2020. Será que mudamos de década?

É uma espécie de odisseia na polémica, que se repete ciclicamente. Quando muda a década: nesta passagem de ano ou na próxima? A matemática diz que é na próxima, mas os números redondos induzem em erro. A culpa será do zero - que não existia quando nasceu o Messias, e passámos a contar o tempo

Não sabemos se estes vão ser uns anos 20 tão loucos como os do século passado, mas há uma única certeza para o ano que começa dentro de poucos dias: a dúvida mantém-se. E as opiniões dividem-se, entre aqueles que assinalam a viragem da década já em 2020, ou aqueles que só começam a contá-la em 2021.

"A questão da comemoração é subjetiva", diz ao DN Adérito Araújo, professor na faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra, durante anos com responsabilidade na Sociedade Portuguesa de Matemática. Se assim é, não fará sentido olhar para a mudança de década como uma questão exata. O que queremos comemorar, afinal? "Se a ideia consiste em comemorar a data que corresponde às alterações de dígitos nas datas do calendário, devemos festejar este ano (de 2019 para 2020) pois, deste ano para o próximo mudam dois dígitos no calendário enquanto que na passagem de ano do próximo ano (de 2020 para 2021) apenas muda um. No entanto, se queremos comemorar a data em que passaram 2020 anos sobre o início da contagem (marcada pelo nascimento de Cristo), devemos comemorar a passagem de década no final do ano 2020".

Na verdade, a questão surgiu com veemência no final do milénio: deveríamos festejar a passagem do milénio no final de 1999 ou no final de 2000? "Se quiséssemos festejar a mudança de 4 dígitos no calendário (de 1999 para 2000) deveríamos ter festejado no final de 1999. Se quiséssemos festejar data em que se comemora a passagem de 2000 anos sobre o nascimento de Cristo, deveríamos ter festejado no final de 2000", acrescenta Adérito Araújo. O professor recorre com frequência a um exemplo simples, para explicar ao cidadão comum esta dúvida existencial da década: "imagine que o seu filho José tinha nascido no dia 25 de Dezembro de um determinado ano. Se o rebento se revelasse, anos mais tarde, o Messias, o seu primeiro ano de vida seria considerado o ano 1 DJ (depois de José), já o ano em que ele nasceu seria o ano 1 aJ (antes de José), pois na altura de Cristo ninguém conhecia o zero..." Sendo assim, a comemoração dos 10 anos aconteceria no final do 10. Se o rapaz tivesse nascido em 2010, só iria comemorar os 10 anos no final de 2020.

Adérito Araújo - que aqui fala sempre a título pessoal e subjetivo, recusando olhar matematicamente para a questão - admite que a confusão fica a dever-se "precisamente ao facto de não existir ano 0. Se assim fosse, podíamos dizer que o primeiro ano de vida do José seria o ano 0 e só começava o ano 1 quando ele completasse o primeiro aniversário. Continuando, ele comemoraria o seu segundo aniversário no final do ano 1, e comemoraria o seu segundo milénio de vida no final de 1999".

O professor recorda que a história do zero "é muito curiosa: A mentalidade positiva dos antigos gregos não podia conceber o nada como um número e muito menos distinguir o nada com um símbolo. Quanto a mim, a descoberta do zero ficará na história da cultura como uma das maiores descobertas do género humano", conclui. Quanto às comemorações, "devem ficar ao cuidado de cada um". "Pessoalmente, gosto das mudanças grandes e comemorei mais a passagem de 1999 para 2000 do que a de 2000 para 2001 (foi o meu lado folião a vencer o meu lado matemático). Cada um festeja o que gosta mais!"

O que diz o calendário gregoriano

O calendário gregoriano foi decretado pelo Papa Gregório XIII em 1582. Portugal foi um dos países que aderiu de imediato, numa época em que nem todos o fizeram. A Rússia, por exemplo, só começou a contar os inícios de cada ano (a 1 de Janeiro) a partir de 1917: a Revolução de Outubro que pôs um fim ao poder dos czars acontecera em Novembro. Assim, a passagem do tempo está cheia de polémicas, desde há muitas décadas, ou mesmo desde o século passado. Aconteceu de 2009 para 2010, mas na história recente a maior discussão verificou-se na viragem do milénio. Em 1999 muitos despediram-se do segundo milénio mas a passagem só viria a acontecer a 31 de Dezembro de 2000 - ano em que começou a primeira década do terceiro milénio.

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