Victor Ângelo

Victor Ângelo

Clima e pandemia: visões curtas na hora das urgências

O sul de Madagáscar está a sofrer um longo período de seca. Daqui resulta insegurança alimentar para cerca de um milhão e meio de pessoas. Sem meias-palavras, subalimentação e fome. Para mais, a pandemia do coronavírus veio agravar a crise humanitária. As escolas fecharam e as crianças deixaram de ter acesso ao almoço diário que estas lhes proporcionavam, graças à intervenção do Programa Mundial de Alimentação da ONU.

Victor Ângelo

A democracia não pode ser um faz-de-conta

Nas sociedades mais desenvolvidas, assiste-se a um aceleramento da digitalização de todas as dimensões da vida dos cidadãos. A pandemia contribuiu enormemente para esta revolução digital. Mas vem aí mais. A capacidade de tratar milhões de informações através dos novos métodos de inteligência artificial e os avanços na área da automatização permitirão o controlo - e, em muitos casos, a manipulação - das pessoas de modo nunca visto.

Victor Ângelo

O turbilhão em que nos querem meter

A Assembleia Geral da ONU deverá hoje reeleger António Guterres para um segundo mandato. O primeiro não foi fácil, por várias razões, incluindo o facto de Donald Trump ter sido presidente dos Estados Unidos quatro dos últimos cinco anos. Trump não tinha o mínimo interesse pelo multilateralismo. Era, para mais, imprevisível e esdrúxulo em matérias de política internacional. Parecer que se estava a contrariar as suas teses seria uma espécie de suicídio político. Isso contribuiu fortemente para a redução do espaço de manobra do secretário-geral. Guterres concentrou-se então em quatro grandes áreas: na agenda da paridade, particularmente no interior da organização, onde conseguiu com sucesso implementar uma política de promoção de mulheres para postos de topo; nas alterações climáticas; na resposta humanitária; e na procura de soluções para crises em países onde não entrasse em choque com os membros permanentes do Conselho de Segurança. Procedeu, igualmente, a algumas reformas internas, nomeadamente do organigrama e da representação da ONU ao nível dos países.

Victor Ângelo

A autonomia estratégica da Europa

Tianjin é uma cidade portuária, a pouco mais de uma centena de quilómetros a sudeste de Beijing. Quando as potências europeias estabeleceram concessões na China, desde meados do século XIX, esta foi uma das localidades escolhidas como porta de entrada, com a vantagem de estar perto da capital. Hoje, é uma zona metropolitana que abrange uma área maior que a do distrito de Beja - imaginemos todo o Baixo Alentejo urbanizado, uma paisagem de arranha-céus com mais de 15 milhões de habitantes. Em 2025, Tianjin deverá ter uma economia duas vezes e meia maior que a portuguesa.

Victor Ângelo

Novas incertezas aqui ao lado, no Grande Sahel

Em 1990, o chefe rebelde chadiano Idriss Déby regressou ao país, vindo do Sudão. Dirigia uma coluna de homens armados, composta sobretudo por combatentes originários da sua região natal. Dias depois conquistou o poder em Ndjamena, com o beneplácito de François Mitterrand. O presidente francês sabia de geopolítica. Via o Chade como o nó essencial para os interesses, a influência e a segurança da França e dos seus Estados clientes naquela parte de África. Por isso, era fundamental que fosse controlado por um homem forte, consistente e amigo da França. Déby tinha esse perfil. E os sucessivos presidentes franceses habituaram-se a fechar os olhos às violações sistemáticas dos direitos humanos, à corrupção em alta escala e à tribalização do poder, para não enfraquecer o seu aliado em Ndjamena.

Victor Ângelo

A Espanha quer correr em África em pista própria

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, esteve recentemente em Luanda e, no regresso, em Dakar. A deslocação marcou o arranque do plano de ação aprovado pelo seu governo com o título "Foco África 2023". O plano é uma aposta na prosperidade africana. A Espanha quer ser um dos grandes parceiros do desenvolvimento de um conjunto de países designados como prioritários. A lista inclui, no norte, Marrocos, Argélia e Egito, deixando de fora a Líbia e a Tunísia - uma nação a que a Europa deveria dar uma atenção especial. Inclui ainda toda a África Ocidental (CEDEAO) e países de outras regiões - a Etiópia, o triângulo que Quénia, Uganda e Tanzânia formam, a África do Sul e, mais perto dos interesses portugueses, Angola e Moçambique. Esta dispersão de esforços parece-me um ponto fraco.

