Paulo Baldaia

Paulo Baldaia

A responsabilidade dos políticos não prescreve

Indignem-se com os legisladores, com os deputados que fazem as leis, não procurem responsabilizar os juízes que as aplicam, porque até a interpretação mais restritiva dos prazos de prescrição não resiste a um recurso, se na instância superior houver interpretação mais abrangente. Acham mesmo que foi o juiz Ivo Rosa que determinou os prazos de prescrição para os crimes de corrupção e deixou, propositadamente ou não, aberta a hipótese de contar esse tempo a partir de diferentes momentos de consumação do crime?

Paulo Baldaia

Marcelo não quer ser o boneco do ventríloquo Costa

A solidariedade institucional que Marcelo prometeu total, enquanto durar a pandemia, não servirá para reduzir a sua capacidade de influência. Fica o primeiro-ministro com a certeza de que este segundo mandato será, como sempre foi com outros presidentes, bem diferente e com propensão para ser mais conflituoso. Também não vale a pena olhar para o episódio da promulgação dos três diplomas com a certeza de que ele representa uma viragem de 180 graus na relação entre os palácios. É só Marcelo a deixar claro que mantém intacta a sua independência. Veremos o que acontece quando o Presidente da República recuperar a sua inteira liberdade, mais ainda se nesse momento houver igualmente uma dificuldade maior do PS para encontrar apoio à sua esquerda.

Paulo Baldaia

Eclipse à esquerda favorece Costa

Há cinco anos, contra Marcelo Rebelo de Sousa, a esquerda teve mais de 40% dos votos e a direita ganhou à primeira volta. Desta vez, Marcelo foi o candidato do bloco central e a esquerda que entendeu ir a votos ficou-se pela metade. PCP e Bloco quiseram marcar terreno e o tiro saiu pela culatra. A agravar o erro estratégico de comunistas e bloquistas, a consolidação da extrema-direita reduz-lhes a quase nada o espaço de manobra para afirmar opções políticas que possam pôr em causa a estabilidade política. Uma maioria de direita já não é impossível e será tão mais provável quanto mais a esquerda se mostrar dividida.

Paulo Baldaia

O ano do Coelho

Tendo Pedro Passos Coelho aparecido em cerimónia de homenagem a um empresário com um discurso escrito em que nada se destacou da dita homenagem ao dito empresário, logo apareceram milhares de órfãos à direita suspirando pelo regresso de um líder que, testado na oposição, sofreu uma das derrotas mais pesadas do PSD, nas autárquicas de 2017, valendo pouco mais de metade dos votos do rival PS. Foi por isso que teve de ceder a liderança a Rui Rio, por mais que os passistas tudo tivessem feito por outro regresso, o de Santana Lopes.

Paulo Baldaia

Rioísta me desconfesso

Confessamos pecados, praticados em atos, pensamentos e omissões, e transportamos para o domínio público o que tínhamos até então guardado em segredo, mais ou menos, disfarçado. Foi o que fiz em agosto de 2013, neste mesmo jornal, em artigo a que dei o título "Rioísta me confesso". Nesse texto, tornei público o que era evidente para a maioria das pessoas (jornalistas e amigos) que comigo partilhavam o dia-a-dia profissional, mas também para os que me lessem ou ouvissem com alguma regularidade: eu vejo em Rui Rio uma forma diferente de estar na política.

Opinião

Morte religiosamente assistida deixa de ser obrigatória

Portugal está em vias de passar a ter a morte medicamente assistida como opção à, até agora obrigatória, morte religiosamente assistida. Como vão ficar sem o monopólio, numa hipocrisia sem tamanho, os que não querem a eutanásia por motivos religiosos queriam um referendo, mas só estariam disponíveis para aceitar o resultado desse referendo se o povo votasse maioritariamente contra a eutanásia. Um dogma é um dogma e nenhuma igreja deixa que os seus fiéis se juntem aos infiéis para decidir o contrário do que é suposto ter Deus decidido em nome de todos.

