Ruy Castro

Ruy Castro

Vinicius por Francisco

É a glória. Vinicius de Moraes, poeta, letrista da bossa nova, diplomata de carreira, músico - o seu instrumento era o uísque - e irresistível sedutor, acaba de ser citado pelo Papa Francisco na sua nova encíclica, Todos Irmãos, divulgada há alguns dias pelo Vaticano. O texto de Vinicius a que o Papa se referiu foi "A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida". É um trecho do monólogo em meio à letra do Samba da Bênção, que ele e o violonista Baden Powell compuseram em 1962 - uma das primeiras entre as mais de 30 canções que fariam juntos nos dois anos seguintes e que incluíram pequenas obras-primas como Apelo, Consolação, Berimbau, Deixa, Samba em Prelúdio, O Astronauta, Formosa, Amei Tanto e Tempo Feliz. E não sejamos soberbos, mas, se se tivesse dedicado mais a fundo, o Papa acharia outros versos dignos de citação nesses sambas.

Ruy Castro

Um maravilhoso português do Brasil

Era como se, nas mãos deles, a música sempre voltasse ao primeiro dia da Criação. Uma das coisas que o Brasil legou de melhor ao século XX foi a sua escola de violonistas modernos - homens não apenas capazes de dar uma roupagem nova ao repertório clássico do samba e do choro, mas que se especializaram, desde 1940, em propor ousadas novidades técnicas, harmónicas e rítmicas. E que, para surpresa geral, não só conheceram o sucesso comercial como tiveram até presença internacional.

Opinião

Perfeitos (ou não) para o papel

Há dias morreu no Brasil, aos 96 anos, um grande ator: Leonardo Vilar. Os portugueses não o conheceram, exceto os que, um dia, assistiram a O Pagador de Promessas, de 1962, que levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes naquele ano. O filme se baseava numa peça de Dias Gomes, mais famoso no futuro como o principal autor de novelas da Globo, entre as quais Roque Santeiro. Era dirigido por Anselmo Duarte, que não fazia parte da turma de jovens cineastas comandados por Glauber Rocha e, por isso, eles o consideravam antiquado e desprezível. Pois imagine a surpresa que tiveram ao saber que O Pagador de Promessas acabara de ganhar o grande prémio em Cannes - e num ano em que concorriam O Eclipse, de Antonioni, O Anjo Exterminador, de Buñuel, Duas Horas na Vida de Uma Mulher, de Agnès Varda, Os Inocentes, de Jack Clayton, Divórcio à Italiana, de Pietro Germi, Tempestade sobre Washington, de Otto Preminger, e O Processo de Joana d'Arc, de Robert Bresson! Era como se uma modesta equipa brasileira de futebol de praia, o Lá Vai Bola, concorresse e vencesse a Champions League!

Ruy Castro

Elza indestrutível

Elza Soares, a cantora brasileira, fez 90 anos no dia 23 de junho. Em celebração da data, os jornais a entrevistaram, enfatizaram sua condição de heroína negra do Brasil e falaram de suas últimas gravações - sim, ela continua no ativa e, até pouco antes da pandemia, ainda se apresentava regularmente. Uma cirurgia na coluna em 2014 limitou seus movimentos e obrigou-a a, desde então, cantar sentada. Ela não se altera: "Canto sentada, mas meto bronca do mesmo jeito" - ou seja, joga-se à música como se fosse a Elza que, em 1999, foi eleita pela BBC de Londres a "cantora do milénio", cantou o hino nacional brasileiro a capella na abertura dos Jogos Pan-Americanos do Rio, no Maracanã, em 2007, e se apresentou no Central Park, em Nova Iorque, em 2017. Sentada ou em pé, Elza fez, nos últimos anos, dezenas de shows longe de Copacabana, onde mora, sujeitando-se à maratona de aeroportos, aviões e hotéis. Encontrei-a várias vezes nesses aeroportos e sempre me espantei com sua disposição para viajar.

Opinião

O mensageiro da morte

O confinamento pela covid-19 nos tornou melhores aqui no Rio. As pessoas se telefonam. Os mais novos ligam para os mais velhos. Os mais velhos ligam para os ainda mais velhos. Queremos saber como vão. Querem saber como vamos. Quem recebe o telefonema sente-se querido e reconfortado - alguém gosta de nós e quer se certificar de que estamos bem. Os jovens se oferecem para ir aos supermercados ou às farmácias para os idosos. Trocam-se ideias sobre como tornar o dia-a-dia menos vazio. E todos têm algo a dizer sobre as primeiras coisas que pretendem fazer assim que voltarmos às ruas. No meu caso, não tenho dúvida: irei para a beira do mar, respirarei fundo e me sentirei grato por ter chegado até ali - o que significa que terei sobrevivido ao governo assassino de Jair Bolsonaro.