Victor Ângelo

Victor Ângelo

Um perigo disfarçado de Lei e Justiça

Conheço a Marzena há mais de 15 anos. Foi pouco depois da sua chegada a Bruxelas e de começar uma nova vida, a servir a dias nas casas da média-burguesia belga. Viera da Polónia profunda, a dois passos da Bielorrússia - tem, aliás, familiares que vivem num par de aldeias do outro lado do arame farpado, polacos como ela, mas apanhados pelas mexidas feitas às linhas de fronteira no pós-guerra, pelas gentes de Estaline. Com o tempo, viu chegar à Bélgica muitos milhares de outros compatriotas, que hoje trabalham na construção civil, nos serviços domésticos, nas fábricas ou nas múltiplas lojas que, entretanto, foram abrindo um pouco por toda a parte. O dinheiro que estes imigrantes transferem regularmente para a terra natal tem sido um dos fatores da modernização económica da Polónia. O outro está ligado às diferentes vantagens decorrentes da entrada do país na União Europeia em 2004.

Victor Ângelo

Não podemos varrer o Afeganistão para debaixo do tapete

Mario Draghi, o primeiro-ministro italiano e atual líder do G20, convocou para 12 de outubro uma cimeira extraordinária do grupo, com um único ponto na agenda: o Afeganistão. Trata-se de uma reunião urgente, que não pode esperar pela cimeira anual, que está marcada para os dois últimos dias deste mês. As preocupações sobre o Afeganistão são essencialmente duas: o drama humanitário, já muito agravado neste momento, mas que se tornará catastrófico com a iminente chegada do inverno; e a definição das condições necessárias para o reconhecimento internacional do regime talibã.

Victor Ângelo

Migrações e temores europeus

A crise afegã veio colocar de novo o problema da imigração no centro das discussões europeias. No essencial, trata-se do receio que cheguem à Europa milhares e milhares de pessoas vindas do Afeganistão, empurradas para a migração por uma combinação de razões: a fuga ao regime talibã, a miséria económica, a ausência de perspetivas futuras e a atração que as sociedades mais ricas exercem sobre quem vive um quotidiano de desespero e de luta constante pela sobrevivência. Perante esse receio, os ministros europeus identificaram, como plano de ação, o menor denominador comum: tentar conter as pessoas no interior das fronteiras do Afeganistão ou nos países limítrofes. Para isso, contam com a colaboração do novo poder afegão, a vontade interesseira dos líderes paquistaneses e iranianos e ainda com a experiência e o bom nome das agências humanitárias das Nações Unidas e do Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho.

Victor Ângelo

As Nações Unidas face ao desafio talibã

António Guterres acaba de sublinhar a gravidade da situação humanitária que vive o Afeganistão. Lembra-nos que cerca de metade da população precisa de ajuda alimentar para poder sobreviver e que os apoios sociais de base, nomeadamente na área da saúde, estão fechados ou à beira do colapso. Com a chegada em breve dos rigores do inverno, a crise tornar-se-á ainda mais séria e menor a capacidade de agir. Anuncia, por isso, que, já na próxima semana, o sistema das Nações Unidas irá lançar um apelo humanitário urgente.

Victor Ângelo

A União Europeia no caminho do colapso

O húngaro Viktor Orbán, o polaco Jaroslaw Kaczynski e o turco Recep Erdogan voltaram a ser lembrados nesta semana como três das grandes ameaças à continuidade da UE. O relatório agora publicado pela Comissão Europeia sobre a situação do Estado de direito nos países membros coloca em evidência os dois primeiros. A crise na Líbia põe de novo em cena o terceiro. Todos eles fazem parte das preocupações quotidianas de quem quer construir uma Europa coesa, baseada nos valores da democracia, da tolerância e da cooperação.

Victor Ângelo

A democracia não pode ser um faz-de-conta

Nas sociedades mais desenvolvidas, assiste-se a um aceleramento da digitalização de todas as dimensões da vida dos cidadãos. A pandemia contribuiu enormemente para esta revolução digital. Mas vem aí mais. A capacidade de tratar milhões de informações através dos novos métodos de inteligência artificial e os avanços na área da automatização permitirão o controlo - e, em muitos casos, a manipulação - das pessoas de modo nunca visto.

