Margarita Correia

Margarita Correia

As cerejas, as ideias e o alfabeto

As conversas são como as cerejas, vêm umas atrás das outras. O mesmo se pode dizer das ideias e dos temas destas crónicas. A primeira ideia para a crónica desta semana foi a educação, pelo facto de, em 2018, a Assembleia Geral das Nações Unidas ter instituído o dia 24 de janeiro como Dia Mundial da Educação. Porém, como as celebrações da UNESCO decorrerão na próxima segunda-feira, dia 25, decidi reservar o tema para a próxima crónica.

Margarita Correia

Brasil, Portugal e esta língua que nos (des)une

Foi notícia uma terapeuta da fala (ou fonoaudióloga, termo usado no Brasil) ter visto a sua candidatura ao exercício da função no Serviço Nacional de Saúde ser rejeitada com base no seu deficiente domínio da língua portuguesa, aparentemente pelo facto de ser brasileira e falante de português do Brasil. O caso de cidadãos brasileiros discriminados por razões linguísticas em Portugal é recorrente e este preconceito tenderá, acredito, a intensificar-se com a chegada de mais cidadãos brasileiros com formação superior. Já me referi à questão em texto anterior, a propósito de dissertações e teses apresentadas por alunos brasileiros a universidades portuguesas e ocorre-me a discriminação de que são alvo colegas brasileiros, com competências e currículos inatacáveis, quando se candidatam a ensinar linguística ou língua portuguesa em instituições públicas de ensino superior.

Margarita Correia

Graças a Deus. Ou graças a nós.

Fomos abalados pela execução de Samuel Paty, professor de História e Geografia, a 16 de outubro, frente à escola onde trabalhava, nos arredores de Paris. A causa próxima do crime foi a exibição, numa aula de Ensino Moral e Cívico, de duas das caricaturas de Maomé publicadas pelo Charlie Hebdo. A disciplina de Ensino Moral e Cívico é obrigatória ao longo de todo o currículo do ensino não superior, desde o ataque ao Charlie Hebdo em 2015, que é um dos temas do programa. Os seus objetivos são: respeitar os outros, adquirir e partilhar os valores da República (liberdade, igualdade, fraternidade, democracia, cidadania, laicidade, liberdade de expressão) e construir para si mesmo uma cultura cívica.

Margarita Correia

A escola e a cidadania

No meio da discussão sobre a disciplina Cidadania e Desenvolvimento (CD), dei comigo a indagar a origem e a semântica da palavra "cidadania". Esta teve o seu "nascimento" em português na 2.ª edição do Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo (1913), que a descreve como "Neol. Bras. Qualidade de cidadão", sem abonação, nem etimologia. Nos dicionários que consultei, nada encontrei sobre a sua proveniência; nada me espantaria, porém, que a palavra tivesse entrado em português pelo francês, como aconteceu com tantas outras. O Dictionnaire historique de la langue française conta-nos que a palavra "citoyenneté", equivalente de "cidadania", teve a sua primeira atestação em 1783, com as conotações patrióticas e o conteúdo afetivo que citoyen adquiriu na época da Revolução Francesa. Os primeiros usos de "citoyenneté" denotam a participação no governo da cité (civis, civitas), segundo o modelo cívico da Antiguidade Clássica; a partir do século XIX adquiriu o seu sentido jurídico, afetivamente neutro, de membro de um estado ou nação. É este sentido jurídico que predomina na maioria dos dicionários contemporâneos de língua portuguesa consultados, indicando às vezes "cidadania" como sinónimo de "nacionalidade". Na Infopédia encontramos a descrição mais adequada dos significados de "cidadania", em quatro aceções, de que transcrevo apenas as pertinentes neste contexto: "a) DIREITO vínculo jurídico que traduz a condição de um indivíduo enquanto membro de um Estado ou de uma comunidade política, constituindo-o como detentor de direitos e de obrigações perante essa mesma entidade" e b) "exercício dessa condição, através da participação na vida pública e política de uma comunidade" - logo, há pessoas com cidadania na aceção a) que não tiveram ou têm acesso à cidadania na aceção b): e.g. as mulheres até 1974 ou os menores de 18 anos. É na aceção b) que a palavra "cidadania" é usada na disciplina de CD.

Opinião

O inglês é mais apto do que o português em termos lexicais?

Um comentário frequente é o de que o inglês é uma língua mais apta para ser língua global, porque tem muitas palavras e permite facilmente a incorporação de neologismos, i.e., palavras novas. Existe alguma verdade nestas ideias, mas é necessário entender que o que torna o inglês tão capaz de denominar muitos e também novos conceitos não é qualquer característica intrínseca que a torne "melhor", mas sim as condições históricas, sociais, económicas, culturais que rodearam o seu desenvolvimento. Tentarei apontar algumas.

Opinião

Internacionalizar a ciência é anglicizá-la?

No final dos anos 80 iniciei uma colaboração com o extinto Departamento de Língua e Cultura Portuguesa da FLUL (rebatizado "Instituto de Cultura e Língua Portuguesa" após a jubilação de João Malaca Casteleiro), assegurando um "Seminário de Estudos de Léxico", opcional para os estudantes de português como língua estrangeira do nível superior (C1 ou C2 atuais). Foi uma das experiências mais enriquecedoras do meu percurso académico.