Sebastião Bugalho

Sebastião Bugalho

Uma tarde com Brad Mehldau

No que toca a reuniões entre amigos ao fim da tarde, o jazz não é estranho e a música tão-pouco dispensável. Em 1985, uma das mais célebres e fraternas duplas do género gravou An Elegant Evening ("Uma tarde elegante"), álbum em estúdio gravado com a voz de Mel Tormé e o piano de George Shearing. A parelha é aqui evocada pelo seu ecumenismo e longevidade na colaboração. Também o trio de Brad Mehldau, que tocou no Centro Cultural de Belém nesta quinta-feira, proporcionou uma tarde elegante aos ouvintes lisboetas; variada, familiar e quase comovente.

Sebastião Bugalho

O nosso Trajano e a nossa tragédia

Um antigo mestre disse-me uma vez que os maus livros ficam velhos ao fim de um mês enquanto os grandes livros continuam novos passados mil anos. Dá-se o caso de Marguerite Yourcenar ser autora dos que encaixam na segunda categoria. Ninguém diria que a escritora francesa perderia o seu tempo a escrever sobre Rui Rio, coisa que de facto não fez, mas podemos vislumbrar nas suas Memórias de Adriano algumas pistas sobre o destino e a circunstância do líder da oposição, nascido seis anos após a publicação da obra-prima de Yourcenar. Ela, que dedicou meia-vida à ficção biográfica daquele imperador romano, manteve somente uma frase do seu primeiro rascunho: "Meu caro Marco". Sendo que o destinatário da carta com que Adriano se despede do mundo é o seu sucessor, Marco Aurélio, também nós, neste texto, falaremos dos dilemas em torno do futuro herdeiro de Rui Rio, e das vicissitudes evidentes que circundam o próprio.

Opinião

Os senhores decidam-se

1.º Apesar de não usufruírem da excitação oferecida a André Ventura, os restantes partidos recém-eleitos enfrentam desafios igualmente pertinentes. Veja-se a nova porta-voz do PAN, Inês Sousa Real, a anunciar a vontade de integrar um executivo, contrariando abertamente a mensagem de despedida do seu antecessor, que olha para o partido como uma força somente parlamentar, e não governativa. Encare-se com bonomia o idealismo bacoco que saiu desse congresso, propondo sair da NATO, sabe Deus para onde, e na semana seguinte atacar ferozmente a Federação Russa e a Câmara de Lisboa pelo caso que envolveu ambas. Quem combate mais Putin do que a NATO? Bifes de seitan?

Sebastião Bugalho

John Warner (1927-2021). O sexto marido de Elizabeth Taylor

O nome poderá, a princípio, não soar quaisquer campainhas na memória de um leitor português. John Warner foi um político de impacto nacional, nos Estados Unidos, mas não alcançou funções executivas nem cultivou ambições presidenciais que o fizessem chegar a ouvidos ibéricos. O mais próximo que se aproximou de nós, em horizontes de celebridade, terá sido pelo seu casamento de seis anos com a sim famosíssima atriz Elizabeth Taylor, de quem foi um dos sete honoráveis maridos. O penúltimo, para ser mais preciso, de 1976 a 1982, com manifesto sucesso mediático para ambos. Mas John Warner, o segundo senador do seu estado natal que mais tempo exerceu o cargo (30 anos), nunca deixou de ser um homem da sua terra e da sua vocação: a Virgínia e as Forças Armadas.

Sebastião Bugalho

Nuno Monteiro (1971-2021). A vénia do mundo a um português

À beira de terminar o liceu, e sem saber exatamente ao certo o que seguir na faculdade ou na vida profissional, um jovem português de nome Nuno Monteiro recebeu um livro emprestado por um familiar. A Ascensão e Queda das Grandes Potências ‒ Alterações Económicas e Conflitos Militares de 1500 a 2000 ‒, de Paul Kennedy, o historiador britânico de Relações Internacionais, ajudou-o a tomar essa decisão. Não a escolher um futuro, mas a vislumbrar um gosto.

