Opinião

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A visão pessimista de Unamuno sobre Portugal

Miguel de Unamuno foi provavelmente o escritor espanhol que mais amou Portugal. Mas pode tê-lo amado sem o entender, como nem sempre compreendeu bem os problemas espanhóis. Grande escritor e para mim grande poeta, teve, para além disso, o mérito de olhar Portugal, de ter amigos portugueses, de conhecer profundamente a Literatura e a História portuguesas. Fizeram-no pouquíssimos espanhóis, que sempre preferiram olhar para Norte e raramente para Ocidente. Por isso me parece pouco representativo que nas livrarias portuguesas se destaque o pequeno panfleto de Unamuno, Portugal, povo de suicidas. Na realidade, trata-se do artigo "Um povo suicida", escrito em Lisboa em 1908 e incluído no livro Por terras de Portugal e Espanha. Além do mais, o título sensacionalista não reflete bem o conteúdo do artigo porque o autor não pensa que todo Portugal é suicida. É um título chamativo. O facto de alguns portugueses, amigos ou conhecidos seus, se suicidassem (Laranjeira, Antero, Espanca, Sá Carneiro) não lhe permite a extrapolação a todo um povo. Porque não olhou para todos os franceses, alemães, escandinavos, ou a espanhóis, como Ganivet, entre outros que se suicidaram nesses tempos, com esse mal de "fin de siècle" que tantos partilharam, essa espécie de "lacrime di intellettuale" que denunciaria Pasolini? Esse artigo dá uma imagem bastante incorrecta de Unamuno pensador, ainda que contribua para essa espécie de autoflagelação tão própria dos portugueses a quem parece que agrada, como a nós espanhóis, "seus irmãos", recrear-se com o desastre, acreditar que somos piores que os europeus do norte, que somos incultos, pouco sérios, pouco de fiar. No fundo, flagelamo-nos, como se quiséssemos dar razão aos holandeses, a personagens como Hoekstra e Rutte. Don Miguel de Unamuno não era um pensador otimista. Pertenceu à chamada Geração de 98. Com o seu grande conhecimento dos clássicos e contemporâneos, com uma grande carga ética, inquietava-o o problema de Espanha, que foi praticamente a sua principal preocupação. Pensava que éramos todos decadentes. O tema dos suicidas serve a Unamuno para justificar a sua visão melancólica de Portugal que ele amplifica, considerando que muitos portugueses se comprazem quase de maneira masoquista ("em Portugal amam as lágrimas", diz). O saudosismo fascina Unamuno, porque ele próprio é um homem de saudades, saudades do cristianismo, saudades de Castela, saudades da sua Bilbau.. Como mostra no seu belo mas fúnebre soneto "Portugal": "O atlântico mar na praia areosa uma matrona descalça e desgrenhada senta-se ao pé de uma serra coroada por triste pinheiral. (...) enquanto ela, seus pés nessas espumas banhando, sonha no fatal império que se sumiu nos tenebrosos mares, e olha como entre agoureiras brumas se ergue D. Sebastião, rei do mistério." É a visão de um país que ele considera pobre e decadente (desgrenhada e descalça) que contempla o pôr-de-sol, o acaso. Isto resume a sua ideia sobre o país e converteu-se quase num estereótipo. Mas não se alarmem os leitores portugueses, Dom Miguel tem também muitos poemas tristes, quase desesperados, sobre Espanha. Era o seu caráter, daí que forme parte dessa "literatura do desastre", como lhe chamou Manuel Azaña. E, para além disso, Unamuno podia dizer uma coisa e o seu contrário. Assim, podia ser iberista (quase partidário da unificação da Península) e ao mesmo tempo reivindicar a independência de Portugal frente à "velha e apodrecida Espanha oficial, ainda não refeita das suas seculares manias ... que ainda não reconhecia sincera y lealmente a independência portuguesa" (Portugal independente, 1917). Seria bom que, à margem do impacto mediático que produz um panfleto sobre essa suposta mania suicida, se editassem em português mais obras de Unamuno, tanto as que se referem a Portugal (que a Fundação Gulbenkian publicou em 1985) como muitas outras. Ler Unamuno é um convite à reflexão fora dos caminhos mais percorridos. Miguel de Unamuno dizia o que pensava em voz alta e isso valeu-lhe que Primo de Rivera o desterrasse, que a Segunda República o expulsasse da cátedra e enfrentasse no final dos seus dias o general insurrecto, ao lado dos nacionalistas, Millán-Astray. Unamuno foi o exemplo do intelectual comprometido com o seu tempo, algo que agora em Espanha -e mais ainda na Catalunha - parece brilhar pela escassez.

