Ruy Castro

Ruy Castro

Vinicius por Francisco

É a glória. Vinicius de Moraes, poeta, letrista da bossa nova, diplomata de carreira, músico - o seu instrumento era o uísque - e irresistível sedutor, acaba de ser citado pelo Papa Francisco na sua nova encíclica, Todos Irmãos, divulgada há alguns dias pelo Vaticano. O texto de Vinicius a que o Papa se referiu foi "A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida". É um trecho do monólogo em meio à letra do Samba da Bênção, que ele e o violonista Baden Powell compuseram em 1962 - uma das primeiras entre as mais de 30 canções que fariam juntos nos dois anos seguintes e que incluíram pequenas obras-primas como Apelo, Consolação, Berimbau, Deixa, Samba em Prelúdio, O Astronauta, Formosa, Amei Tanto e Tempo Feliz. E não sejamos soberbos, mas, se se tivesse dedicado mais a fundo, o Papa acharia outros versos dignos de citação nesses sambas.

Ruy Castro

O Brasil de Cafuringa, Fumanchu e Odvan

Um jovem guarda-redes revelado pelo Flamengo, Hugo, está dividindo a crónica desportiva do Brasil. Alguns jornalistas referem-se a ele como Hugo Souza, seu nome de registo. Outros preferem chamá-lo de Neneca, uma alcunha de infância. E uma terceira fação, na qual me incluo, prefere que ele atenda apenas por Hugo, simplesmente Hugo, já que não há outros Hugos importantes no atual futebol brasileiro e, se houver, nenhum deles é guarda-redes. Seria uma maneira de evitar essa mania pedante, atualmente em voga no Brasil, de chamar os jogadores pelo nome completo, como num cartão-de -visita, e ao mesmo tempo impedir que um grande jogador em potencial, de 21 anos, seja reduzido a um tratamento bobo, quase infantil, como Neneca - corruptela carinhosa de neném, o equivalente brasileiro de bebé.

Ruy Castro

Elza indestrutível

Elza Soares, a cantora brasileira, fez 90 anos no dia 23 de junho. Em celebração da data, os jornais a entrevistaram, enfatizaram sua condição de heroína negra do Brasil e falaram de suas últimas gravações - sim, ela continua no ativa e, até pouco antes da pandemia, ainda se apresentava regularmente. Uma cirurgia na coluna em 2014 limitou seus movimentos e obrigou-a a, desde então, cantar sentada. Ela não se altera: "Canto sentada, mas meto bronca do mesmo jeito" - ou seja, joga-se à música como se fosse a Elza que, em 1999, foi eleita pela BBC de Londres a "cantora do milénio", cantou o hino nacional brasileiro a capella na abertura dos Jogos Pan-Americanos do Rio, no Maracanã, em 2007, e se apresentou no Central Park, em Nova Iorque, em 2017. Sentada ou em pé, Elza fez, nos últimos anos, dezenas de shows longe de Copacabana, onde mora, sujeitando-se à maratona de aeroportos, aviões e hotéis. Encontrei-a várias vezes nesses aeroportos e sempre me espantei com sua disposição para viajar.

Opinião

O mensageiro da morte

O confinamento pela covid-19 nos tornou melhores aqui no Rio. As pessoas se telefonam. Os mais novos ligam para os mais velhos. Os mais velhos ligam para os ainda mais velhos. Queremos saber como vão. Querem saber como vamos. Quem recebe o telefonema sente-se querido e reconfortado - alguém gosta de nós e quer se certificar de que estamos bem. Os jovens se oferecem para ir aos supermercados ou às farmácias para os idosos. Trocam-se ideias sobre como tornar o dia-a-dia menos vazio. E todos têm algo a dizer sobre as primeiras coisas que pretendem fazer assim que voltarmos às ruas. No meu caso, não tenho dúvida: irei para a beira do mar, respirarei fundo e me sentirei grato por ter chegado até ali - o que significa que terei sobrevivido ao governo assassino de Jair Bolsonaro.