Viriato Soromenho Marques

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Um planeta com luz própria

De início pensei escrever esta crónica sobre a situação lastimável em que a União Europeia mais uma vez se encontra. Cada vez mais parecida na sua organização com o milenar Sacro Império Romano-Germânico - aquele que Napoleão extinguiu em 1806 com um sopro -, a UE deixou-se encurralar por culpa própria na chantagem de tiranetes, que juntam na sua linhagem o pior da extrema-direita com as misérias do estalinismo onde foram forjados

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A política de Gonçalo Ribeiro Telles

Em novembro de 1967, Gonçalo Ribeiro Telles (GRT) deu-se a conhecer publicamente durante a comoção nacional das grandes cheias do Tejo, que ceifaram a vida a mais de 500 pessoas. A abrupta emergência enfraqueceu a censura. Só isso explica que GRT tivesse tido oportunidade de falar na RTP. Em vez de um flagelo inexplicável da natureza, aquela tragédia passou a estar associada a erros e escolhas humanas que destruíram a protetora vegetação ripícola da margem dos cursos de água, e à construção desordenada em cima de solos de leito de cheias.

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Pandemia e hierarquia de valores

Se o SARS-CoV 2 fosse uma arma, seria quase perfeita. A arma mais eficaz não é a mais letal, mas aquela que causa mais feridos de longa duração, que sobrecarrega as estruturas logísticas e hospitalares, que semeia o medo e a discórdia, que diminui a capacidade de luta através da entropia e desmoralização da sociedade. É exatamente o que estamos a observar - de modo ainda mais refinado do que na primavera - nestes primeiros passos da segunda vaga da covid-19. Estamos num momento de encruzilhada em toda a Europa. Seria conveniente analisarmos dois "pontos cegos" fundamentais no modo como encaramos o que está a acontecer. A sua elucidação poderá ajudar-nos, como cidadãos, a fazer um juízo crítico e a agir em conformidade. O primeiro aspeto negligenciado prende-se com a falta de humildade de muitas das opiniões e críticas à ação dos governos. É claro que os governos devem ser escrutinados e criticados, o que é inadmissível é o caudal de críticas insensatas, vindas também de peritos, que arrogantemente escamoteiam a colossal ignorância que ainda temos sobre este novo coronavírus. Recordo a ligeireza como alguns especialistas se têm atrevido a prometer vacinas para datas próximas, mantendo-se imperturbáveis perante o número crescente de testes que são interrompidos por efeitos indesejáveis na saúde dos voluntários. Ou ainda a sobranceria como responsáveis de saúde pública falam em "imunidade de grupo", para justificar os erros grosseiros cometidos, por exemplo, pelas autoridades de saúde suecas. O outro pressuposto inconsciente, que tem gerado muitos equívocos, é a recalcada necessidade de reconhecer a existência de uma hierarquia de valores nas políticas de combate à covid-19. Nas novas medidas propostas pelo governo - de tornar obrigatório o uso de máscaras em mais locais, assim como o download da aplicação StayAway Covid - importa ter em conta que os direitos de privacidade, devendo ser salvaguardados, têm, contudo, um peso inferior ao do direito à vida, sobretudo quando este depender da capacidade de evitar a propagação da doença. A questão correta é a de saber se essa aplicação tem ou não eficácia, mesmo depois de ser universalizada (o que parece não estar ainda esclarecido). O desprezo pelo direito à vida tem unido uma frente bastante insólita e disparatada que vai de Trump e Bolsonaro a intelectuais de "esquerda", como Giorgio Agamben. Para Trump, a vida dos mais frágeis não pode parar o curso normal dos negócios. Para Agamben, só um Leviatã tirânico seria capaz, para salvar a "vida nua" dos cidadãos, de os confinar compulsivamente... Os Estados europeus estão a devolver à autodisciplina dos cidadãos a tarefa de evitar novo confinamento. Trata-se de conciliar a liberdade individual com a responsabilidade que, em tempos pandémicos, cada um tem pelo direito à vida de todos os outros. Se as democracias europeias falharem na defesa da vida, todos conhecemos como abundam autoritarismos que a prometem salvar, em troca do sacrifício de todos os outros direitos que a tornam digna de ser vivida. Professor universitário

