Victor Ângelo

Victor Ângelo

Le Pen e as nossas penas

Marine Le Pen veio a Portugal para apoiar o seu parente ideológico. A senhora é, em França, a face mais visível e feroz do extremismo de direita. O seu partido, o Rassemblement National (RN), é um apanhado de retrógrados, neofascistas, racistas, rufiães, antiglobalistas, bem como de vários órfãos políticos e outros ressabiados. A salgalhada inclui parte dos novos pobres, um proletariado que a modernização e a internacionalização da economia empurraram para os subúrbios da política e da vida. O RN representa um pouco mais de 20% do eleitorado, uma percentagem reveladora de uma França cheia de contradições, frustrações, desigualdades e ódios. Na cena partidária do país, Le Pen e os seus são olhados, incluindo pela direita conservadora, como nada recomendáveis, gente que não se deve frequentar.

Victor Ângelo

Mugabe e Trump, filhos do mesmo monstro

Apesar das boas notícias vindas do estado da Geórgia, o essencial da semana política americana deixou muitos de nós estupefactos, neste lado do Atlântico. Entre outros aspetos, veio lembrar-nos que a democracia é um combate sem fim, que nunca pode ser considerado como definitivamente ganho. Também nos mostrou que a existência de instituições sólidas permite defender a democracia, quando atacada por demagogos, oportunistas, charlatães, aspirantes a caudilhos ou meros arruaceiros. Mas, atenção, pois também vimos esta gente tentar servir-se das instituições para procurar consumar o assalto ao poder.

Victor Ângelo

Nós e a China

O ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi, falou nesta semana à nata dos dirigentes das empresas norte-americanas estabelecidas no seu país. O foco do seu discurso foi o reatamento do diálogo político entre a China e os Estados Unidos de Joe Biden. Considerou urgente o restabelecimento da comunicação e da confiança mútuas. Deu a entender que era tempo de ultrapassar a falta de objetividade e de racionalidade que haviam marcado a governação de Donald Trump. Fora a referência à linha vermelha da não ingerência nos assuntos internos chineses - ou seja, Beijing não quer que lhe falem de direitos humanos -, a sua comunicação refletiu uma linha oficial positiva e apaziguadora.

Victor Ângelo

Uma Europa mais arrojada

Quando se trata de política europeia a sério, é sempre bom começar por saber o que pensa Angela Merkel. Mesmo tendo presente que deverá sair de cena no próximo ano, continua a ser uma voz de referência. Nesta semana, a chanceler saudou, sem ambiguidades, a vitória de Joe Biden. E acrescentou que a parceria entre a União Europeia (UE) e os Estados Unidos deverá ser a aliança fundamental do século XXI. Estarei de acordo com esta afirmação se a colaboração assentar num equilíbrio de forças entre os dois lados. Como também estou em sintonia com Merkel quando diz, na sua mensagem ao presidente eleito, que para que a cooperação funcione eficazmente ter-se-á de pedir um esforço suplementar do lado da UE.

