Opinião - HP

A Alma Vagueante

O Último Árbitro

Será um lugar-comum declarar que os escritores, e também as crianças, necessitam de um modelo parental que lhes imponha o código, lhes atribua o prémio, e lhes sentencie o castigo, sob pena de se transformarem em autocráticos monstros, exploradores do próximo, ou em adultos inúteis, a coçar os costados nas esquinas. Por anos e anos João Gaspar Simões encarnaria o grande irmão, aterrorizando e protegendo, verberando e excluindo, os letrados da nossa terra, e desempenhando uma missão que o situava entre o mestre-escola e o juiz. A tenacidade, e inclusive a verrina, que injectava na sua canseira de árbitro das letras lusas, não tornariam a ser igualadas.

Liga a fundo

Sporting líder em penáltis e em futebol de área

O Sporting ganhou no sábado através de um penálti polémico (porque precedido de fora de jogo) e é, de longe, a equipa com mais grandes penalidades nesta edição da Liga - cinco (falhou uma, mas num jogo em que teve duas, em Coimbra). O Sp. Braga vem a seguir, com quatro, e atrás vem o Paços com dois. O Benfica teve um e metade das equipas não teve nenhum (FC Porto está a zeros). O Nacional e o Marítimo já tiveram três penáltis contra, tal como o Rio Ave, e a seguir vem o Sporting, com V. Setúbal, Estoril e Académica (2). O Benfica ainda não teve penáltis contra.

Um ponto é tudo

Não se pode acusá-los de correr ao poder

Sobre as coisas que nos têm espantado nestes dias, Cavaco Silva disse, no plural majestático que o cargo lhe permite: "Nós tínhamos estudado todos os cenários e também este que está a acontecer..." OK, que fique para a história como "o homem que nunca se deixou apanhar distraído"! Haja um, porque distraídos somos os restantes portugueses sobre os mistérios de se passar dum governo para outro. Os prazos lentos e absurdos, por exemplo. Neste ano, na Grécia, um governo caiu, convocaram-se eleições, fez-se campanha e, no dia seguinte a votar-se, o novo governo foi empossado. Tempo decorrido: um mês exato. A 22 de julho, um mês antes da queda do governo grego, já as eleições portuguesas tinham sido marcadas. Hoje, passaram-se quase três meses e entra-se no ciclo em que o PR ouve todos os partidos. E não, eles não estão em fila em Belém, leva dias. Prazo para a operação: não há. Rezemos: para a semana alguém será indigitado primeiro-ministro. Agora, sim? Não. Também sem prazo, o indigitado tem todo o tempo do mundo para escolher os seus ministros. Enfim, tomada de posse (já devemos estar em novembro). Só então, com o governo empossado, há um prazo imposto: dez dias para se submeter à Assembleia da República. O que, num dos cenários mais prováveis, pode significar a queda do governo. Depois de quatro meses, o fim daquilo tão longamente parido... Sinto-me um misto de rato de laboratório e cozido em lume brando. Valha-me o PAN.

Opinião

O regresso do Prior do Crato

Num texto de leitura obrigatória para quem aspira a deixar marca positiva na política, Hannah Arendt (Verdade e Política, 1967) sublinhava que não há nada mais vulnerável na esfera pública do que a verdade factual. Isso tanto vale para os "estudos científicos" que "provavam", nos anos 60, que não existia ligação entre o fumo do tabaco e o cancro (pagos pelas companhias tabaqueiras) como para os "historiadores" revisionistas que depois dos anos 70 começaram a negar a existência do Holocausto. O problema é que se deturpamos a verdade factual desafiamos o risco de ignorar "o chão que pisamos" ou "aquilo que não podemos mudar", citando Arendt. A verdade factual, por muito que magoe as nossas convicções, não deixa de ser a única carta de marear que nos evita o naufrágio certo ao chocar contra os rochedos escondidos debaixo das nossa ilusões. Penso que me conto entre os portugueses que mais denunciaram os erros e derivas do governo do PSD--CDS, o modo como a ideologia neoliberal corporizada por Vítor Gaspar aumentou as feridas da austeridade, a incompetência na política de ciência, a falta de esclarecimento na justiça. Também condeno a irresponsabilidade de Passos Coelho na campanha eleitoral de 2011 ao prometer o que não podia cumprir. Contudo, um erro não se corrige com outro. E uma mentira não se transforma em verdade se usar a anterior mentira do oponente como desculpa. Em 4 de outubro António Costa (AC) foi o grande derrotado das eleições. Rui Tavares apelou antes das eleições a uma frente de esquerda, e todos se riram dele. A miraculosa aliança de esquerda que AC agora oferece não foi votada pelos portugueses (nas sondagens só 36% a preferem contra 52% que defendem uma solução construída em torno da coligação de direita e do PS). É incompreensível dizer como o faz AC, que o novo governo respeitará os "acordos internacionais". Portugal precisa de mudar o Tratado Orçamental se quiser sair do pão e água, mas isso terá de ser feito por quem saiba lutar dentro da zona euro, e não por quem queira sair dela com os punhos erguidos. Para servilismo perante as regras do jogo, a coligação oferece mais garantias... Portugal está exangue, mas pode ainda ficar pior, como o exemplo grego o mostra num outro registo, se trocarmos a verdade dos factos pela ambição menor de quem parece não ser capaz de aceitar uma derrota. Nesta hora de angústia nacional, Portugal precisaria de uma nova dupla mágica, como a do Mestre de Avis e Nuno Álvares em 1383. Infelizmente, a poeira no caminho para São Bento está a ser levantada por um bizarro tropel de órfãos do assalto ao Palácio de Inverno, comandados por um avatar do António Prior do Crato. Portugal precisa de tudo, menos de ser humilhado outra vez, como o foi pelo duque de Alba na Batalha de Alcântara, em 1580.

