"Bergie Seltzer", a derradeira música na vida de um iceberg

No seu ato final, os icebergs entoam um lamento efervescente, semelhante ao que escutamos dentro de um copo de água carbonatada. Tem nome a canção antiga dos gelos: "Bergie Seltzer". Um termo que vai buscar batismo a uma centenária marca de água alemã.

Em 2006, um fatigado iceberg com 18 quilómetros de extensão, elevado 37 metros acima da superfície do Oceano Pacífico, passava a 60 quilómetros ao largo da Nova Zelândia. A massa de gelo proveniente da Antártida, mantinha-se há seis anos vigiada por satélites.

Doze anos volvidos, as águas atlânticas, próximo às meridionais ilhas da Geórgia do Sul, davam mar a outra massa de gelo que prosseguia impassível a sua viagem oceânica para latitudes a norte. A unir os dois icebergs, apartados dez mil quilómetros e com um calendário desfasado de mais de uma década, estava o seu berço comum. Em março de 2000, o mundo recebia a notícia do desprendimento do maior iceberg que a História tinha nos seus registos. A antártica plataforma de gelo de Ross, que ganhara lugar na cartografia em 1841 pela mão do oficial da marinha inglesa James Clark Ross, cedera ao oceano 11 mil dos seus 487 mil km2. O equivalente a subtrair a um território com a dimensão da França, um outro tão grande como a Jamaica.

Os gelos que as águas da Nova Zelândia e da Geórgia do Sul presenciavam eram a memória do Iceberg B-15, gigante de 295 quilómetros de comprimento e 37 quilómetros de largura, massa flutuante com triliões de toneladas de água doce. Em 2015, após vários colapsos, o B-15 ainda gerava prole. O B-15T, não obstante ser um fragmento da massa original, arrastava os seus 676 km2 ao largo do continente gelado.

Por perto de duas décadas o mundo assistiu à viagem de milhares de quilómetros do B-15, assim como recebia o anúncio em 2017 de um novo desprendimento de gelos antárticos. Desta feita, o A-68, com 5800 km2 e duas vezes a área do Luxemburgo, iniciava a sua viagem desde a plataforma de gelo Larcen, na península Antártica.

Dois Godzillas entre os icebergs, estruturas que não ultrapassam, em média, os 70 metros de altura (embora 90% da sua massa fique abaixo do nível do mar), com um peso de 200 mil toneladas.

Independentemente de quão musculados são, aos icebergs resta-lhes um destino comum, o de se extinguirem nas águas salgadas. Em média um processo de dois anos, embora dependendo de fatores como o de circularem em mar aberto ou manterem-se junto à costa. Um definhar de gelo que também se escuta.

Na sua etapa final, os icebergs "cantam". Entoam um som efervescente, semelhante ao embate insistente de chuva pesada nas ruas de uma cidade. "Bergie Seltzer", assim se designa a trova dos icebergs, uma reação de bolhas de ar, algumas com milhares de anos, que se libertam da sua prisão de gelo. Bolhas retidas entre as neves de séculos, comprimidas camadas após camada, em glaciares sob uma pressão que pode variar entre uma atmosfera e mais de 20 atmosferas. Facto primeiramente observado, ainda na primeira metade do século XX, por Peter Scholander, cientista de origem sueca, naturalizado norte-americano.

É neste processo de libertação de ar que reside o nome de batismo do canto dos icebergs. Uma efervescência a que todos já assistimos dentro do um copo de água carbonatada ou, preferindo-se a denominação, água com gás. Elemento líquido que não dispensa dióxido de carbono dissolvido, seja injetado artificialmente sob pressão, seja resultante de processos geológicos naturais. Aqueles que o subsolo de uma localidade alemã oferece ao Homem há milhares de anos. Selters, no estado de Hessen, exporta com fins comerciais a sua água mineral desde o século XVIII. Na época, a água com origem naquele território da Europa Central, trazia uma história de consumo humano desde a Idade do Bronze. Mais tarde, seria bebida apetecível entre os romanos.

Água carbonatada engarrafada que era resgatada ao mar Báltico em 2014, após duas centenas de anos nos lodos da baía de Gdańsk, no Norte da Polónia. Aí, uma equipa de arqueólogos polacos anunciava a descoberta de um navio naufragado. Entre os despojos encontrava-se uma garrafa de cerâmica de 30 cm com origem nas fontes termais de Selters. Estima-se que terá sido produzida entre 1806 e 1830.

Água engarrafada europeia que não escapou aos mercados norte-americanos. De tal ordem se generalizou o termo Selters que na década de 1950 haveria de se emancipar da marca que trazia desde a velha Europa para corresponder à generalidade das águas carbonatadas, apelidadas de seltzer water. Inquietude em forma de microbolhas que acabaria por nomear o canto final do coração destroçado dos icebergs.

Seltzer que também se colaria a uma invenção norte-americana da década de 1930, as pastilhas efervescentes para acalmar incómodos gástricos, ainda hoje comercializadas. Medicamento que tinha na sua versão inicial a finalidade de atenuar os efeitos das constipações. Um golpe de vendas de Andrew Hubbell Beardsley, proprietário de uma farmacêutica no estado do Indiana, que assentou a campanha de lançamento das suas pastilhas efervescentes que dispensavam prescrição médica numa pergunta: "quer perder o seu emprego?". No mesmo anúncio, a resposta para o absentismo laborar encontrava-se dentro de um copo de água buliçosa.

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