Leonídio Paulo Ferreira

Leonídio Paulo Ferreira

Suu Kyi, a minha heroína que já não o é

Li há dias que um barco com refugiados rohingyas tinha chegado à ilha de Sumatra, na Indonésia, depois de sete meses em alto mar. Sete meses! E quase em simultâneo, o The New York Times publicou o testemunho de dois soldados birmaneses sobre os assassínios e as violações que lhes foi ordenado fazer contra esse pequeno povo muçulmano, cerca de um milhão de pessoas, três quartos das quais vivem hoje em campos de refugiados no Bangladesh depois de fugirem das suas cidades, vilas e aldeias no estado de Rakhine, na costa do Índico. Sem surpresa, pois, também há dias o Parlamento Europeu decidiu retirar o Prémio Sakharov para os Direitos Humanos a Aung San Suu Kyi, a líder da Birmânia, que até agora pouco ou nada fez para proteger os rohingyas da violência dos militares e dos extremistas budistas e chegou a ir em 2019 a Haia, ao Tribunal Internacional, responder por acusações de genocídio.

Leonídio Paulo Ferreira

Abe sai mas ambições do Japão ficam

Os oito anos de Shinzo Abe como primeiro-ministro chegam e bastam para lhe dar o recorde de longevidade política no Japão pós-Segunda Guerra Mundial. E se parece pouco quando comparado com o tempo de serviço do russo Vladimir Putin, do turco Recep Erdogan ou da alemã Angela Merkel, a verdade é que dos participantes da cimeira do G20 de 2013, a primeira desta governação agora finda, só continuam no poder os três líderes já referidos e o chinês Xi Jinping, então também um estreante. Ou seja, Abe era um veterano da política internacional, tanto mais que tinha tido uma anterior experiência como primeiro-ministro em 2006-2007. E o Japão beneficiava da visibilidade do seu governante, que além do legado económico deixa também um caminho de afirmação do país como potência, pois foi com ele que dois modernos porta-helicópteros entraram ao serviço, e foi também por decisão sua que um deles, o Izumo, começou a ser transformado num porta-aviões. É uma classe de navio que a Marinha japonesa não possui desde a derrota militar em 1945 e mostra até que ponto existe hoje tensão na Ásia Oriental.

Leonídio Paulo Ferreira

Nem os 7-0 deitaram o Vitória ao chão!

Fiz duas reportagens de futebol internacional na minha carreira: uma com o Sporting em Jerusalém, porque era época de atentados e o diretor de então achou que eu era homem para fazer as duas coberturas, a do jogo da UEFA e a do conflito israelo-árabe; a segunda foi com o Vitória de Setúbal em Roma, ainda hoje penso que o Mário Bettencourt Resendes e o António Ribeiro Ferreira (diretor adjunto) me quiserem dar uma prenda, por eu ser do clube e este há mais de duas décadas estar arredado das competições europeias.

Leonídio Paulo Ferreira

Honestidade, decência e moral no país de Amin Maalouf

Escreveu um dia Amin Maalouf sobre os poderosos do Líbano: "Gostaria de que se preocupassem mais com a honestidade e a decência. Só porque têm uma religião, acreditam estar dispensados de ter uma moral." E cito-o nesta altura em que as múltiplas ondas de choque da explosão gigante em Beirute na terça-feira parecem estar a querer destruir o pequeno Líbano, porque se há um libanês famoso e que merece ser ouvido é mesmo Amin Maalouf, antigo repórter de guerra que trocou Beirute por Paris e se transformou em romancista e ensaísta de enorme sucesso.

Leonídio Paulo Ferreira

Europa seis meses nas mãos de Merkel, ou seja, bem entregue

Bem me disse o biógrafo da então candidata democrata-cristã a chanceler que Ângela Merkel era capaz de surpreender. E aconteceu logo naquelas eleições alemãs de 2005, que cobri para o DN, pois derrotou o social-democrata Gerhard Schröder e assumiu a liderança do país, posição em que se encontra até hoje, depois de mais três vitórias. Que seja a Alemanha, ou melhor ela, a encabeçar a reação europeia à crise gerada pela pandemia, é pois um sinal de esperança para todos.