Victor Ângelo

Estados Unidos: depois da confusão

O assunto desta semana tem sido a eleição presidencial norte-americana. Não pretendo agora entrar na embrulhada em curso. Quero apenas abordar dois aspetos que me parecem merecer mais atenção. O primeiro é sobre o "bife". Em 1984, uma empresa de hambúrgueres criou uma frase publicitária que foi de imediato apropriada pela classe política. A frase era: onde está o bife? Ou seja, para além da verborreia, digam-nos quais são as propostas concretas que fazem? A pergunta permanece no arsenal político e tem muita força argumentativa. Neste ano o bife eleitoral foi uma mistura de perspetivas económicas, gestão da pandemia e luta pela igualdade racial. Foram estas as bandeiras que mobilizaram os eleitores, para além do profundo gosto ou desgosto que cada candidato suscitava. Ficou claro que os cidadãos participam mais no ato eleitoral quando o bife é consistente, feito de grandes causas. A economia parece ter sido o motivador mais importante da afluência às urnas. Isto faz-me lembrar a célebre expressão utilizada pela campanha de Bill Clinton em 1992: "É a economia, estúpido!" Donald Trump representava, para os seus apoiantes, a melhor aposta em termos de recuperação económica. Estavam convencidos de que a covid seria resolvida em breve, com a descoberta da vacina apropriada. O importante era poderem contar com um presidente ultraliberal na área económica e com um pé leve em matéria fiscal. Trump conseguiu vender essa imagem, bem como a representação de um oponente que estaria nas mãos da ala mais esquerdista do Partido Democrata, ou seja, que seria uma marionete dos radicais socialistas. Do lado de Joe Biden, o bife esteve na pandemia, na repetição da acusação da incompetência de Trump e da falta de respeito pela salvaguarda da vida dos seus concidadãos. A isso acrescentou um acompanhamento de questões sociais à volta das iniquidades raciais e da violência contra os cidadãos negros. Esse hambúrguer político era uma refeição completa. Mas havia um senão: o seu oponente explorou a imagem de bom senso e equilíbrio que Biden transmitia, transformando-a numa fragilidade. Projetar energia faz parte das qualidades de quem manda. Assim, temos agora um líder que precisa de trabalhar a sua imagem e mostrar que pode combinar humanismo com firmeza, incluindo na frente externa. E chegamos ao segundo aspeto. A União Europeia precisa de tirar duas ou três conclusões de tudo isto. A primeira é que Joe Biden, confirmada a sua vitória, terá necessariamente de se concentrar sobre a política interna americana, para alargar a sua base de apoio e resolver uma boa parte da bipolarização, rancor e ódio que existem no país. Em termos de política externa, para além de um regresso moderado ao multilateralismo, terá de se focalizar nas relações com a China e os vizinhos desta. Restar-lhe-á pouca disponibilidade para os assuntos europeus. A segunda é que uma boa parte dos americanos tem uma visão da política, da economia e das relações sociais muito distinta da europeia. A contínua divergência de valores leva ao enfraquecimento da aliança com a Europa. A distância política entre os dois espaços geopolíticos será cada vez maior. Temos, por isso, de trabalhar mais arduamente para uma Europa que seja tão autónoma quanto possível nas áreas da defesa e segurança, da economia digital, da energia e dos sistemas de pagamentos internacionais. As chantagens que a administração cessante nos fez, procurando o nosso alinhamento com as suas decisões unilaterais de sanções económicas e financeiras, ensinou-nos que devemos criar os nossos próprios mecanismos nestas áreas. Terceiro ponto, a Europa deverá reforçar a sua política externa, para ganhar espaço e independência em relação às decisões tomadas em Washington. A política externa europeia continua fraca, apesar dos recursos postos à disposição do Serviço Europeu de Ação Externa. Temos de ser francos e tratar decididamente desta fraqueza. É um perigo andar a reboque de outros poderes. Esta eleição deveria conduzir a uma relação internacional mais equilibrada e construtiva. O lado europeu tem de saber aproveitar a oportunidade e tornar-se um parceiro mais forte, mais interventivo e mais independente. Se o fizer, podemos dizer obrigado a Donald Trump por nos ter forçado a abrir os olhos. Conselheiro em segurança internacional. Ex-representante especial da ONU

Victor Ângelo

Europa e África: à procura do futuro comum

A sexta cimeira entre a União Europeia (UE) e a União Africana (UA) deveria realizar-se no final deste mês, em Bruxelas. A pandemia veio estragar o plano. Cyril Ramaphosa, chefe de Estado da África do Sul e atual presidente em exercício da UA, tentou tudo por tudo para que o encontro se realizasse ainda neste ano, antes do termo do seu mandato. Mas não conseguiu um número suficiente de adeptos para uma opção virtual. Na verdade, a falta de entusiasmo pelos ecrãs digitais revelou que existem divergências importantes entre os europeus e os africanos quanto ao futuro das relações mútuas, ou seja, ainda não há acordo sobre a estratégia comum.

Victor Ângelo

Uma digressão pelo Mali

O Mali é um país fascinante, diverso nas suas paisagens e culturas. É terra de grandes cantores e músicos tradicionais, que tocam a corá, um instrumento ancestral feito a partir de uma grande cabaça, das máscaras e estatuetas dogon, berço da cidade de Timbuktu, uma referência histórica ímpar em matéria de estudos islâmicos. Durante quatro séculos, até 1670, o Mali foi o epicentro de um grande império na África Ocidental, um império reconhecido pelos exploradores portugueses, que com ele mantiveram trocas comerciais de envergadura, através do rio Gâmbia. Acrescento ainda que tive, na ONU, vários colegas malianos, que se revelaram excelentes profissionais e que ocuparam postos importantes nas diferentes organizações multilaterais. Escrevo isto para me premunir de opiniões sumárias, dos que têm o hábito de arrumar tudo o que é africano num canto escuro, à sombra dos preconceitos habituais. Fico triste, como muitos outros, quando vejo o país a esfrangalhar-se e a tornar-se inseguro, como continua a acontecer diariamente.

Victor Ângelo

Questionar a obsessão securitária

A Comissão Europeia ganhou o hábito de produzir estratégias. É uma boa prática, por permitir fazer avançar a reflexão sobre temas prioritários e chamar a atenção dos diferentes governos sobre a necessidade de coordenação e de ações conjuntas, quando apropriado. Pena é que esses documentos fiquem apenas por Bruxelas e em certos círculos especializados, e não sejam debatidos nos Parlamentos nacionais e pela opinião pública, nos diferentes Estados membros.

Opinião

Uma estranha festa de aniversário

A doutrina militar moderna aprendeu muito com as operações no Afeganistão, no Iraque e mesmo, há vinte anos atrás, nos Balcãs. Uma das novas exigências tem que ver com o impacto estratégico de cada uma das acções tácticas levadas a cabo no terreno. Passou a ser conhecida como a teoria do "Primeiro-Cabo Estratégico". O nosso Cabo, que comanda quatro ou cinco soldados apenas, tem que manter um olho no inimigo e outro nas consequências mais gerais que cada tiro possa acarretar. Tem que prestar atenção, em simultâneo, ao pormenor e ao contexto.