David Attenborough: esta pode ser a última oportunidade para salvar a Terra

O naturalista britânico tem 94 anos. Ao longo da sua vida, o planeta deixou de ser selvagem e fulgurante para ser um local onde a vida está ameaçada. O filme "Uma vida na Terra" deixa o alerta.

Quando David Attenborough tinha 11 anos e se começou a interessar pela natureza enquanto brincava nas rochas ao pé de casa, a Terra era habitada por 2,3 mil milhões de pessoas. Nessa altura, em 1937, 66% do planeta permanecia selvagem e a concentração de carbono na atmosfera era de 280 partes por milhão.

"Foi uma época muito entusiasmante para viver", conta o naturalista britânico. "Onde quer que fosse havia enormes paisagens selvagens a descobrir", recorda. E havia um novo meio - a televisão - que lhe permitia mostrar às pessoas lugares, animais e plantas que elas nunca tinham visto. "Parecia que nada poderia limitar o progresso."

O modo como vivemos mudou muito durante a vida de Attenborough. E o nosso planeta também. Hoje, com 94 anos, David Attenborough sabe que estávamos enganados. Atualmente, são 7,8 mil milhões os habitantes da Terra. A área selvagem está reduzida a 35% do planeta e a concentração de carbono na atmosfera é de 415 partes por milhão. Em menos de um século, o homem conseguiu pôr em perigo o equilíbrio de um ecossistema que já existe há dez milhões de anos.

É disso que ele nos fala no seu mais recente filme, Uma Vida no Nosso Planeta, disponível na Netflix: um filme em forma de testemunho.

Uma vida dedicada à natureza

Começamos por vê-lo ainda novo, a preto e branco, fascinado com o planeta que descobria em primeira mão. Depois de ter estudado zoologia e geologia, de se ter licenciado em Ciências Naturais em Oxford e de ter cumprido o serviço militar na marinha, David Attenborough começou a aparecer na televisão ainda na década de 1950. De então para cá, habituámo-nos a vê-lo rodeado de animais, escondido por entre a vegetação, a revelar-nos os segredos da natureza

Um dos seus trabalhos mais importantes foi a série Life on Earth (a que este filme vai buscar o título), que foi exibida pela BBC em 1979. Nela, Attenborough viaja por todo o planeta para nos mostrar como foi a evolução da vida na Terra. A equipa passava horas e horas a filmar, à espera de captar os melhores momentos. O mundo nunca tinha visto os animais com esta proximidade. Uma das cenas mais populares é o encontro de David Attenborough com os gorilas do santuário de Dian Fossey, no Ruanda.

A série foi um enorme sucesso e cinco anos mais tarde a BBC transmitiu The Living Planet, que se focava no modo como os seres vivos se adaptam e sobrevivem em diferentes ambientes. Attenborough procurou ecossistemas diferentes - desde os gelos do Ártico às florestas tropicais e ao fundo do mar.

"Naquela altura parecia-nos inconcebível que nós, uma só espécie, tivéssemos o poder de ameaçar a própria existência da Terra", afirma David Attenborough neste filme. E as imagens da vida no planeta que aqui aparecem são, de facto, belíssimas. Como que a provar-nos que este mundo é realmente extraordinário.

O planeta está ameaçado

Mas, depois, vemos como tudo se tem transformado a uma velocidade impressionante. Vemos as florestas tropicais de Bornéu destruídas para dar lugar à produção de óleo de palma e um orangotango solitário abraçado à última árvore que se mantem de pé. Vemos os corais que morrem, as florestas que desaparecem, os animais em extinção, o gelo a derreter. Como resultado da ação humana, a destruição da natureza parece imparável.

Há já alguns anos que essa tem sido a grande preocupação de David Attenborough. Ele que era um naturalista, ou seja, uma pessoa que estuda a natureza, tornou-se um ambientalista. Em State of the Planet (2000), avaliou o impacto das atividades do homem no mundo natural e o diagnóstico já não era muito animador. Mais tarde, voltou-se para as questões do aquecimento global (The Truth about Climate Change, 2006) e do crescimento da população humana (How Many People Can Live on Planet Earth?, 2009). Em 2019, a série Our Planet era já um grito de alerta.

Por isso, quem acompanha a sua carreira nem pode ficar espantado com o que agora nos diz: "Temos de renaturalizar o mundo", anuncia, com a sua voz inconfundível, David Attenborough, que, apesar tudo, acredita que ainda estamos a tempo de reverter o desastre. Se agirmos já. Se o fizermos em conjunto. É preciso parar o crescimento da população, deixar de usar combustíveis fósseis e passar a usar as energias renováveis, reduzir a pesca e a agricultura (ou seja, mudar a nossa dieta). Há que recuperar a apropriação da Terra e replantar árvores. Tudo isto é possível - e Attenborough dá-nos alguns exemplos - mas exige uma grande força de vontade de todos.

Fazer passar a mensagem

Além de um grande conhecedor da natureza, Attenborough é um comunicador. Este filme é como a última lição de um velho professor que sabe que está prestes a retirar-se - mas um daqueles professores que também sabe como cativar a nossa atenção.

Aos 94 anos, David Attenborough não desiste de passar a sua mensagem. Depois de 60 anos a mostrar-nos as mavilhas da Terra, agora mostra-nos como essas maravilhas estão ameaçadas e como é importante agirmos. Por isso, nos últimos anos, tem participado em conferências e até tem feito em intervenções junto do poder - seja o parlamento britânico ou a ONU.

Abriu uma conta de Instagram, que até agora tem só 19 publicações mas tem mais de 6 milhões de seguidores:

Ainda há pouco tempo o vimos a falar com os filhos do príncipe William, adaptando a linguagem ao seu pequeno público.

E, já esta semana, numa conversa online com a ambientalista sueca Greta Thunberg, expressou a sua preocupação com a ameça que a pandemia de covid-19 é representa parao meio ambiente, uma vez que os políticos (e todas as outras pessoas) estão tão preocupadas com o vírus que estão a deixar para trás outros assuntos importantes, entre eles as alterações climãticas.

Ainda estamos a tempo?

O filme começa e acaba em Chernobyl, na Ucrânia. O cenário é de abandono. A 26 de abril de 1986, um acidente na central nuclear tornou o local inabitável. Este foi um evento único, explica-nos David Attenborough. "Mas a verdadeira tragédia do nosso tempo continua a desenrolar-se por todo o planeta, quase imperceptível de dia para dia": é a perda de locais selvagens e de bioversidade. Tal como em Chernobyl, esta tragédia também acontece em resultado de mau planeamento e de erro humano. E se não fizermos nada as consequências serão devastadoras: não será só uma cidade mas todo o planeta se tornará inabitável.

A conclusão não poderia ser mais brutal: em Chernobyl, depois da fuga das pessoas, a natureza voltou a conquistar o seu espaço, há animais selvagens à solta e vegetação abundante. Aconteça o que acontecer, a vida na Terra vai continuar. O mesmo não se poderá dizer da vida humana. "Não se trata de salvar o planeta mas de nos salvarmos a nós".

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