Victor Ângelo

A Europa à deriva no mar das migrações

Realizou-se nesta semana, por iniciativa da presidência portuguesa, uma reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros e da Administração Interna da União Europeia sobre as migrações. A precedente ocorrera em 2015, quando chegaram à Europa mais de um milhão de pessoas, vindas da Síria e de outras partes do Médio Oriente, do Afeganistão e dos países do subcontinente indiano, bem como de África. O longo hiato entre as duas reuniões aconteceu porque as migrações constituem uma problemática muito complexa e fraturante entre os Estados membros da UE. Os líderes têm sistematicamente varrido o imbróglio para debaixo do tapete.

Victor Ângelo

Uma vacina contra as rivalidades geopolíticas

Boris Johnson convocou para hoje uma cimeira extraordinária virtual do G7. Justificou-a dizendo ser urgente encontrar um acordo que permita uma resposta global à covid-19, ou seja, o acesso de todos à imunização possível. Acrescentou que seria igualmente uma oportunidade para coordenar a procura de vacinas, de modo a evitar-se uma corrida desenfreada às poucas quantidades já disponíveis. A cimeira seria a ocasião para resolver a competição entre os Estados, que, se continuar, poderá levar a sérias fraturas políticas entre parceiros tradicionais, como se viu recentemente no aumento da tensão entre UE e o governo de Londres.

Victor Ângelo

Le Pen e as nossas penas

Marine Le Pen veio a Portugal para apoiar o seu parente ideológico. A senhora é, em França, a face mais visível e feroz do extremismo de direita. O seu partido, o Rassemblement National (RN), é um apanhado de retrógrados, neofascistas, racistas, rufiães, antiglobalistas, bem como de vários órfãos políticos e outros ressabiados. A salgalhada inclui parte dos novos pobres, um proletariado que a modernização e a internacionalização da economia empurraram para os subúrbios da política e da vida. O RN representa um pouco mais de 20% do eleitorado, uma percentagem reveladora de uma França cheia de contradições, frustrações, desigualdades e ódios. Na cena partidária do país, Le Pen e os seus são olhados, incluindo pela direita conservadora, como nada recomendáveis, gente que não se deve frequentar.

Victor Ângelo

A Rússia a letras gordas

Nesta semana, Vladimir Putin e a Rússia voltaram a ser manchete na comunicação social. Um dos motivos foi a mensagem de felicitações que Putin enviou a Biden. O líder russo acabou por ser um dos últimos chefes de Estado a dar os parabéns ao vencedor das eleições americanas. O pretexto da delonga foi o de estar à espera dos resultados do Colégio Eleitoral. Este formalismo, impecável do ponto de vista legal, mas pouco diplomático e inconsequente em termos do trato futuro, esconde mal a preferência que Putin tinha por Donald Trump. A política intempestiva, incoerente e divisiva de Trump era, na visão de Moscovo, a que mais enfraquecia a posição internacional dos EUA e melhor servia o renascimento geopolítico russo. Sem mencionar, claro, a deferência que o americano sempre mostrou pelo homem forte do Kremlin.

Victor Ângelo

Nós e a China

O ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi, falou nesta semana à nata dos dirigentes das empresas norte-americanas estabelecidas no seu país. O foco do seu discurso foi o reatamento do diálogo político entre a China e os Estados Unidos de Joe Biden. Considerou urgente o restabelecimento da comunicação e da confiança mútuas. Deu a entender que era tempo de ultrapassar a falta de objetividade e de racionalidade que haviam marcado a governação de Donald Trump. Fora a referência à linha vermelha da não ingerência nos assuntos internos chineses - ou seja, Beijing não quer que lhe falem de direitos humanos -, a sua comunicação refletiu uma linha oficial positiva e apaziguadora.