A vacina da gripe comum não atinge mais do que 50% de eficácia

Mutações do vírus não têm permitido melhorar a eficácia das vacinas contra uma doença que todos os anos mata cerca de 600 mil pessoas.

Os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que todos os anos a gripe atinge 10% a 20% da população mundial, sendo responsável por até cinco milhões de casos de doença grave anualmente e por cerca de 650 mil mortes, apesar de ser uma "doença desvalorizada". Há dois anos, quando a covid-19 ainda não era a doença que ocupava os noticiários, o vírus da gripe matou, só em Espanha, cerca de 15 mil pessoas e levou ao internamento de 52 mil. Em Portugal, na mesma altura, o número de mortos devido à gripe foi de cerca de três mil.

Estes números mostram bem a dificuldade que existe em produzir uma vacina eficaz contra este tipo de vírus. Num ano bom, diz o El País, a vacina contra a gripe protege entre 50% e 60% de quem a recebe. Em 2018, apenas atingiu os 25% de eficácia.

O vírus da gripe é um vírus elusivo, muito variado e com mutação rápida, algo que lhe permite escapar ao sistema imunológico humano e às vacinas que são criadas todos os anos. A vacina da gripe convencional tem duas grandes proteínas, a hemaglutinina e a neuraminidase. Com as mutações do vírus, estas proteínas vão sendo alteradas e os nossos anticorpos não reconhecem o novo vírus que aparece todos os anos.

Um artigo publicado na revista Nature nesta semana mostra os esforços de um grupo de investigadores liderados por Ali Ellebedy, da Washington University em St. Louis (EUA), para entender por que mais pessoas não estão a ficar imunizadas e quais podem ser as estratégias para melhorar a eficácia das vacinas. Um dos fatores pode ser precisamente a exposição anterior a um vírus tão comum quanto a gripe. Em pessoas que já antes foram infetadas com outras estirpes, a vacina, que é projetada a cada ano para proteger contra as versões da gripe que são consideradas as mais comuns naquela estação, aumentaria a resposta do sistema imunológico a essas infeções anteriores e não contra novas estirpes.

À procura de vacinas mais eficazes, os autores deste estudo analisaram os linfonodos, estruturas que funcionam como centros de treino dos linfócitos B. Os vírus carregam para lá outras células do sistema imunológico, e esses linfócitos geram anticorpos para combater a infeção. Assim que o nosso corpo entra em contacto com um patógeno, ele guarda essa memória para responder mais rapidamente num eventual contacto posterior. Isso geralmente é bom para infeções mais leves, mas pode tornar a vacina menos eficaz. "Se a nossa vacina contra a gripe tiver como alvo essas células de memória, essas células responderão às partes do vírus que não mudaram desde as estirpes anteriores", explicou Ellebedy num comunicado. "O nosso objetivo é concentrar a resposta imunológica nas partes do vírus que são diferentes a cada ano", acrescentou.

Os autores testaram uma nova vacina com oito voluntários que já tinham sido inoculados com a profilaxia da gripe na temporada 2018-2019. Na maioria dos casos, a vacina desencadeou a resposta de linfócitos B já treinados por vacinas anteriores, mas apenas em três dos pacientes houve um treino específico de novos linfócitos B como resposta às novas estirpes. "O nosso estudo mostra que a vacina contra a gripe pode provocar uma resposta em ambos os tipos de células nesses centros germinativos, mas não sabemos com que frequência isso acontece", disse Ellebedy, que aponta esses nódulos linfáticos como um lugar-chave para melhorar a percentagem de pacientes que acabam protegidos por vacinas contra a gripe.

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