Leonídio Paulo Ferreira

A amante escrava de Thomas Jefferson e a América de George Floyd

Há muitas maneiras de contar a história dos negros nos Estados Unidos: por exemplo, lembrar que a primeira baixa da chamada Revolução Americana foi Crispus Attucks, um antigo escravo morto no Massacre de Boston, em 1770. Aproveitados pelos propagandistas da rutura com Jorge III, os disparos do Exército britânico naquele dia sobre civis desarmados (incluindo o herói negro) contribuíram para o clima político que, acumulando-se incidente sobre incidente, levou à Declaração de Independência, em 1776.

Leonídio Paulo Ferreira

Quando foi a última vez que leu Dostoiévski?

Visitei uma vez a casa onde Dostoiévski viveu em Semey, hoje museu dedicado ao genial escritor russo. Talvez nunca tenha ouvido falar desta cidade do Cazaquistão, muito mais perto da fronteira chinesa ou da Mongólia do que de Moscovo. Ou talvez até tenha ouvido falar do Polígono de Semipalatinsk (a umas poucas horas de carro da atual Semey), local onde a União Soviética testou em 1949 a sua primeira bomba atómica, já em plena Guerra Fria.

Leonídio Paulo Ferreira

Obrigado, Leslie, por ensinares português aí na América

Gostava de vos apresentar Leslie Ribeiro Vincente, uma luso-americana de New Bedford que está a conseguir que filhos e netos de portugueses aprendam a língua das suas raízes. Falo em apresentar, mas na verdade já aqui escrevi sobre a professora da Discovery Language Academy, numa reportagem feita na primavera de 2017 sobre portugueses nos Estados Unidos. Na altura contei como esta mãe de quatro filhos, que ficou em casa a cuidar da família enquanto o marido polícia garantia o sustento de todos, aproveitou a chegada a adulto do mais novo e voltou a estudar e com tanto entusiasmo que já fez até doutoramento.

Opinião

Coreia faz eleições para mostrar que a democracia é mais forte do que o vírus

Há candidatos nas eleições coreanas que não resistem a tirar a máscara cirúrgica para melhor se fazerem ouvir nos comícios, mas no essencial a campanha para as legislativas têm obedecido às regras estritas de comportamento que minimizaram o impacto do coronavírus no país. E o favoritismo no dia 15 vai todo para o Partido Democrático, a que pertence o presidente Moon Jae-in, em boa parte pela excelente resposta à pandemia, pois a Coreia do Sul chegou a ser o país mais atingido depois da China, mas agora regista bem menos casos e vítimas do que a maioria dos países europeus (ontem mais 27 infetados e quatro mortes num país de 50 milhões de habitantes).

Leonídio Paulo Ferreira

Paris, Texas vale bem uma reportagem

Tinha 13 anos quando se estreou Paris, Texas e claro que me disse mais o cartaz com Nastassja Kinski do que a assinatura de Wim Wenders como realizador. E foi só por ter visto o filme uns anos depois que não repeti, como cheguei a ouvir, que falava de uma viagem do Texas até Paris. Sim, há gente a viajar nele, mas sem sair do Texas, ainda que quando uma das personagens fala de Paris a outra pense logo em França. Estamos todos desculpados.

Leonídio Paulo Ferreira

China e diplomacia das máscaras

Foi no Le Monde que li há dias a expressão "geopolítica da máscara", a lembrar-me a tradicional prática do governo chinês de oferecer pandas a líderes estrangeiros quando quer melhorar as relações (Richard Nixon recebeu um casal de Mao Tsé-tung, e assim começou a diplomacia do panda). Desta vez, a oferta é de máscaras cirúrgicas, destinadas a proteger do novo coronavírus que infeta já mais de uma centena de países e que foi de início detetado na cidade de Wuhan, metrópole de 11 milhões de habitantes no coração da China. Japão e Coreia do Sul foram dos primeiros destinatários das máscaras chinesas, agradecimento porque tinham sido esses vizinhos (e Irão, note-se) a enviar antes as máscaras que tanta falta faziam à China, sobretudo na província de Hubei, que com 60 milhões de habitantes é tão populosa como Itália.