Margarita Correia

Margarita Correia

A Conferência de Luanda e as metas que faltou traçar

Decorreu a 17 e 18 de julho, em Luanda, a XIII Conferência dos Chefes de Estado e de Governo da CPLP, sob o lema "Construir e Fortalecer um Futuro Comum e Sustentável". A Conferência coincidiu com os 25 anos de constituição da Comunidade, a 17 de julho de 1997. Muito se disse e escreveu a propósito do aniversário e da Conferência, dos documentos, dos 25 anos que passaram, dos avanços (não) conseguidos. Há aspetos que importa comemorar, como a adoção do Acordo de Mobilidade entre os Estados-membros da CPLP, a reafirmação do caráter pluricêntrico da língua portuguesa, a reiteração da sua importância, como veículo multicultural e multiétnico, na promoção da paz e do diálogo.

Opinião

Oficializar a língua cabo-verdiana? – 1

Começo com uma ressalva: não sou cabo-verdiana e não viso interferir nas políticas linguísticas que o Estado cabo-verdiano e os seus cidadãos soberanamente adota(re)m; além disso, não sou jurista, mas apenas uma linguista que observa a situação de fora. É exclusivamente dessa perspetiva que aqui escrevo. O meu objetivo é tão-só levantar questões sobre as quais venho pensando e, se possível, ajudar a verbalizar ideias, a definir objetivos.

Margarita Correia

Das línguas nacionais

No âmbito das comemorações do Dia Mundial da Língua Portuguesa, fui convidada pela embaixada e o Centro Cultural de Cabo Verde a participar na Conferência Desafios das línguas nacionais e da língua portuguesa nalguns países da CPLP - Contextos locais/Desafios Globais. Houve participantes de vários países, que falaram das situações linguísticas respetivas. A língua nacional de Cabo Verde é o crioulo, ou língua cabo-verdiana, cujo estatuto, situação sociolinguística e ensino se encontram longe de resolvidos; muitas foram as intervenções que focaram esta questão. A mim tocou-me falar sobre as línguas nacionais portuguesas.

Margarita Correia

Espanhol e português – de uni(ci)dade e de diversidade

Olhando de fora a língua espanhola, impressiona a sua uni(ci)dade, sobretudo se comparada com a grande diversidade do português. Para começo de conversa, importa lembrar que a realidade se dá sempre a ver de acordo com o ponto de vista do observador. A língua espanhola, ao longo do seu enorme espaço, não é tão una e maravilhosa para quem a observa de dentro - há grande variação (fonológica, lexical, morfossintática, semântica), sobejamente descrita; os falantes de espanhol conseguem identificar com facilidade a proveniência dos seus interlocutores; e não é linear que as elites de todos os países de língua espanhola se reconheçam placidamente nas normas subscritas em 2015 pela Asociación de Academias de la Lengua Española. É normal a galinha da vizinha parecer melhor do que a minha: o desconhecimento presta-se a preconceitos e generalizações. A verdade, porém, é que, observado de fora, o espaço da língua espanhola apresenta considerável unidade e serenidade linguísticas.

Opinião

Por uma Comunidade de Cidadãos de Língua Portuguesa

De acordo com a Publishers Association, em 2016 o Reino Unido publicava 16% dos artigos académicos mais citados e possuía 10% de todas as editoras académicas do mundo; constituía o maior produtor mundial de livros e revistas académicas, com 17% do total (seguido pelos EUA, com 16%). Algumas destas editoras detêm também os índices bibliométricos mais reconhecidos no mundo académico, retroalimentando-se assim, e levando a que a ciência produzida no resto do mundo contribua para esta supremacia e para a riqueza do país.

Margarita Correia

Uma reforma para a escola, já!

Em obra basilar, Metaphors We Live By (1980; trad. Metáforas da Vida Cotidiana), G. Lakoff e M. Johnson demonstram o papel que as metáforas, entendidas como recursos cognitivos, desempenham na compreensão da realidade e na construção do conhecimento. O discurso da covid-19 está inevitavelmente recheado de metáforas bélicas, expressando bem a "guerra invisível" que governos e povos têm "travado contra" este "inimigo silencioso", que nos mergulhou numa crise sem precedentes. No "combate" à pandemia, as vacinas são "armas" decisivas e justifica-se a constituição de uma task force de vacinação. A "bazuca" financeira que nos chega da UE, para implementar o Plano de Recuperação e Resiliência 2021-2026 (PRR), é apenas mais metáfora neste retrato da realidade atual.

