Victor Ângelo

Victor Ângelo

A Europa e a turbulência que aí vem

O lançamento da Conferência sobre o Futuro da Europa decorreu nesta semana em Estrasburgo, na sede oficial do Parlamento Europeu. O simbolismo de Estrasburgo é enorme. Representa a reconciliação, a paz, a democracia e a solidariedade entre os europeus. Esses quatro desideratos continuam a ser tão pertinentes hoje como o têm sido ao longo das sete décadas que já conta a construção do edifício político europeu. É desde logo importante que nos lembremos disso, para reconhecer donde viemos e definir para onde queremos ir no próximo decénio.

Victor Ângelo

Quando os generais escrevem cartas abertas

Uma sondagem divulgada nesta semana pelo IFOP, o prestigiado instituto francês de opinião pública, diz-nos que 86% dos franceses consideram a segurança interna como uma questão central, que influenciará o resultado da eleição presidencial de maio de 2022. Por outro lado, em julho de 2020, 71% da população adulta considerava que a França atravessa um processo de declínio. Declínio é um conceito vago, passível de várias interpretações. Mas revela um sentimento de mal-estar social, que deu origem aos "coletes amarelos" e tem sido manhosamente aproveitado pela extrema-direita, sobretudo por Marine Le Pen.

Victor Ângelo

A complexidade moçambicana

No seguimento do ataque terrorista à vila de Palma, 18 organizações da sociedade civil endereçaram uma carta aberta ao presidente de Moçambique. Para além da condenação dos atos de violência, a missiva expressa a preocupação existente e lembra ao presidente Filipe Nyusi que uma situação de crise tão grave como a presente exige mais e melhor comunicação pública por parte dos dirigentes nacionais. Percebe-se, assim, que a liderança do país não presta a devida atenção à obrigação de manter os cidadãos informados. A prática de minimizar os problemas é a norma. Não podemos ficar surpreendidos. A opacidade, a arrogância e o distanciamento são três das características que têm tradicionalmente definido a cultura política das elites no poder em Maputo.

Victor Ângelo

Horizontes e equilíbrios europeus

Vivemos um tempo de incertezas. A pandemia continua no centro de todas as inquietações. As diferentes mutações do vírus e a imensidade das campanhas de vacinação mostram que estamos longe da saída do túnel. E os impactos económicos, sociais e psicológicos ainda estão por determinar. Serão certamente enormes e de longo prazo. Na Europa, para já, socorremo-nos dos balões de oxigénio que o banco central e os expedientes políticos vão disponibilizando. Na realidade, estamos a viver da reputação e da penhora do futuro. Entretanto, vamos ficando para trás, quando nos comparamos à China ou aos Estados Unidos. E iremos receber uma parte dos problemas de uma vizinhança - a sul e a leste - que já era pobre e que verá as suas dificuldades futuras aumentar de modo incontrolável. Nada disto é pessimismo, mas sim um quebra-cabeças anunciado.

Victor Ângelo

Biden no trapézio e o mundo na corda bamba

Muito do que se decide no círculo do poder em Washington tem um impacto global, quer se queira quer não. Peço desculpa por começar este texto com esta lapalissada. Mas é um facto que a política americana continua a pesar mais do que nenhuma outra nas relações estratégicas e económicas internacionais. Assim, com a entrada em funções da administração Biden, a cena internacional começou um novo capítulo. É uma mudança profunda de rota, num sentido positivo e democrático. Para já, anuncia a esperança de um apaziguamento das tensões criadas ao longo dos últimos quatro anos e que colocaram as dinâmicas entre os principais atores mundiais num patamar potencialmente explosivo. O diálogo deverá substituir a política da confrontação e do abuso da força.

Victor Ângelo

Que tal um almoço no Sahel?

Há uns anos, a minha mulher e eu fomos convidados para um almoço de Natal invulgar. O convite veio da presidência do Chade e o local do repasto situava-se a uma centena de quilómetros a norte de Fada, uma localidade a mais de duas horas de avião de Ndjamena, já na zona de transição do Sahel para o Sara. O plano consistia em voar até Fada e seguir por terra até um dos oásis da depressão de Mourdi - um conjunto de vales profundos, com várias lagoas, muito procuradas pelos mercadores das numerosas manadas de camelos em trânsito para a Líbia, onde cada camelo acaba vendido nos mercados de carne.

Victor Ângelo

Eles não cabem no nosso futuro

Reconheço as preocupações que muitos pensadores expressam sobre o que será o mundo, no rescaldo da pandemia do coronavírus. Uma boa parte diz que esta crise pulveriza as nossas sociedades e desestrutura a democracia e as alianças que nos ligam a outros povos, promove a tendência para o isolamento, o egoísmo nacionalista e a perda dos pontos de referência que davam sentido às relações internacionais. Assim, o mundo sairia da crise fragmentado, com cada país mais centrado sobre si próprio, mais autocrático e com as instituições do sistema multilateral bastante enfraquecidas.

Victor Ângelo

Terror ou democracia

Quase duzentos e cinquenta anos após a sua morte, Voltaire permanece como um dos pensadores mais influentes da história de França e da Europa. Escreveu abundantemente e foi conselheiro dos grandes de então. O seu pensamento político e filosófico abriu o caminho que levaria à Revolução Francesa e à divisa nacional, que ainda hoje se mantém: liberdade, igualdade, fraternidade. Os seus escritos troçavam dos dogmas religiosos, numa altura em que era muito perigoso fazê-lo, batiam-se contra a intolerância, advogavam a liberdade de expressão e a separação da Igreja do Estado. Em 1736, escreveu uma peça de teatro contra a intransigência religiosa, que intitulou O Fanatismo ou Maomé, o Profeta. Nesta tragédia, Voltaire critica diretamente e com todas as letras o fundador do islão. Pessoalmente, leio a obra como sendo uma investida contra as religiões, num caso, de modo aberto, noutro, o do catolicismo, de maneira mais subtil, para não pôr em risco a sua pele.

Victor Ângelo

O presidente Trump e as Nações Unidas

O nome do laureado com o Prémio Nobel da Paz deste ano será anunciado a 9 de outubro. A lista de candidatos conta com 318 nomes, um número impressionante. Ao que parece, o nome de Donald Trump estaria incluído no rol dos nomeados, o que não é impossível, pois um membro do seu governo, do Congresso ou qualquer outra personalidade, têm a faculdade de nomear. O facto é que o presidente veria com muito agrado a atribuição do Nobel. Calhava que nem ginjas, menos de um mês antes da eleição presidencial.

Victor Ângelo

Manter a relevância das Nações Unidas

A Organização das Nações Unidas celebra 75 anos de vida no início da semana entrante. Essa é igualmente a semana do Debate Geral, que permite aos líderes mundiais discursar perante a Assembleia Geral e para quem os quer ouvir. Neste ano, apesar da importância simbólica do aniversário, tudo terá um perfil baixo, digital apenas, por causa da pandemia. Os chefes de Estado e de governo não se deslocarão a Nova Iorque. Enviarão vídeos, na maioria dos casos com as lengalengas habituais destinadas às suas audiências domésticas. A ausência dos líderes fará perder a parte mais relevante da reunião anual, que é a de permitir toda uma série de encontros face a face, entre os grandes deste mundo. Tudo isto torna a sessão deste ano relativamente invisível, precisamente quando as Nações Unidas precisam de recuperar a atenção internacional.