Viriato Soromenho Marques

Viriato Soromenho Marques

Os donos disto tudo

Em junho próximo, na cidade sueca de Kiruna, um balão elevar-se-á até à altitude estratosférica de 20 quilómetros. Será a primeira etapa de um programa de geoengenharia da Universidade de Harvard, financiado pelo bilionário Bill Gates. O projeto é designado pelo acrónimo SCoPEx, que pode ser traduzido para português como "experiência de perturbação estratosférica controlada". Em linhas gerais, o que se pretende é disseminar partículas não tóxicas de carbonato de cálcio (CaCO3) para avaliar a sua capacidade de diminuir a radiação solar absorvida pela atmosfera, tentando desse modo indireto contrariar o processo de aquecimento global.

Viriato Soromenho Marques

De excomungado a reformador

No terceiro dia do ano, completou-se meio milénio sobre a excomunhão de Lutero (1483-1546), num processo de golpe e contragolpe, entre o jovem clérigo alemão e o papado, iniciado em 1517 com o ataque público e publicado do primeiro às Indulgências. Prosseguindo com a total pulverização do mapa teológico-político da Europa, na sequência da transformação desse protesto individual em Reforma Protestante (escrevi sobre isso no DN de 01.11.2017). O triângulo do universalismo medieval (uma religião, um Papa, um Imperador) há muito que escondia um vulcão à espera de entrar em erupção. Em 1511, Erasmo (1466-1536) tinha oferecido a um círculo restrito e ilustrado de leitores, o Elogio da Loucura, em que a natureza "humana, demasiado humana" do clero cristão era denunciada com mordacidade.

Viriato Soromenho Marques

Portugal no seu labirinto

No verão de 1881, a recém-criada Sociedade de Geografia (1875) promoveu uma expedição de 42 cientistas e estudiosos de várias formações à serra da Estrela. O grupo partiu de Santa Apolónia, estando a sua aventura bem documentada nas páginas do Diário de Notícias da época. Dez anos antes, já Antero de Quental, nas Conferências do Casino, denunciara o impacto das "conquistas longínquas", não só no despovoamento do país como no nosso profundo desconhecimento acerca do nosso território.

Viriato Soromenho Marques

A política de Gonçalo Ribeiro Telles

Em novembro de 1967, Gonçalo Ribeiro Telles (GRT) deu-se a conhecer publicamente durante a comoção nacional das grandes cheias do Tejo, que ceifaram a vida a mais de 500 pessoas. A abrupta emergência enfraqueceu a censura. Só isso explica que GRT tivesse tido oportunidade de falar na RTP. Em vez de um flagelo inexplicável da natureza, aquela tragédia passou a estar associada a erros e escolhas humanas que destruíram a protetora vegetação ripícola da margem dos cursos de água, e à construção desordenada em cima de solos de leito de cheias.

Viriato Soromenho Marques

Pandemia e hierarquia de valores

Se o SARS-CoV 2 fosse uma arma, seria quase perfeita. A arma mais eficaz não é a mais letal, mas aquela que causa mais feridos de longa duração, que sobrecarrega as estruturas logísticas e hospitalares, que semeia o medo e a discórdia, que diminui a capacidade de luta através da entropia e desmoralização da sociedade. É exatamente o que estamos a observar - de modo ainda mais refinado do que na primavera - nestes primeiros passos da segunda vaga da covid-19. Estamos num momento de encruzilhada em toda a Europa. Seria conveniente analisarmos dois "pontos cegos" fundamentais no modo como encaramos o que está a acontecer. A sua elucidação poderá ajudar-nos, como cidadãos, a fazer um juízo crítico e a agir em conformidade. O primeiro aspeto negligenciado prende-se com a falta de humildade de muitas das opiniões e críticas à ação dos governos. É claro que os governos devem ser escrutinados e criticados, o que é inadmissível é o caudal de críticas insensatas, vindas também de peritos, que arrogantemente escamoteiam a colossal ignorância que ainda temos sobre este novo coronavírus. Recordo a ligeireza como alguns especialistas se têm atrevido a prometer vacinas para datas próximas, mantendo-se imperturbáveis perante o número crescente de testes que são interrompidos por efeitos indesejáveis na saúde dos voluntários. Ou ainda a sobranceria como responsáveis de saúde pública falam em "imunidade de grupo", para justificar os erros grosseiros cometidos, por exemplo, pelas autoridades de saúde suecas. O outro pressuposto inconsciente, que tem gerado muitos equívocos, é a recalcada necessidade de reconhecer a existência de uma hierarquia de valores nas políticas de combate à covid-19. Nas novas medidas propostas pelo governo - de tornar obrigatório o uso de máscaras em mais locais, assim como o download da aplicação StayAway Covid - importa ter em conta que os direitos de privacidade, devendo ser salvaguardados, têm, contudo, um peso inferior ao do direito à vida, sobretudo quando este depender da capacidade de evitar a propagação da doença. A questão correta é a de saber se essa aplicação tem ou não eficácia, mesmo depois de ser universalizada (o que parece não estar ainda esclarecido). O desprezo pelo direito à vida tem unido uma frente bastante insólita e disparatada que vai de Trump e Bolsonaro a intelectuais de "esquerda", como Giorgio Agamben. Para Trump, a vida dos mais frágeis não pode parar o curso normal dos negócios. Para Agamben, só um Leviatã tirânico seria capaz, para salvar a "vida nua" dos cidadãos, de os confinar compulsivamente... Os Estados europeus estão a devolver à autodisciplina dos cidadãos a tarefa de evitar novo confinamento. Trata-se de conciliar a liberdade individual com a responsabilidade que, em tempos pandémicos, cada um tem pelo direito à vida de todos os outros. Se as democracias europeias falharem na defesa da vida, todos conhecemos como abundam autoritarismos que a prometem salvar, em troca do sacrifício de todos os outros direitos que a tornam digna de ser vivida. Professor universitário

