Viriato Soromenho Marques

Viriato Soromenho Marques

A conferência do casino de Marcelo

Se a qualidade de um discurso político puder contar como um indicador da saúde de um regime, então durante os 20 minutos da alocução do Presidente da República nas comemorações do 47.º aniversário do 25 de Abril, Portugal terá sido a mais robusta democracia europeia. O discurso presidencial, sem nunca perder o registo de aparente transparência, é denso, polissémico, combina teses, hipóteses interpretativas, sugestões metodológicas, que irão permanecer para além do contexto que o viu nascer.

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Razão e preconceito

Numa notável crónica, Daniel Deusdado demonstrou de modo fundamentado e convincente a insensatez da insistência em construir na Margem Sul qualquer aeroporto complementar ao da Portela (DN, 07 03 2021). Mesmo antes da pandemia, todo este processo - que agora ainda fica mais desfocado com o ressuscitar da falsa opção entre Montijo e Alcochete - estava à partida programado para dar um resultado favorável, independentemente dos fortíssimos factores contrários: as irregularidades no processo de avaliação ambiental (tanto na vertente da protecção da biodiversidade como dos impactos das alterações climáticas); a falta de objectividade do Ministério do Ambiente; as objecções dos representantes dos pilotos sobre os enormes riscos colocados à segurança de aeronaves e passageiros; uma análise custo-benefício irrealista...A vida vai-nos ensinando o limite dos bons fundamentos, face à teimosia de motivos tão poderosos que dispensam a razoabilidade argumentativa.

Viriato Soromenho Marques

Pode alguém ser quem não é?

Não é possível fingir ser-se quem não se é durante muito tempo, face a uma realidade extrema. Isto vale tanto para os indivíduos como para as instituições. A pandemia é uma forma aguda de realidade extrema. Oscilante, intensamente desconhecida (apesar dos avanços científicos), criativa nas suas metamorfoses, "visando" incrementar o seu sucesso na contaminação planetária, e dotada de uma durabilidade indeterminada, mas claramente superior à resiliência psicológica média do habitante urbano do século XXI. O impacto da pandemia sobre os indivíduos, não falando das vítimas mortais, terá custos ainda difíceis de estimar. Todavia, com mais ou menos danos e sequelas, a força vital que existe em cada um de nós impele-nos para nos reerguermos e seguirmos os nossos caminhos. Já o impacto da pandemia sobre o comportamento do Estado como um todo, ou declinado a partir de cada um dos seus poderes, poderá ter consequências exponencialmente mais graves. Quando um indivíduo perde o controlo sobre os seus atos, acidentes podem acontecer. Quando um governo calibra a sua política em função da fantasia e não da monitorização atenta do mundo real, os resultados trágicos ocorrem.

Viriato Soromenho Marques

De excomungado a reformador

No terceiro dia do ano, completou-se meio milénio sobre a excomunhão de Lutero (1483-1546), num processo de golpe e contragolpe, entre o jovem clérigo alemão e o papado, iniciado em 1517 com o ataque público e publicado do primeiro às Indulgências. Prosseguindo com a total pulverização do mapa teológico-político da Europa, na sequência da transformação desse protesto individual em Reforma Protestante (escrevi sobre isso no DN de 01.11.2017). O triângulo do universalismo medieval (uma religião, um Papa, um Imperador) há muito que escondia um vulcão à espera de entrar em erupção. Em 1511, Erasmo (1466-1536) tinha oferecido a um círculo restrito e ilustrado de leitores, o Elogio da Loucura, em que a natureza "humana, demasiado humana" do clero cristão era denunciada com mordacidade.

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No espelho da Torre Bela

O genial marquês de Condorcet (1743-1794) foi autor, durante a Revolução Francesa, da primeira Lei de Instrução Pública universal alguma vez escrita. Nela podemos ler: "A piedade para com os animais possui o mesmo princípio que a piedade para com os homens." A crueldade para com os animais indica alguém vil, perto de quem será prudente nunca baixar a guarda. Uma das imagens mais chocantes do "massacre" da Torre Bela é a de uma criança ao lado de um adulto, presumivelmente seu pai, no meio de uma sinistra paisagem juncada de animais abatidos. Veados, gamos e javalis que foram chacinados, sem hipótese de fuga, contra os muros da herdade.

