Leonídio Paulo Ferreira

Leonídio Paulo Ferreira

O fim da civilização dos tupperwares

Foi a Segunda Guerra Mundial que deu um grande empurrão ao uso do plástico. Apesar de materiais como o nylon ou o acrílico terem sido inventados uns anos antes, foi a sua utilização nos paraquedas e nos cockpits dos aviões que promoveu a produção em massa. E não admira que na América pós-1945 a ambição das famílias fosse ter a casa cheia de tupperwares, com a proliferação dos recipientes mundo fora a acontecer em paralelo com a das embalagens.

Leonídio Paulo Ferreira

A Espanha em dívida com os jornais, o povo e... o rei

O chapéu tricórnio da Guarda Civil e o bigode a lembrar Cantinflas do coronel António Tejero podem, a 40 anos de distância, dar a ideia de que a tentativa de golpe de 23 de fevereiro de 1981 foi trágico-cómica, que nunca a democracia esteve ameaçada naquela data que os espanhóis sintetizam como 23-F. Mas se olharmos bem para as fotografias que imortalizaram o momento, Tejero tem uma pistola na mão, está rodeado de guardas civis com metralhadoras, e o terror nas Cortes é tal que os deputados estão no chão, obedientes às ordens carregadas de palavrões. Há exceções, uns valentes que ignoram os gritos: Adolfo Suárez, o chefe do governo prestes a ser substituído, o ministro da Defesa, o general Gutiérrez Mellado, e o líder comunista, Santiago Carrillo, que continua a fumar, talvez certo de que seria fuzilado desse por onde desse, tamanho era o ódio que lhe destinavam os franquistas desde a Guerra Civil de 1936-1939.

Leonídio Paulo Ferreira

O aliado Portugal e a América de Biden

Calvin Coolidge, presidente dos Estados Unidos na década de 1920, recebeu António Ferro na Casa Branca e pediu-lhe que enviasse ao povo português una mensagem de amizade e confiança através do Diário de Notícias. O inesperado resultado do encontro na "White House", como escreveu então o jornalista (mais tarde contratado por Salazar para a propaganda do Estado Novo), aconteceu em 1927, o ano a seguir ao golpe do 28 de Maio, e confirmou que a mudança de regime não afetava as relações entre os dois países, velhos aliados. Quatro dias depois do 25 de Abril, também o reconhecimento da Junta de Salvação Nacional pelos americanos mostrava que a aliança, na altura já formalizada na NATO, era para manter. E sabe-se hoje como a diplomacia americana se esforçou em 1974 e 1975 para que a revolução não criasse um Portugal comunista.

Editorial

Portugal e os portugueses. Somos feitos de quê, afinal?

"Dando a Portugal um lugar de honra no meu livro não fiz mais do que prestar-lhe justiça" foi o título de uma entrevista no DN, há uns anos, a François Reynaert, que contrariou tudo o que é tradição na historiografia francesa e sobretudo na anglo-saxónica, que destacam sempre mais as façanhas de Jean-François de La Pérouse e de James Cook, no século XVIII, do que os feitos de Bartolomeu Dias, Vasco da Gama ou Fernão de Magalhães dois séculos antes. O livro de Reynaert, para não deixar dúvidas do alcance das suas palavras, tem como título A Grande História do Mundo.

Leonídio Paulo Ferreira

Calendário gregoriano, arma geopolítica do Ocidente

Os dois mais famosos gracejos a homenagear o triunfo do Calendário Gregoriano são o que relembra que a Revolução de Outubro afinal ocorreu em novembro e o que cita Benjamin Franklin a dizer ser "agradável para um velho homem poder ir deitar-se a 2 de setembro e não ter de acordar até 14 de setembro". Ambas as blagues resumem na perfeição o que aconteceu com o abandono do calendário juliano: uma atualização de 12 dias na forma de medir a era cristã, decretada por um Papa no final do século XVI mas calculada por cientistas como o alemão Cristóvão Clávio.

