Rogério Casanova

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O elefante no corredor

Não seria uma expectativa razoável para um nicho tão circunscrito, mas o biopic das ciências sociais revelou-se uma sub-categoria cinematográfica improvavelmente prolífica. A última década e meia deu-nos Kinsey (2004), A Dangerous Method (2012) ,The Stanford Prison Experiment (2015), Mad to be Normal (2017, sobre R. D. Laing) e a série Masters of Sex (2013-2016). Muitos destes exemplos são sobre figuras de meados do século XX, quando a pesquisa científica conduzida em universidades era muito mais receptiva à excentricidade - e também quando (talvez por falta de estímulos concorrentes) ainda era possível que figuras das ciências sociais atingissem alguma notoriedade pública. Foi o caso de Stanley Milgram, protagonista de Experimenter - o filme de Michael Almereyda que a RTP2 transmitiu na sexta-feira passada, e talvez o representante mais interessante dessa curiosa sub-categoria.

Rogério Casanova

Perguntas Frequentes Sobre o Euro-2020 (3.ª Semana)

Este é o melhor Campeonato da Europa de sempre? Ou, por outras palavras, este é o pior Campeonato da Europa de sempre? Não, e não, por enquanto. A resposta a perguntas semelhantes será sempre "não" enquanto os eventos duram, e continuará a ser "não" pelo menos até haver mais dois ou três pontos de comparação futuros. A nossa compulsão para o rescaldo instantâneo tende a rasurar contingências e a querer validar instantaneamente o impulso para confundir a proximidade de uma emoção com uma qualquer precedência histórica. O futuro costuma tratar destes assuntos nos seus timings e não cede a pressões. Uma das melhores respostas ao debate periódico sobre a Era de Ouro da Ficção Científica (os anos 30 das revistas pulp? os anos 60 da New Wave?) limitou-se a propor que a Era de Ouro da Ficção Científica são os doze anos - o período em que se formam as memórias às quais todas as experiências posteriores serão comparadas. O melhor Europeu, tal como o melhor Mundial - tal como o melhor livro de ficção científica - nunca deve ser aquele que está a acontecer à nossa frente, nem o primeiro que aconteceu à nossa frente, mas sim aquele que melhor reproduz o deslumbramento da exposição inicial.

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Factos extremamente submersos da história de Inglaterra

O prémio Goldsmiths será talvez dos prémios literários mais divertidos (termo técnico) do circuito internacional. Por não ser dos mais "importantes" nem dos mais "prestigiados" (termos igualmente técnicos), não é dos mais acompanhados na imprensa nacional - até porque, ao contrário dos Man Booker ou Goncourt, um galardão não confere o direito automático a ser traduzido no dia seguinte. Em parte, isto é um efeito da sua tenra idade - fundado em 2013, vai apenas na oitava edição - mas também do tipo de obras que ostensivamente premeia. Atribuído em conjunto pela Universidade que lhe dá nome e pela revista New Statesman, o seu objectivo é exaltar precisamente o tipo de obras que o circuito habitual costuma ignorar - a categoria semi-desvanecida a que se costumava chamar ficção "experimental". É nas listas do Goldsmiths que podemos encontrar alguns dos mutantes que sobrevivem na literatura contemporânea: os policiais noir compostos em verso livre, os monólogos torrenciais que se arrastam num único parágrafo, as pirotecnias tipográficas, os dialectos desintegrados. O vencedor de 2019 foi Ducks, Newburyport - o infame romance de 1000 páginas sem um único ponto final (escrito, evidentemente, pela filha do biógrafo de James Joyce).

Rogério Casanova

Anda comigo ver os acidentes

Um dia antes de o MEL ter reunido as velhas direitas no Centro de Congressos de Lisboa para que pudessem ser todas publicamente esbofeteadas em simultâneo pela nova direita, um vídeo circulou pelo éter, ilustrando uma categoria diferente - mais séria, menos metafórica - de bullying: um grupo de crianças a perseguir outra, que ia fugindo pela berma de uma estrada. Quando a vítima atravessa a estrada para se afastar, o vídeo termina com o baque inconfundível de um impacto surdo e sem eco.

Rogério Casanova

A coluna de opinião mais urgente do nosso tempo

Um dos problemas de viver numa cultura periférica é chegar sempre tarde aos brinquedos mais apelativos. Para quem teve uma infância portuguesa nos anos 80, o que isto significava era que os rumores de recreio sobre um "primo da Alemanha" cujos brinquedos se transformavam todos em robots precediam em vários meses o aparecimento de Transformers nas lojas. Para quem escrevia colunas de jornal nos anos 90, a consequência era chegar com meses (ou às vezes com anos) de atraso às mais empolgantes opiniões disponíveis - sobre a "terceira via", sobre os "desafios da globalização", sobre o "politicamente correcto".

Rogério Casanova

O macaco contra os superdragões

O escritor australiano Peter Carey publicou há uns anos uma curiosidade difícil de classificar intitulada Wrong About Japan. Uma mistura de livro de viagem, ruminação cultural e autobiografia falsificada, o livro aproveita uma viagem ao Japão para ensaiar uma breve comédia de incompreensão. Armado com um arsenal de respostas feitas, lugares-comuns e antropologia em segunda mão, o narrador vai partilhando com os nativos intuições diversas sobre o subtexto de alguns artefactos culturais - sempre expressas em atabalhoado sociologês - e esbarra repetidamente em respostas negativas ou num desinteresse bem-educado. Mesmo quando arrisca o aparentemente mais seguro de todos os lugares-comuns - a influência de Hiroshima e Nagasaki na criação de Godzilla e em todo o imaginário pós-apocalíptico da cultura popular japonesa -, encontra apenas sorrisos condescendentes. Alguém lhe pergunta se "andou a ler livros americanos".

