Centralia, a cidade norte-americana que arde desde 1962

Na década de 1960, uma pequena cidade mineira do estado norte-americano da Pensilvânia tornava-se notícia. Centralia sucumbia a um fogo que alastrava no seu subsolo em antigas galerias de minas de carvão. Volvidos perto de 60 anos esse mesmo fogo mantém-se na cidade moribunda, envolta em emanações tóxicas.

Quando em 2002 os serviços postais norte-americanos eliminaram o código-postal 17927, escreveram um novo, embora não derradeiro, capítulo na história de uma cidade que há décadas sucumbia ao fogo. Centralia, no estado da Pensilvânia, agoniza desde 1962 numa lenta combustão sobre minas de carvão. Assim permanecerá, de acordo com as estimativas, mais 250 anos, envolta em emanações tóxicas.

Centralia não é, contudo, uma cidade fantasma. Censos publicados em dezembro de 2019, referentes ao estado da Pensilvânia, arrumam a localidade na penúltima posição numa lista com 2097 lugares. Filadélfia encabeça a tabela com mais de um milhão e meio de habitantes. Emlenton vive no extremo oposto, com sete moradores. Segue-se-lhe Centralia com 11 almas. Longe das mais de 1500 contabilizadas na década de 1960. Então, a cidade que nascera em 1865 pela mão do engenheiro de minas Alexander Rae, fervilhava com a atividade mineira.

Nas últimas seis décadas, Centralia assistiu à demolição de mais de 600 construções, viu encerrar todas as atividades económicas e a quase totalidade da sua população deslocada. Em 1983, o Congresso dos Estados Unidos aprovava mais uma verba, desta feita 43 milhões de dólares, para o realojamento da população em localidades vizinhas. Na época permaneciam no lugar mil moradores. Estes, tal como as autoridades locais, tiveram de render-se à inevitabilidade: nenhum esforço se revelaria capaz de extinguir o fogo subterrâneo em expansão nas dezenas de quilómetros de galerias sob a cidade. Desde então, uma área correspondente a 15 quilómetros quadrados exala continuamente fumos tóxicos.

Ninguém o previra, mas o destino futuro de Centralia seria lavrado na tarde de 27 de maio de 1962. O rastilho para o inferno futuro da cidade acendeu-se com a decisão municipal de queimar lixos no aterro sanitário. O local confinava com antigas galerias de minas de carvão. Uma colmeia letal que aguardava a chama do fogo para uma reação química em cadeia de início silencioso. A 29 de maio de 1962, o fogo que se julgava extinto no aterro, reacendeu-se para não mais ceder. Semanas volvidas, gases exalavam do solo em diferentes pontos de Centralia. Sob a cidade, o emaranhado de galerias, algumas com mais de um século, estava em chamas. A Estrada 61 que ainda hoje atravessa a localidade abateria mais de três metros. Vapor tóxico soltava-se de entre as pedras das calçadas. Chegado o inverno, a neve não vingava no solo aquecido. Alguns habitantes viam aí uma vantagem, com colheitas de tomates fora de época. Contudo, muitos começavam a desmaiar no interior das suas casas. Silenciosa, uma mistura tóxica de monóxido de carbono, dióxido de enxofre e pó de carvão respirava desde as sombras das caves.

O fenómeno de Centralia não é uma singularidade nos Estados Unidos, tão pouco à escala global onde, estima-se, a cada momento mais de mil destes fogos ardam em algum ponto do planeta. Na China, Índia, Sibéria, Alasca, regiões fadadas à mineração, eclodem chamas em minas, espicaçadas por causas diversas como a mão humana (Centralia é disto exemplo), raios provenientes de trovoadas, ações de mineração ou mesmo combustão espontânea. Monte Wingen, conhecido como "Burning Mountain", no estado de Nova Gales do Sul, Austrália, arde há seis mil anos. Tornou-se uma atração turística.

Ainda na década de 1980 os governos federal e estadual desistiam dos esforços de extinção do fogo sob Centralia. Volvidas quase seis décadas, a localidade mantém empedernidos residentes. De acordo com a "Data USA", plataforma norte-americana que reúne informação estatística, Centralia apresentou em 2019 um crescimento de 33,3% no que toca a população trabalhadora: quatro indivíduos, empregues na manutenção das poucas estruturas públicas que se mantêm no local.

Mais Notícias