Margarita Correia

Margarita Correia

Sobre o Dia Mundial da Língua Chinesa

Existem em português várias expressões idiomáticas que traduzem de forma eloquente a perplexidade e a incompreensão com que a cultura portuguesa (e provavelmente outras culturas europeias) observa a cultura chinesa, ou a imagem estereotipada que dela chegou até nós - e.g. "ficar com os olhos em bico" [perante uma grande dificuldade], [uma coisa incompreensível] "ser chinês" ou [ter] "paciência de chinês" [para executar uma tarefa cheia de minúcias]. Muitas destas expressões estão ligadas, acredito, à escrita chinesa, por ser logográfica, com muitos carateres e princípios diferentes dos da escrita alfabética.

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Da tradução automática gratuita

Warren Weaver foi um matemático que, durante a II Guerra Mundial, chefiou o Painel de Matemática Aplicada (EUA), desenvolvendo investigação ligada à criptografia. Consciente dos problemas de design de computadores e das velocidade, capacidade e flexibilidade lógica do seu processamento, Weaver concebeu a ideia de os usar para a tradução entre línguas, e dela deu conta a Norbert Wiener, professor do MIT, em famoso memorando de 1947, onde refere e.g. que a tradução é um dos mais sérios problemas enfrentados pela UNESCO para a consolidação da paz. De resto, multinacionais e organizações internacionais são quem mais investe em tradução.

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Uma reforma para a escola, já!

Em obra basilar, Metaphors We Live By (1980; trad. Metáforas da Vida Cotidiana), G. Lakoff e M. Johnson demonstram o papel que as metáforas, entendidas como recursos cognitivos, desempenham na compreensão da realidade e na construção do conhecimento. O discurso da covid-19 está inevitavelmente recheado de metáforas bélicas, expressando bem a "guerra invisível" que governos e povos têm "travado contra" este "inimigo silencioso", que nos mergulhou numa crise sem precedentes. No "combate" à pandemia, as vacinas são "armas" decisivas e justifica-se a constituição de uma task force de vacinação. A "bazuca" financeira que nos chega da UE, para implementar o Plano de Recuperação e Resiliência 2021-2026 (PRR), é apenas mais metáfora neste retrato da realidade atual.

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As cerejas, as ideias e o alfabeto

As conversas são como as cerejas, vêm umas atrás das outras. O mesmo se pode dizer das ideias e dos temas destas crónicas. A primeira ideia para a crónica desta semana foi a educação, pelo facto de, em 2018, a Assembleia Geral das Nações Unidas ter instituído o dia 24 de janeiro como Dia Mundial da Educação. Porém, como as celebrações da UNESCO decorrerão na próxima segunda-feira, dia 25, decidi reservar o tema para a próxima crónica.

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Dizer o Natal

Ontem encontrei na caixa de correio (física) dois postais natalícios dos CTT, com porte pago, para se poder enviar as Boas Festas. Os CTT estão a comemorar 500 anos de existência fazendo pequenas ofertas (no outro dia ofereceram-me um selo comemorativo) e isso é uma excelente campanha de marketing e, creio, uma tentativa de reconciliação com as pessoas que, como eu, ainda não conseguiram digerir a privatização da empresa e estão zangadas com a queda abrupta da qualidade do serviço (público?).

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LGP, uma língua silenciosa

Conheci pessoas surdas ainda na infância, dois primos direitos da minha mãe, os "mudos". Percebi mais tarde que não eram mudos nem surdos-mudos, mas sim surdos, e que não falavam como as pessoas "normais" porque a surdez os impedia de adquirir a língua oral. Tiveram estes "mudos" a sorte de ser gémeos e assim criarem uma forma de comunicação própria. Não tiveram, porém, a possibilidade de adquirir uma língua, visto que, embora a capacidade da linguagem seja inata, a aquisição de uma língua pressupõe integração em uma comunidade que a fale. Ambos moraram sempre juntos, casaram-se, constituíram famílias e fizeram as suas vidas como puderam, relativamente isolados do resto do mundo. Lembro-me de os ver ocasionalmente, "na loja", a confraternizar com os homens da aldeia usando gestos e sons que impressionavam a criança que eu era.

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"Você" é estrebaria?

