Victor Ângelo

Victor Ângelo

Estados Unidos: depois da confusão

O assunto desta semana tem sido a eleição presidencial norte-americana. Não pretendo agora entrar na embrulhada em curso. Quero apenas abordar dois aspetos que me parecem merecer mais atenção. O primeiro é sobre o "bife". Em 1984, uma empresa de hambúrgueres criou uma frase publicitária que foi de imediato apropriada pela classe política. A frase era: onde está o bife? Ou seja, para além da verborreia, digam-nos quais são as propostas concretas que fazem? A pergunta permanece no arsenal político e tem muita força argumentativa. Neste ano o bife eleitoral foi uma mistura de perspetivas económicas, gestão da pandemia e luta pela igualdade racial. Foram estas as bandeiras que mobilizaram os eleitores, para além do profundo gosto ou desgosto que cada candidato suscitava. Ficou claro que os cidadãos participam mais no ato eleitoral quando o bife é consistente, feito de grandes causas. A economia parece ter sido o motivador mais importante da afluência às urnas. Isto faz-me lembrar a célebre expressão utilizada pela campanha de Bill Clinton em 1992: "É a economia, estúpido!" Donald Trump representava, para os seus apoiantes, a melhor aposta em termos de recuperação económica. Estavam convencidos de que a covid seria resolvida em breve, com a descoberta da vacina apropriada. O importante era poderem contar com um presidente ultraliberal na área económica e com um pé leve em matéria fiscal. Trump conseguiu vender essa imagem, bem como a representação de um oponente que estaria nas mãos da ala mais esquerdista do Partido Democrata, ou seja, que seria uma marionete dos radicais socialistas. Do lado de Joe Biden, o bife esteve na pandemia, na repetição da acusação da incompetência de Trump e da falta de respeito pela salvaguarda da vida dos seus concidadãos. A isso acrescentou um acompanhamento de questões sociais à volta das iniquidades raciais e da violência contra os cidadãos negros. Esse hambúrguer político era uma refeição completa. Mas havia um senão: o seu oponente explorou a imagem de bom senso e equilíbrio que Biden transmitia, transformando-a numa fragilidade. Projetar energia faz parte das qualidades de quem manda. Assim, temos agora um líder que precisa de trabalhar a sua imagem e mostrar que pode combinar humanismo com firmeza, incluindo na frente externa. E chegamos ao segundo aspeto. A União Europeia precisa de tirar duas ou três conclusões de tudo isto. A primeira é que Joe Biden, confirmada a sua vitória, terá necessariamente de se concentrar sobre a política interna americana, para alargar a sua base de apoio e resolver uma boa parte da bipolarização, rancor e ódio que existem no país. Em termos de política externa, para além de um regresso moderado ao multilateralismo, terá de se focalizar nas relações com a China e os vizinhos desta. Restar-lhe-á pouca disponibilidade para os assuntos europeus. A segunda é que uma boa parte dos americanos tem uma visão da política, da economia e das relações sociais muito distinta da europeia. A contínua divergência de valores leva ao enfraquecimento da aliança com a Europa. A distância política entre os dois espaços geopolíticos será cada vez maior. Temos, por isso, de trabalhar mais arduamente para uma Europa que seja tão autónoma quanto possível nas áreas da defesa e segurança, da economia digital, da energia e dos sistemas de pagamentos internacionais. As chantagens que a administração cessante nos fez, procurando o nosso alinhamento com as suas decisões unilaterais de sanções económicas e financeiras, ensinou-nos que devemos criar os nossos próprios mecanismos nestas áreas. Terceiro ponto, a Europa deverá reforçar a sua política externa, para ganhar espaço e independência em relação às decisões tomadas em Washington. A política externa europeia continua fraca, apesar dos recursos postos à disposição do Serviço Europeu de Ação Externa. Temos de ser francos e tratar decididamente desta fraqueza. É um perigo andar a reboque de outros poderes. Esta eleição deveria conduzir a uma relação internacional mais equilibrada e construtiva. O lado europeu tem de saber aproveitar a oportunidade e tornar-se um parceiro mais forte, mais interventivo e mais independente. Se o fizer, podemos dizer obrigado a Donald Trump por nos ter forçado a abrir os olhos. Conselheiro em segurança internacional. Ex-representante especial da ONU

Victor Ângelo

Europa e África: à procura do futuro comum

A sexta cimeira entre a União Europeia (UE) e a União Africana (UA) deveria realizar-se no final deste mês, em Bruxelas. A pandemia veio estragar o plano. Cyril Ramaphosa, chefe de Estado da África do Sul e atual presidente em exercício da UA, tentou tudo por tudo para que o encontro se realizasse ainda neste ano, antes do termo do seu mandato. Mas não conseguiu um número suficiente de adeptos para uma opção virtual. Na verdade, a falta de entusiasmo pelos ecrãs digitais revelou que existem divergências importantes entre os europeus e os africanos quanto ao futuro das relações mútuas, ou seja, ainda não há acordo sobre a estratégia comum.