Pedro Marques Lopes

A vergonha de António Costa

Há poucas coisas mais excitantes para os vendedores do "anda tudo a roubar" e do "vivemos na promiscuidade" do que um acontecimento que envolva políticos e futebol. Portugal é um país que tem problemas evidentes de corrupção e de promiscuidade entre os vários poderes, como qualquer democracia. A minha memória não é das melhores, mas eu vivi neste país toda a minha vida e só alguém que aqui não esteve ou é muito esquecida pode negar os significativos avanços na luta contra estes cancros, que tem de ser constante e sem descanso.

Paulo Baldaia

Enxotado como cão com pulgas

O episódio do apoio do primeiro-ministro a um candidato à presidência do Benfica mostrou, uma vez mais, que os interesses dos homens do futebol prevalecem sobre o interesse geral. O mais importante acabou por ser a defesa de Luís Filipe Vieira. Já António Costa podia ser tratado como acabou por ser, enxotado como cão com pulgas. Não é de excluir (é até muito provável) que a expulsão dos políticos da comissão de honra tenha sido concertada, mas imaginar que o primeiro-ministro se deixou subalternizar deve deixar-nos ainda mais perplexos. Política e futebol são como água e azeite, não se misturam. Como a água, a política é mais densa e sempre que alguém insiste em misturá-los acontece que o futebol, como o azeite, fica por cima. A perversidade destas relações revela-se nisso mesmo, na pouca importância dos representantes do povo quando aceitam fazer parte do séquito.

Victor Ângelo

Manter a relevância das Nações Unidas

A Organização das Nações Unidas celebra 75 anos de vida no início da semana entrante. Essa é igualmente a semana do Debate Geral, que permite aos líderes mundiais discursar perante a Assembleia Geral e para quem os quer ouvir. Neste ano, apesar da importância simbólica do aniversário, tudo terá um perfil baixo, digital apenas, por causa da pandemia. Os chefes de Estado e de governo não se deslocarão a Nova Iorque. Enviarão vídeos, na maioria dos casos com as lengalengas habituais destinadas às suas audiências domésticas. A ausência dos líderes fará perder a parte mais relevante da reunião anual, que é a de permitir toda uma série de encontros face a face, entre os grandes deste mundo. Tudo isto torna a sessão deste ano relativamente invisível, precisamente quando as Nações Unidas precisam de recuperar a atenção internacional.

João Melo

Pandemia, violência e democracia

Os governos amam pandemias da mesma forma que amam as guerras; porque lhes dá poder; dá-lhes o controlo e dá-lhes a capacidade de impor obediência aos seres humanos." Esta frase, que começou a circular nas últimas semanas em várias redes sociais é atribuída ao advogado Robert F. Kennedy Jr., filho do antigo congressista americano Robert Kennedy e sobrinho do antigo presidente John F. Kennedy, assassinado em Dallas em 22 de novembro de 1963. A mesma teria sido proferida em Berlim, no dia 29 do passado mês de agosto, durante uma palestra sobre o novo coronavírus.

Ruy Castro

Um maravilhoso português do Brasil

Era como se, nas mãos deles, a música sempre voltasse ao primeiro dia da Criação. Uma das coisas que o Brasil legou de melhor ao século XX foi a sua escola de violonistas modernos - homens não apenas capazes de dar uma roupagem nova ao repertório clássico do samba e do choro, mas que se especializaram, desde 1940, em propor ousadas novidades técnicas, harmónicas e rítmicas. E que, para surpresa geral, não só conheceram o sucesso comercial como tiveram até presença internacional.

Paulo Pedroso

É possível prevenir as mortes em lares?

