Sebastião Bugalho

Napoleão Bonaparte (1769-1821)

Bonaparte, 200 anos depois

Cumprem-se hoje dois séculos da morte de Napoleão Bonaparte, corso, francês e europeu, falecido na remota ilha de Santa Helena em maio de 1821, calvo, obeso e doente. Imperador originalmente jacobino, tirano e homem de Estado, génio militar derrotado por distração, libertador e invasor, romântico e mulherengo, anónimo feito imortal, saiu deste mundo com 51 anos e um cancro, que autodiagnosticara com uma certeza que a autópsia confirmaria. Os seus últimos dias, no derradeiro exílio a que Inglaterra o sujeitou, foram tristes, ébrios e solitários, com avolumadas encomendas de vinho, longos banhos de imersão e um clima atlântico a que realmente nunca se acomodou. "Este calhau miserável" era a descrição que escarnecia da sua morada final. Os visitantes, quando os havia, pediam-lhe que relatasse batalhas e feitos do seu tempo, aos quais correspondia, abrindo mapas em cima da mesa de bilhar, segurando-os ao tapete com o peso das bolas e tratando a memória das suas vitórias "como um amante se lembra das suas paixões".

Sebastião Bugalho

O silêncio do inocente

Quando António Costa se tornou primeiro-ministro, possuía um currículo que poucos, quando aí chegaram, haviam conseguido. Fora deputado, líder de bancada, ministro dos Assuntos Parlamentares, ministro da Justiça, ministro da Administração Interna, vereador, eurodeputado, presidente da maior câmara do país e, naturalmente, líder da oposição. A agilidade que muito se tem aplaudido nos últimos seis anos deve-se, em parte, a isso: experiência. Costa foi político a vida toda; política é o que sabe fazer. Mas, tanto ou mais do que o seu percurso e vocação, há uma característica que distingue o primeiro-ministro e os seus mandatos. Quem ma insinuou foi outro crítico seu, igualmente desalentado com o estado do país. É que Costa, para o bem e para o mal, conhece Portugal. Sabe o que pode e o que não pode. O que deve e não deve. O que consegue e pode prometer sem conseguir. Como homem sem grande fervor ideológico, adapta-se consoante o ciclo, a circunstância e a necessidade. Para uns, trata-se de um pragmático. Para outros, um situacionista.

Pedro Soares Martinez (1925-2021)

O antimoderno

Na Rua de São Bento, dava-se um almoço anual. Numa morada apalaçada, adquirida decadente mas feita bonita pelo anfitrião, reuniam-se o professor e respetivos assistentes. No repasto, de data certa no dia do santo que partilhava o nome com o decano, Pedro Soares Martinez cultivava a relação com os seus discípulos do Direito. Deles, há três impressões que prevalecem após o seu desaparecimento, aos 95 anos, há escassos dias. A primeira, a perseverança das suas convicções, mesmo que ultrapassadas pelo tempo e pelo regime em vigor. A segunda, o seu sentido de humor, provocador e, por vezes, até autodepreciativo. A terceira, uma tentação algo cruel no que a avaliações diz respeito. "Deu-me cabo da média" é, eventualmente, o comentário mais repetido; a maioria, com um sorriso amargo, mas órfão de rancor.

Sebastião Bugalho

O futuro

Para o regime, haverá sempre um antes e um depois da Operação Marquês. A gravidade das acusações a um ex-primeiro-ministro, independentemente do número que chegue a julgamento, torna o processo definidor do modo como o país se olha e vê. O tempo até lá será longo, facilitando sentenças que antecedam a dita. Para José Sócrates, diz, trata-se de uma batalha política. Para a Justiça, nota-se, trata-se de uma guerra por si mesma. Para o país, é um reflexo desagradável do que foi ou se deixou ser. Na política, desde sexta-feira as consequências são previsíveis: o Chega ganhou uma bandeira, António Costa recuperou o receio de um adversário e Rui Rio, o único líder partidário com um discurso consistentemente belicoso contra o Ministério Público, uma janela.