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Rostos e máscaras

Há quinhentos anos vivíamos na alvorada, já em tons rubros vincados, da modernidade. Uma amizade entre dois homens geniais e dotados de um enorme poder de influência sobre a sua época - Erasmo (1466-1536) e Thomas More (1478-1535) - produziu duas obras que representam, em registos bem diversos de lucidez, esse tempo em que a Europa se agigantava para unificar o planeta inteiro sob a batuta de uma nova racionalidade. E isso por todos os meios: da espada e da palavra; da tecnologia e do comércio. A meio milénio de distância, a grandeza dessas figuras pode ser vista com maior amplitude, pois o nosso ponto de observação, mergulhado agora nas cores rubras do crepúsculo, é-lhes inteiramente tributário. No Elogio da Loucura, escrito por Erasmo em 1509, durante uma das suas visitas à casa de More, registamos não apenas uma amarga sátira de uma sociedade europeia atravessada ainda entre o medievalismo e a modernidade, mas constitui também um balde de água fria lançado sobre algum excesso de otimismo antropológico, cultivado precisamente pelas escolas de pensamento em que tanto Erasmo como More se filiavam. Em 1516, foi a vez de o pensador e político inglês se imortalizar através da ficção filosófica Utopia. Para o público do tempo, esta obra cheia de labirínticas significações, foi lida como um manifesto de futuro, tendo como núcleo a narrativa de Rafael Hitlodeu, um navegador português. More, também político atento, não poderia ficar indiferente ao sulcar luso de mares desconhecidos. Ele escreveu o seu livro enquanto Afonso Albuquerque (1452-1515) fazia a Europa regressar à Índia, desta vez para ficar longamente, ao contrário da breve passagem de Alexandre Magno, 18 séculos antes. Erasmo e More eram também homens do mundo. O primeiro era solicitado não apenas pelos inúmeros admiradores em toda a Europa (como o nosso Damião de Góis), mas pelo papado e pelas cabeças coroadas. O segundo chegaria a chanceler de Henrique VIII. Cada um à sua maneira, procuraram evitar a rutura da Europa, num processo que se iniciaria, teologicamente, com a reforma luterana, e se prolongaria, politicamente, com os Estados nacionais e os seus virulentos surtos bélicos. Erasmo simpatizava com muitas das críticas de Lutero à Igreja, mas abominava uma solução que iria replicar na cristandade o sangrento ódio islâmico entre sunitas e xiitas. More, por seu turno, acabaria decapitado por ordem de Henrique VIII. Demonstrou com o sacrifício supremo que a integridade da consciência de um homem livre não pode ser conquistada pela espada do soberano. Os séculos vertiginosos que se seguiram acabariam por fusionar os títulos das obras desses homens que se ergueram à condição de rostos da sua época. Hoje, a utopia realizou-se numa desmesura económica e tecnológica que parece ter ultrapassado as fronteiras da loucura. Talvez por isso, na imensa distopia quotidiana em que habitamos, os rostos não conseguem ganhar nitidez. Transformam-se em imprecisos esquissos e máscaras fugidias. Professor universitário

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A arte do distanciamento

Em 1931, M. Ghandi visitou o Reino Unido para participar em negociações sobre o futuro da Índia. A reunião falhou, mas Gandhi deixou uma marca duradoura na opinião pública britânica, pela cordialidade, pela agudeza e pelo humor da sua inteligência. Dada a sua relutância em falar para microfones, muitas das declarações que lhe são atribuídas não podem ser confirmadas. Há uma de que gosto particularmente. Interrogado por um jornalista - certamente possuído por uma convicção inabalável da superioridade europeia - acerca do que é que pensava sobre a "civilização ocidental", Gandhi terá respondido: "Penso que seria uma boa ideia."

