Viriato Soromenho Marques

Viriato Soromenho Marques

Obediente a uma lei maior

O acolhimento do diplomata Aristides de Sousa Mendes no Panteão Nacional é um acontecimento cuja importância não pode ser reduzida a uma justa, mesmo que tardia, reparação da República para com um seu funcionário longamente ostracizado. Com efeito, o Estado português há muitas décadas beneficia do prestígio que a heroica desobediência do nosso cônsul em Bordéus, quando em junho de 1940, a escassos dias da capitulação da França perante a Alemanha hitleriana, em colisão direta com as ordens de Lisboa, decidiu emitir inúmeros vistos, em ritmo acelerado, que salvaram a vida a milhares de refugiados, sobretudo mas não exclusivamente judeus. Salazar poderia depois da guerra terminada, com um gesto que nem sequer feriria o culto do moderno ídolo da "razão de Estado", ter retirado o cônsul da situação de indigência material em que a sua expulsão da carreira pública o colocou. Teria sido um gesto que até beneficiaria o regime, mas pelos vistos iria causar uma brecha narcísica insuportável para o então presidente do Conselho. Foi apenas com Mário Soares, em 1987, que o Leviathan luso começou a emendar a mão.

Viriato Soromenho Marques

Males e remédios modernos

No passado, as tragédias aconteciam por falta de informação. Édipo não sabia que Jocasta era sua mãe, por isso casou-se com ela. Em 8 de janeiro de 1815, milhares de soldados ingleses e norte-americanos bateram-se em Nova Orleães, porque o navio que trazia a notícia da assinatura da Paz de Gand (24.12.1814) ainda não tinha chegado às costas dos EUA. Hoje, bem pelo contrário, o nosso problema é o excesso de informação. Desde a altamente qualificada, como é o caso das obras clássicas, que antes apenas podíamos consultar em bibliotecas de topo, e agora podemos descarregar displicentemente nos nossos computadores portáteis, mas sobretudo a falsa informação, construída por uma indústria da "mentira organizada". Ela usa os talentos da informática para envenenar as mentes com o vírus binário do tribalismo e do fanatismo, tal como na Primeira Guerra Mundial se recorria aos melhores professores de Química para a tarefa "patriótica" de fabricar os gases tóxicos que sufocariam até à morte os exércitos de adolescentes, que a loucura dos impérios imolou na guerra das trincheiras.

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A meio do caminho

A entrevista de Paulo Rangel ao programa Alta Definição, da SIC, deu merecidamente que falar. Penso que a maioria das pessoas que escutaram e visionaram o desempenho do eurodeputado ficou agradavelmente surpreendida. Quase sempre a capacidade dos nossos actores políticos para irem além do léxico que julgam dominar é muito escassa. Mesmo fora dos conhecidos casos de narcisismo hiperbólico, ou de falsa segurança ("nunca me engano e raramente tenho dúvidas"), outros protagonistas conjunturais acabam por usar o direito de reserva sobre a sua vida pessoal para justificar o silêncio, ou evasivas e estereotipadas efabulações. Fica mesmo a suspeita de que, quando se apagam os holofotes do espaço público, muitos dos decisores sobre a vida de todos nós, ao mergulharem dentro de si têm de levar um cantil bem cheio para não perecer na travessia do seu deserto interior.

Viriato Soromenho Marques

Na ferida mudez do mundo

Há muitas décadas, o Gerês era o cenário preferido para longas deambulações, sem preocupação com fronteiras políticas (muito antes da entrada de Portugal e Espanha na então CEE). Desta vez, as caminhadas foram para perto de Vieira do Minho. Recordo, particularmente, um percurso designado como "trilho dos moinhos do Ave", entre as aldeias de Lamedo e Agra. Uma paisagem deslumbrante, mas que me inspirou um sentimento de tristeza que não me abandonou em todo o percurso. Natureza e cultura misturam-se organicamente num território sinuoso, carregado de marcas de outras formas de habitar a terra. Duas pontes romanas, inúmeros moinhos de água arruinados, lembrando o tempo em que o "mercado interno" de proximidade era uma questão de vida ou de morte. No coberto vegetal já existem, contudo, os sinais de uma guerra em curso. De um lado, carvalhos, castanheiros, as velhas oliveiras, loureiros, freixos, alguns abetos. Do outro, uma multidão, atrevida e sem cerimónia, de eucaliptos e acácias. No passado, tínhamos poetas vigorosos que cantavam a natureza como símbolo do transcendente e do divino. Agora, na melhor hipótese, temos guias de viagem que nos aconselham a visitar os lugares de uma natureza crepuscular, antes que seja demasiado tarde.

Viriato Soromenho Marques

Os bilionários assaltam o céu

Nas últimas semanas, os nomes de três dos mais mediáticos bilionários globais - Jeff Bezos, Richard Branson e Elon Musk - têm estado nas notícias por aquilo que é apresentado como uma corrida de machos alfa para saber quem é que vai mais longe no espaço. Como Branson se antecipou à viagem que Bezos realizará no próximo dia 20, este ripostou dizendo que será ele a atingir o limiar da linha de Kármán, a linha convencional, a perto de cem quilómetros de altitude, que separa a periferia da atmosfera terrestre do espaço exterior. Contudo, o que move estes gigantes não é uma luta pelo prestígio, mas a ganância nua e crua. Estes bilionários querem criar um novo mercado para enriquecerem ainda mais.