Sebastião Bugalho

Xexão (1937-2021)

A noite ainda não denunciava a chegada de primavera quando, entre o mato junto a Caxias, um punhado de próximos e amigos procurava distingui-la entre as grades do cárcere. Em 1974, a três semanas do 25 de Abril, Maria da Conceição Moita, presa política, celebrou o seu aniversário à distância e através de um sinal. De acordo com o que já se pode chamar lenda, empunhou um roupão vermelho (uns dizem cachecol, outros uma manta, todos recordam a cor), como que saudando aqueles que, lá ao fundo, escondidos nas árvores, a esperavam a ela e à liberdade.

Sebastião Bugalho

Os idos de Levine (1943-2021)

No elogio fúnebre de Júlio César, quarenta e quatro anos antes de Cristo, Marco António, seu amigo, proclama na peça que o eternizou: "O mal que os homens fazem vive depois deles. O bom é quase sempre enterrado com os seus ossos. Assim seja com César." Nestes idos de março, os olhos da história voltaram a lembrar o assassinato do ditador romano e, ao mesmo tempo, a perda de um vulto mais contemporâneo, igualmente trágico e eventualmente imortal.

Opinião

O planeta Rio

O leitor ficaria estupefacto com a impreparação que rodeia a maioria dos gabinetes políticos e partidários em Portugal. Palavra. No último ano, tal foi persistentemente óbvio. O chefe de Estado a gravar mensagens de vídeo com uma webcam amadora durante o confinamento. O líder de um partido com 46 anos - o CDS - a exercer mandato sem chefe de gabinete ou assessor de imprensa. Um candidato à maior autarquia do país a defender uma posição diametralmente oposta à do partido que o apresentou ‒ o IL ‒, quando uma pesquisa Google teria servido para evitar a imprudência. E já não falo do Governo, porque me obrigaria a um texto inteiro.

Sebastião Bugalho

A vacina portuguesa contra a covid-19

Talvez nenhum episódio tenha antecipado o momento nacional que vivemos como o da greve dos motoristas das matérias perigosas, no final do verão de 2019. Se recuarmos e lhe oferecermos a devida atenção, facilmente o reconhecemos. Ver o governo do Partido Socialista, sustentado ainda em toda a esquerda, vergar um sindicato com a ajuda das Forças Armadas foi uma irónica vénia de António Costa a um certo ator de Hollywood, cuja carreira terminou na Casa Branca. Igualmente cómico é recordar o desnorte do governo, perante um país em risco de ficar sem combustível nas gasolineiras, admitindo não ter dado pelo e-mail onde constava o aviso de greve na mesma semana em que inaugurava a Agência Portuguesa do Espaço, o que terá tornado Portugal a primeira potência espacial no planeta com problemas em abrir o correio eletrónico.

Sebastião Bugalho

Obituário do Fiel Jardineiro

A morte de George Shultz, no sábado passado, aos 100 anos de idade, é marcante pela sua memória e simbolismo. Shultz, uma relíquia do establishment norte-americano, graduou-se no MIT, foi fuzileiro na Segunda Guerra, académico, gestor, secretário do Trabalho, do Tesouro, do Orçamento e, mais celebremente, de Estado. Era, até esta semana, o ex-governante com mais idade entre os seus contemporâneos. Num jantar na Casa Branca, chegou a dançar com Ginger Rogers. Da vida de estudante em Princeton conservava a tatuagem de um tigre, a mascote da universidade, que mais tarde proporcionaria momentos de humor entre pares e repórteres.

Sebastião Bugalho

É hora de ir embora, amigo

No dia 23 de agosto de 2016, o Francisco Rodrigues dos Santos deu a sua primeira entrevista. Por coincidência, foi também a primeira vez que entrevistei um político. Simpatizámos. Como qualquer pessoa que o conheça sabe, é um indivíduo socialmente encantador. No dia 23 de janeiro de 2019, três anos mais tarde, a Assunção Cristas convidou-me para beber café. Direta ao assunto, sentou-se e disse-me que queria que fosse deputado do CDS. Com a jovialidade de um miúdo de 23 anos, respondi-lhe: "Tava a ver que não convidava." Ela riu-se e passámos a tratarmo-nos por tu. No dia 22 de maio, no último comício das eleições europeias, fora já anunciado como candidato independente e a Juventude Popular, presidida por Rodrigues dos Santos, viera já manifestar-se contra o meu nome. À saída do evento, Paulo Portas viu-nos e brincou: "Vá, vão lá fazer as pazes."