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Sábado, 22.08.1914

Sangue, sangue, há de chegar a beber-se sangue no chão - rezam os vaticínios." Com estas palavras encerrava Aquilino Ribeiro a sua entrada de 22 de agosto de 1914, num diário que daria origem à sua obra É a Guerra (Livraria Bertrand, 1958). O escritor português, vivendo nessa altura em Paris, com a sua mulher alemã e o seu filho de tenríssima idade, descreve as primeiras semanas de guerra a partir da capital francesa, antes de procurar abrigo seguro para a sua família em Portugal. Aquilino descreve, quase como um cientista elaborando um protocolo laboratorial, a vertiginosa transição química das almas de uma época de paz e narcisismo europeu para uma era que incendiou a Europa, até 1945, no holocausto dos ódios nacionalistas. Desde Waterloo (1815) que os europeus não testemunhavam nenhuma guerra europeia generalizada (as campanhas prussianas de 1864 a 1870, contra a Dinamarca, a Áustria e a França foram breves e cirúrgicas). Os europeus limitavam-se a refregas menores contra povos colonizados na África e na Ásia, sem capacidade militar para poderem rivalizar com o seu poderio tecnológico. Há exatamente 106 anos, a França sofreu o maior número de mortos militares num só dia de batalha da história moderna. Na abertura da ofensiva do Somme, em 1 de julho de 1916, os britânicos perderiam perto de 20 000 homens. No início da sua grande ofensiva de primavera de 1918 (a Kaiserschlacht, iniciada a 21 de março), a Alemanha sacrificaria quase 11 000 soldados. Nesse tórrido 22 de agosto de 1914, numa frente ampla nas zonas fronteiriças da França com a Bélgica e a Alemanha, Paris perderia 27 000 militares. Nesse dia, decidiu-se a derrota francesa na chamada Batalha das Fronteiras, mas o mais impressionante é o recalcamento que ainda persiste na historiografia da Grande Guerra (e não só da francesa), privando esses mortos do direito à memória do seu sacrifício absurdo.

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Mudar de vida

Para os distraídos, crédulos de que a inteligência humana se tem vindo a apurar sem quebras, aconselho a que se comparem quaisquer dos atuais tratados de economia com o clássico ensaio que John Stuart Mill dedicou aos Princípios da Economia Política (1848). Ao contrário da hodierna economia dominante, que ignora olimpicamente o seu impacto destrutivo no mundo, Mill fala de uma economia integrada na natureza e ao serviço do aperfeiçoamento da justiça e da dignidade humanas. Mais de um século antes do relatório sobre Os Limites do Crescimento (1972), elaborado pela equipa do MIT chefiada por Donella e Dennis Meadows, Mill salientava a impossibilidade física de um crescimento económico material infinito. Com uma mistura de finura e rigor analítico, o pensador britânico indicava que, inevitavelmente, os sistemas económicos serão forçados a reconhecer a necessidade de um "estado estacionário" (stationary state). Contudo, o autor chama a atenção para a necessidade de distinguir o crescimento material, que tem limites físicos objetivos - os quais podem ser adiados mas não evitados - do desabrochar das capacidades humanas, cujos contornos de aperfeiçoamento são indetermináveis.

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Limites do futuro possível

A anunciada Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica e Social de Portugal 2020-2030, da autoria de António Costa Silva (ACS), está já disponível. Apesar de censurável, a ideia do primeiro-ministro de pedir a um só autor uma obra desta envergadura - levando para o desenho das políticas públicas a síndrome lusa do sebastianismo -, a verdade é que o plano, tanto na sua força como na sua fragilidade, é um oásis de relevância no deserto de trivialidades da política nacional. Refletindo a experiência profissional de ACS, o plano olha o país como um estaleiro de obras - atuais e possíveis. Mobilizando um vasto cabedal de informação, o plano traça cenários e desígnios ambiciosos, para fazer da crise pandémica uma oportunidade que não pode ser perdida. Ressalta em cada página um dinamismo de demiurgo e um otimismo prometeico invencível.

