Paulo Baldaia

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Malditos pobres que teimam em ser pobres

Um governo que se diz de esquerda e existe há seis anos apoiado por socialistas e comunistas está no seu estertor preso à dura realidade de não ter sido capaz de mudar estruturalmente a vida dos pobres para que os seus descendentes não tenham de continuar a ser pobres. Reduziu-se a taxa de abandono escolar, o que é um ótimo sinal, mas falta conseguir o passo seguinte que é melhorar a qualidade do emprego para pessoas que chegam ao mercado de trabalho com melhores qualificações.

Paulo Baldaia

O albergue espanhol, os ciganos e os índios

A direita está cada vez mais um albergue espanhol, cabem lá todos e, por isso, mesmo quando são poucos, como é o caso do CDS, as divergências são fortes. Atenuam-se quando é preciso digerir a derrota e agigantam-se quando começa a cheirar a poder. Tanto lá como no PSD, juntam-se os interesses mais divergentes para apear os líderes e a preocupação é imitar os pequenos partidos que lhes roubam eleitorado mais encostado à direita.

Paulo Baldaia

Um congresso poucochinho

Com o país a aproximar-se do dia da libertação e com uma chuva de milhões anunciada para os próximos anos, seria de esperar que o congresso socialista deste fim de semana fosse vibrante, animado, positivo, a olhar para o futuro. Tanto mais que a oposição não tem demonstrado capacidade de derrotar o PS, o que permite a quem tem a responsabilidade de governar poupar energia, essencial para mobilizar o país para um combate em que não podemos voltar a falhar. Noutras circunstâncias, entender-se-ia o tempo perdido a fazer oposição à oposição mas, com o país a necessitar de uma liderança forte e empenhada, percebe-se mal uma reunião magna com um tabu que só se alimenta com a perspetiva de o poder utilizar a seu favor no tempo em que ele terá de ser desfeito.

Paulo Baldaia

O que sabemos da remodelação governamental

António Costa resolveu acrescentar uns esclarecimentos de política interna a uma entrevista, no Público, sobre o balanço da presidência portuguesa da União Europeia. Pressionado pela opinião publicada e pelo desgaste que essa pressão está a produzir na imagem que os portugueses têm do governo, o primeiro-ministro não se ficou por aí e pediu ao seu amigo Eduardo Cabrita que rompesse o silêncio a que se tinha votado, procurando retirar carga política ao acidente em que esteve envolvido o carro do ministro. O primeiro-ministro pode ser obrigado a fazer agora o que quer fazer, apenas, daqui a seis meses mas, mesmo perante uma inevitabilidade, não é de excluir que Cabrita saia sozinho e Costa mantenha a remodelação para o início do próximo ano.

Paulo Baldaia

Ter canal é essencial

Há, de Norte a Sul, empresários e gestores que criam riqueza sem estar de mão estendida no Terreiro do Paço, nem frequentar os restaurantes de Lisboa em jantaradas que se prolongam pela noite fora. E há, em Lisboa, gente capaz que faz o mesmo, como há um enorme exército com acesso à mesa de um banquete pago com impostos que chegam de todo o país. De Norte a Sul, há um povo que merecia melhor sorte e é preciso acrescentar que a má gestão dos dinheiros públicos não é apenas uma consequência do centralismo lisboeta, também existe no resto do país, só que na capital ganha outra dimensão.

Paulo Baldaia

O coro das (o)velhas

Somos um país premiado como destino e valoroso organizador de finais de futebol, só não temos quem nos governe, nem quem faça oposição. De resto, "cá se vai andando c"o a cabeça entre as orelhas". Andámos nisto toda a semana passada, com um Bloco de Esquerda incapaz de se decidir pela reconciliação ou pelo divórcio definitivo, um PCP de regresso às greves na Função Pública, o único sector do país onde não paira a ameaça do desemprego, e uma direita patética que reúne para dizer mal de si própria.

Paulo Baldaia

"Este país está a precisar é de um militar"

A frase deste título ouvi-a a semana passada num dos fóruns da comunicação social com público. Ela tem mais peso agora que nas milhentas vezes que foi dita quando a pré-falência do país fez regressar o FMI, porque parece haver cada vez mais pessoas com uma genuína vontade de viver num regime autoritário. Trocam a liberdade pelo fim da "pouca-vergonha" que entendem existir, seja na justiça, que deixa "os poderosos viver na impunidade", ou na falta de segurança, que acontece por haver "pessoas diferentes (imigrantes ou ciganos) que se recusam viver como nós".

Paulo Baldaia

Marcelo de peito feito entre trincheiras e barricadas

Num país em que, todos os dias, se cavam trincheiras e se erguem barricadas que inviabilizam amplos consensos, num país em que o centro perde força e os radicais crescem, a intervenção do Presidente da República é notável. Do melhor que se ouviu a Marcelo Rebelo de Sousa, em muitos anos. Pela consistência do que afirma, pela forma organizada como nos levou numa viagem pelo tempo, pelo que nos lembra que é preciso fazer agora. E, agora, é preciso "fazer um caminho para construir a coesão e a inclusão e para combater toda a intolerância".

Paulo Baldaia

Marcelo não quer ser o boneco do ventríloquo Costa

A solidariedade institucional que Marcelo prometeu total, enquanto durar a pandemia, não servirá para reduzir a sua capacidade de influência. Fica o primeiro-ministro com a certeza de que este segundo mandato será, como sempre foi com outros presidentes, bem diferente e com propensão para ser mais conflituoso. Também não vale a pena olhar para o episódio da promulgação dos três diplomas com a certeza de que ele representa uma viragem de 180 graus na relação entre os palácios. É só Marcelo a deixar claro que mantém intacta a sua independência. Veremos o que acontece quando o Presidente da República recuperar a sua inteira liberdade, mais ainda se nesse momento houver igualmente uma dificuldade maior do PS para encontrar apoio à sua esquerda.