Viriato Soromenho Marques

Viriato Soromenho Marques

A Arca de Noé 2.0

A reação na imprensa europeia à maior "catástrofe natural" na Alemanha do pós-guerra, provocada pelas alterações climáticas antropogénicas, é reveladora do ceticismo dos cidadãos perante o futuro, e a crescente perda de confiança nos governantes e na capacidade de o sistema político produzir verdadeiros bens públicos. O alerta de Benjamin Constant, em 1819, para os lóbis da riqueza que, em silêncio, chegam mais longe do que a voz dos eleitores, torna-se mais visível quando, como agora, tragédias evitáveis ocorrem.

Viriato Soromenho Marques

As duas faces de Napoleão

A pandemia atenuou a reflexão europeia sobre o legado de Napoleão no duplo centenário da sua morte, que se cumpriu no passado dia 5 de maio. Os franceses continuam a colocar o imperador no topo das preferências, ao lado de Luís XIV, de De Gaulle e de Joana d'Arc. Mas a aura de Napoleão é universal e complexa. Diria que talvez tenha sido Beethoven quem melhor tenha surpreendido as duas faces que convivem e se entrechocam na sua ação histórica. O grande compositor já tinha concluído a sua 3.ª Sinfonia, quando soube que Napoleão se havia coroado imperador em dezembro de 1804. Temos testemunhos escritos que ele pensara dedicar a sinfonia Heroica a Napoleão, tendo, num ato de fúria, rasgado essa dedicatória. Beethoven admirara o general republicano, defensor e difusor das ideias da Revolução Francesa. Detestava, contudo, o imperador de um Estado expansionista, que foi dos primeiros a sacrificar no altar do nacionalismo.

Viriato Soromenho Marques

'O Príncipe' na ilha da Páscoa

Quando analisamos as mudanças no sistema partidário seria prudente procurarmos os padrões e não inovações, mais aparentes do que reais. António Costa (A.C.) é claramente o político luso que nas últimas décadas mais estritamente segue as regras prudenciais expostas por Maquiavel para os governantes que querem conservar o seu lugar. O seu discurso tem a planura do campo tático, onde é o mestre incomparável. Não tem rugosidades utópicas nem tabus ideológicos. É um pragmático em estado puro, pronto a colaborar com toda a gente, à esquerda e à direita, desde que o interesse nacional e a continuidade governativa possam coincidir. Quando construiu a geringonça, nos tempos em que o diabo da austeridade parecia poder regressar para vingar qualquer erro, A.C. soube mudar o estilo mantendo a substância. A tal ponto que o seu ministro das Finanças foi alcandorado a chefe do Eurogrupo. Hoje, neste intervalo entre a pandemia e a presumível turbulência social que o fim das moratórias - combinado com o eventual regresso das regras europeias do tratado orçamental - tenderá a provocar, A.C. e o PS resistem, tenazmente, às mudanças no sistema partidário. Mesmo sem grande crescimento eleitoral, o PS poderá ganhar lugares no parlamento pela erosão que o Chega e a Iniciativa Liberal irão causar sobre o desmoralizado eleitorado do PSD.

Viriato Soromenho Marques

Uma união em negação

A política europeia parece cada vez mais embarcada na construção de efeitos especiais, apresentados como se fossem realidades objetivas, sendo isso servido por uma enfática apologia de "valores europeus" que, depois de retirada a espuma retórica, se verifica não passar de um exercício narcisista de autocomprazimento. A conduta política europeia constitui uma penosa recusa de enfrentar os riscos do futuro. Não se percebe como poderá surgir a lucidez e a coragem para os diagnosticar e combater, ou para os assumir como uma consequência inevitável da deliberada manutenção da UE nesta instável encruzilhada. Estagnámos entre o completar das reformas indispensáveis para democratizar e salvar a UE ou o assumir resignado do falhanço da integração europeia, com o turbulento e devastador regresso à balança do poder dos Estados nacionais.

Viriato Soromenho Marques

Nem sinal de tédio

Passaram mais de 30 anos sobre a publicação do famoso artigo de Francis Fukuyama na revista The National Interest (verão de 1989) onde se analisava e advogava um radioso "fim da história" para a humanidade. Ele traria a plena realização das possibilidades evolutivas da nossa espécie, coincidindo com uma economia liberal completamente globalizada. Seria um mundo onde o desejo consumista dos cidadãos obrigaria os Estados iliberais, seguindo o exemplo do governo comunista chinês da altura, a adotar os princípios da economia de mercado.

