Sebastião Bugalho

Opinião

Os factos

1. Num dos seus livros mais pessoais, Philip Roth, carregado da costumeira ironia, mostra como os nossos maiores inimigos são, muitas vezes, os nossos melhores professores. Em Os Factos, publicado em 1988, Roth prova-o através da relação com a sua primeira mulher. "Quando escrevo ficção dizem que é autobiografia, quando escrevo autobiografia dizem que é ficção", troçaria, sobre as reações ao livro. A política também é feita desses equívocos e, na semana que passou, das mesmas lições. Há adversidades que se tornam boas tutoras. Vamos, então, aos factos da semana.

Sebastião Bugalho

A vacina portuguesa contra a covid-19

Talvez nenhum episódio tenha antecipado o momento nacional que vivemos como o da greve dos motoristas das matérias perigosas, no final do verão de 2019. Se recuarmos e lhe oferecermos a devida atenção, facilmente o reconhecemos. Ver o governo do Partido Socialista, sustentado ainda em toda a esquerda, vergar um sindicato com a ajuda das Forças Armadas foi uma irónica vénia de António Costa a um certo ator de Hollywood, cuja carreira terminou na Casa Branca. Igualmente cómico é recordar o desnorte do governo, perante um país em risco de ficar sem combustível nas gasolineiras, admitindo não ter dado pelo e-mail onde constava o aviso de greve na mesma semana em que inaugurava a Agência Portuguesa do Espaço, o que terá tornado Portugal a primeira potência espacial no planeta com problemas em abrir o correio eletrónico.

Sebastião Bugalho

Obituário do Fiel Jardineiro

A morte de George Shultz, no sábado passado, aos 100 anos de idade, é marcante pela sua memória e simbolismo. Shultz, uma relíquia do establishment norte-americano, graduou-se no MIT, foi fuzileiro na Segunda Guerra, académico, gestor, secretário do Trabalho, do Tesouro, do Orçamento e, mais celebremente, de Estado. Era, até esta semana, o ex-governante com mais idade entre os seus contemporâneos. Num jantar na Casa Branca, chegou a dançar com Ginger Rogers. Da vida de estudante em Princeton conservava a tatuagem de um tigre, a mascote da universidade, que mais tarde proporcionaria momentos de humor entre pares e repórteres.

Sebastião Bugalho

É hora de ir embora, amigo

No dia 23 de agosto de 2016, o Francisco Rodrigues dos Santos deu a sua primeira entrevista. Por coincidência, foi também a primeira vez que entrevistei um político. Simpatizámos. Como qualquer pessoa que o conheça sabe, é um indivíduo socialmente encantador. No dia 23 de janeiro de 2019, três anos mais tarde, a Assunção Cristas convidou-me para beber café. Direta ao assunto, sentou-se e disse-me que queria que fosse deputado do CDS. Com a jovialidade de um miúdo de 23 anos, respondi-lhe: "Tava a ver que não convidava." Ela riu-se e passámos a tratarmo-nos por tu. No dia 22 de maio, no último comício das eleições europeias, fora já anunciado como candidato independente e a Juventude Popular, presidida por Rodrigues dos Santos, viera já manifestar-se contra o meu nome. À saída do evento, Paulo Portas viu-nos e brincou: "Vá, vão lá fazer as pazes."