Rogério Casanova

Deixar a Britney em paz

2007 foi um ano especialmente produtivo no subgénero de fenómeno moderno conhecido nos tablóides de língua inglesa como celebrity meltdown. Como todas as categorias culturais inventadas, esta tem as suas regras e protocolos informais, os seus estatutos, o seu panteão, o seu bestiário de imagens representativas - e 2007 preenche muitos dos espaços no formulário: Amy Winehouse foi hospitalizada pela primeira vez; Paris Hilton e Kiefer Sutherland dormiram uns dias na prisão por conduzirem alcoolizados; Lindsay Lohan passou grande parte do ano a entrar e a sair de clínicas de reabilitação; Alec Baldwin insultou a filha de 11 anos num telefonema gravado; Pete Doherty foi expulso de casa por não pagar renda, e fotografado a intoxicar pinguins no jardim zoológico de Londres. Um ano atarefado, cujo mote fora dado em Fevereiro, quando Britney Spears invadiu um salão de cabeleireiro (numa cidade chamada Tarzana) e rapou o seu próprio cabelo enquanto câmaras a filmavam pela janela. Quando, dias depois, agrediu um paparazzo com um chapéu-de-chuva, o incidente pareceu quase um anticlímax.

Rogério Casanova

Tlön, Kekistão, Orbis Tertius

No conto de Borges Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, uma conspiração global é acidentalmente descoberta pelo narrador: uma conjura secreta que dedicou anos a falsificar histórias, almanaques e volumes enciclopédicos sobre um mundo inventado chamado Tlön, descrevendo ao pormenor as suas cidades, paisagens, populações, leis e filosofias. Aos poucos, à medida que as falsificações se multiplicam e a sua dispersão e visibilidade crescem, o rigor dessa colossal efabulação começa a encantar a humanidade e a substituir sistematicamente aquilo que outrora era real: "Já penetrou nas escolas o conjectural idioma primitivo de Tlön; já o ensino da sua história harmoniosa (e cheia de episódios comoventes) obliterou o que presidiu à minha infância; já nas memórias um passado fictício ocupa o lugar de outro." Em breve, línguas e hábitos antigos desaparecerão, objectos imaginários ganharão forma física, e o mundo inteiro será Tlön. "Uma dispersa dinastia de solitários", lamenta o narrador, referindo-se à cabala desconhecida que iniciou a patranha, "conseguiu mudar a face do mundo." Por outras palavras, o shitposting de heresiarcas anónimos revelou-se uma força tão poderosa que alterou drasticamente a realidade material.

Rogério Casanova

O calvário gnóstico de Steven Seagal

O Natal chegou e partiu, devidamente pontuado por filmes de Steven Seagal. Talvez tenha sido acidental - uma coincidência de programação - ou talvez seja uma tentativa do universo para corrigir uma injustiça: a sua habitual exclusão do cânone tradicional da quadra festiva (Música no Coração, Fuga para a Vitória, Die Hard, etc.). Qualquer tradição suficientemente ampla para incluir os três exemplos anteriores tem de encontrar espaço para a obra de Seagal, um repositório de narrativas, temas e imagens com conotações religiosas muito mais contundentes do que qualquer obra concorrente - tanto nos aspectos ocultos como até nos mais superficiais (O Homem que Brilha, transmitido nesta semana pelo canal Hollywood, começa praticamente com o grande plano de um cadáver crucificado, a que se seguem dois close ups de uma coroa de espinhos e uma chaga trespassada por um prego).

Exclusivo

Rogério Casanova

Diego Maradona (1960-2020)

Homens a tentar falar e a não conseguir, homens a chorar convulsivamente, homens a mastigar segundos inteiros de silêncio em directo: foi este o tema dominante da semana televisiva, pelo menos para quem tentou sintonizar canais argentinos. Noutros países, a coisa procedeu de maneiras menos operáticas, mas igualmente reverentes, com procissões de convidados a chegar aos estúdios munidos da matéria-prima dos obituários, prontos para explicar porque é que alguém que deixou de estar vivo na verdade não morreu. Muitos destes comentários incluíram a palavra "Deus".

Crónica de Televisão

O caixote de Ventura

Em Fevereiro de 2017, o então futuro deputado (e futuro candidato à Presidência da República) André Ventura pediu licença aos espectadores da CMTV, debruçou-se atrás da sua mesa e reapareceu segurando um enorme caixote de cartão. Não foi o primeiro nem o último adereço dramático (óculos escuros, chapéus, melões, etc.) que usou no programa Pé em Riste; foi apenas o maior. "Aqui dentro estão aqui 1416 notícias!", anunciou. Ventura fora acusado por pessoas de outro clube de se preocupar mais com esse clube do que com o seu; a sua intenção era demonstrar que pessoas do outro clube passavam ainda mais tempo a falar do seu clube do que ele sobre o clube delas.