Viriato Soromenho Marques

A espada que fere a luz

Os ataques mais corrosivos à credibilidade da ciência não nasceram com a pandemia de covid-19. Há três anos, a federação das academias europeias de ciência, ALLEA, debateu a complexidade do problema, que está longe de ser redutível à dicotomia positivista entre verdade e ignorância. Numa sociedade onde "a mentira organizada" é um ramo de negócio - como escreveu Hannah Arendt em 1967 -, muitas campanhas para descreditar os esforços científicos sérios são efetuadas através de uma malévola manipulação, que, por exemplo, visa desmobilizar a opinião pública e os Parlamentos contra ameaças à saúde pública causadas por atividades industriais.

Opinião

A estirpe portuguesa

Na quinta-feira, Portugal ultrapassou a Suécia em número de mortos (11 608 contra 11 520). Quando terminou o primeiro confinamento geral, eu fazia parte dos portugueses que se sentiam confortáveis pelo país não ter apostado na estratégia da "imunidade de grupo", que, na altura, se traduzia numa mortalidade sueca mais de três vezes superior à portuguesa. Hoje, quando Portugal apresenta números de contágios e de mortos que desenham curvas exponenciais semelhantes a mísseis balísticos prestes a sair da atmosfera, parece que Portugal assumiu afincadamente a opção de expor a sua população ao vírus, não esperando pelas vacinas. Só entre sábado (23) e quinta-feira (28), em apenas seis dias, somam-se 1688 mortos.

Viriato Soromenho Marques

Na vertigem da desrazão

Escrevo na pior fase, até agora, da crise pandémica mundial. Portugal é agora um trágico campeão. A contar, não a partir de cima, do sítio onde se vislumbra o céu, mas a partir do fundo, do temível lugar de baixo onde todas as culturas milenares situam o inferno. Nos próximos 40 dias poderemos perder tanta gente para a covid-19 como o número de soldados que morreram em 13 anos de guerras ultramarinas. Afinal, este "vírus bonzinho" continua a semear morte e miséria e a deixar muitos líderes políticos, que julgavam ter o assunto resolvido com as vacinas e a propaganda, a fazer pagar aos seus povos o preço da tóxica combinação de ignorância com arrogância.

Viriato Soromenho Marques

Duas tragédias da informação

No dia 8 de janeiro de 1815, as tropas britânicas que investiam contra Nova Orleães sofreram a sua mais pesada derrota nessa segunda guerra entre os EUA e a sua antiga potência imperial. Um conflito que os historiadores norte-americanos designam como a "Guerra de 1812". Embora seja sempre discutível, filosoficamente, falar na utilidade das guerras, a verdade é que nessa batalha os milhares de vidas perdidas ou mutiladas foram-no em vão. No dia 24 de dezembro de 1814, na cidade de Gante, a delegação de diplomatas enviada por Washington à Europa, em que pontificava o futuro presidente John Quincy Adams (1767-1848), conseguira chegar a um tratado de paz com os seus homólogos britânicos. Na altura, a informação viajava à velocidade do cavalo e do veleiro. A notícia de que a guerra havia terminado só chegou depois do fútil sacrifício no Louisiana.

Opinião

Os Estados Unidos da América no pensamento de Eduardo Lourenço

Esta sexta-feira, realiza-se um Webinar sobre o tema "Eduardo Lourenço: A Arte do Pensamento". A iniciativa, há muito planeada, ganha uma triste actualidade em virtude do recente desaparecimento do grande pensador. Por ocasião desta conferência, é também lançado o número 16 da revista Iberografias, Revista de Estudos Ibéricos, coordenada por Rui Jacinto e editada pelo Centro de Estudos Ibéricos (CEI), sediado na Guarda, de que Eduardo Lourenço foi mentor, patrono e director honorífico. A revista contará como oradores, os autores que contribuem para este número da revista. Entre eles, encontra-se Viriato Soromenho-Marques, que aqui partilha com os leitores do Diário de Notícias o seu texto sobre as representações dos EUA no pensamento de Eduardo Lourenço.