Rogério Casanova

Opinião

Bocetas de Pandora cheias de Cavalos de Tróia

O momento mais divertido em toda a cobertura televisiva dedicada aos Pandora Papers aconteceu na TVI. Não quando Morais Sarmento passou catorze minutos a explicar porque é que a sua utilização de uma offshore para investir num hotel foi um heróico acto de resistência contra a burocracia moçambicana, mas num segmento posterior, em que entrevistaram João Paulo Batalha. Depois de triunfantemente revelados os nomes dos "três portugueses" que constam descarga de documentos, a entrevistadora tentou ir ao fundo do problema: "Estamos a falar de pessoas que foram titulares de cargos públicos, não há aqui uma... questão ética em jogo?

Rogério Casanova

Os cowboys do espaço e a álgebra esquecida

Que os sonhadores de hoje sejam os astronautas de amanhã... Bem vindos à alvorada de uma nova Era Espacial!" cantarolou alegremente Richard Branson, uma sílaba em cada nota, depois de regressar de um voo sub-orbital de 4 minutos - e de imediato os seus óculos escuros pareceram mais patuscos, os seus chumaços nos ombros mais retro, o seu fatinho espacial mais vintage. A linguagem com que a CNN enquadrou a posterior excursão de Jeff Bezos não foi menos exorbitante. Richard Quest, o cidadão inglês cujo cargo oficial na estação é imitar um cidadão inglês, cinzelou em directo o seguinte epigrama: "Os últimos dias podem mudar não apenas a história do mundo, mas do sistema solar". Bezos, que se limitou a debitar uma procissão de "wows" e "amazings" debaixo do chapéu de cowboy, soou quase modesto na sua escolha de lugar-comum (qualquer coisa inócua sobre "construir o futuro").

Rogério Casanova

Primeiro muito devagar, e depois subitamente

No segundo episódio da segunda temporada de Succession, dois herdeiros da família Roy, Roman e Kendall, percorrem a redacção do Vaulter, um jornal digital recém-adquirido pelo seu império de comunicação. Um dos irmãos olha à sua volta - observando dezenas de corpos debruçados sobre secretárias, inclinados perante monitores - e comenta em surdina com o outro: "tantos falsos jornalistas, todos a fingir que trabalham". O objectivo da visita é avaliar números - tráfego, visitas, cliques diários - e decidir a viabilidade do site. Mas na verdade a decisão já estava tomada, e o episódio emoldura-a entre dois discursos. No primeiro, Kendall oferece à redacção um ramalhete de banalidades motivacionais: garantias de que são todos "uma família" e de que o Vaulter é o "futuro do grupo", promessas de aumentos salariais e receptividade a "novas ideias", etc. O propósito é ganhar tempo, retardando um processo sindical em curso, e permitindo que uma equipa a trabalhar em segredo nos bastidores consiga assumir controlo dos arquivos do site. O segundo discurso, mais breve, limita-se a informar centenas de pessoas que acabaram de perder o emprego, e que têm 15 minutos para recolher os seus pertences e sair do escritório. O site continuará a existir com o mesmo nome num estado vegetativo, com apenas cinco estagiários sob a supervisão de um único editor - e a espremer valor residual dos arquivos e da marca enquanto for possível.

Rogério Casanova

A Superliga no fim do mundo

Proclamar que vivemos tempos sem precedentes e que algo-deve-ser-feito costuma ser uma estratégia eficaz como polémica opinativa ou propaganda política, mas a sua aplicação enquanto gambito publicitário é mais limitada. A retórica apocalíptica funciona, mas tem de ser calibrada de modo mais cuidadoso. Sentirmo-nos receosos e desesperados pode levar-nos a querer comprar urgentemente qualquer coisa (uma arma semi-automática, um bilhete para uma conferência sobre a liberdade de expressão, mil rolos de papel higiénico), mas o impulso também pode ser refreado se desconfiarmos que o desespero de quem vende é ainda maior que o nosso.

Opinião

Seis coisas inacreditáveis antes do pequeno-almoço

Há aqui uma questão sensível." Estávamos perto da meia-hora de jogo e José Alberto Carvalho tinha um plano. O plano era fazer mais uma pergunta e, ao contrário do que tinha acontecido com as seis perguntas anteriores, obter uma resposta. "Mas é uma questão sensível... em relação à qual o juiz Ivo Rosa também entende que deve ser avaliada em julgamento... que é uma questão que tem que ver com o cofre que a sua mãe tinha em casa..."

