Rogério Casanova

Opinião

Seis coisas inacreditáveis antes do pequeno-almoço

Há aqui uma questão sensível." Estávamos perto da meia-hora de jogo e José Alberto Carvalho tinha um plano. O plano era fazer mais uma pergunta e, ao contrário do que tinha acontecido com as seis perguntas anteriores, obter uma resposta. "Mas é uma questão sensível... em relação à qual o juiz Ivo Rosa também entende que deve ser avaliada em julgamento... que é uma questão que tem que ver com o cofre que a sua mãe tinha em casa..."

Rogério Casanova

O macaco contra os superdragões

O escritor australiano Peter Carey publicou há uns anos uma curiosidade difícil de classificar intitulada Wrong About Japan. Uma mistura de livro de viagem, ruminação cultural e autobiografia falsificada, o livro aproveita uma viagem ao Japão para ensaiar uma breve comédia de incompreensão. Armado com um arsenal de respostas feitas, lugares-comuns e antropologia em segunda mão, o narrador vai partilhando com os nativos intuições diversas sobre o subtexto de alguns artefactos culturais - sempre expressas em atabalhoado sociologês - e esbarra repetidamente em respostas negativas ou num desinteresse bem-educado. Mesmo quando arrisca o aparentemente mais seguro de todos os lugares-comuns - a influência de Hiroshima e Nagasaki na criação de Godzilla e em todo o imaginário pós-apocalíptico da cultura popular japonesa -, encontra apenas sorrisos condescendentes. Alguém lhe pergunta se "andou a ler livros americanos".

Opinião

WandaVision: qual é o som de uma mão a nunca parar de bater palmas?

Em Junho de 1942, Nabokov escreveu um poema sobre o esperma do Super-Homem. Numa carta ao editor da New Yorker, confessou recear que alguns versos fossem demasiado arriscados para as páginas da revista, mas pedia humildemente "honorários adequados" caso fosse aceite. O poema viria a ser recusado pelo editor, e permaneceu inédito até esta semana, quando o académico russo que descobriu o manuscrito num caixote em Yale o conseguiu publicar no Times Literary Supplement. "Sou jovem e transbordo de seiva prodigiosa", começa uma das estrofes. Alguns versos depois, o homem de Krypton reflecte sobre o risco elevado de estragar a noite de núpcias assassinando Lois Lane com o seu "jacto de amor".

Rogério Casanova

Deixar a Britney em paz

2007 foi um ano especialmente produtivo no subgénero de fenómeno moderno conhecido nos tablóides de língua inglesa como celebrity meltdown. Como todas as categorias culturais inventadas, esta tem as suas regras e protocolos informais, os seus estatutos, o seu panteão, o seu bestiário de imagens representativas - e 2007 preenche muitos dos espaços no formulário: Amy Winehouse foi hospitalizada pela primeira vez; Paris Hilton e Kiefer Sutherland dormiram uns dias na prisão por conduzirem alcoolizados; Lindsay Lohan passou grande parte do ano a entrar e a sair de clínicas de reabilitação; Alec Baldwin insultou a filha de 11 anos num telefonema gravado; Pete Doherty foi expulso de casa por não pagar renda, e fotografado a intoxicar pinguins no jardim zoológico de Londres. Um ano atarefado, cujo mote fora dado em Fevereiro, quando Britney Spears invadiu um salão de cabeleireiro (numa cidade chamada Tarzana) e rapou o seu próprio cabelo enquanto câmaras a filmavam pela janela. Quando, dias depois, agrediu um paparazzo com um chapéu-de-chuva, o incidente pareceu quase um anticlímax.

Rogério Casanova

Tlön, Kekistão, Orbis Tertius

No conto de Borges Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, uma conspiração global é acidentalmente descoberta pelo narrador: uma conjura secreta que dedicou anos a falsificar histórias, almanaques e volumes enciclopédicos sobre um mundo inventado chamado Tlön, descrevendo ao pormenor as suas cidades, paisagens, populações, leis e filosofias. Aos poucos, à medida que as falsificações se multiplicam e a sua dispersão e visibilidade crescem, o rigor dessa colossal efabulação começa a encantar a humanidade e a substituir sistematicamente aquilo que outrora era real: "Já penetrou nas escolas o conjectural idioma primitivo de Tlön; já o ensino da sua história harmoniosa (e cheia de episódios comoventes) obliterou o que presidiu à minha infância; já nas memórias um passado fictício ocupa o lugar de outro." Em breve, línguas e hábitos antigos desaparecerão, objectos imaginários ganharão forma física, e o mundo inteiro será Tlön. "Uma dispersa dinastia de solitários", lamenta o narrador, referindo-se à cabala desconhecida que iniciou a patranha, "conseguiu mudar a face do mundo." Por outras palavras, o shitposting de heresiarcas anónimos revelou-se uma força tão poderosa que alterou drasticamente a realidade material.

