Maria do Rosário Pedreira

Maria do Rosário Pedreira

Cinemínimo

Agora, obrigados que estamos ao isolamento, o cinema é uma boa forma de passar o tempo, mesmo que ver grandes filmes num ecrã pequeno não seja o ideal. E, porém, como Ruy Castro confessava aqui há umas semanas, também eu já não sou a papa-filmes que fui durante boa parte da minha vida. Não só pelas pipocas - o cheiro é insuportável e nisso Ruy Castro tem absoluta razão -, mas também porque o cinema que hoje se faz é muitas vezes previsível e mal escrito e, ainda que as técnicas tenham evoluído para tornar tudo tão verosímil como fantástico, saio frequentemente de um filme sem que ele me tenha deixado qualquer marca. Falo, claro, das produções que passam na maioria dos cinemas, porque há uma filmografia de qualidade que raramente cá chega e, se chega, fica apenas uns dias numa sala escolhida e num horário estrambólico. Deve ser por isso, aliás, que as séries conquistaram os novos cinéfilos que, habituados aos ecrãs pequenos, as vêem onde e quando lhe apetece.

Maria do Rosário Pedreira

O estado da arte

As recentes notícias sobre o desconhecimento do paradeiro de mais de cem obras da Colecção de Arte do Estado - algumas das quais se crê terem sido roubadas - recordaram-me um romance que publiquei com grande entusiasmo há alguns anos. Adoração, de Cristina Drios, debruça-se sobre o período que Caravaggio passou na Sicília em 1609, aguardando um indulto papal para um crime de sangue que cometera em Roma e pintando Natividade com São Francisco e São Lourenço, quadro que, reproduzido na capa do livro, foi infelizmente roubado em 1969 na cidade de Palermo. Apesar de o romance avançar hipóteses muito hábeis para a autoria do furto, o quadro na realidade nunca apareceu, tal como se verificou com obras-primas de mestres como Vermeer, Rembrandt, Van Gogh, Monet, Cézanne, Picasso, enfim, a lista é longa, e há suspeitas de que algumas acabaram destruídas - como se supõe ter sido o caso de um quadro de Picasso que o ladrão escondeu num caixote de lixo, mas terá ido parar ao camião triturador antes de ele ter podido recuperá-lo.

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Retrato de uma época

Quando em miúdos precisávamos de uma fotografia para a matrícula, íamos a um fotógrafo que nos endireitava o queixo com ar mandão e nos tirava um retrato formal. À parte isso, fazíamos caretas encavalitados no banquinho do Photomaton e tirávamos fotografias uns aos outros com máquinas que recebíamos pelo Natal. A minha primeira câmara foi uma Kodak 127 de rolos de oito fotografias, substituída depois por uma Instamatic que, apesar de ter rolos de 24 e 36 e um pequeno flash, tirava fotografias quadradas, o que era um retrocesso. Seguiu-se uma Polaroid, que cuspia a imagem na hora mas se avariou rapidamente, e então, sim, uma reflex, cuja lente já possibilitava fotografar à distância e que tinha self-timer, permitindo que preparássemos o cenário para um retrato de grupo e depois fôssemos sentar-nos entre os outros, ouvindo o disparo apenas uns segundos mais tarde.

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Marchar para a estupidez

Antes de mais, bom ano. E, por falar disso, vale a pena contar uma história. Decerto já terão ouvido ou ouvido falar do Danúbio Azul, a famosa valsa do compositor austríaco Johann Strauss que meio mundo trauteia de ouvido e os mais velhos terão dançado em inocentes bailes de juventude. Não tão popular, mas talvez mais impressiva, é, do mesmíssimo compositor, a Marcha Radetzky, peça que costuma constituir outro dos encores obrigatórios do Concerto de Ano Novo da Orquestra Filarmónica de Viena - transmitido por televisão para todo o mundo no dia 1 de Janeiro - e arrancar aplausos verdadeiramente ruidosos no final.

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Uma banana para Cambridge

Num pertinente ensaio intitulado O Futuro da Ficção, que nos prepara para tempos bastante sensaborões na cena artística, António-Pedro Vasconcelos, recorrendo sempre a dados históricos, mostra como têm sido curtos os períodos de grande criatividade e como entre eles, às vezes por mais de século e meio, se prolongam modorras e vazios inventivos. Estou, assim, obviamente grata por ainda ter sido contemporânea de Borges, Beckett, Picasso, Cartier-Bresson, Escher, Visconti, Piazzolla ou Frank Lloyd Wright, criadores geniais nas respectivas áreas. Hoje, que toda a gente pode publicar um livro ou editar um álbum de música, que as câmaras dos telemóveis ajudam qualquer aselha a fazer uma fotografia decente, que os filmes, sobretudo os das grandes produtoras, são planos e previsíveis, não me faltariam razões para dizer que atravessamos um desses períodos de esvaziamento criativo que permitem a todos serem artistas. Mas é nas artes plásticas que o escândalo está decididamente instalado: enquanto numa feira de arte contemporânea uma banana presa à parede com fita-cola foi vendida por 120 mil dólares (bem, só a ideia, porque a banana acabou comida por um artista concorrente numa performance), um grupo de estudantes vegetarianos da Universidade de Cambridge exigiu que fosse retirado da parede do refeitório O Mercado das Aves, uma tela flamenga seiscentista, por causar repulsa a quem não come carne. Adeus, futuro.