Viriato Soromenho Marques

Portugal e a revolução oceânica

A reputação do passado histórico dos povos, ainda mais do que a memória póstuma dos indivíduos, nunca é um caso encerrado. Não falta quem queira pilhar ou contrabandear o que não lhe pertence. No ano de 1942, em plena II Guerra Mundial, o influente jurista alemão Carl Schmitt, que mancharia toda a sua longa vida pelo apoio ao regime hitleriano, ofereceu à sua filha Anima um breve ensaio: Terra e Mar. Breve Reflexão sobre a História Universal (tradução portuguesa de A. Franco de Sá, Esfera do Caos, 2008). Schmitt segue Ernst Kapp, recordando como a água é o elemento-chave na representação de três grandes épocas da história: um périplo que vai das culturas fluviais, passando pelas culturas talassocráticas, limitadas a mares fechados como o Mediterrâneo, em direção às culturas oceânicas. Só nestas, o elemento hídrico ganha independência e se pode contrapor verdadeiramente ao elemento terrestre.

Viriato Soromenho Marques

As duas faces de Napoleão

A pandemia atenuou a reflexão europeia sobre o legado de Napoleão no duplo centenário da sua morte, que se cumpriu no passado dia 5 de maio. Os franceses continuam a colocar o imperador no topo das preferências, ao lado de Luís XIV, de De Gaulle e de Joana d'Arc. Mas a aura de Napoleão é universal e complexa. Diria que talvez tenha sido Beethoven quem melhor tenha surpreendido as duas faces que convivem e se entrechocam na sua ação histórica. O grande compositor já tinha concluído a sua 3.ª Sinfonia, quando soube que Napoleão se havia coroado imperador em dezembro de 1804. Temos testemunhos escritos que ele pensara dedicar a sinfonia Heroica a Napoleão, tendo, num ato de fúria, rasgado essa dedicatória. Beethoven admirara o general republicano, defensor e difusor das ideias da Revolução Francesa. Detestava, contudo, o imperador de um Estado expansionista, que foi dos primeiros a sacrificar no altar do nacionalismo.

Viriato Soromenho Marques

Mais azul no barlavento

Um dos privilégios da profissão/vocação de professor é o muito que aprendemos com os nossos alunos. Recentemente, participei num júri de doutoramento sobre alterações climáticas na região do Ártico. A autora, Laura Dorsch, partilhou as suas experiências junto de comunidades do povo Sámi (mais conhecidos por lapões) no Norte da Noruega. O seu vasto território tem sido fustigado pela crise ambiental, e em particular pela emergência climática. A sua paisagem vital, associada à dependência das manadas de renas, está em rápido declínio. Com o colapso do mundo físico rasgam-se também feridas mentais, que alguns julgariam ser apenas típicas das sociedades industrializadas e "desenvolvidas": a ecoansiedade, a biofobia, a solastalgia... conceitos manifestando a dor profunda causada pela perda do lar no sentido mais profundo: a nossa "terra", os lugares identitários que nos deram a segurança de uma pertença.

Viriato Soromenho Marques

Nem sinal de tédio

Passaram mais de 30 anos sobre a publicação do famoso artigo de Francis Fukuyama na revista The National Interest (verão de 1989) onde se analisava e advogava um radioso "fim da história" para a humanidade. Ele traria a plena realização das possibilidades evolutivas da nossa espécie, coincidindo com uma economia liberal completamente globalizada. Seria um mundo onde o desejo consumista dos cidadãos obrigaria os Estados iliberais, seguindo o exemplo do governo comunista chinês da altura, a adotar os princípios da economia de mercado.

Viriato Soromenho Marques

Pode alguém ser quem não é?

Não é possível fingir ser-se quem não se é durante muito tempo, face a uma realidade extrema. Isto vale tanto para os indivíduos como para as instituições. A pandemia é uma forma aguda de realidade extrema. Oscilante, intensamente desconhecida (apesar dos avanços científicos), criativa nas suas metamorfoses, "visando" incrementar o seu sucesso na contaminação planetária, e dotada de uma durabilidade indeterminada, mas claramente superior à resiliência psicológica média do habitante urbano do século XXI. O impacto da pandemia sobre os indivíduos, não falando das vítimas mortais, terá custos ainda difíceis de estimar. Todavia, com mais ou menos danos e sequelas, a força vital que existe em cada um de nós impele-nos para nos reerguermos e seguirmos os nossos caminhos. Já o impacto da pandemia sobre o comportamento do Estado como um todo, ou declinado a partir de cada um dos seus poderes, poderá ter consequências exponencialmente mais graves. Quando um indivíduo perde o controlo sobre os seus atos, acidentes podem acontecer. Quando um governo calibra a sua política em função da fantasia e não da monitorização atenta do mundo real, os resultados trágicos ocorrem.

Opinião

A estirpe portuguesa

Na quinta-feira, Portugal ultrapassou a Suécia em número de mortos (11 608 contra 11 520). Quando terminou o primeiro confinamento geral, eu fazia parte dos portugueses que se sentiam confortáveis pelo país não ter apostado na estratégia da "imunidade de grupo", que, na altura, se traduzia numa mortalidade sueca mais de três vezes superior à portuguesa. Hoje, quando Portugal apresenta números de contágios e de mortos que desenham curvas exponenciais semelhantes a mísseis balísticos prestes a sair da atmosfera, parece que Portugal assumiu afincadamente a opção de expor a sua população ao vírus, não esperando pelas vacinas. Só entre sábado (23) e quinta-feira (28), em apenas seis dias, somam-se 1688 mortos.