Sebastião Bugalho

Sebastião Bugalho

Colin Powell (1937-2021) . O homem que podia ter evitado aquilo

Nas repúblicas antigas, um político era um ex-soldado e um soldado um futuro político. Nas democracias modernas, não é tanto assim, ainda que haja exceções. Colin Powell, nascido no Harlem, criado no Bronx e falecido nesta segunda-feira, aos 84 anos, era uma dessas exceções. Filho de pais jamaicanos, foi o primeiro afro-americano a servir no Conselho de Segurança Nacional, a chefiar o Estado-Maior e a liderar o Departamento de Estado norte-americano. A política externa e a Defesa dos Estados Unidos no século XX tiveram nele uma testemunha privilegiada, um agente ativo, uma influência marcante. Serviu três presidentes republicanos e foi cortejado e respeitado tanto por democratas como pelos conservadores. A sua imensa popularidade na década 1990, todavia, não perdurou ao ponto de protagonizar o seu legado. A política - ou a má política - contaminou a carreira de um herói militar e, mais do que isso - pior do que isso -, de uma figura profundamente querida junto da sociedade americana durante a maioria do seu percurso. Cumpriu duas comissões no Vietname, uma na guerra da Coreia e tornar-se-ia o general mais jovem do exército em 1979. Concebeu as bem-sucedidas operações no Panamá (1989) e no Golfo (1991), tendo sido os seus serenos briefings diários na televisão a conferirem-lhe notoriedade.

Opinião

Cavaco demitiu a oposição

Não comentarei as reações da área socialista ao artigo ontem publicado por Aníbal Cavaco Silva no semanário Expresso, na medida em que nenhuma delas aufere o mínimo de pertinência ou seriedade que o mereça. A esquerda que se julga proprietária de Abril e da democracia esquece-se que o político com maior apoio popular desde que Abril instaurou o regime democrático foi Cavaco Silva. Cometeu erros, como o próprio, mais tarde, reconheceu. E foi limitado pelas funções que, como Presidente, exerceu; falhando em travar a alegre marcha de José Sócrates para um precipício que há muito antecipava. "Nunca me engano e raramente tenho dúvidas" é a frase que ficou para a história, mas os livros, incluindo as autobiografias políticas do antigo primeiro-ministro e chefe de Estado, revelam ponderações, encruzilhadas e, para quem ler com atenção, até frustrações. Cavaco Silva é mais humano do que o que os seus detratores escarnecem e igualmente mais político do que o próprio alguma vez admitiu. É, em duas palavras, um chefe democrático. E a sua página de opinião escrita neste fim de semana deve ser lida como assinada por tal.

Sebastião Bugalho

Vítor Feytor Pinto (1932-2021). O aplauso de Cristo

Um "enorme vazio". Foi o que sentiu Manuela Ferreira Leite, que o havia conhecido há mais de duas décadas, quando soube da sua partida nesta quarta-feira, com 89 anos. A antiga líder da oposição rumava de propósito ao Campo Grande todos os domingos para ouvir a sua homilia, mesmo não sendo moradora das proximidades da paróquia. "Ia só para o ouvir. Enchia-me a semana. Conseguia um elo de ligação entre as leituras que as tornava compreensíveis para todos, sempre com uma lição para levarmos", conta. "Era extraordinário."

Sebastião Bugalho

Tiro ao lado

Na política, a incerteza é uma constante e a inevitabilidade uma exceção. Nos últimos seis anos, ainda que coroados pela mãe das incertezas - a pandemia -, houve uma inevitabilidade no nosso sistema político: António Costa. O primeiro-ministro, que transformou uma derrota embaraçosa numa sucessão de vitórias apoteóticas, que promoveu o primeiro excedente orçamental em democracia não perdendo os votos da esquerda, foi neste fim de semana reeleito secretário-geral do seu partido sorrindo "à confiança dos mercados" e namorando ao mesmo tempo o PCP, para quem "os mercados" são a materialização de Lúcifer. A direita poderia torcer, remoer ou fazer o pino com garrafões de água em equilibrismo que nada nem ninguém abanaria o pulso de Costa sobre o poder nacional. Nem o Parlamento, nem a Presidência, nem a União Europeia, nem a comunicação social lhe fizeram, alguma vez, frente. A inevitabilidade do seu sucesso é tal que já todos ‒-ou quase todos - dão a sua vitória nas legislativas de 2023 como facto consumado, caso fique.

