Paula Sá

Paula Sá

Uma costureira, um sexólogo e a nossa generosidade

Numa redação de colegas doutos e experientes, eu, jovem jornalista, fui atirada às feras. Enviada ao Porto para cobrir um congresso de sexologia - tema apelativo mas sem especialistas ou voluntários para o tratar -, cheguei à estação de São Bento muito em cima da hora. Quando tudo podia correr mal, com um frio de rachar, do meu casacão caiu o único botão que impedia o vento gélido de me enregelar. Corri para a Baixa e entrei numa retrosaria esbaforida. Contei a minha desgraça à empregada de balcão e pedi um carro de linhas e uma agulha.

Paula Sá

Oposição assim-assim abre caminho ao CDS

Fernando Negrão estreou--se ontem no debate quinzenal. Sem surpresas. Não esteve mal, mas também não entusiasmou. O tom com que confrontou o primeiro--ministro, com um único tema, o da entrada da Santa Casa da Misericórdia no Montepio, foi sempre cordato - a combinar com uma "oposição responsável e construtiva", como anunciou logo no início da sessão parlamentar. Segue o estilo de Rui Rio, que não quer um partido estridente, que defende um PSD virado para os consensos em torno dos temas estruturais, e que está a cumprir numa ronda de negociações com o governo.

Opinião

Histórias das vítimas dos incêndios sem censura

Saber tudo o que se passou nos incêndios de Pedrógão Grande também se faz das histórias de quem se cruzou com o fogo naquele dia trágico de junho. Identificamo-nos com pessoas e não com números. Sabemos que morreram 65 pessoas e pouco sabemos delas - só o que alguns familiares conseguiram saber e quiseram partilhar - e as circunstâncias que as fizeram ficar encurraladas. Há um capítulo seis do estudo do professor Xavier Viegas, encomendado pelo Ministério da Administração Interna, que relata o que se passou com cada uma destas pessoas naquele dia. O governo considerou delicados os detalhes e pediu um parecer à Comissão Nacional de Proteção de Dados. A comissão vetou a divulgação integral desse capítulo, porque poderia expor as vítimas “num grau muito elevado”, violando o direito ao respeito pela vida privada dos envolvidos. O governo acatou a deliberação da comissão, como tinha de ser. Só deu a conhecer parte desse capítulo. Xavier Viegas não gostou. Fez apelo ao termo censura para se manifestar contra o que tinha sido “alterado”, riscado, no relatório. O professor tem todo o direito de defender que o documento que produziu seja divulgado na íntegra, mas produz ruído desnecessário com esta ideia de que o governo pretende omitir dados. A ideia que perpassa é a de que há algo a esconder para não dar maior dimensão ao que pela sua natureza já é tão mau. E é verdade que divulgar os detalhes sobre Pedrógão Grande agiganta tudo o que se passou. Mas também é verdade que aquelas pessoas e as suas famílias - a quem foi disponibilizada a informação sobre o aconteceu com o(s) respetivo(s) familiares - têm o direito à reserva. É um terreno delicado este que oscila entre a importância de conhecermos tudo o que se passou, para que se exija coletivamente que nunca mais se repita, e os direitos individuais de todos os que estiveram e estão envolvidos nesta tragédia. A Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão estava a tentar obter o acordo das famílias para que o capítulo seis fosse tornado público. A acontecer, da soma das partes ter-se-ia o retrato doloroso do todo. Xavier Viegas argumenta que as “imagens” daquele dia ajudam a evitar acidentes semelhantes. E, mesmo antes das famílias decidirem, o professor vai revelar os dados da investigação. Há uma mãe, Nádia Piazza, e que é presidente da associação de vítimas, que já contou como o filho de 5 anos morreu ao colo do pai na estrada EN 236-1. Fez-nos sofrer. Se outros como ela quisessem podíamos conhecer as histórias. Os jornalistas seriam livres de as relatar. E não há governo ou comissão de proteção de dados que impeça isso, como a PIDE fez com a tragédia das cheias de 1967. Xavier Viegas pode ser rigoroso com os dados, mas é manifestamente exagerado nas comparações.

Opinião

Descentralização e ressabiamento?

A descentralização é daqueles temas consensuais. Não há ninguém que discorde - mesmo que tenham dúvidas sobre a forma e o conteúdo - de que o país beneficia de instituições e serviços espalhados por todo o território. Portugal é, no entanto, muito mais do que o eixo Lisboa-Porto. Até devo reconhecer que os autarcas deste país, em particular os do interior, são muito pacientes. Reclamam menos do que deviam com o poder central para que o investimento público e a descentralização se efetivem.

Paula Sá

Arranjinhos que nos tramam

Rui Moreira foi extraordinariamente inteligente ao ter exercido máxima a pressão sobre o governo para que a cidade escolhida para a candidatura à Agência Europeia de Medicamentos (EMA) fosse o Porto e não Lisboa, como inicialmente tinha sido anunciado. Em período de pré-campanha eleitoral é o autarca do Porto e recandidato ao cargo que capitaliza os ganhos da candidatura, cujo vencedor estará decidido a 15 de novembro, já depois das eleições autárquicas.

Paula Sá

Respostas transparentes e independentes

António Costa já foi ministro da Administração Interna. Sabe o quanto a pasta é pesada. Se não é o incêndio é a cheia, disse ele sobre as agruras com que se confrontam os que assumem o cargo. Quis proteger a ministra Constança Urbano de Sousa, num momento em que muito naturalmente, e no meio de uma tragédia tão avassaladora como a de Pedrógão Grande, era a cabeça dela que estaria em jogo como responsável política.

Opinião

Culpa sem direito a recurso

No café, nos transportes, na rua é tolerável. Todos temos um bitate sobre os casos mais mediáticos de justiça. Os políticos são invariavelmente culpados, muito antes de serem julgados. As notícias vão escorrendo e o julgamento na praça pública é inevitável. Os casos, alguns complexos, arrastam-se durante anos e os visados são demolidos no julgamento popular. Não há como escapar a isto. Mesmo quando os notáveis arguidos são ilibados, a mancha raramente é apagada porque fica na memória coletiva o alegado pecado original.

Opinião

Porque deu Marcelo a mão a Costa e a Passos?

O advogado José Miguel Júdice, que no início da década de 1980, andou envolvido na Ala Nova Esperança com Marcelo Rebelo de Sousa, e de quem diz ser amigo, afirmou no seu comentário televisivo semanal, na TVI 24, que o Presidente da República sempre teve "medo" de que alguma coisa corresse mal nos projetos políticos em que participou. Talvez isso explique que o inquilino de Belém se agarre à estabilidade política como uma âncora para o seu próprio sucesso presidencial.