Raúl M. Braga Pires

Raúl M. Braga Pires

Portimão/Faro-Tânger ou Portimão/Faro-Casablanca? A escolha é sua!

A Câmara de Comércio e Indústria Luso-Marroquina (CCILM), associada à Embaixada de Marrocos em Portugal, procede actualmente a um levantamento público sobre o interesse do tecido empresarial português e dos particulares também, sobre a criação de uma ligação marítima entre ambos os países, criando-se assim uma alternativa ibérica ao existente exclusivo espanhol. O mais provável e lógico é que esta ligação se faça entre o Algarve e Tânger, ficando apenas a dúvida entre Faro e Portimão, enquanto ponto de partida e chegada. Acedendo ao sítio da CCILM, poderá solicitar via mail o respectivo formulário e dar o seu contributo.

Raúl M. Braga Pires

Marrocos-Espanha: nova crise diplomática

Decorrente do internamento em Espanha do líder sarauí Brahim Ghali, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Marrocos, Nasser Bourita, chegou mesmo a perguntar se a Espanha está disposta a sacrificar a sua relação com Marrocos, por causa do líder da POLISARIO. Indo de novo aos factos, já que há uma semana também referi o início deste episódio, indicam que Brahim Ghali terá entrado em Espanha no dia 22 de Abril, com identidade argelina (nome falso, portanto) e após contacto do governo argelino com as autoridades espanholas, solicitando autorização para o voo necessário e recepção do referido líder, tendo sido invocadas razões humanitárias. Infectado com covid, mas também a braços com um cancro, o paciente Ghali foi admitido numa clínica próxima de Saragoça. É a partir daqui que o imbróglio diplomático se começa a desenrolar, já que o actual líder da POLISARIO tem pendente na justiça espanhola um processo decorrente de uma queixa apresentada por um sarauí naturalizado espanhol, que o acusa, juntamente com outros 24 "polisários" e três generais argelinos de agressão, terrorismo, sequestro, desaparecimentos e assassinatos. Marrocos, actualmente em guerra com a República Árabe Sarauí Democrática, no território disputado por ambos, vulgo Sara Ocidental, não quer perder esta oportunidade para, de forma legal e com a visibilidade mediática mundial que lhe assiste, cortar a cabeça da sua "serpente de estimação", acrescentando este ganho aos restantes no terreno e nas Nações Unidas. Nesse sentido, pressiona as autoridades espanholas, elevando a fasquia ao limite possível, enquanto nuestros hermanos se embrulham em contradições, com a Audiência Nacional (o tribunal) a desmentir no passado dia 5 ter convocado Ghali para comparecer perante a justiça, quando no dia 3 fonte judiciária ligada ao processo tinha confirmado tal convocatória para o dia 5, em virtude das já referidas queixas apresentadas pelo cidadão Fadel Breika, dissidente sarauí naturalizado espanhol.

Raúl M. Braga Pires

Níger: na tomada de posse do presidente Mohamed Bazoum

O Níger assiste hoje à tomada de posse do recém-eleito presidente (PR) Mohamed Bazoum (55,75%), sendo que "na véspera", na noite de 30 para 31 de Março, assistiu a uma tentativa de golpe de Estado, liderada por um grupo de militares que não passou das imediações do palácio presidencial, no bairro do Plateau, uma espécie de "Restelo de Niamey", onde se concentram os serviços da presidência e outros centros do poder nigerino.

Raúl M. Braga Pires

Qatar 2022 e o reverso da medalha

O próximo Mundial de Futebol está praticamente à porta. Digo-o desta forma porque o tempo, para mim, tem passado mais rapidamente em tempos de confinamento. Nunca fui tão produtivo como agora, talvez por ter de inventar entretenimento e, quando dou por mim, estou sempre a entreter-me com algo ligado ao que me dá mais prazer, o trabalho e, já é sexta-feira outra vez. O desejo e a ânsia em ultrapassar esta fase também ajudará certamente e a verdade é que o pessegueiro à porta de casa é a árvore mais florida da rua, indicando que o Inverno já foi e que os bichinhos vão começar a comer borboletas para as terem no estômago, só porque sim.