Rogério Casanova

A máquina de fazer cadáveres esquisitos

Espoliados de alguns seus mecanismos habituais para assinalar a transição de um ano para o seguinte - directos de recintos repletos, vox pop com perguntas a transeuntes eufóricos ("quais são os seus desejos?") -, os canais terrestres apostaram tudo nos que ainda sobraram - o primeiro bebé do ano, o primeiro mergulho do ano, etc. - e delegaram o resto à própria grelha e às escolhas de programação, que foram neste ano um triunfo da falácia da forma imitativa.

Rogério Casanova

O calvário gnóstico de Steven Seagal

O Natal chegou e partiu, devidamente pontuado por filmes de Steven Seagal. Talvez tenha sido acidental - uma coincidência de programação - ou talvez seja uma tentativa do universo para corrigir uma injustiça: a sua habitual exclusão do cânone tradicional da quadra festiva (Música no Coração, Fuga para a Vitória, Die Hard, etc.). Qualquer tradição suficientemente ampla para incluir os três exemplos anteriores tem de encontrar espaço para a obra de Seagal, um repositório de narrativas, temas e imagens com conotações religiosas muito mais contundentes do que qualquer obra concorrente - tanto nos aspectos ocultos como até nos mais superficiais (O Homem que Brilha, transmitido nesta semana pelo canal Hollywood, começa praticamente com o grande plano de um cadáver crucificado, a que se seguem dois close ups de uma coroa de espinhos e uma chaga trespassada por um prego).

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Rogério Casanova

Diego Maradona (1960-2020)

Homens a tentar falar e a não conseguir, homens a chorar convulsivamente, homens a mastigar segundos inteiros de silêncio em directo: foi este o tema dominante da semana televisiva, pelo menos para quem tentou sintonizar canais argentinos. Noutros países, a coisa procedeu de maneiras menos operáticas, mas igualmente reverentes, com procissões de convidados a chegar aos estúdios munidos da matéria-prima dos obituários, prontos para explicar porque é que alguém que deixou de estar vivo na verdade não morreu. Muitos destes comentários incluíram a palavra "Deus".

Rogério Casanova

Sete filmes de terror para a noite de Halloween

Desde os tempos de Platão que a humanidade se interroga filosoficamente sobre uma questão estruturante: o que é que acontece aos protocolos da ordem social num contexto em que o ser humano consome fungos parasíticos que o transformam gradualmente num cogumelo monstruoso? Matango é a resposta mais pertinente que conseguimos desenvolver até agora. O filme é realizado por Ishiro Honda, co-criador das iterações clássicas de Godzilla, e o espectador desprevenido pode precipitar-se a concluir que um filme de terror oriental sobre cogumelos gigantes será mais um tratamento metafórico da bomba atómica, mas Matango está muito menos interessado nos efeitos da radiação do que nos efeitos de uma toxicodependência que externaliza os piores impulsos dos protagonistas. Adaptação livre de um conto de William Hope Hodgson, o guião mais parece uma variação sobre O Senhor das Moscas, em que os habitantes da ilha paradisíaca são promovidos de crianças a arquétipos adultos (o Empresário, o Artista, a Femme Fatale, etc.), que revertem a um estado primordial quando a sua dieta é reduzida. Poucos filmes tiveram a coragem de sugerir que os verdadeiros monstros talvez sejam as pessoas que decidem comer cogumelos.

Rogério Casanova

Antropocentrismo à lagareiro

Desde tempos imemoriais que membros da espécie humana adquirem um humilde e salutar sentido de perspectiva através da contemplação do mundo natural. Confrontados com esplendores diversos - o ciclo incessante das marés, a luminosidade dispersa do firmamento, as peregrinações em massa de aves migratórias -, a reacção adulta normal é pensar: "Quão insignificantes são todas estas coisas comparadas comigo!" E temos toda a razão. A galáxia mais espectacular é incapaz de escrever má poesia sobre si própria. A borboleta mais exuberante não consegue organizar fotografias suas em subpastas de "Os Meus Documentos". Quem inventou os vários significados da palavra "interessante" tem, por definição, muito mais interesse do que todas as coisas que lhe interessam. O resto da realidade tem imensa sorte em nos ter por perto, e nem sequer nos agradece (o agradecimento foi outra maravilhosa invenção nossa, tal como os pronomes pessoais e possessivos).