Viriato Soromenho Marques

Duas lições de Vénus

Causou sensação mediática a revelação da descoberta da molécula fosfina na atmosfera de Vénus, por parte de uma equipa multidisciplinar de cientistas. Contudo, mais do que uma descoberta, trata-se da identificação de uma hipótese: a fosfina poderia (falta prová-lo) ser um indicador da existência em Vénus de micro-organismos elementares, capazes de sobreviver sem oxigénio. Sem retirar valor à nova hipótese, julgo que ela vale, sobretudo, por duas outras razões que ficaram ausentes das notícias: a constatação da imensa solidão humana no universo e o que Vénus já nos ensinou sobre o futuro da Terra.

Viriato Soromenho Marques

A arte do distanciamento

Em 1931, M. Ghandi visitou o Reino Unido para participar em negociações sobre o futuro da Índia. A reunião falhou, mas Gandhi deixou uma marca duradoura na opinião pública britânica, pela cordialidade, pela agudeza e pelo humor da sua inteligência. Dada a sua relutância em falar para microfones, muitas das declarações que lhe são atribuídas não podem ser confirmadas. Há uma de que gosto particularmente. Interrogado por um jornalista - certamente possuído por uma convicção inabalável da superioridade europeia - acerca do que é que pensava sobre a "civilização ocidental", Gandhi terá respondido: "Penso que seria uma boa ideia."

Viriato Soromenho Marques

Sábado, 22.08.1914

Sangue, sangue, há de chegar a beber-se sangue no chão - rezam os vaticínios." Com estas palavras encerrava Aquilino Ribeiro a sua entrada de 22 de agosto de 1914, num diário que daria origem à sua obra É a Guerra (Livraria Bertrand, 1958). O escritor português, vivendo nessa altura em Paris, com a sua mulher alemã e o seu filho de tenríssima idade, descreve as primeiras semanas de guerra a partir da capital francesa, antes de procurar abrigo seguro para a sua família em Portugal. Aquilino descreve, quase como um cientista elaborando um protocolo laboratorial, a vertiginosa transição química das almas de uma época de paz e narcisismo europeu para uma era que incendiou a Europa, até 1945, no holocausto dos ódios nacionalistas. Desde Waterloo (1815) que os europeus não testemunhavam nenhuma guerra europeia generalizada (as campanhas prussianas de 1864 a 1870, contra a Dinamarca, a Áustria e a França foram breves e cirúrgicas). Os europeus limitavam-se a refregas menores contra povos colonizados na África e na Ásia, sem capacidade militar para poderem rivalizar com o seu poderio tecnológico. Há exatamente 106 anos, a França sofreu o maior número de mortos militares num só dia de batalha da história moderna. Na abertura da ofensiva do Somme, em 1 de julho de 1916, os britânicos perderiam perto de 20 000 homens. No início da sua grande ofensiva de primavera de 1918 (a Kaiserschlacht, iniciada a 21 de março), a Alemanha sacrificaria quase 11 000 soldados. Nesse tórrido 22 de agosto de 1914, numa frente ampla nas zonas fronteiriças da França com a Bélgica e a Alemanha, Paris perderia 27 000 militares. Nesse dia, decidiu-se a derrota francesa na chamada Batalha das Fronteiras, mas o mais impressionante é o recalcamento que ainda persiste na historiografia da Grande Guerra (e não só da francesa), privando esses mortos do direito à memória do seu sacrifício absurdo.

Opinião

O Portugal de Orlando Ribeiro tem gente dentro

Nos escritos e declarações sobre a estratégia de recuperação de Portugal, nota-se uma profunda ausência não só das ciências ambientais modernas como dos contributos fundamentais da geografia clássica, para saber do que se fala quando se escreve o nome de Portugal. A visão mais integradora da geografia portuguesa, entendida na sua multiplicidade de aspetos, do relevo à biogeografia, passando pela caracterização cultural das suas populações, está hoje acessível nas obras de grandes mestres, de entre os quais sobressai Orlando Ribeiro (1911-1997) e a sua obra-prima Portugal. O Mediterrâneo e o Atlântico (1945), sobre o território continental português.

Viriato Soromenho Marques

Limites do futuro possível

A anunciada Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica e Social de Portugal 2020-2030, da autoria de António Costa Silva (ACS), está já disponível. Apesar de censurável, a ideia do primeiro-ministro de pedir a um só autor uma obra desta envergadura - levando para o desenho das políticas públicas a síndrome lusa do sebastianismo -, a verdade é que o plano, tanto na sua força como na sua fragilidade, é um oásis de relevância no deserto de trivialidades da política nacional. Refletindo a experiência profissional de ACS, o plano olha o país como um estaleiro de obras - atuais e possíveis. Mobilizando um vasto cabedal de informação, o plano traça cenários e desígnios ambiciosos, para fazer da crise pandémica uma oportunidade que não pode ser perdida. Ressalta em cada página um dinamismo de demiurgo e um otimismo prometeico invencível.