Opinião

O sistema já tremeu

Em mais uma fulgurante demonstração de bizarria política, o PSD apresentou uma série de cartazes na cidade de Lisboa com o rosto da sua candidata à Câmara Municipal da Amadora. Tirando o facto de os sociais-democratas liderarem uma coligação à autarquia da capital que nada tem a ver com Suzana Garcia e do genuíno absurdo que representa o mesmo partido fazer campanha no mesmo concelho com rostos, mensagens e objetivos diferentes, algo sobressai no meio da asneirada. Suzana Garcia anuncia que "O Sistema Vai Tremer" no dia 26 de setembro das eleições locais. Colocar outdoors contra esse "sistema" diante do Parlamento, em clara tentativa de intimidação institucional, é um descarado copy/ paste das táticas de comunicação de André Ventura, que quase monopolizou os arredores de São Bento no que concerne a propaganda. Ora, para uma mulher que foi à televisão manifestar a preferência pelo extermínio do Chega, do Bloco e afins, a inspiração venturesca, acompanhada pela tal conversa antissistema, arrisca fazê-la passar por inverdadeira. Mas, rezam os cartazes de Suzana, "O Sistema Vai Tremer"; independentemente de o PSD, por quem dá a cara, ser um partido fundador desse sistema.

Sebastião Bugalho

O Chega trucidará o PSD

1 A noite das autárquicas é de resultado previsível mas day after conturbado. O vitorioso não será surpreendente ‒ o PS vencerá, mais uma vez, eleições que habitualmente penalizam quem governa ‒, mas aquilo que preencherá os comentários do dia seguinte não será o novo, repetido e já enjoativo sucesso do Partido Socialista, mas antes um dado drástico, surpreendente e chocante para os menos informados. Nestas eleições, não estaremos a falar de quem ganha, mas de quem, nos vários concelhos e freguesias, ficará em segundo lugar. E a grande novidade, nessa disputa do pódio, será o partido de André Ventura. Do mesmo modo que as presidenciais levantaram alvoroço devido ao meio milhão de votos que o líder do Chega reuniu, ultrapassando as candidaturas apoiadas pelo Partido Comunista e pelo Bloco de Esquerda, as autárquicas deste ano causarão rebuliço pelas vilas e cidades em que os homens de Ventura ultrapassarão os nomes do PSD.

Sebastião Bugalho

Otelo Saraiva de Carvalho (1936-2021). Otelos

Um célebre filósofo espanhol escreveu que "um herói é alguém que quer ser ele próprio". No caso de Otelo Saraiva de Carvalho, nascido em 1936, falecido no passado domingo e cremado com honras militares mas não de Estado, a questão é: mas qual dos próprios? O Otelo que foi libertador de um país algemado a um regime ditatorial? Ou o Otelo que se insurgiu clandestinamente contra o regime democrático que se seguiu, já em período de normalidade constitucional? O Otelo apregoador da democracia direta ou o Otelo que clamava a necessidade de "um homem com a inteligência e a honestidade" de Salazar? O Otelo cuja performance operacional na madrugada de 25 de Abril é ainda estudada nas escolas de infantaria? Ou o Otelo que, mesmo acreditando na sua versão, se deixou rodear por gente que assassinou funcionários do Estado e uma criança? O Otelo que a justiça decidiu condenar, mas nunca por crimes de sangue, ou o Otelo que a política preferiu perdoar, mesmo que sem as unanimidades que a vida e a morte nunca permitiriam?

Opinião

Era uma saga portuguesa, com certeza

O fado que se segue não canta tristeza ou saudade, mas antes uma resignação àquela que é, em tudo, uma história reveladora da circunstância nacional. Não diria identidade, porque não somos isto. Nem ousaria inevitabilidade, porque não temos de continuar isto. Diria, sim, que por trás da cortina do poder há um hábito que fede, uma cultura regimental que corrói o regime, uma natureza política que diminui o que é político, o que é Estado e o que é - ou por que se fez - a República. O palco do concerto é discreto, encontrando-se, aliás, e de momento, encerrado, mas as traves em que assenta aparentam putrefação. Comecemos pelo princípio, já que a estrofe final jaz por compor.

Sebastião Bugalho

John McAfee (1945-2021). O hedonista insurreto

A maioria da humanidade vive atormentada ‒ ou, pelo menos, acompanhada ‒ pela incerteza em relação ao seu próprio fim. Todos temos encontro marcado com ele, mas poucos sabemos o formato, a data e a circunstância em que nos cruzaremos, por fim, com a inexistência. O cronómetro vai contando e o mistério é tão constante que se torna inconsciente: na inevitabilidade de os ponteiros pararem, todos ‒ ou quase todos ‒ deixamos de ouvi-los girar. John David McAfee, nascido nos Estados Unidos da América no último ano da Segunda Guerra, e defunto numa penitenciária espanhola há coisa de três dias, era uma exceção a essa regra. Tinha 75 anos.