Luís Filipe Castro Mendes

Luís Filipe Castro Mendes

Uma ambulância pela manhã

Na emergência em que vivemos é difícil afastar o nosso espírito da urgência e do medo para o poder levar a passear lá onde a nossa liberdade nunca pode ser confinada. "Toda a felicidade do homem está na sua imaginação", dizia Sade, que foi um prisioneiro altamente criativo. Montaigne, por seu lado, fala-nos de um oficial de Alexandre, o Grande que, cercado pelos inimigos numa fortaleza, chicoteava os seus cavalos para encontrar alguma animação. A sombra da depressão, acédia dos antigos, melancolia dos modernos, paira sobre os nossos vultos isolados, deambulando entre um trabalho inseguro e um lar demasiado cheio ou demasiado vazio, olhando, já não por entre as barras de ferro atrás das janelas, mas para a televisão ou para o computador, pletóricos de imagens. A imaginação falece-nos então por excesso de imagens. Não temos cavalos que chicotear, a nossa própria desdita volta-nos para dentro e aquela pigritia que os escolásticos denunciavam como fruto da acidia enrola-nos passivos num sofá diante das fugidias imagens de consecutivas excitações.

Luís Filipe Castro Mendes

Eduardo Lourenço, o ausente de si mesmo

Eduardo Lourenço soube tão bem identificar os seus irmãos de alma num Montaigne ou num Kierkegaard quanto reconhecer a sua orfandade face à ortodoxia católica em que nasceu e foi criado e da qual o exercício de pensar o exilou. Essa ausência de si mesmo pela ausência de Deus confere ao percurso da sua odisseia um inconformismo radical com qualquer dos sistemas em que procuremos sossegar a nossa angústia, dispensando-nos do risco de pensar. Nem o catolicismo tradicional e fechado da Igreja constantinista e antimoderna que se casara com o Estado Novo nem o marxismo mecanicista que surgira para encabeçar a luta revolucionária dos oprimidos poderiam responder à exigência do seu pensamento. Eduardo Lourenço aprendera com Kierkegaard que ser cristão só pode significar a angústia de não poder chegar a ser cristão e compreendera na própria leitura do mundo que o marxismo na sua versão da época, tal como a filosofia de Hegel para o pensador dinamarquês, construía um palácio no seu sistema de pensamento para viver numa cabana na vida verdadeira. A pobre cabana do socialismo real face ao palácio do sistema marxista-leninista, a falsidade farisaica da vivência cristã face à mensagem revolucionária de Cristo, ambas levaram Eduardo Lourenço para o difícil caminho dos heterodoxos.

Luís Filipe Castro Mendes

Uma história de 26 cidades

De muitas coisas se faz a resistência aos tempos estranhos que estamos a viver. Todos nos sentimos como quem encara um muro à sua frente antes de saber como o poderá saltar ou contornar. Num momento como este é preciso encontrar novos modos de praticar todas as coisas que até aqui nos eram simples e naturais, descobrir atalhos e desvios para podermos continuar a poder caminhar da maneira que fomos feitos. Somos mais do que animais acossados na luta pela sobrevivência, lembrava Sophia (Arte Poética, III). Eu diria, de outro modo, que a nossa luta pela sobrevivência não pode ser a mesma dos outros animais. A nossa sobrevivência não é apenas a da nossa condição física e da nossa subsistência material, ela passa também e fundamentalmente pela nossa capacidade simbólica, social, comunicativa. Passa pelas muitas coisas a que chamamos cultura. Sobrevivermos à pandemia é mais do que protegermos a nossa vida material. Enquanto humanos, elos da cadeia biológica, mas também seres de linguagem e animais políticos, não poderia a nossa existência perdurar sem esse tecido de ideias e de afetos, de hábitos e de memórias, de rebeldias e de invenções com que nos descobrimos e inventamos no meio dos outros e a que chamamos cultura. Por isso, no estado de exceção que estamos a viver deve preocupar-nos sem dúvida não deixar quebrar o tecido económico da nossa subsistência: mas não menos importa manter viva e ativa a cultura que nos faz humanos. Antes dos fatais idos de março deste ano de 2020 eu tinha tido um convite para colaborar num projeto de criação de uma rede cultural entre 26 cidades do centro do país com o objetivo de preparar uma candidatura de Leiria a capital europeia da cultura em 2027. A originalidade deste projeto assentava no seu policentrismo: se Leiria era a bandeira, todas as demais 25 participantes tinham o mesmo peso e a mesma voz no processo. E todo o percurso da candidatura assentava na criação de uma intensa rede colaborativa entre os agentes locais de cultura presentes naquele território. Com a irrupção do inesperado, o estado de emergência, o confinamento, a exceção absoluta, nada seria mais natural e previsível do que uma suspensão das atividades desta rede de cidades, ultrapassadas que estavam, como todos nós, por esta crise. Mas não foi assim que as coisas se passaram. Durante os longos dias destes difíceis meses que atravessámos intensificou-se entre todos os polos desta rede uma profusão inédita de trocas e de partilhas, de encontros e de interrogações, através de novos e diferentes meios e instrumentos: quantas conversas feitas a partir dos computadores caseiros, quantos eventos vividos em conjunto na teia virtual, quanta reinvenção do sentido da comunidade a partir da contingência que a todos foi imposta! Foi um ato permanente de cultura a realizar-se em cada um dos 26 locais de onde irradiava, em cada uma das inúmeras atividades que o animavam, em todos e em cada um dos polos em que a rede vivia. A Rede Cultura 2027, que traz esta proposta de Leiria para a capital europeia de cultura, firmou-se como realidade cultural alternativa em tempos de escassez e de angústia, estando ao mesmo tempo atenta ao local e aos seus particularismos e a viver plenamente o global e os seus desafios. Eu gostaria que exemplos como este de quem sabe e ousa não desistir da cultura fossem mais conhecidos por todos, por isso trago aqui este testemunho. E além de nomear por extenso os 26 municípios de Alcanena, Alcobaça, Alenquer, Alvaiázere, Ansião, Arruda dos Vinhos, Batalha, Bombarral, Cadaval, Caldas da Rainha, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, Lourinhã, Marinha Grande, Nazaré, Óbidos, Ourém, Pedrógão Grande, Peniche, Pombal, Porto de Mós, Sobral de Monte Agraço, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras e, finalmente, Leiria (respiração!), permito-me aqui destacar os nomes do grande estratega deste grupo, João Bonifácio Serra, e do seu incansável coordenador executivo, Paulo Lameiro. Falamos da cultura como uma resposta da nossa humanidade à morte e a todas as suas baixezas. Como dizia Malraux, "é belo que o animal que sabe que deve morrer arranque à ironia das nebulosas o canto das constelações". Porque é a cultura que afirma, contra todas as incertezas do tempo que nos cabe viver, a potência de criar o acontecimento, de acolher o inesperado, de aprender sem limites. E só essa abertura ao acontecimento e ao imprevisto, só essa disponibilidade para o desconhecido nos poderá salvar. Escritor e diplomata