Paulo Baldaia

Isto tem ar de que vai ficar descontrolado

O problema de António Costa com a pandemia não é a aplicação StayAway Covid, por muito que a política à portuguesa só saiba funcionar com base na polémica. Nem de longe nem de perto. O problema do primeiro-ministro é o nosso problema, é que isto tem ar de que vai ficar descontrolado. Toda a Constituição se adapta ao pragmatismo de uma luta entre a vida e a morte, mas não é tempo de fazer essa discussão, até porque a obrigatoriedade de usar a aplicação não vai avançar. Ainda assim, alguém está a ver os senhores e as senhoras polícias pelo país fora a revistar os cidadãos para confirmar se transportam telemóveis? E, testando positivo à presença de um aparelho eletrónico, alguém está a ver os senhores e as senhoras polícias a averiguar se a aplicação "Ficar longe da Covid" está assintomática ou com o Bluetooth ligado? Pois é, andamos a discutir o impossível. Para ajudar num rastreamento que não tem hoje a eficácia desejada, a aplicação seria uma grande ajuda, até porque não há recursos humanos, nem recursos financeiros para uma contratação em grande escala, nem formação capaz de pôr essas centenas de pessoas imaginárias a fazer um rastreamento competente. Tornar obrigatório o uso dessa aplicação é que não lembra ao menino Jesus. Não seja por isso, na entrevista ao Público, o primeiro-ministro já disse estar tranquilo com o que decidir o Parlamento, abandonará a defesa desta proposta como abandonou o apoio a um candidato à presidência do Benfica, sairá porque lhe dizem que tem de sair. O abanão que o primeiro-ministro sentiu necessidade de dar à população é merecido, porque todos saímos à rua e vemos como uma parte significativa dos portugueses não cumpre algumas das regras essenciais e outros há que não cumprem nenhuma. Se não queremos confinar outra vez, fechar escolas e voltar ao lay-off, convém que levemos a sério a necessidade de usar máscara, manter o distanciamento social e higienizar as mãos constantemente. Mas o governo e o seu chefe também estão a precisar de um abanão. Este fim de festa governamental, com António Costa sequestrado pela lei de Murphy, tem tudo para correr mal. Vamos para o décimo dia consecutivo com mais de mil novos casos, sendo que em março só houve um e em abril outro. Nos últimos três dias, estivemos acima dos dois mil e sempre a bater novos recordes. Isto tem ar de que vai ficar descontrolado. Infelizmente para nós todos, de uma forma geral, e para o governo, em particular, a energia de quem tem de liderar o combate à pandemia está a esgotar-se. Até custa fazer esta crítica, porque este cansaço é humano, mas o preço a pagar é político e não costuma ter perdão. Para desculpar cansaços, aliás, já temos a nossa dose. Desculpamos tudo o que há a desculpar aos profissionais de saúde que dão de si próprios o que a maioria de nós não seriam capazes de dar. A decisão política implica ter de fazer opções, porque os recursos públicos não são ilimitados, e começa a parecer evidente que o investimento em saúde tem de crescer mais do que está previsto. Uma vez mais, não se trata apenas de reforçar com pessoas e meios o combate à pandemia, é preciso que o SNS não volte a paralisar no tratamento de todos os outros doentes. Os médicos já fizeram mil alertas: nas doenças oncológicas e cardiovasculares, por exemplo, o diagnóstico tardio pode matar. Jornalista

Paulo Baldaia

Enxotado como cão com pulgas

O episódio do apoio do primeiro-ministro a um candidato à presidência do Benfica mostrou, uma vez mais, que os interesses dos homens do futebol prevalecem sobre o interesse geral. O mais importante acabou por ser a defesa de Luís Filipe Vieira. Já António Costa podia ser tratado como acabou por ser, enxotado como cão com pulgas. Não é de excluir (é até muito provável) que a expulsão dos políticos da comissão de honra tenha sido concertada, mas imaginar que o primeiro-ministro se deixou subalternizar deve deixar-nos ainda mais perplexos. Política e futebol são como água e azeite, não se misturam. Como a água, a política é mais densa e sempre que alguém insiste em misturá-los acontece que o futebol, como o azeite, fica por cima. A perversidade destas relações revela-se nisso mesmo, na pouca importância dos representantes do povo quando aceitam fazer parte do séquito.

Opinião

Campeão rima com superação

A história deste título é a história de uma série de superações que acrescenta mérito a uma equipa que não se limitou a mostrar dentro do campo por que só o Futebol Clube do Porto podia ser primeiro. O campeão é o símbolo de uma cidade e de uma região, mas é também um clube global com adeptos nos quatro cantos do mundo, que seguiram a equipa para onde quer que ela fosse jogar, que a foram levar e esperar aos aeroportos, que se juntaram para ver os jogos na Sport TV.

Opinião da direção

Do século XIX ao século XXI

Estive diretor do Diário de Notícias pouco mais de um ano e meio, uma gota de água num oceano de século e meio de existência deste jornal, que foi fundado por Eduardo Coelho e teve Eça de Queirós como repórter. Os 153 anos de vida são uma história de todas as pessoas que o fizeram, os de agora e os dos outros tempos. A todos os que trabalharam comigo neste ano e meio agradeço o esforço e desejo a melhor sorte do mundo. Mas nunca podem perder de vista que a sorte se conquista. Nada acontece sem muito trabalho.