Victor Ângelo

A Europa e as migrações

A Comissão Europeia acaba de apresentar as grandes linhas para um pacto sobre as migrações e o asilo. Prometeu, além disso, submeter nos próximos meses um pacote complementar de propostas que trate das diversas facetas da questão. Ou seja, a integração dos migrantes; as operações de repatriamento - quer dizer, a expulsão - dos que virem os seus pedidos de asilo e de residência negados; a revisão das normas que regem o espaço Schengen e o reforço das fronteiras da União; a luta contra o tráfico de pessoas; e um novo tipo de cooperação com os países de origem dos migrantes. É um programa ambicioso. O meu receio é que todo este trabalho dê muita parra e poucos resultados. Esta é uma das matérias que mais dividem os países da UE. Não se conseguem acordos para além do reforço das fronteiras exteriores da União e da intenção, sempre difícil de levar a cabo, de proceder ao retorno musculado dos imigrantes que não forem aceites. Tem sido assim desde a crise migratória de 2015 e temo que assim possa continuar. Mas vale a pena insistir. A Comissão tem o mérito de nos lembrar que a questão das migrações é um dos principais problemas que temos pela frente. Também nos recorda que se trata de um desafio comum e não apenas dos países que a geografia e a história colocaram mais perto de África, do Médio Oriente, do subcontinente indiano ou da América Latina. Alguns, porém, não querem ver o problema como sendo de todos. Pensam que poderá ser resolvido se se fecharem as fronteiras, de modo a impedir os movimentos de massa. A aposta em fronteiras estanques é uma proposta irrealista. Não tem em conta a demografia, os conflitos, a falta de oportunidades e o desespero que existem às portas da Europa. Se eu fosse um jovem natural do Níger ou da Tunísia, a minha ambição primeira seria a de tentar emigrar para a Europa, a todo o custo. Teria a mesma atitude se viesse do Paquistão ou do Bangladesh. Hoje, é assim. Amanhã, a pressão migratória será incomparavelmente maior. Perante um cenário deste tipo, compreende-se que a Comissão considere que é melhor estar preparado. Não será fácil, mas há que tentar. As migrações desordenadas e as respostas apenas ao nível nacional acabarão por pôr em causa o acordo de Schengen e a continuação da UE. Tornar-se-ão, acima de tudo, uma bandeira para os populistas, e, por isso, uma ameaça para a democracia em vários países europeus. Trata-se, assim, de uma questão política da maior importância. Em Portugal, a problemática não é tão visível. Somos mais um país de emigrantes do que de imigrantes. É verdade que em certos círculos europeus já se começa a falar de Portugal como uma porta de entrada e uma antecâmara de passagem para quem vem da Guiné, de Cabo Verde, do Brasil e mesmo da Índia, para mencionar apenas os mais importantes. E já há quem olhe para o mar entre Marrocos e o Algarve e veja aí uma nova rota, que precisa de ser interrompida quanto antes. Na França, a situação é outra. O presidente Macron sabe quais poderão ser os custos políticos de uma imigração descontrolada. Também está consciente das fraturas que certas comunidades de imigrantes provocam na sociedade francesa. Chama a essas fraturas "separatismo" e considera-as como um dos problemas mais prementes. O separatismo de que fala é mais do que a falta de integração na sociedade gaulesa. É uma atitude deliberada de grupos de pessoas de nacionalidade francesa, mas com raízes estrangeiras, que recusam aceitar os valores laicos, tolerantes e igualitários que definem o etos francês. Esses valores são similares aos prevalecentes no resto da União, mas não são reconhecidos noutras terras, que viveram experiências históricas diferentes das nossas. Esta rejeição deliberada da assimilação é um fenómeno novo e preocupante. Menciono a França a título de exemplo. Poderia falar de outros países que, no eixo central da Europa, têm sido ao longo dos últimos 60 anos o destino de migrantes vindos de fora da cultura europeia. Em todos esses países, a migração é um tema sensível, latente quando as economias prosperam e aberto quando as dificuldades apertam. Ora, com a economia à beira de uma grande crise, por causa do impacto da covid, não tratar politicamente da questão migratória seria um erro de consequências imprevisíveis para a Europa. Não podemos consentir que se persista nesse erro. Conselheiro em segurança internacional. Ex-representante especial da ONU

Victor Ângelo

Questionar a obsessão securitária

A Comissão Europeia ganhou o hábito de produzir estratégias. É uma boa prática, por permitir fazer avançar a reflexão sobre temas prioritários e chamar a atenção dos diferentes governos sobre a necessidade de coordenação e de ações conjuntas, quando apropriado. Pena é que esses documentos fiquem apenas por Bruxelas e em certos círculos especializados, e não sejam debatidos nos Parlamentos nacionais e pela opinião pública, nos diferentes Estados membros.