Margarita Correia

Opinião

O português, o IILP e o sistema global das línguas

Em 2001, na obra Words of World, Abram de Swaan propõe que o "sistema global das línguas" é parte integrante do "sistema mundial", e que este, além da linguística, comporta uma dimensão política, uma económica e uma cultural. Propõe ainda que o sistema global das línguas se organiza em constelação, cujo centro é atualmente o inglês, língua hipercentral. Em torno do inglês gravitam 12 línguas supercentrais (alemão, árabe, chinês, espanhol, francês, hindi, japonês, malaio, português, russo e suaíli), de âmbito internacional, e todas, à exceção do suaíli, com mais de cem milhões de falantes cada. Em torno das línguas supercentrais, gravitam cerca de cem línguas centrais, em conjunto faladas por cerca de 95% da população mundial, que têm em comum o serem frequentemente "línguas nacionais" ("national languages", segundo o autor), oficiais dos países ou regiões onde são faladas, de registo escrito, usadas na comunicação, na política, na administração, na justiça e no ensino. Finalmente, as línguas periféricas ou minoritárias, provavelmente mais de seis mil, constituem cerca de 98% das línguas existentes, mas são, em conjunto, faladas por cerca de 10% da população mundial, línguas de memória, com escassa tradição escrita. Para de Swaan, este sistema assenta no multilinguismo, i.e., grande parte da população mundial fala mais do que uma língua, pelo menos duas de "órbitas" diferentes. Os falantes de uma língua periférica usam em geral uma língua central, quando necessitam de comunicar com falantes de outra língua periférica; os falantes de línguas centrais diferentes recorrem a uma língua supercentral como veicular; e, por fim, o inglês é veicular para os falantes de línguas supercentrais diferentes. A veicularidade constitui-se, portanto, como importante mais-valia para as línguas.

Margarita Correia

Das crenças

Nos últimos meses, dei comigo a refletir mais demoradamente sobre as crenças. Não, não foi impulso místico o que me levou a pensar no assunto, mas antes a perplexidade com que assisto à aparente convicção com que alguns governantes propalam ideias que contrariam a evidência e a ciência - e.g. o SARS-Cov 2 está controlado e em breve a pandemia estará resolvida; o uso de hidroxicloroquina ou o consumo de vodca previnem a COVID-19. Digo "aparente convicção" porque me custa acreditar que governantes de países creiam efetivamente no que dizem: provavelmente estou condicionada pela crença - justificada? - de que um governante é um indivíduo minimamente racional e inteligente.

Margarita Correia

Quero ver o português na CEE!

Comemora-se em 2020, o 35.º aniversário da assinatura do tratado de adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia. Desde 1977, quando apresentou a candidatura, a adesão tornou-se entre nós tema de conversas, entretenimento - e.g. a canção dos G.N:R., Portugal na CEE, de 1982 (com cujo refrão brinco) - e até de literatura - e.g. a Jangada de Pedra (1986), de José Saramago. Ninguém negará o impacto maioritariamente positivo que ela teve no desenvolvimento do país e nas nossas vidas, e.g. a nível político, económico, social, educativo, científico. Pouco ou nada se fala, porém, do impacto que a adesão à CEE teve no desenvolvimento e difusão da língua portuguesa.

Opinião

E ainda bem!

A variação é uma característica das línguas. Todas as línguas variam em função de tempo, geografia, condição social ou contexto de uso. Todas as línguas apresentam variação, com exceção de línguas como o latim e o grego clássico, que hoje já não variam porque são línguas mortas, mas que tiveram variedades distintas em épocas, lugares e contextos distintos. A língua portuguesa não é diferente das demais línguas vivas e, como tal, apresenta variação. E ainda bem!

Opinião

Visões sobre a língua portuguesa

No tempo da troika, assisti a uma mesa-redonda, na qual se discutia a União Europeia, o euro, o estado social e a economia de países como Portugal, assim como se equacionava o interesse de o nosso país abandonar a UE e adotar o escudo. Os oradores e a maioria do público eram pessoas acima dos 50. Quando se abriu o debate, a maioria dos participantes esteve em consonância com a mesa, trazendo argumentos para justificar os benefícios de Portugal deixar de pertencer à UE. Uma das pessoas mais jovens da audiência pediu a palavra e explicou ser uma jornalista, desempregada, de 30 e poucos anos, com um irmão que se preparava para partir para um intercâmbio Erasmus; explicou que os seus amigos estavam maioritariamente na casa dos 30, 40 anos, que se sentiam cidadãos europeus de facto, se identificavam com a União e nem lhes passava pela cabeça abdicar de todos os benefícios que a Europa lhes trouxera, nomeadamente a mobilidade e a modernidade. A intervenção criou alguma consternação entre os presentes. Ninguém esgrimiu argumentos contra o que fora dito, mas o ambiente arrefeceu e a discussão ficou por ali.