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Crónica de Televisão

O algoritmo mau e os capuchinhos vermelhos

Antes de começarem a ser filmadas e transmitidas, as advertências alarmistas e simplistas declamadas com sentido de dever cívico não se costumavam chamar "documentários". Mesmo depois de começarem a apontar-lhes câmaras, muitas tiveram o cuidado de escolher designações mais modestas e realistas, como "anúncios", ou "direitos de antena". Um dos mais populares, sobre os perigos da droga, passou nas televisões americanas nos anos de 1980 e foi depois imortalizado em inúmeras paródias e recriações; mostrava um ovo a ser despejado numa frigideira quente: "This is your brain on drugs", informava uma voz solene.

Exclusivo

Rogério Casanova

Quatro noites no fim do mundo

Imaginem a Civilização Ocidental com um vestido de gala (colar opulento, penduricalhos, ombros sedutoramente expostos) a percorrer uma passadeira vermelha perante um batalhão de paparazzi. A poucos metros de distância, dezenas de fãs brandem caderninhos, à caça de autógrafos. A Civilização Ocidental sorri nervosamente. A multidão pode esconder inúmeros perigos; cada admirador pode ser um assassino disfarçado. Quem a protege? Quem mantém a Civilização Ocidental em segurança? Felizmente, está tudo controlado: "Trump é o guarda-costas da Civilização Ocidental." A transmissão televisiva da Convenção Republicana tinha começado há menos de cinco minutos e a frase foi proferida por Charlie Kirk, o playmobil em forma humana responsável pelo primeiro discurso da noite. Na posterior interrupção publicitária, um dos anúncios na CNN não tentou vender um produto, mas apenas afirmar a sua utilidade cívica: a imagem de uma máscara cirúrgica, com a legenda "Isto é uma máscara. Não é uma declaração política; é apenas uma máscara". O discurso de Kirk, como quase todos os outros, foi feito num auditório vazio: o efeito (como nos recentes jogos de futebol sem público) é desconcertante, e o contraste com as memórias do passado nunca o deixa ser inteiramente assimilado. Desde que as primeiras convenções partidárias americanas foram transmitidas (em 1956), aquilo que sempre pareceram, mais do que qualquer outra coisa, foi programas de televisão; paradoxalmente, no ano em que são "apenas" programas de televisão, parecem menos programas de televisão do que já foram: a artificialidade é estranhamente comprometida pela falta de público. Uma multidão a aplaudir é essencial à integridade narrativa de uma pessoa a gritar disparates num palanque. Em muitos aspectos, no entanto, foi uma convenção igual a todas as outras, talvez até mais bem comportada do que a de 2016, e menos recheada de momentos memoráveis do que a de 2012 (quando Clint Eastwood conversou com uma cadeira vazia durante nove minutos). A política americana é intrinsecamente divertida quando vista estritamente como espectáculo televisivo, e o Partido Republicano dos últimos quatro anos é talvez a melhor fonte de entretenimento surgida numa democracia, com uma notável subespecialização na estética da insanidade. Donald Trump como "guarda-costas da Civilização Ocidental" seria uma imagem insólita em quaisquer outras circunstâncias, mas fez todo o sentido no contexto temático das quatro noites, que estipulou um mundo à beira do apocalipse. Cada participante, desde o presidente de uma associação de artes marciais a um sindicalista da indústria madeireira, passando por algumas celebridades secundárias da internet, descreveu uma distopia infernal prestes a acontecer. "Joe Biden é o monstro do Loch Ness do pântano", explicou Trump Júnior, "e os Democratas Radicais querem cancelar-nos a todos!". "Eles querem controlar o que nós vemos e ouvimos e pensamos para poderem controlar como vivemos!", assegurou aos gritos uma operação plástica identificada como Kim Guilfoyle. "Não se iludam: onde quer que seja, nunca estaremos a salvo", profetizou uma senhora conhecida por ter aparecido na televisão com uma semiautomática em punho. De vez em quando, a retrospectiva informal de Bosch e Brueghel era interrompida por alguns discursos tendencialmente "inspiradores" (pessoas que não tinham emprego, mas depois tiveram, graças ao presidente; pessoas que estiveram doentes, mas já não estavam, graças ao presidente). As alusões da praxe ao "Sonho Americano" - a ideia de que qualquer pessoa, independentemente das suas origens, pode triunfar graças à competência e à vontade de trabalhar - foram reiteradas pelos dois filhos de Trump, pela filha de Trump, pela outra filha de Trump, pela nora de Trump e pela mulher que se casou com Trump. Depois o interlúdio chegava ao fim, e o apocalipse recomeçava: "Prédios abandonados! Lojas de bebidas em cada esquina! Drogados nas ruas!" O congressista Matt Gaetz foi quem tentou elaborar o cenário mais específico: "Joe Biden vai fazer de vocês figurantes num filme escrito, produzido e realizado por outros. É um filme de terror, na verdade. Eles vão tirar-vos as armas, esvaziar as prisões, fechar-vos nas vossas casas e convidar um gangue de criminosos mexicanos a mudar-se para a casa do lado." Nada disto é propriamente novidade: os americanos sempre calibraram a sua retórica eleitoral como a derradeira oportunidade de evitar um desastre sem precedentes. Mais raro, talvez, é a retórica surgir de uma administração em funções e não de uma insurgente alternativa ao statu quo. Seria uma estratégia invulgar se o que estivesse a ser oferecido fosse um argumento político, uma defesa de uma maneira de fazer as coisas, em contraste com outra maneira. Mas este tipo de eventos (tal como a campanha que se segue) já não é primariamente um mecanismo de persuasão. O seu propósito não é fornecer um modelo para explicar a realidade, mas apenas sinalizar que partilha com o público-alvo um modelo que já existe, construído e distribuído de uma forma peculiarmente contemporânea: o samidzat etéreo de medos, ódios e irritações que circula como estenografia identitária nos seus espaços designados na internet e nos canais por cabo. Estas são as coisas que me irritam, estas são as pessoas que odeio; este é o "meu" lado, aquele é o outro. O discurso político que surge destes espaços não é sequer uma conversa, mas uma cacofonia de monólogos rancorosos, cujo objectivo nunca é convencer terceiros, mas consolidar um conjunto de pressupostos, superstições e microignorâncias deliberadas. Serve para transmitir lealdade à marca, para publicitar uma certa maneira de ver o mundo. Trump, claramente, não possui nem nunca possuiu nada que se assemelhe a uma ideologia: as suas "convicções" políticas não são mais do que uma colecção de impulsos semiconscientes na defessa agressiva do seu próprio ego, complementada com algumas frases soltas ouvidas na televisão, e prontamente esquecidas até alguém as repetir no mesmo ecrã. A sua base é constituída pelos que se irritam com as mesmas coisas que o irritam. Porque não há nada substancial de que tencione convencer alguém, a questão de acreditar nele ou não é reduzida ao essencial. Revolução marxista, hordas de vândalos, elites pedófilas, oposição a soldo da China, imprensa inimiga do povo: ninguém precisa de "acreditar" literalmente em nada disto - apenas na sua validade como metáforas para a perversão essencial do outro lado. Não é uma declaração política; é apenas uma máscara. Não serve para esconder, mas para mostrar quem está do mesmo lado. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Rogério Casanova

