Paulo Baldaia

Paulo Baldaia

Acontece que o dinheiro é do povo, meus amigos

Vocês querem ver que os deputados perderam a cabeça e colocaram Portugal, de novo, à beira do abismo onde acabará por cair, perdendo, definitivamente, o direito de ser olhado com respeito por uma comunidade internacional que, verdadeiramente, só obedece aos famosos mercados? É, aconteceu! Aprovaram uma norma no Orçamento do Estado que impede o Governo de prever uma abertura dos cofres do Terreiro do Paço, lá para maio, e retirar mais 476 milhões para confortar os donos do Novo Banco, por desvalorização de ativos.

Paulo Baldaia

Assumir a culpa com desculpas esfarrapadas

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, iniciou o mês de novembro querendo assumir a culpa pelo que a Direção-Geral da Saúde e o Governo fizeram mal. O primeiro-ministro, António Costa, não chegou a agradecer, mas fechou a semana a assumir que a culpa da má comunicação é dele. A minha experiência diz-me que não se trata de humildade democrática, postura na vida que resiste ao teste do algodão quando se trata de pedir desculpa pela culpa que se sabe ter. Alguém ouviu Marcelo ou Costa pedirem desculpa?

Paulo Baldaia

Isto tem ar de que vai ficar descontrolado

O problema de António Costa com a pandemia não é a aplicação StayAway Covid, por muito que a política à portuguesa só saiba funcionar com base na polémica. Nem de longe nem de perto. O problema do primeiro-ministro é o nosso problema, é que isto tem ar de que vai ficar descontrolado. Toda a Constituição se adapta ao pragmatismo de uma luta entre a vida e a morte, mas não é tempo de fazer essa discussão, até porque a obrigatoriedade de usar a aplicação não vai avançar. Ainda assim, alguém está a ver os senhores e as senhoras polícias pelo país fora a revistar os cidadãos para confirmar se transportam telemóveis? E, testando positivo à presença de um aparelho eletrónico, alguém está a ver os senhores e as senhoras polícias a averiguar se a aplicação "Ficar longe da Covid" está assintomática ou com o Bluetooth ligado? Pois é, andamos a discutir o impossível. Para ajudar num rastreamento que não tem hoje a eficácia desejada, a aplicação seria uma grande ajuda, até porque não há recursos humanos, nem recursos financeiros para uma contratação em grande escala, nem formação capaz de pôr essas centenas de pessoas imaginárias a fazer um rastreamento competente. Tornar obrigatório o uso dessa aplicação é que não lembra ao menino Jesus. Não seja por isso, na entrevista ao Público, o primeiro-ministro já disse estar tranquilo com o que decidir o Parlamento, abandonará a defesa desta proposta como abandonou o apoio a um candidato à presidência do Benfica, sairá porque lhe dizem que tem de sair. O abanão que o primeiro-ministro sentiu necessidade de dar à população é merecido, porque todos saímos à rua e vemos como uma parte significativa dos portugueses não cumpre algumas das regras essenciais e outros há que não cumprem nenhuma. Se não queremos confinar outra vez, fechar escolas e voltar ao lay-off, convém que levemos a sério a necessidade de usar máscara, manter o distanciamento social e higienizar as mãos constantemente. Mas o governo e o seu chefe também estão a precisar de um abanão. Este fim de festa governamental, com António Costa sequestrado pela lei de Murphy, tem tudo para correr mal. Vamos para o décimo dia consecutivo com mais de mil novos casos, sendo que em março só houve um e em abril outro. Nos últimos três dias, estivemos acima dos dois mil e sempre a bater novos recordes. Isto tem ar de que vai ficar descontrolado. Infelizmente para nós todos, de uma forma geral, e para o governo, em particular, a energia de quem tem de liderar o combate à pandemia está a esgotar-se. Até custa fazer esta crítica, porque este cansaço é humano, mas o preço a pagar é político e não costuma ter perdão. Para desculpar cansaços, aliás, já temos a nossa dose. Desculpamos tudo o que há a desculpar aos profissionais de saúde que dão de si próprios o que a maioria de nós não seriam capazes de dar. A decisão política implica ter de fazer opções, porque os recursos públicos não são ilimitados, e começa a parecer evidente que o investimento em saúde tem de crescer mais do que está previsto. Uma vez mais, não se trata apenas de reforçar com pessoas e meios o combate à pandemia, é preciso que o SNS não volte a paralisar no tratamento de todos os outros doentes. Os médicos já fizeram mil alertas: nas doenças oncológicas e cardiovasculares, por exemplo, o diagnóstico tardio pode matar. Jornalista

Paulo Baldaia

Ventura agradece a ajuda

Sem ilusões, quando se aproxima uma chuva de milhões e se alteram as regras para gastar mais rapidamente o dinheiro, como já aconteceu em 2008 com a aprovação do Código dos Contratos Públicos, o mais provável é que a urgência no combate à crise seja uma boa desculpa para flexibilizar essas regras e, assim, escancarar as portas à criminalidade. O que pode vir a acontecer não é uma certeza, mas há muito conluio, muita cartelização e muita corrupção a serem investigados e julgados pelo que aconteceu nesse passado recente, e isso serve-nos de aviso quando a história começa a repetir-se.

