Paulo Baldaia

Paulo Baldaia

Faça-se uma lei para demitir ministros

O Presidente da República, que tem fama de dormir muito pouco, deve andar a dormir quase nada, porque vê o Estado a perder autoridade, como previu, e não vê capacidade para dar a volta. A sondagem de ontem da Aximage, que o DN publicou, mostra Marcelo amarrado a Costa em queda acentuada de popularidade e os entrevistados a pedirem mais exigência ao inquilino do Palácio de Belém. Avisado que está pelos eleitores e por Marcelo analista, Marcelo Presidente prepara um futuro (ainda lhe faltam quatro anos e meio de mandato) em que o primeiro-ministro não se chame António Costa. Por muita sintonia que jurem em público, já não conseguem disfarçar. Estão cansados!

Paulo Baldaia

O que sabemos da remodelação governamental

António Costa resolveu acrescentar uns esclarecimentos de política interna a uma entrevista, no Público, sobre o balanço da presidência portuguesa da União Europeia. Pressionado pela opinião publicada e pelo desgaste que essa pressão está a produzir na imagem que os portugueses têm do governo, o primeiro-ministro não se ficou por aí e pediu ao seu amigo Eduardo Cabrita que rompesse o silêncio a que se tinha votado, procurando retirar carga política ao acidente em que esteve envolvido o carro do ministro. O primeiro-ministro pode ser obrigado a fazer agora o que quer fazer, apenas, daqui a seis meses mas, mesmo perante uma inevitabilidade, não é de excluir que Cabrita saia sozinho e Costa mantenha a remodelação para o início do próximo ano.

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Boris e António entram num bar...

Vamos lá voltar à carga com os ingleses. O debate sobre a justeza da decisão britânica de retirar Portugal da lista verde fez-se dos dois lados do canal da Mancha com base nos argumentos avançados pelo governo de Boris Johnson. A mais mirabolante das teorias da conspiração considera que todos os argumentos apresentados por Londres são falsos e Portugal só foi riscado da lista para impedir um transvase de riqueza. Adiante! Por cá, a verificação dos factos fez-se da maneira que deu mais jeito.

Paulo Baldaia

O coro das (o)velhas

Somos um país premiado como destino e valoroso organizador de finais de futebol, só não temos quem nos governe, nem quem faça oposição. De resto, "cá se vai andando c"o a cabeça entre as orelhas". Andámos nisto toda a semana passada, com um Bloco de Esquerda incapaz de se decidir pela reconciliação ou pelo divórcio definitivo, um PCP de regresso às greves na Função Pública, o único sector do país onde não paira a ameaça do desemprego, e uma direita patética que reúne para dizer mal de si própria.

Paulo Baldaia

"Este país está a precisar é de um militar"

A frase deste título ouvi-a a semana passada num dos fóruns da comunicação social com público. Ela tem mais peso agora que nas milhentas vezes que foi dita quando a pré-falência do país fez regressar o FMI, porque parece haver cada vez mais pessoas com uma genuína vontade de viver num regime autoritário. Trocam a liberdade pelo fim da "pouca-vergonha" que entendem existir, seja na justiça, que deixa "os poderosos viver na impunidade", ou na falta de segurança, que acontece por haver "pessoas diferentes (imigrantes ou ciganos) que se recusam viver como nós".

Paulo Baldaia

O maior perigo para Marcelo é Marcelo

Marcelo é Tom Cruise em Minority Report, agindo preventivamente para nos salvar do mal. No caso do Presidente, para salvar o país da insensibilidade social do governo, de coligações negativas da oposição, do vírus, do que mais vier como ameaça e da própria Constituição quando ela atrapalha o melhor país do mundo com os seus maravilhosos cidadãos. O problema será quando Marcelo nos tiver de salvar do próprio Marcelo. Não vai ser bonito de ver quando descobrir que o maior defensor da estabilidade entrou no segundo mandato convencido que quer, pode e manda, promovendo a instabilidade mais do que defendê-la. Estará Marcelo preparado para perceber que se está a contrariar a si próprio?

Paulo Baldaia

Marcelo não quer ser o boneco do ventríloquo Costa

A solidariedade institucional que Marcelo prometeu total, enquanto durar a pandemia, não servirá para reduzir a sua capacidade de influência. Fica o primeiro-ministro com a certeza de que este segundo mandato será, como sempre foi com outros presidentes, bem diferente e com propensão para ser mais conflituoso. Também não vale a pena olhar para o episódio da promulgação dos três diplomas com a certeza de que ele representa uma viragem de 180 graus na relação entre os palácios. É só Marcelo a deixar claro que mantém intacta a sua independência. Veremos o que acontece quando o Presidente da República recuperar a sua inteira liberdade, mais ainda se nesse momento houver igualmente uma dificuldade maior do PS para encontrar apoio à sua esquerda.

Paulo Baldaia

Ou fazem caminho ou chama-se o bloco central

O encontro de Rui Rio e Francisco Rodrigues dos Santos confirmou uma fragilidade que se espera poder vir a resultar num combate sem tréguas, sem o qual os dois partidos correm o risco de perpetuar o Partido Socialista no poder. Por muito que procurem cantar vitória, Rio e Rodrigues dos Santos perceberam que as presidenciais os fragilizaram e encenaram um murro na mesa que volta a colocar o Chega no centro das atenções, mesmo que pela decisão de o excluir da aliança autárquica.

Paulo Baldaia

Eclipse à esquerda favorece Costa

Há cinco anos, contra Marcelo Rebelo de Sousa, a esquerda teve mais de 40% dos votos e a direita ganhou à primeira volta. Desta vez, Marcelo foi o candidato do bloco central e a esquerda que entendeu ir a votos ficou-se pela metade. PCP e Bloco quiseram marcar terreno e o tiro saiu pela culatra. A agravar o erro estratégico de comunistas e bloquistas, a consolidação da extrema-direita reduz-lhes a quase nada o espaço de manobra para afirmar opções políticas que possam pôr em causa a estabilidade política. Uma maioria de direita já não é impossível e será tão mais provável quanto mais a esquerda se mostrar dividida.

Paulo Baldaia

Acontece que o dinheiro é do povo, meus amigos

Vocês querem ver que os deputados perderam a cabeça e colocaram Portugal, de novo, à beira do abismo onde acabará por cair, perdendo, definitivamente, o direito de ser olhado com respeito por uma comunidade internacional que, verdadeiramente, só obedece aos famosos mercados? É, aconteceu! Aprovaram uma norma no Orçamento do Estado que impede o Governo de prever uma abertura dos cofres do Terreiro do Paço, lá para maio, e retirar mais 476 milhões para confortar os donos do Novo Banco, por desvalorização de ativos.

Paulo Baldaia

Rioísta me desconfesso

Confessamos pecados, praticados em atos, pensamentos e omissões, e transportamos para o domínio público o que tínhamos até então guardado em segredo, mais ou menos, disfarçado. Foi o que fiz em agosto de 2013, neste mesmo jornal, em artigo a que dei o título "Rioísta me confesso". Nesse texto, tornei público o que era evidente para a maioria das pessoas (jornalistas e amigos) que comigo partilhavam o dia-a-dia profissional, mas também para os que me lessem ou ouvissem com alguma regularidade: eu vejo em Rui Rio uma forma diferente de estar na política.