Opinião

Sahara Marroquino versus Sahara Ocidental: De Gdim Izik a Guerguerat

O mês de Novembro é sempre complicado em Marrocos, já que vários acontecimentos históricos se celebram durante este mês. Desde logo a Marcha Verde, de 06 de Novembro de 1975, que este ano comemorou 45 anos. Esse dia marcou o avanço de mais de 300 mil marroquinos que, às ordens do então Rei Hassan II, avançaram sobre o então sahara Espanhol, uma colónia africana sob administração espanhola, à imagem dos actuais enclaves de Ceuta e Melilla, no Mediterrâneo. Hassan II, antecipando a saída espanhola, avança porque em política não há vazios. Enquanto Marrocos avança para sul, a Mauritânia de Moktar Ould Daddah, o primeiro Presidente da agora República Islâmica, avança para norte e, o Sahara fica, grosso modo, dividido ao meio entre marroquinos e mauritanianos. A Mauritânia retira-se em 1979, pelos elevados custos a que a sua presença militar comportava e, também, para não antagonizar marroquinos e argelinos, já que se trata(va) do elo mais fraco entre os três, com quem tem fronteiras e de quem depend(e)ia economicamente. Dá-se também a coincidência de a polisario ter sido fundada em Zouerate, na Mauritânia, em 1973, localidade a partir da qual iniciou a luta armada contra a presença espanhola. Esta retirada mauritaniana é regulada com Marrocos, que passa a administrar efectivamente a totalidade do território actualmente em disputa. De forma telegráfica, as Nações Unidas colocaram o Sahara Ocidental no mesmo patamar de Timor-Leste sob ocupação indonésia e apresentou como solução, em 1991 e em sintonia com Marrocos e com a polisario, a realização de um referendo para a população local se pronunciar sobre se quer ser independente ou confirmar a soberania marroquina. A realização do referido referendo nunca aconteceu e nem faz já parte dos relatórios onusianos sobre a disputa, sendo no entanto esta a âncora, ainda hoje, dos sahraouis independentistas. Outro acontecimento recente do "Novembro sahraoui" foi Gdim Izik em 2010. Tratou-se de um protesto interessante por todas as características envolvidas. A partir de 08 de Outubro um grupo de contestatários sahraouis iniciou um acampamento, 12 km a sudeste de Lâayoune, como forma de protesto pela forma discriminatória como as autoridades marroquinas os tratavam. Este acampamento foi crescendo ao longo de um mês, sendo que era a base nocturna do protesto. Ou seja, durante o dia os aderentes iam para a cidade trabalhar e à noite reuniam-se no acampamento num protesto festivo com todas as características de uma população de raiz nómada. De 5 mil "campistas" na primeira semana, rapidamente se passou a 14 mil em Novembro. Recordo que na altura o pormenor que mais me impressionou foram os cerca de 8 mil sacos de plástico distribuídos diariamente, necessários à recolha de lixo e dejetos humanos. Ou seja, era impossível as autoridades marroquinas não detectarem toda esta logística em movimento, numa das regiões mais policiadas do Mundo. Neste caso, como no da semana passada em Guerguerat, Marrocos voltou ao "modus operandi" do falecido Hassan II, que se explica num dito português. O do "deixa-os poisar", enquanto mediatiza a insubordinação internacionalmente em seu favor e, a 08 de Novembro de 2010, 2 dias após a celebração dos 35 anos da Marcha Verde, pura e simplesmente varreu o acampamento, acabando com o protesto, sem mortos e com 3 mil detidos. Noutra perspectiva, um mês de espera também serve para "fazer a cama" a políticos a substituir, no grande xadrez dominado pelo Palácio, sendo que à época, constatava-se a rivalidade entre o "Walli" Mohamed Guelmouss, o "Governador" do Rei para as regiões de Boujdour (o "nosso" Cabo Bojador), Lâayoune e Tarfaya e o Presidente do Município de Lâayoune, Hamdi Ould Rachid, membro do Partido Istiqlal, no Governo em 2010 e também irmão do Presidente do CORCAS, o sempre polémico Conselho de Aconselhamento Real para as questões sahraouis e quem, de facto, governa o Sahara Marroquino. Ou seja, o caso Gdim izik, no contexto da política interna marroquina demonstra que há um início de acampamento, um durante e um pós-acampamento. Ora após o desmantelamento deste, os que conseguiram fugir não foram deserto adentro, regressaram à cidade e, em fúria, destruíram tudo o que puderam, porque as forças de segurança estavam concentradas na protecção do aeroporto! Porque será? Em quem caiu o ónus do falhanço à protecção da cidade? No Presidente da Câmara de Lâayoune, irmão do Presidente do CORCAS, em tom de aviso a este último. É só Política, como poderia ser só Rock n"Roll! Antes de esmiuçar Guerguerat, assinalar que em Novembro também se assinala em Marrocos a Festa da Independência no dia 18, apesar desta ter acontecido em Março e Abril de 1956, dos franceses e dos espanhóis, respectivamente. Isto porque no ano anterior à independência, a 18 de Novembro de 1955 o ainda Sultão Youssuf Mohammed (Mohammed V) fez um discurso durante a oração dessa sexta-feira, no qual assinalou que "Marrocos sai agora da pequena jihad para se engajar na grande jihad do desenvolvimento e da democratização". Um ano mais tarde, no mesmo dia, consuma-se oficialmente o fim do Protectorado francês que durou 44 anos, decidindo-se concentrar todas as datas referidas numa comemoração única.