Boa noite, boa sorte e boa malha

Apesar do Oscar que recebeu por The Social Network, apesar da recente subespecialização em escrever êxitos de bilheteira sobre "génios" visionários (Zuckerberg, Steve Jobs), apesar do legado de The West Wing - uma mão-cheia de Emmys e a criptoinfluência que exerceu sobre uma geração não apenas de argumentistas, mas também de políticos (americanos e não só) - a cena mais célebre que Aaron Sorkin escreveu continua a ser a cena central do seu primeiro filme, A Few Good Men. O nobre e feroz interrogador interpretado por Tom Cruise, infatigável na busca da Verdade, manipula Jack Nicholson até este explodir: "You can"t handle the truth!" A sugestão é que o pronome "you", que em inglês tanto pode ser singular como plural, não impugna apenas Tom Cruise, mas o resto da plateia: os que estão no tribunal, e os que estão a ver o filme. Nicholson pode ser o vilão nesse filme, mas a Verdade que enuncia é um suporte estrutural em todos os mundos que Sorkin criou: a ideia de que os bastidores de qualquer poder institucional escondem elementos desagradáveis, mas essenciais, e de que uma causa maior pode justificar atropelos menores. Frequentemente acusado de ser um "idealista" (especialmente durante os anos de The West Wing), Sorkin sempre adoptou e aprovou "-ismos" menos estanques: idealismo poético nas palavras, mas o suposto pragmatismo dos "adultos" quando chegava a hora dos actos. Uma lady no palanque, uma louca na sala de reuniões.