Margarita Correia

As cerejas, as ideias e o alfabeto

As conversas são como as cerejas, vêm umas atrás das outras. O mesmo se pode dizer das ideias e dos temas destas crónicas. A primeira ideia para a crónica desta semana foi a educação, pelo facto de, em 2018, a Assembleia Geral das Nações Unidas ter instituído o dia 24 de janeiro como Dia Mundial da Educação. Porém, como as celebrações da UNESCO decorrerão na próxima segunda-feira, dia 25, decidi reservar o tema para a próxima crónica.

Margarita Correia

LGP, uma língua silenciosa

Conheci pessoas surdas ainda na infância, dois primos direitos da minha mãe, os "mudos". Percebi mais tarde que não eram mudos nem surdos-mudos, mas sim surdos, e que não falavam como as pessoas "normais" porque a surdez os impedia de adquirir a língua oral. Tiveram estes "mudos" a sorte de ser gémeos e assim criarem uma forma de comunicação própria. Não tiveram, porém, a possibilidade de adquirir uma língua, visto que, embora a capacidade da linguagem seja inata, a aquisição de uma língua pressupõe integração em uma comunidade que a fale. Ambos moraram sempre juntos, casaram-se, constituíram famílias e fizeram as suas vidas como puderam, relativamente isolados do resto do mundo. Lembro-me de os ver ocasionalmente, "na loja", a confraternizar com os homens da aldeia usando gestos e sons que impressionavam a criança que eu era.

Margarita Correia

"Você" é estrebaria?

A 20 de outubro, ouvi em fundo que Jorge Jesus, treinador do Sport Lisboa e Benfica, teria sido repreendido enquanto prestava declarações no julgamento do caso Football Leaks. Sem ser seguidora de futebol e nem ter grande paciência para as suas personagens, fiquei curiosa em saber a causa da repreensão. Pasme-se! Jorge Jesus dirigiu-se à procuradora usando o pronome "você", em vez de usar o título "senhora procuradora". Quando li isto, não pude deixar de sorrir. Sou filha de emigrantes, nasci na Venezuela e cresci rodeada de falantes de diferentes línguas e variedades do português. Tive como primeira língua de escolarização o espanhol. Vim viver para Portugal com 10 anos. À época, na minha cabeça havia duas formas de me dirigir às pessoas: "tu" para a minha mãe e as pessoas mais chegadas e "você" para o meu pai e as pessoas mais velhas. Na minha cabeça estes eram os equivalentes do "tu" e do "usted" do espanhol. Mas, para meu azar, em português não era assim tão simples e, de cada vez que ousava dirigir-me, por exemplo, a uma professora usando "você", invariavelmente ouvia por resposta "você é estrebaria!" Durante anos, tentei a duras penas descodificar o significado desta expressão. Que me lembre, ninguém me explicou como devia dirigir-me adequadamente às pessoas a quem devia deferência. Penso que foi já bem crescidinha que percebi finalmente que, na dúvida, o menos arriscado é usar um título (e.g. "o senhor/a senhora dona/o sr. dr./o professor/o senhor agente, a senhora procuradora") e o verbo na terceira pessoa. Lembro-me de ter cometido muitos deslizes e passado outras tantas vergonhas, mas sempre atribuí esta falta de jeito à minha história de vida. Hoje é frequente, na faculdade, alunos dirigirem-se a mim usando "você". Confesso que sinto um calafrio, que não denuncio, e procuro explicar a forma que me parece mais adequada de usar as formas de tratamento em português europeu, até porque defendo que cabe à escola veicular o padrão social adequado de uso da língua, i.e., a norma. Não lhes respondo "você é estrebaria", pois imagino que, como eu, muitos não perceberiam o idiotismo. Olham-me com perplexidade quando começo a referir as tantas variáveis em questão na escolha da forma de tratamento adequada; alguns procuram ajustar o seu comportamento linguístico; outros, logo no instante seguinte, voltam a dirigir-se-me usando "você". Há vários subsistemas de formas de tratamento em confronto na sociedade portuguesa atual. No diálogo entre Jorge Jesus e a procuradora assistimos ao confronto entre um, claramente inadequado à situação (apesar de todo o sucesso profissional e fama do treinador), e outro, conservador, de quem domina o código certo e detém o poder. A instabilidade no uso de formas de tratamento acontece porque a sociedade portuguesa mudou muito e rapidamente nos últimos anos. A democratização política traduziu-se na construção de uma sociedade menos estratificada, de relações interpessoais menos rígidas. A norma linguística (que é o registo do poder) resiste e adapta-se a custo à mudança. Mas inevitavelmente tal acabará por acontecer e "você" (quem sabe?) deixará um dia de ser estrebaria. Professora e investigadora, coordenadora do Portal da Língua Portuguesa