Paulo Baldaia

Marcelo e a tabuada dos dez

Marcelo Rebelo de Sousa é um belíssimo analista, um ótimo Presidente da República a quem até Ana Gomes dá nota positiva na hora de avaliar o mandato, mas tem o mais comum dos defeitos num político, a vaidade. Só por vaidade se pode entrar no quarto ano do mandato em perda na generalidade das sondagens e mesmo assim embandeirar em arco, garantindo, em entrevista à TVI, que os seus "níveis de popularidade são tão altos que nenhuma queda o leva à depressão".

Opinião da direção

Do século XIX ao século XXI

Estive diretor do Diário de Notícias pouco mais de um ano e meio, uma gota de água num oceano de século e meio de existência deste jornal, que foi fundado por Eduardo Coelho e teve Eça de Queirós como repórter. Os 153 anos de vida são uma história de todas as pessoas que o fizeram, os de agora e os dos outros tempos. A todos os que trabalharam comigo neste ano e meio agradeço o esforço e desejo a melhor sorte do mundo. Mas nunca podem perder de vista que a sorte se conquista. Nada acontece sem muito trabalho.

Opinião da direção

Deu empate! E agora?

A ideia de que na política, tal como no futebol, o êxito se mede pelas vitórias jogo a jogo levou os "rebeldes" da bancada social-democrata a exigir a Fernando Negrão uma vitória no primeiro round. No fim, o debate morno terminou em empate e a guerra civil ficou adiada. É o pior resultado para o analista que habita o Palácio de Belém. Ou o contrário, tendo em conta que muitas vezes é preciso ter cuidado com o que se deseja.

Opinião

Rui Rio no país que não o quer

O maior desafio que Rui Rio tem na liderança do PSD é consigo próprio. Está preparado para correr o risco que correu Manuela Ferreira Leite em 2009 e em que conseguiu "apenas" tirar a maioria absoluta a José Sócrates? A verdade em política só rende votos na medida em que os eleitores já se sentem enganados pela escolha que fizeram e não serve de nada eleitoralmente enquanto não se materializam os perigos das políticas em curso. Portugal viveu como se não tivesse alternativa até Outubro de 2015 e sem oposição a partir daí. O que quer dizer que passámos da ideia de que não havia alternativa para a ideia de que única alternativa é a que nos fez sofrer no tempo da troika.

Opinião da direção

Onde se arquiva a vergonha?

O Ministério Público (MP) descobriu que o ministro das Finanças pediu dois convites ao Benfica para ver um jogo de futebol. Por coincidência, descobriu igualmente que o filho do presidente do Benfica tinha pedido ajuda ao pai para acelerar a concretização de uma isenção de um imposto municipal, a que por lei tinha direito. O processo avançou e o filho agradeceu ao pai. Como se tratava de um imposto e os impostos têm que ver com as Finanças, alguém no MP chegou à rápida conclusão de que aqui havia marosca. A conclusão foi demasiado rápida e o mal estava feito.

Opinião da direção

Justiça a falar para o boneco

A cerimónia de abertura do ano judicial foi uma grande desilusão. Não tanto pela incapacidade de a maioria dos oradores ir além do politicamente correto mas, sobretudo, pela incapacidade de a maioria desses oradores falar com o povo a quem se dirige a justiça e em nome de quem ela é feita. Discursos pomposos, carregados de linguagem jurídica, feitos com tudo e o seu contrário, verdades insofismáveis sobre estatutos e dignificação das magistraturas.

Opinião

Angola, Portugal, Alemanha e...

Justiça ou soberania? O que queremos? Se é que temos de querer apenas uma das duas coisas, não as podendo ter em simultâneo. Olhando para o desafio que ontem o presidente de Angola lançou à justiça portuguesa, temos de dizer que os angolanos querem as duas coisas. E é claro que os ofendemos quando pensamos que se lhes dermos o poder soberano de julgar o seu ex-vice-presidente pode não chegar a haver justiça. Angola também tem de perceber que há uma questão insanável: a separação de poderes que existe em Portugal não permite, pelo menos não aconselha, que este processo tenha uma decisão política.