Sebastião Bugalho

O silêncio do inocente

Quando António Costa se tornou primeiro-ministro, possuía um currículo que poucos, quando aí chegaram, haviam conseguido. Fora deputado, líder de bancada, ministro dos Assuntos Parlamentares, ministro da Justiça, ministro da Administração Interna, vereador, eurodeputado, presidente da maior câmara do país e, naturalmente, líder da oposição. A agilidade que muito se tem aplaudido nos últimos seis anos deve-se, em parte, a isso: experiência. Costa foi político a vida toda; política é o que sabe fazer. Mas, tanto ou mais do que o seu percurso e vocação, há uma característica que distingue o primeiro-ministro e os seus mandatos. Quem ma insinuou foi outro crítico seu, igualmente desalentado com o estado do país. É que Costa, para o bem e para o mal, conhece Portugal. Sabe o que pode e o que não pode. O que deve e não deve. O que consegue e pode prometer sem conseguir. Como homem sem grande fervor ideológico, adapta-se consoante o ciclo, a circunstância e a necessidade. Para uns, trata-se de um pragmático. Para outros, um situacionista.

Walter Mondale (1928-2021)

O primeiro vice

Não há tanto tempo quanto isso mas numa era bem diferente, o Capitólio dos Estados Unidos da América era capaz de momentos de clamor, graça e reciprocidade. Foi assim em 2007, quando o presidente republicano George Bush (filho) introduziu o seu discurso do Estado da União "com a honra e o privilégio de ser o primeiro a poder começar por dizer: Madam speaker", pois a democrata Nancy Pelosi era a primeira mulher a assumir o cargo na Câmara dos Representantes. E foi também assim em 1981, com o vice-presidente Walter Mondale, um dia após celebrar o seu 53.º aniversário, a ler os resultados da primeira vitória de Ronald Reagan, em que havia sido derrotado como recandidato a vice-presidente de Jimmy Carter. Com equivalente sentido de humor e solenidade, Mondale leu os números do colégio eleitoral que davam a maioria de Reagan contra Carter e, logo a seguir, os que davam a maioria de George Bush (pai) contra si próprio. "Walter F. Mondale recebeu 49 votos", declarou, com um sorriso bem-disposto mas resignado. "Consegui, hein? Uma grande cabazada", ironizou para o lado, sendo apanhado pelo microfone. A Câmara, munida de respeito, levantou-se toda para o aplaudir e rir com ele. E Mondale, rindo de volta, declarou a sessão por encerrada.

Sebastião Bugalho

O futuro

Para o regime, haverá sempre um antes e um depois da Operação Marquês. A gravidade das acusações a um ex-primeiro-ministro, independentemente do número que chegue a julgamento, torna o processo definidor do modo como o país se olha e vê. O tempo até lá será longo, facilitando sentenças que antecedam a dita. Para José Sócrates, diz, trata-se de uma batalha política. Para a Justiça, nota-se, trata-se de uma guerra por si mesma. Para o país, é um reflexo desagradável do que foi ou se deixou ser. Na política, desde sexta-feira as consequências são previsíveis: o Chega ganhou uma bandeira, António Costa recuperou o receio de um adversário e Rui Rio, o único líder partidário com um discurso consistentemente belicoso contra o Ministério Público, uma janela.

Sebastião Bugalho

Xexão (1937-2021)

A noite ainda não denunciava a chegada de primavera quando, entre o mato junto a Caxias, um punhado de próximos e amigos procurava distingui-la entre as grades do cárcere. Em 1974, a três semanas do 25 de Abril, Maria da Conceição Moita, presa política, celebrou o seu aniversário à distância e através de um sinal. De acordo com o que já se pode chamar lenda, empunhou um roupão vermelho (uns dizem cachecol, outros uma manta, todos recordam a cor), como que saudando aqueles que, lá ao fundo, escondidos nas árvores, a esperavam a ela e à liberdade.

Opinião

Miranda Calha, um ano depois

Faz hoje justamente um ano que faleceu Júlio Miranda Calha, fundador do Partido Socialista de Portalegre, secretário de Estado da Administração Interna e do Desporto, homem da Defesa, da Liberdade, da Europa e do Atlântico, aos 72 anos de idade. Tive a honra de o conhecer e de o chamar amigo, coisa que não creio que se importaria que aqui escrevesse. Tive também a sorte de o entrevistar, por bom conselho de outro amigo, e de reviver com ele alguns momentos da sua extensa biografia política. Era, à data, o deputado mais antigo da Assembleia da República. E, da reforma agrária à sua sobrevivência a um atentado, da primeira medalha olímpica portuguesa às celebrações com Mário Soares, passando pelas viagens no Alentejo ao volante de um descapotável, Calha não se importou de vasculhar o fundo das suas memórias. O futuro‒ do país e do seu partido ‒preocupava-o muito mais do que aquilo que estava já feito.