Da audição parlamentar às Ministras da Saúde e do Trabalho e Solidariedade Social sobre as mortes de idosos em lar ficou a ideia de que o Governo está preocupado em aprender com erros. É uma aprendizagem necessária e não só em Portugal, mas seria errado reduzir essa aprendizagem à organização dos cuidados de saúde a idosos em lar, embora os inclua necessariamente. Portugal acompanha o resto da Europa ao despertar para os desafios que se colocam aos lares de idosos e que a Covid19 revela. Não se pense que é um problema associado exclusivamente a disfuncionamentos dos nossos lares ou ao seu modelo de financiamento. Entre os países particularmente atacados por este problema encontramos diferentes modelos de gestão dos cuidados, dos predominantemente públicos aos predominantemente comerciais. Já houve mais de uma dezena de milhar de mortes em excesso em lares britânicos, o que mais falhou na Suécia foi a proteção dos idosos em lar, houve enormes tragédias em lares italianos, franceses e espanhóis e a lista podia continuar. Há muitas razões para a vulnerabilidade dos lares à Covid19. Tudo começa com a vulnerabilidade das pessoas idosas e com outras condições de saúde que torna a exposição ao vírus mais letal e com o facto de que são pessoas exatamente com essas características o núcleo fundamental dos seus utentes. Segundo os dados revelados no Parlamento pela Ministra Ana Mendes Godinho, 60% dos cerca de 100 000 idosos em lar têm mais de 80 anos e não é difícil imaginar que muitos deles tenham condições de saúde precárias, ainda para mais quando o aumento da longevidade entre nós não tem sido acompanhado de um aumento do tempo de vida saudável. Para prevenir as mortes em lares, importa não esquecer, é necessário começar, se olharmos para o problema de modo estrutural, mais atrás, no prolongamento da vida com saúde. Ou seja, é preciso começar ontem e desde o berço a dar às pessoas condições de vida que mitiguem os seus riscos vitais. Como disse o Professor Sobrinho Simões numa iniciativa da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, ligada ao desenvolvimento de um contributo para a estratégia portuguesa para a longevidade em cuja elaboração tenho o privilégio de participar, prepara-se a partir da infância a longevidade com saúde. Mas há fatores específicos dos lares que exigem reflexão sobre a própria organização dos cuidados. Conhecendo a tipologia destes equipamentos começa por ser necessário perguntar-nos se eles são adequados para pessoas especialmente vulneráveis como parecem ser grande parte dos seus utentes reais. Acresce que tudo nos lares está organizado para que haja forte contacto social - refeições em comum, amplas salas de estar coletivas, equipamentos de uso comum, quartos não individuais - e o contacto social é uma forte fonte de propagação. Os lares partilham com os estabelecimentos de saúde parte dos seus profissionais e estes estabelecimentos são, como se sabe, fonte de risco acrescido de infeção. Muitos dos profissionais em contacto com idosos são pessoas com baixo nível escolar e pouca preparação específica, auferindo baixos salários. Inverter esta situação implica um investimento forte, em infraestruturas e sobretudo em custos de funcionamento, num leque de intervenções que vai dos quartos individuais que temos de menos ao pessoal treinado e trabalhandoem exclusividade, qualificado e bem remunerado que não temos. Não se pode enfrentar com seriedade o problema da diminuição do contacto social forçado e da melhoria da qualidade de vida dos idosos internados sem aumentar os custos da generalidade dos lares e em particular da rede de solidariedade, o mesmo é dizer sem aumentar ou a comparticipação pública ou a das instituições ou a das famílias ou todas elas. A questão do preço dos cuidados não pode ser apagada da equação. O Estado tem procurado, na estratégia de austeridade que leva uma década, conter os custos da rede de solidariedade que custeia. Os lares privados têm a mesma pressão por causa do baixo poder de compra das famílias e da ausência de qualquer produto de proteção social obrigatória ou complementar que permita suavizar o custo dos cuidados quando se necessita deles. Há diferentes soluções a ser experimentadas para este problema, que vão da criação de novas eventualidades de segurança social, a formas de poupança voluntária ou obrigatória em produtos mutualistas e/ou comerciais. Mas a necessidade de refletir sobre o financiamento dos cuidados é incontornável. Os cuidados a pessoas dependentes são o próximo grande desafio da nossa proteção social. Hoje vivemos uma situação caótica nesta matéria, com uma fragmentação excessiva entre a rede de cuidados continuados que funciona por referenciação médica, lares que muitas vezes se substituem, subfinanciados, a essa rede, cuidadores informais pouco e mal apoiados, critérios desconhecidos para a organização de apoios domiciliários ou o encaminhamento para respostas de pessoas que necessitam de apoio ou em situação de dependência. Cada resposta tem o seu lugar e as situações e contextos em que é a mais adequada. O Estado, na área da segurança social e na área da saúde tem, aliás, que se organizar para dar uma coerência às respostas no setor dos cuidados que garanta o melhor possível o equilíbrio entre os direitos das pessoas que necessitam de cuidados, a proteção dos cuidadores e a organização das respostas públicas ou com apoio público. A referenciação para cuidados tem de ser coerente, articulada e baseada em critérios e não em particularismos institucionais. As Ministras no Parlamento acertaram na questão fulcral. Prevenir as mortes em lar por Covid19 passa por garantir melhores cuidados. Apenas acrescentaria que a reflexão não se pode limitar aos cuidados em lar, antes tem que se estender a todo o tipo de cuidados, começando pela definição dos cuidados adequados e prolongando-se à garantia que não temos - e que vários países europeus perderam nas suas estratégias de adaptação à reforma do Estado social - de que os cuidados, formais ou informais, salvaguardam sempre a dignidade da pessoa que os recebe.