Rogério Casanova

Batman Alexanderplatz

Como todas as fábulas da Grande Era Online, esta começou com uma tragédia, uma hashtag, e uma incapacidade geral para determinar se algo é a sério ou a brincar. No tempo dos Antigos, Zacharias Snyder I estava a realizar um filme chamado Justice League, um épico com orçamento de 300 milhões de sestércios. Uma tragédia familiar (a morte de uma filha) levou-o a abandonar o projecto, que foi concluído por Joss Whedon, especialista em transplantar piadas de sitcom para contextos alternativos. A versão de Whedon teve um acolhimento ambíguo na estreia, mas o consenso geral foi de que se deturpara uma continuidade com os antepassados Man of Steel e Batman v. Superman: a visão original fora comprometida e perdeu-se a trilogia que poderia ter sido. Entre o povo, todavia, circulavam lendas e rumores: sobre os fragmentos sonhados por Snyder, sobre um filme secreto, proibido, escondido algures nas masmorras da Warner Brothers: Justice League, o Desejado; Justice League, o Encoberto. Quando os astros estivessem alinhados, dizia-se, a edição especial regressaria ao reino dos vivos para mostrar mais super-heróis em cuecas a esmurrarem-se em câmara lenta. Uma campanha na internet agregou-se à volta da exigência #ReleaseTheSnyderCut. Manifestações foram convocadas, executivos foram ameaçados. Os pedidos eram sérios? Facetos? Assim-assim? O Laço de Héstia compele-nos a responder que ninguém sabe ao certo, tal como não se sabia se o filme existia ou poderia alguma vez existir. Mas quatro anos e quatro horas depois, a versão mítica estreou finalmente na HBO, onde pode ser vista em periféricos de bolso e no formato 4:3, tal como os deuses decretaram.

Rogério Casanova

Hipercurtisação

A principal característica dos documentários de Adam Curtis é não se parecerem com os documentários de qualquer outra pessoa. São todos, no entanto, muito parecidos uns com os outros. Trabalhando com restrições de formatos e plataformas (Curtis é funcionário da BBC) que não são propriamente catalisadores de individualismo estético ou inovação formal, conseguiu consolidar um conjunto de idiossincrasias tão reconhecível que parodiá-lo se tornou um hábito recorrente na internet: há um youtube célebre (The Loving Trap) que sintetiza os seus maneirismos em três minutos devastadores; e sempre que estreia um documentário novo, volta a circular um cartão de bingo que convida os espectadores a identificar a inevitável reaparição de tiques linguísticos ("But one man thought differently..."), visuais ("imagens de arquivo de tropas soviéticas no Afeganistão") ou musicais ("faixa de Burial").

Rogério Casanova

A cada dia um fim do mundo

Primeiro o erguer súbito de um braço, uma boca a escancarar-se num grito; depois os dois braços erguidos, reclamando ajuda urgente; por fim, as duas mãos por cima da cabeça, a girar assimetricamente sobre o mesmo eixo. As lesões graves num campo de futebol são acompanhadas por uma coreografia imediatamente reconhecível para qualquer espectador frequente, e qualquer espectador frequente percebeu pela reacção dos colegas que alguma coisa terrível tinha acontecido ao tornozelo de David Carmo, jogador do Braga, antes sequer de a primeira repetição da Sport TV ter mostrado o incidente. Tudo o que se seguiu foi um pouco menos habitual - o cartão vermelho incompreensível, as manifestações de incredulidade, o crescendo de impaciência nos minutos restantes, a tensa confusão após o apito final, a conferência de imprensa convocada para dizer "Basta!" - mas não menos familiar e reconhecível. Pelo contrário, na mistura de incompetência, nervosismo, agressividade e frustração, foi um exemplo perfeitamente corriqueiro e protocolar de uma das (muitas) dimensões do futebol. Foi também, como é óbvio, uma das piores coisas de sempre a acontecer no mundo, e nada à excepção das medidas mais extremas seria uma reacção adequada.