Viriato Soromenho Marques

Faltam adultos na sala

O que define a maturidade é a capacidade de assumir responsabilidades. Em especial, a responsabilidade de garantir um futuro individual e coletivo o mais seguro que seja possível. Isso significa saber identificar, diagnosticar e combater, atempadamente, as ameaças à viabilidade desse futuro. À luz desta definição de maturidade a nossa época não tem nota positiva. Vivemos mergulhados numa cultura de imaturidade perante os imensos desafios existenciais globais. Paralisados por uma espécie de sonambulismo moral, parecemos incapazes de alinhar consequentemente palavras e atos, conhecimento e ação.

Viriato Soromenho Marques

A política de Gonçalo Ribeiro Telles

Em novembro de 1967, Gonçalo Ribeiro Telles (GRT) deu-se a conhecer publicamente durante a comoção nacional das grandes cheias do Tejo, que ceifaram a vida a mais de 500 pessoas. A abrupta emergência enfraqueceu a censura. Só isso explica que GRT tivesse tido oportunidade de falar na RTP. Em vez de um flagelo inexplicável da natureza, aquela tragédia passou a estar associada a erros e escolhas humanas que destruíram a protetora vegetação ripícola da margem dos cursos de água, e à construção desordenada em cima de solos de leito de cheias.

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Escancarar a porta do Supremo Tribunal

Na altura em que escrevo, os resultados eleitorais nos EUA inclinam-se, embora timidamente, a favor de Joe Biden. Contudo, mesmo que isso se concretize, tudo indica que até à reunião do Colégio Eleitoral em 14 de dezembro, a vitória final será disputada duramente. Estado a estado, nos tribunais e, esperemos que não de forma sangrenta, nas ruas. Donald Trump é uma catástrofe moral, mas, simultaneamente, uma figura carismática e ardilosa para além das fronteiras do inconcebível. Ele preparou bem o seu plano de batalha eleitoral, e arregimentou meticulosamente os seus sequazes para esta estratégia. Ele está pronto a sacrificar o pouco que vai restando da credibilidade, que se pretendia exemplar, da democracia representativa norte-americana no altar do seu narcisismo patológico. Quinta-feira, ao final do dia, Trump fez um discurso a partir da Casa Branca, violento e repetitivo como lhe é habitual. Todavia, a gravidade das acusações foi servida com uma invulgar frieza de atitude. Trump sabe para onde quer ir.

Exclusivo

Viriato Soromenho Marques

Rostos e máscaras

Há quinhentos anos vivíamos na alvorada, já em tons rubros vincados, da modernidade. Uma amizade entre dois homens geniais e dotados de um enorme poder de influência sobre a sua época - Erasmo (1466-1536) e Thomas More (1478-1535) - produziu duas obras que representam, em registos bem diversos de lucidez, esse tempo em que a Europa se agigantava para unificar o planeta inteiro sob a batuta de uma nova racionalidade. E isso por todos os meios: da espada e da palavra; da tecnologia e do comércio. A meio milénio de distância, a grandeza dessas figuras pode ser vista com maior amplitude, pois o nosso ponto de observação, mergulhado agora nas cores rubras do crepúsculo, é-lhes inteiramente tributário. No Elogio da Loucura, escrito por Erasmo em 1509, durante uma das suas visitas à casa de More, registamos não apenas uma amarga sátira de uma sociedade europeia atravessada ainda entre o medievalismo e a modernidade, mas constitui também um balde de água fria lançado sobre algum excesso de otimismo antropológico, cultivado precisamente pelas escolas de pensamento em que tanto Erasmo como More se filiavam. Em 1516, foi a vez de o pensador e político inglês se imortalizar através da ficção filosófica Utopia. Para o público do tempo, esta obra cheia de labirínticas significações, foi lida como um manifesto de futuro, tendo como núcleo a narrativa de Rafael Hitlodeu, um navegador português. More, também político atento, não poderia ficar indiferente ao sulcar luso de mares desconhecidos. Ele escreveu o seu livro enquanto Afonso Albuquerque (1452-1515) fazia a Europa regressar à Índia, desta vez para ficar longamente, ao contrário da breve passagem de Alexandre Magno, 18 séculos antes. Erasmo e More eram também homens do mundo. O primeiro era solicitado não apenas pelos inúmeros admiradores em toda a Europa (como o nosso Damião de Góis), mas pelo papado e pelas cabeças coroadas. O segundo chegaria a chanceler de Henrique VIII. Cada um à sua maneira, procuraram evitar a rutura da Europa, num processo que se iniciaria, teologicamente, com a reforma luterana, e se prolongaria, politicamente, com os Estados nacionais e os seus virulentos surtos bélicos. Erasmo simpatizava com muitas das críticas de Lutero à Igreja, mas abominava uma solução que iria replicar na cristandade o sangrento ódio islâmico entre sunitas e xiitas. More, por seu turno, acabaria decapitado por ordem de Henrique VIII. Demonstrou com o sacrifício supremo que a integridade da consciência de um homem livre não pode ser conquistada pela espada do soberano. Os séculos vertiginosos que se seguiram acabariam por fusionar os títulos das obras desses homens que se ergueram à condição de rostos da sua época. Hoje, a utopia realizou-se numa desmesura económica e tecnológica que parece ter ultrapassado as fronteiras da loucura. Talvez por isso, na imensa distopia quotidiana em que habitamos, os rostos não conseguem ganhar nitidez. Transformam-se em imprecisos esquissos e máscaras fugidias. Professor universitário

