"A pressão está agora no Norte, mas Lisboa e Vale do Tejo também terá o seu momento"

O pneumologista Filipe Froes diz que o facto de o Norte estar agora com mais casos não significa que seja um problema só daquela região, "é um problema do país", porque "indiscutivelmente chegará a outras áreas urbanas", nomeadamente a Lisboa e Vale do Tejo.

A região Norte passou este sábado a barreira dos dois mil casos diários com 2212 pessoas positivas à covid-19 nas últimas 24 horas. Tem sido a região com maior pressão e risco de contaminação nos últimos dias. Tem três concelhos, Felgueiras, Lousada e Paços de Ferreira, que não estão em confinamento ou em cerca sanitária, mas que seguem orientações restritivas das autoridades de saúde, para que haja pouca mobilidade dentro dos concelhos e nenhuma para fora das fronteiras locais, a não ser a que é mesmo imprescindível.

Os níveis de transmissão comunitária são muito elevados nestes concelhos e os números da região começaram logo no início da semana a mostrar o que se estava a passar, ultrapassando os números registados na região de Lisboa e Vale de Tejo, até aí a que congregava mais casos por dia de infeção.

Na quarta-feira, quando o país passou os três mil casos, o Norte era a região com mais casos mas não chegou aos dois mil, mas este sábado ultrapassou esta barreira.

O pneumologista Filipe Froes, também coordenador do Gabinete de Crise à covid-9 da Ordem dos Médicos, explicou ao DN que o problema não está no Norte, nem é só do Norte. "Quando há atividade viral numa região, o problema é de todos, ou seja do país todo", sublinhando: "Agora, há maior pressão no Norte, mas a região de Lisboa e Vale Tejo também terá o seu momento".

"Indiscutivelmente que esta tendência de subida irá atingir também outros centros urbanos".

O médico especifica que a situação está mais forte no Norte neste momento e que se deverá manter assim por mais tempo. "O Norte tem características sociais e geográficas diferentes do Sul", mas "indiscutivelmente, que esta tendência de subida irá atingir também outros centros urbanos".

Na primeira fase da pandemia, a região Norte foi a primeira a sentir os efeitos do Sars-CoV-2, o vírus veio de Itália, uma mutação muito forte - como já o afirmaram já perceberam os virologistas - que se alastrou pela região, desceu até ao centro, onde se conseguiu travar um pouco, mas que ao fim de tempo chegou a Lisboa.

Pode dizer-se que o percurso do vírus nesta segunda fase será o mesmo. O Norte é o mais afetado agora porque "tem uma estrutura demográfica diferente de Lisboa e do Sul. Há um tecido social com mais famílias numerosas, mais relações familiares, com mais proximidade entre as pessoas. Não podemos esquecer que há ainda um grande tecido industrial com múltiplas empresas pequenas de cariz familiar".

"Somos um país pequeno, mas com grande mobilidade".

O que faz com que o risco de transmissão seja maior e que seja maior também a dificuldade em quebrar as cadeias de transmissão. "Começou no Norte, provavelmente manter-se-á durante algum tempo, mas o resto do pais também será atingido", reforça. "É uma questão de tempo, sobretudo na região de Lisboa e Vale do Tejo, que tem uma forte densidade populacional".

Numa altura que a Europa se vê a braços com a evolução da pandemia em larga escala, com Bélgica, Alemanha e República Checa a ultrapassarem os 15 mil casos diários, com Espanha a chegar quase a estes números, é normal que a transmissibilidade do vírus em Portugal faça o mesmo percurso.

" Somos um país pequeno, mas como muita mobilidade e não podemos olhar para a questão como sendo apenas um problema do Norte, não. É sempre de todos".

Questionado pelo DN sobre as medidas tomadas recentemente pelo governo que levam à proibição de ajuntamentos de mais de cinco pessoas, ao uso de máscara tanto em espaços fechados como públicos, até na rua, e por um período de 70 dias, à proibição de viajar entre concelhos do dia 30 de outubro ao dia 3 de novembro, para impedir viagens durante o período religioso dos Santos, Filipe Froes refere que estas medidas de três a quatro dias "têm muito pouco significado em termos de quebra da transmissão de atividade do vírus. É preciso mais tempo para estas medidas terem impacto. Ajudam, mas não resolvem o problema".

É expectável que o efeito das medidas agora aplicadas leve, no mínimo, entre 13 a 14 dias, até começarem a ter impacto. Até lá, é normal que o número de casos diários continue a subir, há mesmo matemáticos que apontam para os quatro e cinco mil casos nas próximas semanas.

"Mapas epidemiológicos devem ser feitos em todo o país".

O pneumologista e coordenador do Gabinete de Crise à Covid-19 da Ordem dos Médicos defende que o que é preciso agora é "termos cada vez mais informação a nível local para que sejam pensadas e definidas medidas para cada uma das regiões, medidas concretas e adequadas região a região".

Filipe Froes diz mesmo ser "totalmente a favor dos mapas de risco local, que estão a ser feitos na região do Norte, mas que devem ser feitos em todo o país. Até para percebermos com clareza o que cada região está a fazer e porquê; e o que outras regiões têm de aplicar para evitar o aumento da atividade".

O médico argumenta que "os mapas servem para dar clareza e coerências às medidas e para estimular a adoção de melhores práticas".

Neste sábado, dia 24, Portugal soma na totalidade 116 109 casos de infetados por covid-19 e 2297 mortes. O número de internados nas unidades de saúde e nos cuidados intensivos também continua a subir, mais 37 e 23 do que na sexta-feira, respetivamente.

O primeiro-ministro António Costa já veio dizer nesta manhã de sábado ser "prematuro colocar o país em estado de emergência", considerando que o estado de contingência em que estamos é o adequado.

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