Leonídio Paulo Ferreira

Leonídio Paulo Ferreira

Para os cristãos, Saddam era um mal menor

Lembro-me da pintura de Maria com o Menino Jesus ao colo lado a lado com o retrato de Saddam Hussein e penso no que terá acontecido à família cristã dona do restaurante Al Awael onde fui jantar no início de 2003, quando em reportagem para o DN em Bagdad testemunhava os últimos dias do Iraque em ditadura. O mais provável é que tenham fugido do país, pois em vez do milhão e meio de cristãos que há duas décadas lá viviam, o Papa Francisco, quando amanhã chegar, encontrará só 400 mil.

Leonídio Paulo Ferreira

O fim da civilização dos tupperwares

Foi a Segunda Guerra Mundial que deu um grande empurrão ao uso do plástico. Apesar de materiais como o nylon ou o acrílico terem sido inventados uns anos antes, foi a sua utilização nos paraquedas e nos cockpits dos aviões que promoveu a produção em massa. E não admira que na América pós-1945 a ambição das famílias fosse ter a casa cheia de tupperwares, com a proliferação dos recipientes mundo fora a acontecer em paralelo com a das embalagens.

Leonídio Paulo Ferreira

Eanes, o Império e a Catalunha

"Sem Império dificilmente teríamos mantido a independência em certas épocas. Seríamos uma Catalunha "menos"", disse o general Eanes, reagindo à retirada dos brasões coloniais da Praça do Império. Mesmo proferida noutro contexto, a afirmação do antigo Presidente sobressai quando se está em fim de semana eleitoral na Catalunha, região de Espanha em que, em vez de escolher um governo, cada votação se tornou um braço-de-ferro entre os campos espanholista e independentista. O eleitorado costuma partir-se quase ao meio, mas o sistema tende a dar uma ligeira maioria no parlamento de Barcelona à soma dos partidos que defendem o corte com Madrid e desta vez não deverá ser diferente, mesmo que o socialista Illa, até há pouco ministro espanhol da Saúde, seja o favorito.

Leonídio Paulo Ferreira

"Genji Monogatari" em defesa das japonesas

Há duas maneiras de olhar para o papel da mulher na sociedade japonesa: mostrar as duas ministras vestidas de branco entre 23 homens de fato escuro na fotografia da tomada de posse do governo de Yoshihide Suga, em setembro, ou destacar Genji Monogatari, o clássico da literatura nipónica, escrito há mil anos por Murasaki Shikibu, uma cortesã romancista e poeta. Na verdade, o estatuto feminino na terceira maior economia mundial continua em transformação acelerada e é sintomático que as sondagens mostrem que uma maioria clara da opinião pública concorda com a demissão por comentários sexistas do presidente do comité organizador dos Jogos Olímpicos de Tóquio (reagendados para 2021, por causa da pandemia). Há uns dias, Yoshiro Mori afirmou que "as reuniões dos conselhos de administração com muitas mulheres demoram muito tempo" porque elas "têm dificuldade" em parar de falar. A indignação não se fez esperar, a começar pela governadora da capital japonesa, Yuriko Koike.

Leonídio Paulo Ferreira

Biden, o unificador

Ouvi o discurso unificador de Biden e pensei no nome do país que preside desde ontem: Estados Unidos... da América. Um nome que é em si uma proclamação, que precedeu em alguns meses a Declaração de Independência de 4 de julho de 1776 e foi oficializado nesse mesmo ano, ainda a luta das 13 colónias contra a Coroa Britânica era de sucesso incerto. Uma luta que juntava rebeldes de sociedades que, tirando o colonizador (e alguma proximidade geográfica), pouco tinham em comum. Olhemos para Massachusetts e Virgínia, por exemplo, o primeiro virado para o comércio atlântico, o segundo baseado na economia de plantação; o primeiro abolicionista precoce, no século XVIII, o segundo férreo esclavagista, com Richmond a servir de capital à Confederação na Guerra Civil.

Leonídio Paulo Ferreira

O segundo incêndio do Capitólio

Num final de tarde de há mais de dois séculos, o Capitólio em Washington foi posto a arder. A jovem nação americana calculara mal a relação de forças com a Grã-Bretanha, antigo colonizador, e numa guerra que durou entre 1812 e 1814 não só ambicionara anexar o Canadá como, frustrada pelo fracasso, incendiara York, a atual Toronto. Em retaliação, os britânicos desembarcaram no Maryland, derrotaram a tentativa de resistência dos americanos e marcharam sobre a capital. O Capitólio, ainda em construção mas já sede do Senado e da Câmara dos Representantes, foi deixado em chamas, e a Casa Branca também.