Opinião

Os Acordos de Abraão são como o "Glutão do detergente"

Quem já tem cabelos brancos, ou já não os tem, lembra-se certamente do anúncio dos glutões que iam comendo as nódoas da roupa, enquanto a máquina ia rodando, ou a sabonária fazia do fato-de-macaco bacalhau de molho. Os Acordos de Abraão, são um processo em andamento e os glutões Trump e Netanyahu, após terem comido primeiro os Emirados Árabes Unidos, comeram agora também o Bahrein (Dois Mares, na tradução literal), o que fez a notícia da semana, com assinatura em Washington a 15 do corrente. O próximo será certamente Marrocos e, para breve, apontem! Se bem que para estes últimos, os ganhos serão tão substanciais, que merecerão análise futura e exclusiva. A seu tempo o farei. Voltando a Abraão, ou melhor, aos glutões, a importância destes Acordos históricos deverão ser vistos e analisados abstraindo-nos das figuras de Trump e de Netanyahu e do que representam. Trump quer ser reeleito a todo o custo, o tempo escasseia e, Netanyahu quer escapar da prisão ou, pelo menos, que se prove em Tribunal que não corrompeu, nem foi corrompido e/ou, tendo-o feito, que foi a bem da Nação. A importância do momento é o da quebra de um ciclo baseado na violência e na vingança da honra, pilar do Código Social e Relacional em toda a Região MENA. A lógica e o historial de violência entre judeus e árabes, na Região, foi-me explicada numa imagem por conhecedor profundo das dinâmicas locais e que a resumiu da seguinte forma: "É como se fossem 2 cães a morderem a boca um do outro e acham que quem morder com mais força ganha!". Regularizar as relações num papel assinado, não vai impedir o conflito (e conflito não é guerra), mas esse existirá sempre, já que faz parte da condição humana. Agora, será certamente um passo importante para abrir os espíritos e atacar a origem da "zizania" permanente, que começa logo a ser cultivada nos manuais da Escola Primária, em ambos os lados, com a demonização permanente do Outro. Os dados estão lançados e o que quero mesmo dizer, é que acredito que daqui a uns 20 ou 30 anos, se Deus quiser, estarei ainda numa Universidade perto de si a cantar Hossanas à Política Externa de Trump para o Médio Oriente, da mesma maneira que hoje, as Escolas Realistas das Relações Internacionais a cantam à Política Externa de Richard Nixon, pelos ensinamentos que teve enquanto Vice-Presidente de Dwight Eisenhower (1953-1961) e que lhe deram o traquejo e a visão para visitar a "herética República Popular da China" enquanto Presidente, em 1972. Em 1971 já tinha aliás, enviado secretamente Henry Kissinger em missão importante, para "sentir a temperatura" de Zhou Enlai, o Primeiro-Ministro de Mao Zedong. Como é sabido, a regularização das relações entre americanos e a China comunista tudo mudou. A Coca-cola ganhou o maior mercado de sempre e Taiwan teve que ceder o seu lugar de Membro Permanente do Conselho de Segurança nas Nações Unidas ao "diabo com olhos em bico"!

Opinião

Os miúdos ainda podem ser felizes na escola em tempos de covid?

Chegou a hora. As cachopas voltam à escola. Para uma delas (sou pai de três), não é novidade: fez parte do grupo de cobaias (11.º e 12º) que já tinha voltado às salas de aulas em maio passado para concluir o ano letivo - e tudo correu bem. Para a mais velha, na faculdade, o regresso ainda vai demorar mais algum tempo, agendado só para outubro. Ficou assim para a mais nova, ainda para mais em mudança de ciclo (para o 5.º ano), a maior dose de ansiedade por estes dias.

Sofia Colares Alves

Temos vontade de mudança

A presidente Ursula von der Leyen discursou hoje com a mesma coragem e determinação que os europeus têm demonstrado na resposta à pandemia e às suas consequências. Começou exatamente por homenagear todos os cidadãos, em especial os diferentes profissionais que estiveram na linha da frente no combate à pandemia e que nos permitiram lutar contra um vírus, tão pequeno, tão invisível, mas que pôs o mundo em sobressalto e que demonstrou as nossas fragilidades.

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Um discurso de fé nos europeus 

Foi uma fortíssima declaração de fé na União Europeia aquilo que Ursula von der Leyen fez nesta manhã, dirigindo-se muito aos jovens. A presidente da Comissão Europeia não só elogiou a cooperação entre os Estados membros no combate à covid-19, desde os corredores verdes quando as fronteiras estavam fechadas até ao repatriamento solidário dos pontos mais remotos do planeta, como declarou que os europeus têm de estar na linha da frente na procura de uma vacina, garantindo que esta será para todos e não apenas para aqueles que a possam pagar. Como realçou, o nacionalismo nas vacinas mata, só a cooperação internacional salvará vidas.