão, o Red Light District (bairro especializado em turismo e comércio sexual) teve de ser encerrado na última semana devido à verdadeira multidão que o procurou após o recomeço das atividades normais a 1 de julho.

O culto do mistério

Notícias como esta vêm lançar uma nova luz sobre o que era frequentemente considerado um mito urbano ou uma vaga reminiscência das bacchanalia da Antiga Roma, proibidas pelo Senado em 186 a.C. devido à ocorrência de excessos de todo o tipo que frequentemente levavam à morte dos participantes. Em tempos bem mais contemporâneos, o tema voltou a desinquietar imaginações com o filme de Kubrick, mas, ainda antes disso (em 1992) quando Madonna publicou o álbum e o livro Erotica.

O mistério, essencial para preservar a intimidade de quem frequenta, faz, no entanto, parte deste negócio milionário em que coparticipam, por exemplo marcas de lingerie topo de gama como a britânica Agent Provocateur (cujas lojas em Londres reconstituem abertamente o ambiente de um clube privado) ou a francesa Mise en Cage. Em Maio de 2015, a jornalista da Vogue norte-americana Marina Korish aventurou-se no mais mítico clube do género em Paris, Les Chandelles, e pôde constatar que a existência de regras bem definidas o aproximava de uma sociedade secreta, em que tudo estava codificado desde os gestos ao dress code: Fato para os homens, saia justa e stilletos para as mulheres, com os jeans e roupa desportiva completamente fora de questão. Uma vista de olhos pelas referências ao clube no site yelp sugere que a cor da pele pode ser outro critério de seleção, embora não explícito, naturalmente.

Esta associação a marcas recomendadas faz parte também da política da Purília, que no seu blogue inclui recomendações sobre marcas de roupa, brinquedos e joalharia ditos eróticos e até a espaços como o Farol Design Hotel. Recomendações claramente destinadas a um público com um poder de compra muito acima da média nacional (vão desde os sapatos de senhora Louboutin à lingerie Agent Provocateur, uma vez mais), como é, aliás, assumido pela direção da empresa.

Mas a amplitude da carteira não é a única condição de admissão em tais eventos. Outra empresa portuguesa do ramo, a Heaven Party, reserva-se o direito de selecionar em função da "boa apresentação, elegância e forma física". A Purília privilegia clientes com estas características, entre os 18 e os 45 anos, que serão objeto de um processo de seleção. Para orçamentos menos amplos e políticas de acesso menos exclusivas há todo um conjunto de ofertas desde os simples espectáculos de strip-tease a clubes de swing, com preços que começam nos 40 euros.

O sucesso recente dos livros de E.L. James, As 50 Sombras de Grey e a sua sequela, As 50 Sombras mais Negras (ambos rapidamente adaptados ao cinema) parece ter exercido, nas mentalidades, um efeito normalizador da busca de novas experiências eróticas, no casamento e fora dele. Chamaram-lhe "erotismo para donas de casa", mas a autora, que nunca quis ser uma nova versão de Anais Nin, pouco se preocupou. Com mais de 20 milhões de cópias vendidas em menos de dois meses, pouco lhe importava a opinião dos críticos literários e descansou à sombra dos muitos lucros. Quem rentabilizou com as tendências lançadas por E.L. James foram os promotores das festas bondage (prática omnipresente em As 50 Sombras), cujo conceito se desenvolve em torno da sujeição física do Outro. O problema é que, de clubes e festas reservadas onde predomina o mútuo consentimento entre adultos, a prática parece ter chegado a espaços menos consensuais como as universidades. Na lista das que chegam a ter mesmo um clube mais ou menos clandestino devotado ao tema aparecem algumas instituições de grande prestígio académico como as norte-americanas Yale, Harvard (onde é consentido pelos corpos diretivos), a Brown ou as britânicas Imperial London College e a East Anglia University. O mais antigo conhecido é o da Columbia University - o Converso Virium - e remonta a 1994 quando E.L. James nem sequer sonhava com a fama, por assim dizer, literária.

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