Leonídio Paulo Ferreira

Abolição da pena de morte avança, de P de Portugal a C de Cazaquistão

Ainda há dias a ministra da Justiça recordou aqui no DN, na edição de aniversário, a magnífica carta a elogiar Portugal pela abolição da pena de morte que o escritor Victor Hugo fez publicar no jornal em 1867. E quando há quatro anos se celebrou século e meio dessa decisão pioneira de Portugal, que tanto entusiasmou o romancista francês e também meia Europa, coube à própria Francisca Van Dunem fazer um discurso solene de elogio ao país, pois hoje não há dúvida de que o caminho para a plena afirmação do Estado de direito passa pela renúncia do Estado a matar.

Opinião

Macron e Erdogan ao contrário de Francisco I e Solimão, o Magnífico

Apoio a lados opostos nas guerras civis na Síria e na Líbia, exibição turca de força marítima junto às ilhas gregas e a Chipre e resposta francesa com envio de navios, posições opostas no conflito no Nagorno-Karabakh entre azeris e arménios, têm sido mesmo muitas as situações de tensão recentes entre Ancara e Paris. Não só os dois países, ambos aliados na NATO, parecem destinados ao choque de interesses no Médio Oriente, no Mediterrâneo e até no Cáucaso (Nagorno), como os seus presidentes deixaram a relação pessoal degradar -se ao ponto de, a propósito da defesa por Emmanuel Macron do laicismo após o assassínio de um professor que mostrou cartoons sobre Maomé, o turco Recep Erdogan ter dito que o homólogo francês precisava de "um exame de saúde mental". "Grosseiro", foi a resposta da presidência francesa, classificando o estilo dos ataques do líder que nas últimas duas décadas tem dominado a vida política turca.

Leonídio Paulo Ferreira

Até onde irá a paciência de Biden com a China?

Em resposta a um pedido de Richard Nixon para comentar a Revolução Francesa, o primeiro-ministro Zhou Enlai terá respondido "ainda é cedo para avaliar". Sabe-se hoje que o delicioso episódio ocorrido durante a histórica visita a Pequim em 1972 é de certa forma falso, pois o intérprete do presidente americano veio há pouco tempo esclarecer que tudo não passou de um mal-entendido, já que o primeiro-ministro chinês achou que Nixon se referia ao Maio de 68 e não aos acontecimentos de 1789. Mas, como dizem os italianos com certa graça, se non è vero, è ben trovato, pois exemplifica a proverbial paciência chinesa, e afinal uma civilização com mais de 3000 anos não se pode basear numa ideia de pressa.

Opinião

Trump vs Kamala em 2024

Num célebre debate televisivo em 1984, em vésperas de ser reeleito, Ronald Reagan, de 73 anos, responde com uma tirada genial a uma pergunta do moderador sobre a idade certa para se ser presidente. Diz o candidato republicano, antigo ator, garantir que não fará da juventude do adversário um tema da campanha. Até Walter Mondale, 17 anos mais novo, não consegue prender o riso. Nas urnas o democrata acaba esmagado pelo mais velho presidente dos Estados Unidos, título disputado por Donald Trump, se consideramos a chegada à Casa Branca, pois tinha 70, mas agora batido sem nuances por Joe Biden, que terá 78 anos no dia da tomada de posse.

Leonídio Paulo Ferreira

O Arizona vingou John McCain, mas chegará para derrotar Trump?

Se se confirmar a vitória de Joe Biden no Arizona (até a Fox a prevê), o primeiro estado a trocar de partido entre 2016 e 2020 nesta noite eleitoral, o grande responsável será alguém que morreu há dois anos: John McCain, senador durante três décadas e candidato republicano derrotado por Barack Obama nas presidenciais de 2008. Donald Trump maltratou em vida McCain, o eleitorado do Arizona não perdoou neste 3 de novembro.

Leonídio Paulo Ferreira

Soares, Cavaco e Eanes? Um maior do que os outros?

Quem foi o político de maior sucesso neste nosso quase meio século de democracia? Pelos votos, afinal o direito que todos conquistámos a 25 de abril de 1974, pode arriscar-se dizer Cavaco Silva, que é neste sábado entrevistado no DN, fotografado frente ao CCB, que mandou construir na década em que foi primeiro-ministro de Portugal. Afinal, o professor de Finanças, hoje com 81 anos, foi seis vezes a votos a nível nacional e ganhou cinco. E dessas cinco vitórias quatro foram com mais de 50% dos votos: duas como candidato do PSD à chefia do governo (1987 e 1991), duas como candidato presidencial (2006 e 2011).

Leonídio Paulo Ferreira

Quando os portugueses se casavam no Irão

Houve portugueses a casar-se com iranianas no século XVI e a estabelecer-se na antiga Pérsia, contou-me Mohammad Jafar Chamankar, académico que tem investigado as relações entre o Irão e Portugal, velhas de 500 anos, como assinalou nesta semana em Lisboa uma conferência na Torre do Tombo. Esta faceta da miscigenação portuguesa no Médio Oriente é muita vezes relegada para um plano secundário por feitos como a conquista de Ormuz, que fez do golfo Pérsico um mar português durante um século, mas não deixa de dizer muito sobre o peculiar império que, graças ao domínio da tecnologia naval e a uma bravura admirável, o país foi construindo.