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Nuno Vieira Matias

Quem quiser ter uma visão, onde a brevidade não hostiliza o rigor, sobre a vida e as obras do almirante Nuno Viera Matias (1939-2020), falecido no passado sábado, deverá ler um artigo publicado na Revista Nova Cidadania (n.º 70, março-junho 2020), da autoria de um camarada de armas mais jovem, o almirante Alexandre da Fonseca. Aí se encontra um registo do incansável percurso de serviço público prestado por este militar de carreira. Desde os tempos em que, como jovem comandante de um destacamento de fuzileiros especiais (DFE n.º 13) na Guiné, arriscou a vida em 32 situações de combate (lembro-me como, comovidamente, sabia os nomes dos militares que sob o seu comando tinham caído).

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Portugal e a metamorfose alemã

A pandemia parece ter operado uma revolução na política económica da Alemanha. Berlim sentiu o perigo e respondeu como os países que têm ambição estratégica: as ideologias são meros instrumentos de poder e não dogmas de fé. O ordoliberalismo que a Alemanha impôs à União Europeia, tornando-se, perigosamente, vencedora da crise do euro, foi rapidamente substituído pelo intervencionismo do Estado. Não o de Keynes (ensaiado furtivamente por Merkel na resposta à crise de 2008), mas o de Friedrich List (1789-1846), que mesmo antes de a Alemanha existir como Estado se bateu pelo seu direito a usar políticas económicas protecionistas contra o imperial liberalismo britânico. Os 130 mil milhões de euros do pacote anunciado em junho juntam-se aos 353 mil milhões de ajuda de emergência de março e aos 820 mil milhões de garantias do Estado a empréstimos, perfazendo 1,3 biliões de euros (PIB 2019: 3, 45 biliões). Metade das ajudas de Estado aprovadas pelos 27 até agora são made in Germany. Mesmo a dívida pública alemã, que se encontrava nos 59,8% do PIB em 2019 (depois de um pico de 82,4% em 2010), vai escalar para 75% no final do ano.

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Em nome de todos

Na história da humanidade, os momentos de mudança positiva ocorrem quando a cooperação se sobrepõe à competição. Não foi preciso a pandemia para termos consciência de que esta globalização com pés de barro há muito estava a entrar numa trajetória de desagregação. Há 40 anos, o planeta embarcou num modelo de futuro baseado numa premissa, duplamente, indesejável e irrealista. Indesejável porque estava baseada numa paupérrima conceção antropológica do homem como mero produtor e consumidor de mercadorias. Irrealista porque uma economia fundada no objetivo do crescimento infinito, extrativista, devoradora de energia e redutora da complexidade da natureza a um "stock de matérias-primas", nunca poderia resultar num sistema tão frágil quanto belo como é o do nosso planeta Terra.

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Voltámos a ser mortais

Nunca é de mais repeti-lo. Sobre o futuro não é sensato dizermos muitas coisas. Nem com todo o poder computacional do mundo estaríamos isentos de erro, pois a realidade é infinitamente mais complexa do que a nossa capacidade de a representar. Mas temos o passado. Como o anjo da história, que Walter Benjamin julgou perceber num quadro de Paul Klee (meu artigo DN, 18-1-2020), somos obrigados à procura de um sentido - a partir da leitura das ruínas, sofrimentos, esquecimentos, ilusões e injustiças do passado - que nos ajude a explicar como chegámos até aqui. Sem sentido ficaremos paralisados. Somos criaturas, como nos ensinou Viktor Frankl (1905-1997), sábio sobrevivente do Holocausto, que precisam da semântica tanto como do pão para a boca. Neste confinamento planetário, seguindo a progressão do covid-19 como quem lê o boletim de baixas de uma guerra, aprendemos que a "normalidade" para onde os mais distraídos querem regressar de armas e bagagens foi uma longa embriaguez.

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Viriato Soromenho Marques

Na Páscoa do "deus mortal"

Dentro da tempestade é difícil perceber os limites do que pode ser dito e escrito, sem cair na fífia ou no disparate. Há contudo um tema absolutamente incontornável, que esteve sempre latente e agora ganha uma evidência ensurdecedora: o que vai acontecer a essa instituição a quem todos agora suplicam? Qual vai ser o futuro do Estado, ao seio do qual todos agora se acolhem, das influentes multinacionais do setor automóvel ou da aviação civil aos humildes trabalhadores eventuais do turismo e da restauração? Importa recordar de onde viemos.