Opinião

Argélia referenda Nova Constituição este domingo

A Argélia pós-Bouteflika terá neste Domingo de Todos-os-Santos e do Profeta também, a última etapa de mudança efectiva por decreto. Este processo de "mudança de pele" está obrigado a apresentar alterações palpáveis e visíveis a uma população que quer acreditar na mudança, através de um (actual) Presidente (PR) que foi 5 vezes Ministro e Primeiro-Ministro também do ex-Presidente de duas décadas, Abdelaziz Bouteflika e, caso não fosse a mobilização dos argelinos, ainda lá estaria, sem falar nem poder andar e sempre, a bem da nação! A 1ª parte desta mudança por decreto, foi a substituição dos nomeados pelo General Ahmed Gaid Salah durante o período de transição, para os postos chave do aparato de segurança e defesa. Salah quis ser candidato, mas a Argélia do Século XXI não poderia ser novamente liderada por um militar e, se fosse, essa eleição não equivaleria a uma mudança de paradigma e era precisamente isso que os argelinos queriam. Ou seja, queriam, enquanto Comunidade, respirar a mudança e acreditar em mentiras novas, que é o que a Política nos dá, em perspectiva, passados 10 ou 20 anos. O General Gaid Salah, actuou enquanto Presidente Interino, sem nunca se ter intitulado ou ser chamado de tal, entre Março e Dezembro de 2019 e, preparou tudo para no pós-eleições agir enquanto tal, já que durante esse período minou com homens da sua confiança os lugares-chave nas instituições militar, policial, petrolífera e de intelligence. A sua derradeira vitória foi ter conseguido garantir a realização da Eleição Presidencial a 12 de Dezembro, para morrer 11 dias depois, a 23, com 79 anos, de ataque cardíaco, como consta no laudo médico. Antes da pandemia marcar a agenda argelina e internacional, o novo Presidente Abdelmadjid Tebboune, por Decreto Presidencial, já tinha substituído as chefias-chave a seu gosto e nomeado Abdelaziz Djerad enquanto Primeiro-Ministro, o qual formou Governo. Em Maio deste ano o novo PR lança para o debate público o esboço da Constituição que será referendada no próximo Domingo, um acto final que transportará oficial e solenemente a Argélia para uma nova fase. O que há de novo nesta Constituição? Com a mesma aprovada, o PR Tebboune poderá enviar contingentes militares para fora das fronteiras, nos mais diversos tipos de missões, fundamental para recuperar alguma influência e prestígio perdidos regionalmente. O Mali e o recém iniciado período de transição, será um palco interessante para testar a "diplomacia Tebboune", sem perder de vista as influências turcas na Tunísia e a guerra na Líbia.