Margarita Correia

Do medo e do terror

Medo "provém do latim "metus" e é, em português, o nome genérico da emoção que acompanha a tomada de consciência de um perigo. Os vários nomes de significado relacionado (e.g. "receio", "pavor", "temor", "terror") denotam diferentes nuances ou intensidades de medo. Todos eles podem denotar também, por metonímia, o objeto que provoca a emoção. "Terror" constitui o nome do medo mais intenso ou avassalador e provém do nome latino "terror, terroris", com idêntico significado. O nome "terreur" em francês designa, desde 1789, o conjunto de meios de coerção política que permitia manter os opositores em estado de terror, e o Terror ("La Terreur"), com maiúscula, designa o regime instaurado em França entre setembro de 1793 e julho de 1794, encabeçado por Robespierre, que se caracterizou pela execução daqueles que se consideravam inimigos da Revolução. São da mesma época as primeiras atestações em francês das palavras "térrorisme", denotando um regime de terror político e "térroriste", denotando o partidário ou o agente de tal regime. O dicionário Houaiss propõe o ano de 1836 (no dicionário de Francisco Solano Constâncio, editado em Paris) como o da primeira atestação das palavras portuguesas "terrorismo" e "terrorista", não indicando étimos, mas apenas a sua estrutura morfológica ("terror" + -"ismo" / -"ista"). Em inglês, segundo o Merriam-Webster online, o par "terrorism"/"terrorist" surge logo em 1795 para se referir ao Terror francês. Até ao século XX, ambos os termos são marcadamente políticos e referem-se ao terror do Estado para com o povo. No mesmo sítio é-nos dito que, em 1920, em jornais como o Chicago Tribune, "terrorism" adquire aceção politicamente neutra, para referir o terror instalado pelos "gangsters", e que é em 1934 que o termo passa a ser usado para designar já não apenas o terror imposto pelo governo, mas também aquele que é imposto contra o governo. Atualmente, "terrorismo" designa o emprego sistemático de medidas violentas com objetivo político e dizem-se "terroristas" os atos arbitrários de violência extrema, executados para criar um clima de terror e desestabilizar o sistema social e político vigente. Ao escrever sobre a decapitação de Samuel Paty pela primeira vez, centrei-me na motivação do ato, identificando-a como sendo o fundamentalismo religioso, e o seu alvo a laicidade da escola. Para reforçar o meu ponto de vista dei o exemplo do movimento Escola sem Partido, no Brasil. Ao fazê-lo, alerta-me uma leitora, coloquei a execução de Samuel Paty no mesmo plano, desvalorizando-a. Entre o que se pretende veicular e o que se consegue efetivamente veicular vai frequentemente alguma distância; eu tinha obrigação de o ter tido em conta. O ato de pura barbárie cometido contra Samuel Paty a 16 de outubro foi um ato de terrorismo, tal como o ataque na basílica de Notre-Dame em Nice, a 29. O móbil destes atos é o fundamentalismo islâmico. A sua natureza é terrorista. O seu alvo é a sociedade francesa e também os valores da Europa. Ambos são atos chocantes, horrendos, inaceitáveis. Ambos podem apenas merecer repulsa e rejeição. Perante ambos, resta fortalecer a luta contra o terror e a favor da liberdade. Nenhum ato terrorista pode ser desvalorizado. Professora e investigadora, coordenadora do Portal da Língua Portuguesa