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Vergonha

Conta-se a história - provavelmente é apenas uma lenda, mas pouco importa - de um rapazinho que, estando a brincar no lugar onde o grande Miguel Ângelo tinha o seu estúdio, se deixou maravilhar pela visão de um enorme bloco de mármore a ser transportado por uma dezena de homens até aos domínios do artista; e que, vendo esses homens à beira de soçobrar, desafiou os amigos - todos jovens como ele - a irem ajudá-los, sabendo embora que a sua força era quase nenhuma. Contudo, tal foi a insistência que os companheiros concordaram em participar daquele empurrão colectivo, e a pedra pareceu então rolar sobre rodas até ao ateliê do mestre que, assistindo ao milagre, levou os garotos a conhecer as esculturas em que então trabalhava para decorar uma praça de Roma. Conta-se também que, passando por ali de novo umas quantas luas mais tarde, o mesmo rapaz terá decidido visitar o escultor, sendo surpreendido logo à entrada do estúdio por um magnífico cavalo branco escapando-se do bloco de mármore, de crina ao vento e patas da frente empinadas no ar. E, espantadíssimo, chamou por Miguel Ângelo para que ele lhe respondesse a uma pergunta admirável: "Ó mestre, mas como é que tu sabias que havia um cavalo dentro dessa pedra?"

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Plastificados

Ainda antes da queda do Muro de Berlim, conheci um revisor que estudara em Moscovo com uma bolsa da União de Estudantes Comunistas. Confessou-me que deixara de praticar a doutrina logo no primeiro ano, mas nada dissera para poder terminar em paz a licenciatura; e que, quando vinha de férias a Portugal - atravessando a Europa de comboio porque então não havia voos low-cost -, o que mais o impressionava era a mudança radical de cores de uma Alemanha para a outra, como se viajasse da tristeza para a alegria.

Maria do Rosário Pedreira

Eternos meninos

Roubo a Julian Barnes uma frase notável d'O Papagaio de Flaubert: "Quando somos novos, pensamos que os velhos se queixam de os tempos já não serem o que eram porque isso lhes torna mais fácil não ter medo de morrer. Quando somos velhos, tornamo-nos impacientes com o modo como os jovens aplaudem o progresso mais insignificante mas não dão importância à barbárie do mundo. Não vou dizer que as coisas estão piores, o que digo é que, se estivessem, os jovens não dariam por isso. Os velhos tempos eram bons porque nós éramos jovens e ignorávamos quão ignorantes os jovens podem ser."

Maria do Rosário Pedreira

Contranatura

Tenho um amigo que é ateu a maior parte do tempo; mas, quando o espectáculo da natureza lhe tira o fôlego, pergunta-se se não existirá realmente uma sumidade capaz dessa magia sem truques, pois o homem, por mais coisas que tenha inventado, não conseguiu ainda mover a montanha, nem pendurar a Lua no céu, nem mandar chover sobre a terra e o fogo quando é preciso, nem produzir flocos de neve que não passem de farrapinhos de algodão. Pondo de lado a questão teológica, a natureza é, de facto, uma espécie de milagre e, como se isso não bastasse, ainda faz milagres que são tudo menos naturais.

Maria do Rosário Pedreira

O fim da correspondência

Na inauguração de uma exposição em Lisboa, o fotógrafo argentino Daniel Mordzinski contou que, quando começou a fazer retratos de escritores, eram ainda tempos de pombos-correio e cartas de amor. Também eu cresci numa época em que as raparigas esperavam todos os dias que o carteiro lhes entregasse um aerograma vindo de África (e que não fossem más notícias) ou umas linhas do noivo que tinha ido a salto para França, fugindo à guerra e à pobreza. A trabalhar lá em casa, a Virgínia, que tinha os olhos espantosamente verdes, casara-se por procuração com o namorado que vivia na Suíça; e, com grande pena nossa, aguardava apenas a "carta de chamada" para se lhe juntar, enquanto eu, a frequentar o ciclo preparatório, ensinava à irmã dela que, em francês, o seu nome se dizia "Marie du Ciel", caso também ela quisesse trocar Lisboa por Genève (o que era mais do que certo). Contudo, as que cá ficavam não deixavam de ter direito a missivas: apaixonada por um fulano da terra que não lhe ligava um caracol, a Augusta tanto se queixou ao carteiro de nunca lhe trazer uma cartinha que ele decidiu escrever-lhe em nome próprio e a história entre os dois acabou em casório.