Victor Ângelo

Lukashenko em voo picado

Para alguns Estados, a repressão dos dissidentes não conhece nem limites nem fronteiras. Vale tudo, quando alguém é considerado inimigo do regime. Mesmo quando vive no estrangeiro, convencido de que está mais seguro. Pode, todavia, não estar, se for considerado pelos criminosos que controlam o poder no seu país de origem como um alvo a abater. Certas ditaduras têm um braço repressivo muito longo. Não têm pejo de agir em terra alheia e de praticar assassinatos, raptos, ou proceder a acusações frívolas ou sem fundamento, de modo a forçar a Interpol a emitir avisos internacionais de captura e repatriamento. Noutros casos, intimidam brutalmente os membros da família que ficaram no país, com o objetivo de calar o opositor que se encontra noutras latitudes.

Victor Ângelo

Quando os generais escrevem cartas abertas

Uma sondagem divulgada nesta semana pelo IFOP, o prestigiado instituto francês de opinião pública, diz-nos que 86% dos franceses consideram a segurança interna como uma questão central, que influenciará o resultado da eleição presidencial de maio de 2022. Por outro lado, em julho de 2020, 71% da população adulta considerava que a França atravessa um processo de declínio. Declínio é um conceito vago, passível de várias interpretações. Mas revela um sentimento de mal-estar social, que deu origem aos "coletes amarelos" e tem sido manhosamente aproveitado pela extrema-direita, sobretudo por Marine Le Pen.

Victor Ângelo

Novas incertezas aqui ao lado, no Grande Sahel

Em 1990, o chefe rebelde chadiano Idriss Déby regressou ao país, vindo do Sudão. Dirigia uma coluna de homens armados, composta sobretudo por combatentes originários da sua região natal. Dias depois conquistou o poder em Ndjamena, com o beneplácito de François Mitterrand. O presidente francês sabia de geopolítica. Via o Chade como o nó essencial para os interesses, a influência e a segurança da França e dos seus Estados clientes naquela parte de África. Por isso, era fundamental que fosse controlado por um homem forte, consistente e amigo da França. Déby tinha esse perfil. E os sucessivos presidentes franceses habituaram-se a fechar os olhos às violações sistemáticas dos direitos humanos, à corrupção em alta escala e à tribalização do poder, para não enfraquecer o seu aliado em Ndjamena.

Victor Ângelo

Horizontes e equilíbrios europeus

Vivemos um tempo de incertezas. A pandemia continua no centro de todas as inquietações. As diferentes mutações do vírus e a imensidade das campanhas de vacinação mostram que estamos longe da saída do túnel. E os impactos económicos, sociais e psicológicos ainda estão por determinar. Serão certamente enormes e de longo prazo. Na Europa, para já, socorremo-nos dos balões de oxigénio que o banco central e os expedientes políticos vão disponibilizando. Na realidade, estamos a viver da reputação e da penhora do futuro. Entretanto, vamos ficando para trás, quando nos comparamos à China ou aos Estados Unidos. E iremos receber uma parte dos problemas de uma vizinhança - a sul e a leste - que já era pobre e que verá as suas dificuldades futuras aumentar de modo incontrolável. Nada disto é pessimismo, mas sim um quebra-cabeças anunciado.

Victor Ângelo

Uma vacina contra as rivalidades geopolíticas

Boris Johnson convocou para hoje uma cimeira extraordinária virtual do G7. Justificou-a dizendo ser urgente encontrar um acordo que permita uma resposta global à covid-19, ou seja, o acesso de todos à imunização possível. Acrescentou que seria igualmente uma oportunidade para coordenar a procura de vacinas, de modo a evitar-se uma corrida desenfreada às poucas quantidades já disponíveis. A cimeira seria a ocasião para resolver a competição entre os Estados, que, se continuar, poderá levar a sérias fraturas políticas entre parceiros tradicionais, como se viu recentemente no aumento da tensão entre UE e o governo de Londres.