Um ponto é tudo

Os excedentes de animação política

Durante todo agosto, mês das notícias parvas, publiquei diariamente, no DN, um folhetim político sobre a campanha eleitoral que ia seguir-se. Coisas ficcionadas, que eu, o ingénuo!, julguei demasiado bizarras... Pus Portas a saltar o muro da Capela do Rato para encontros clandestinos com Costa. Fiz Passos inventar um António Costa com as posições do Bloco de Esquerda. Imaginei um resultado eleitoral em que o cargo de primeiro-ministro não ia para o ganhador mas para Maria Luís. Criei a notícia sobre a ameaça de Mariana Mortágua em votar socialista se o BE continuasse sectário com o PS... Inventei tanto que chamei ao folhetim "As eleições que ninguém queria ganhar".

Jogos sem fronteiras

A estrada de Clinton

Hillary Clinton passeou no primeiro debate entre democratas. Surpreendidos? Não estejam. A qualidade e as táticas usadas pelos adversários explicam o resultado. Nenhum esteve na CNN para a derrotar ou atirar--lhe com um podre do passado. Pelo contrário: o tema que lhe tem feito mais mossa (o uso do e-mail privado quando era secretária de Estado) foi logo atirado para canto pelo senador Sanders, o candidato que mais se tem aproximado dos mínimos exigidos numa disputa política. Desde o anúncio da candidatura de Clinton que esta corrida tem apenas três pontos de interesse: quem será o seu vice-presidente, como irá contornar os obstáculos criados pelos republicanos no Congresso (caso dos e-mails e inquérito sobre o ataque à embaixada americana em Bengazi) e em que áreas se distanciará de Obama. Sobre a gestão dos obstáculos, os sinais são favoráveis que apontam para que se virem contra os seus criadores. Primeiro, porque martelar politicamente dois temas fora do radar das preocupações dos americanos não passa de ruído a partir de certa altura. Segundo, porque um caso como o dos e-mails não tem dimensão para destruir Hillary, dadas as alternativas democratas e a bizarria da corrida republicana, com Trump teimosamente à frente nas sondagens. Ou seja, não há, nesta fase, nenhum challenger capaz de capitalizar um caso anti-Hillary. Além disso, no caso do inquérito a Bengazi, a respetiva comissão está envolta numa nuvem de gastos exorbitantes e falta de rigor que facilmente a irá consumir. Sobre a distância para Obama, estão encontrados os temas: Síria, armas, acordos de comércio livre e impostos. Se o desenho de uma política externa tem estado ausente, esse roteiro pode decifrar o código Clinton para os próximos meses. De resto, este debate iluminou de vez a estrada de Clinton: dificilmente Joe Biden tem agora condições para entrar na corrida.

Opinião

A nossa Coreia do Norte

Ficou famosa a resposta que Bernardino Soares, em 2003, deu a uma pergunta do DN sobre o regime da Coreia do Norte. "Tenho dúvidas de que não haja lá uma democracia", disse o ex-líder de bancada do PCP, desde 2013 à frente da Câmara de Loures. Igual sucesso teve a deputada Rita Rato, em 2010, sobre os gulags (campos de concentração da URSS) - "Admito que possa ter acontecido essa experiência" - e os presos políticos na China: "Não conheço essa realidade de forma que me permita afirmar alguma coisa."

Opinião

Mas, afinal, quem é que manda na TAP?

A hora até pode ser dos partidos, como diz o Presidente da República, mas nesta terça-feira, à mesma hora em que terminava mais uma reunião, inconclusiva, entre Passos Coelho e António Costa, o regulador do setor da aviação lançava dúvidas graves sobre a privatização da TAP. Essa mesma, aquela que foi decidida sob duras críticas, em cima das eleições do passado dia 4, e que resultou na vitória do consórcio formado por Humberto Pedrosa e David Neeleman.

Opinião

Não se muda já como soía, aqui d"el rei!

Estamos a viver um momento em que as certezas se vão esboroando. Esta é uma maneira banalíssima de começar uma crónica, igual a dizer rebeubéu pardais ao ninho ou quem sabe, sabe, e a bem dizer aplica-se a todos os tempos da história. Mas dizer o óbvio fica sempre bem, está sempre certo, e há quem tenha levado a arte do óbvio a um tal expoente que até entrou na galeria dos sublimes, ou quase sublimes, vá lá, ou dos que há quem ache que são sublimes. Como diria Dupont, sósia de Dupond, eu não diria melhor. Voltando ao início da conversa, as certezas são chão que já deu uvas. Eu prefiro achar que deixar sossegadas as certezas e optar por fazer perguntas é, em geral, muito mais divertido e sempre dá que fazer aos neurónios e pode ser que traga alguma coisa de novo a este triste fado. É fazer como as crianças. Porquê? Porquê? Porquê? O sábio Alberto Manguel estudou muito sobre isto, tanto que até escreveu Uma História da Curiosidade, livro totalmente recomendável.