Leonídio Paulo Ferreira

América redescobre índios, alguns meio vikings, outros meio açorianos

Quando era criança Deb Haaland passava o verão com os avós maternos numa casa sem água corrente em Mesita, uma das seis aldeias do Novo México onde continua a viver o Pueblo of Laguna, uma das quase 600 tribos índias que os Estados Unidos reconhecem, escreveu o The Washington Post. Aos 60 anos, a congressista tornou-se de um momento para o outro uma celebridade, e por isso esta historieta pessoal, porque foi escolhida por Joe Biden, vencedor das presidenciais de 3 de novembro, para secretária do Interior, uma pasta ministerial que lhe dá controlo sobre vastos territórios do país e também sobre muitos assuntos índios. Será também apenas o segundo nativo-americano, expressão politicamente correta para índio ou índia, membro de uma administração americana. Antes, Charles Curtis, que se dizia da tribo Kaw do Kansas, foi vice-presidente de Herbert Hoover entre 1929 e 1933.

Opinião

Como Maradona vingou a Guerra das Malvinas

Não sei se Maradona seguia a série The Crown, que na Netflix relata com alguma liberdade criativa a família real britânica. Mas se o futebolista que morreu nesta quarta-feira tivesse visto agora a quarta temporada, certamente detestaria o modo determinado como Gillian Anderson, a atriz que encarna Margaret Thatcher, ordena o envio de tropas para reconquistar as Falkland aos argentinos. Estamos na primavera de 1982 e neste ponto a série é muito fiel à realidade.

Leonídio Paulo Ferreira

Se calhar o melhor é dar já um Nobel e um Óscar a Trump

Os meus planos eram claros para aquelas presidenciais de 2000: acabava a cobertura de duas semanas de campanha através da América em Nashville, assistia ali à provável festa da vitória de Al Gore na terça-feira, 7 de novembro, enviava a reportagem da capital do Tennessee para o DN a 8 e regressava de avião a Portugal logo no dia 9. Fiquei nos Estados Unidos mais duas semanas, a ver gente a contar e recontar votos em West Palm Beach, a falar também com gente que protestava naquela cidade da Florida contra os avanços e os recuos da justiça, até que recebi ordem para voltar a Portugal. E só a 12 de dezembro, portanto mais de um mês depois da votação, George W. Bush foi dado como vencedor. Fiz a notícia já na redação em Lisboa.

Leonídio Paulo Ferreira

As areias do Sara mexem e no sentido favorável a Marrocos

Para Marrocos, a abertura na quarta-feira de um consulado dos Emirados Árabes Unidos em Layounne, a capital do Sara Ocidental (províncias do sul, preferem dizer os marroquinos) é duplamente uma importante vitória diplomática. Primeiro que tudo porque depois de uma dúzia de Estados africanos terem nos últimos tempos aberto consulados em Layounne e Dakhla, outra cidade da antiga colónia espanhola, este nova representação diplomática será a primeira de um grande país árabe, depois do Dibuti e das Comores. Em segundo lugar, porque a data escolhida coincide com a semana em que é celebrada a Marcha Verde de 1975, nome dado à entrada de milhares de marroquinos no território, incentivados por Hassan II, sabendo o rei da vontade espanhola de retirar tropas e funcionários dado o cenário de grande incerteza política em Madrid, com Francisco Franco então moribundo (o generalíssimo acabaria por morrer a 20 de novembro daquele 1975).

Opinião

Cazaquistão, vítima colateral do humor de Sasha Baron Cohen

Os Estados Unidos e os aspetos mais reacionários da sociedade americana são os alvos de Sasha Baron Cohen nos seus filmes Borat. Mas tanto agora na sequela como há uma década e meia quando se estreou o primeiro filme com o suposto jornalista cazaque há uma vítima colateral: o Cazaquistão. Sim, o país de Borat existe mesmo, é aliás o nono maior do mundo, e nele se pode encontrar tanto a base espacial de Baikonur como as montanhas junto à Almaty de onde são originárias as maçãs.

Leonídio Paulo Ferreira

Os Mercedes, Audi e BMW eram melhores do que os Trabant mas isso nem era o mais importante

Já andei um semestre no Goethe de Lisboa, já passei meses a ouvir as gravações do sistema Pimsleur, já cheguei a comprar livros tipo German for Dummies, mas a verdade é que nunca fui até ao fim na vontade de aprender alemão. Um dia ainda arrisquei perguntar em Berlim a alguém que passa de bicicleta onde ficava a Estação do Zoo, mas depressa tive de me render e confessar que não falava a língua: Ich spreche kein Deutsche.