A 20 de outubro, ouvi em fundo que Jorge Jesus, treinador do Sport Lisboa e Benfica, teria sido repreendido enquanto prestava declarações no julgamento do caso Football Leaks. Sem ser seguidora de futebol e nem ter grande paciência para as suas personagens, fiquei curiosa em saber a causa da repreensão. Pasme-se! Jorge Jesus dirigiu-se à procuradora usando o pronome "você", em vez de usar o título "senhora procuradora". Quando li isto, não pude deixar de sorrir. Sou filha de emigrantes, nasci na Venezuela e cresci rodeada de falantes de diferentes línguas e variedades do português. Tive como primeira língua de escolarização o espanhol. Vim viver para Portugal com 10 anos. À época, na minha cabeça havia duas formas de me dirigir às pessoas: "tu" para a minha mãe e as pessoas mais chegadas e "você" para o meu pai e as pessoas mais velhas. Na minha cabeça estes eram os equivalentes do "tu" e do "usted" do espanhol. Mas, para meu azar, em português não era assim tão simples e, de cada vez que ousava dirigir-me, por exemplo, a uma professora usando "você", invariavelmente ouvia por resposta "você é estrebaria!" Durante anos, tentei a duras penas descodificar o significado desta expressão. Que me lembre, ninguém me explicou como devia dirigir-me adequadamente às pessoas a quem devia deferência. Penso que foi já bem crescidinha que percebi finalmente que, na dúvida, o menos arriscado é usar um título (e.g. "o senhor/a senhora dona/o sr. dr./o professor/o senhor agente, a senhora procuradora") e o verbo na terceira pessoa. Lembro-me de ter cometido muitos deslizes e passado outras tantas vergonhas, mas sempre atribuí esta falta de jeito à minha história de vida. Hoje é frequente, na faculdade, alunos dirigirem-se a mim usando "você". Confesso que sinto um calafrio, que não denuncio, e procuro explicar a forma que me parece mais adequada de usar as formas de tratamento em português europeu, até porque defendo que cabe à escola veicular o padrão social adequado de uso da língua, i.e., a norma. Não lhes respondo "você é estrebaria", pois imagino que, como eu, muitos não perceberiam o idiotismo. Olham-me com perplexidade quando começo a referir as tantas variáveis em questão na escolha da forma de tratamento adequada; alguns procuram ajustar o seu comportamento linguístico; outros, logo no instante seguinte, voltam a dirigir-se-me usando "você". Há vários subsistemas de formas de tratamento em confronto na sociedade portuguesa atual. No diálogo entre Jorge Jesus e a procuradora assistimos ao confronto entre um, claramente inadequado à situação (apesar de todo o sucesso profissional e fama do treinador), e outro, conservador, de quem domina o código certo e detém o poder. A instabilidade no uso de formas de tratamento acontece porque a sociedade portuguesa mudou muito e rapidamente nos últimos anos. A democratização política traduziu-se na construção de uma sociedade menos estratificada, de relações interpessoais menos rígidas. A norma linguística (que é o registo do poder) resiste e adapta-se a custo à mudança. Mas inevitavelmente tal acabará por acontecer e "você" (quem sabe?) deixará um dia de ser estrebaria. Professora e investigadora, coordenadora do Portal da Língua Portuguesa

Margarita Correia

Da linguagem não discriminatória

Fez notícia a Diretiva sobre a Utilização de Linguagem não Discriminatória, enviada pelo secretário-geral do Ministério da Defesa Nacional aos chefes de gabinete dos chefes de Estado-Maior-General das Forças Armadas (FA) e de cada ramo. O ofício que acompanha o documento é de 18 de setembro, terá chegado aos destinatários na semana de 21, mas só a 30 ouvi falar dele, na comunicação social e nos perfis da Associação de Oficiais das FA e da Associação Nacional de Sargentos. Tratando-se de matéria tão sensível como o comportamento linguístico e de um público-alvo tão particular, seria de esperar que o ofício e o documento anexo fossem irrepreensíveis, inatacáveis, mas estão longe de o ser.

Opinião

O português, o IILP e o sistema global das línguas

Em 2001, na obra Words of World, Abram de Swaan propõe que o "sistema global das línguas" é parte integrante do "sistema mundial", e que este, além da linguística, comporta uma dimensão política, uma económica e uma cultural. Propõe ainda que o sistema global das línguas se organiza em constelação, cujo centro é atualmente o inglês, língua hipercentral. Em torno do inglês gravitam 12 línguas supercentrais (alemão, árabe, chinês, espanhol, francês, hindi, japonês, malaio, português, russo e suaíli), de âmbito internacional, e todas, à exceção do suaíli, com mais de cem milhões de falantes cada. Em torno das línguas supercentrais, gravitam cerca de cem línguas centrais, em conjunto faladas por cerca de 95% da população mundial, que têm em comum o serem frequentemente "línguas nacionais" ("national languages", segundo o autor), oficiais dos países ou regiões onde são faladas, de registo escrito, usadas na comunicação, na política, na administração, na justiça e no ensino. Finalmente, as línguas periféricas ou minoritárias, provavelmente mais de seis mil, constituem cerca de 98% das línguas existentes, mas são, em conjunto, faladas por cerca de 10% da população mundial, línguas de memória, com escassa tradição escrita. Para de Swaan, este sistema assenta no multilinguismo, i.e., grande parte da população mundial fala mais do que uma língua, pelo menos duas de "órbitas" diferentes. Os falantes de uma língua periférica usam em geral uma língua central, quando necessitam de comunicar com falantes de outra língua periférica; os falantes de línguas centrais diferentes recorrem a uma língua supercentral como veicular; e, por fim, o inglês é veicular para os falantes de línguas supercentrais diferentes. A veicularidade constitui-se, portanto, como importante mais-valia para as línguas.

Margarita Correia

A escola e a norma linguística

Há uns anos, dei aulas de Didática, no Ramo Educacional da FLUL, a estudantes licenciados que pretendiam tornar-se professores de português do 3.º ciclo do ensino básico e do secundário. Começava o semestre com o seguinte tópico para discussão: "Se os alunos já sabem falar português, até já quase completaram a sua aquisição e se até já aprenderam ler e escrever, o que é que um professor de português como língua materna terá para lhes ensinar?"

Margarita Correia

Quero ver o português na CEE!

Comemora-se em 2020, o 35.º aniversário da assinatura do tratado de adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia. Desde 1977, quando apresentou a candidatura, a adesão tornou-se entre nós tema de conversas, entretenimento - e.g. a canção dos G.N:R., Portugal na CEE, de 1982 (com cujo refrão brinco) - e até de literatura - e.g. a Jangada de Pedra (1986), de José Saramago. Ninguém negará o impacto maioritariamente positivo que ela teve no desenvolvimento do país e nas nossas vidas, e.g. a nível político, económico, social, educativo, científico. Pouco ou nada se fala, porém, do impacto que a adesão à CEE teve no desenvolvimento e difusão da língua portuguesa.