Calor intenso associado a um maior número de suicídios

Estudo mostra que nos Estados Unidos e no México as taxas de suicídio aumentam em períodos de altas temperaturas. Em 2050, esse efeito do calor será comparável, ou poderá superar, ao de uma recessão económica

O calor em excesso, com as temperaturas acima da média durante os meses estivais, está associado a um aumento das taxas de suicídio. O alerta é de um grupo internacional de cientistas que analisou mais de quatro décadas de dados para os Estados Unidos e algumas regiões do México, e encontrou um aumento de suicídios de 0,7% nos Estados Unidos, e de 2,1% no México, sempre que a temperatura foi superior em um grau à média mensal.

No mundo mais quente aí vem, por causa das alterações climáticas, o aumento de suicídios associado a este fenómeno poderá mesmo superar o que é tradicionalmente causado por uma recessão económica, adverte a equipa liderada por Marshall Burke, da universidade de Stanford, nos Estados Unidos.

No estudo que publicam hoje na revista Nature Climate Change, os autores estimam que em 2050, se as emissões de gases com efeito de estufa se mantiverem como até aqui, a temperatura média do planeta sofrerá um aumento de, pelo menos, mais dois graus. Nesse cenário, avisam, o aumento anual de suicídios pode ser de quase 22 mil, na soma nos dois países considerados no estudo.

Calor e twitts

Há muito que se sabe que nos meses quentes, e especialmente em períodos de ondas de calor, se observa um aumento de violência e também de suicídios, mas estudar estes fenómenos, nomeadamente o último, não é propriamente fácil.

Para além do calor intenso propriamente dito, existem vários fatores de risco, como o aumento do desemprego, as recessões económicas ou até o número de horas de sol, que não são fácil descartar num estudo deste género.

Para isolar o fator calor de todos os outros e tentar perceber a sua concretamente a sua influência nesta questão, a equipa de Marshall Burke comparou os dados históricos, das últimas quatro décadas, das temperaturas e dos suicídios nos Estados Unidos e de algumas regiões do México.

Surpreendentemente, este efeito varia muito pouco com os níveis de riqueza ou de pobreza, ou com a habituação ao calor das populações

Paralelamente os investigadores analisaram cerca de 600 milhões de mensagens do Twitter, para avaliar se o calor em excesso afeta a saúde mental, contabilizando para isso o uso de expressões relacionadas com solidão, desespero ou ideias de suicídio, ao longo de todo o ano. E, ao analisar todos estes dados, o que os autores verificaram, até com alguma surpresa, foi que nas épocas de calor intenso, o suicídio tende a aumentar, independentemente de todos os outros fatores.

"Surpreendentemente, este efeito varia muito pouco de acordo com os níveis de riqueza ou de pobreza, ou mesmo com a habituação ao calor das respetivas populações ", sublinha Marshall Burke.

Um mundo mais quente

Segundo a equipa, os novos dados permitem agora apreender melhor o fenómeno do suicídio, mas, sobretudo, abrem a possibilidade de avaliar o impacto que as alterações climáticas poderão ter nessa questão."O suicídio", sublinha o líder do estudo, "é uma das principais causa de morte no mundo e, nos Estados Unidos aumentou de forma dramática nos últimos 15 anos, por isso, perceber melhor as suas causas é uma prioridade de saúde pública".

Não é que os dados mostrem que o calor é uma motivação direta para o suicídio, nada disso, notam os autores. O que sucede é que os dois fenómenos estão associados, como o trabalho agora demonstra, pelo importa antever cenários futuros no contexto das alterações climáticas, sublinham.

Numa primeira estimativa, com base nas observações e em modelos computacionais, o grupo de Marshall Burke já avança, aliás, alguns números. De acordo com os seus cálculos, o aumento da temperatura em 2050, no pior dos cenários climáticos, poderá aumentar as taxas de suicídio em 1,4% nos Estados Unidos e em 2,3% no Máxico. Números redondos, serão cerca de 22 mil suicídios mais anualmente, na soma de ambos os países.

"Há anos que se estuda os efeitos do aumento da temperatura nos conflitos e na violência e já percebemos que as pessoas entram mais em conflito quando está calor", explica Solomon Hsiang, da universidade da Califórnia, e coautor do estudo. "Agora verificamos que essa violência em algumas pessoas também é auto-dirigida", conclui.

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