Viriato Soromenho Marques

A arte do distanciamento

Em 1931, M. Ghandi visitou o Reino Unido para participar em negociações sobre o futuro da Índia. A reunião falhou, mas Gandhi deixou uma marca duradoura na opinião pública britânica, pela cordialidade, pela agudeza e pelo humor da sua inteligência. Dada a sua relutância em falar para microfones, muitas das declarações que lhe são atribuídas não podem ser confirmadas. Há uma de que gosto particularmente. Interrogado por um jornalista - certamente possuído por uma convicção inabalável da superioridade europeia - acerca do que é que pensava sobre a "civilização ocidental", Gandhi terá respondido: "Penso que seria uma boa ideia."

Viriato Soromenho Marques

Uma candidata, duas virtudes

Embora me tenha encontrado com Ana Gomes, em várias ocasiões públicas, nunca tive oportunidade de travar com ela uma conversa que possa considerar de âmbito pessoal. Por isso, a breve reflexão que aqui partilho com os leitores não é perturbada por nenhum laço de amizade. Confesso, também, que depois do falecimento inesperado de seu marido, o embaixador António Franco, apostaria na maior probabilidade da sua recusa de uma candidatura presidencial, hipótese que pairava no ar há já vários meses. Enganei-me. Ana Gomes é candidata. É fácil perceber o desconforto que esta decisão parece estar a causar. Há quem precise de recalcular e torturar as palavras para dizer uma coisa e o seu contrário. Carlos César, assumindo o tipo ideal do militante partidário profissional, representa bem o desapontamento do primeiro perdedor com esta decisão de Ana Gomes: o aparelho do PS. Este gostaria que as semanas passassem mansas, se possível fechando as cortinas, até à reeleição de Marcelo. O que me interessa é perceber o que motivou Ana Gomes a passar da intenção aos atos. Não encontro melhor explicação do que a combinação de duas virtudes, no sentido que lhe confere a ética aristotélica: a escolha da conduta intermédia entre dois extremos, um excessivo e outro imperfeito. A primeira virtude é a da generosidade. Ana Gomes terá consciência de que é próxima do zero a probabilidade de poder ganhar as eleições de 2021 (é demasiado prematuro para especular sobre as de 2026). Marcelo, aliás, partilha com Ana Gomes o facto de ambos olharem do alto de uma montanha para o vale onde se estendem as suas áreas políticas de origem. Ana Gomes vai dar muito mais do que irá receber destas eleições. Irá contribuir para que o debate político se enriqueça, dignificando com isso a magistratura presidencial em disputa. Ela impedirá que a campanha seja uma excursão para Marcelo, entre os candidatos por obrigação, e o novel candidato que irá espargir o venenoso ódio racial como agenda para o país. Teremos também, com velado desgosto de muitos, os temas incómodos da corrupção, dos paraísos fiscais, da necessidade de escrutinar a execução do Plano de Recuperação, o imperativo de ter uma visão própria para o futuro europeu. Espero também que não seja esquecida a calamidade crescente da crise ambiental e climática. Ao longo de décadas, Ana Gomes tem estado, por vezes quase sozinha, do lado certo da ética, rompendo silêncios que lhe seriam convenientes: ao ser o rosto de Portugal na defesa do povo timorense, na denúncia da invasão do Iraque e dos crimes de tortura cometidos pelos EUA, na defesa de Rui Pinto, contra uma visão farisaica de justiça. Ana Gomes não ignora o ordálio de Freitas do Amaral, abandonado com as dívidas de campanha pelos "amigos" que o empurraram para a eleição de 1986. Contudo, recusando tanto a cobardia como a temeridade, ela avançou, mesmo sabendo os riscos financeiros e os incómodos pessoais de vária ordem de uma campanha independente. Inequivocamente, a segunda virtude de Ana Gomes é a da coragem. Professor universitário