Luís Castro Mendes

Luís Castro Mendes

Culpa e expiação

O discurso da vitimização tem vindo a ocupar o espaço que o discurso da revolução ocupava no horizonte emancipatório das passadas gerações. Antes preocupavam-nos os vencidos, os oprimidos por um processo que conduziu à mecanização e à brutalização de tudo o que é humano e à mercantilização de todo o nosso horizonte de experiência: a revolução era então o caminho redentor inscrito na história. Afastada que foi a revolução do horizonte, a vítima toma o lugar do oprimido, a culpa a expiar ocupa o lugar antes preenchido pela apropriação da liberdade e o sacrifício expiatório do opressor toma o lugar da violência revolucionária do oprimido.

Luís Castro Mendes

Longas lutas têm 100 anos

Os 100 anos do Partido Comunista Português ocorrem num bem paradoxal momento da sua história: primeiro, porque o partido que mais se protegeu de todas as mudanças ideológicas e estratégicas que atravessaram o comunismo na Europa, que persistiu numa coerência aparentemente impermeável às mudanças no mundo, na sociedade e nas esquerdas, sempre a reiterar os mesmos princípios, é hoje o único partido comunista que sobrevive enquanto força política autónoma neste mesmo espaço europeu; segundo, porque desde que, com Jerónimo de Sousa, abriu as portas à "geringonça" pôs em evidência aquilo que a sua prudente gestão política e a sua pragmática gestão municipal vinham desde há muito a praticar - o PCP é hoje um partido que apoia os movimentos sociais progressistas e defende intransigentemente o mundo do trabalho, mas que não segue mais a máxima leninista da "atualidade da Revolução".