José Luís Peixoto

José Luís Peixoto

O que falta, o que temos: uma crónica de José Luís Peixoto

Quanto falta para chegarmos? Falta pouco, respondo aos meus filhos. E fazemos um jogo em que, à vez, pensamos em qualquer coisa e, fazendo perguntas de sim ou não, os outros tentam adivinhar. Ou contamos anedotas. Começamos por não recordar nenhuma mas, logo a seguir, vamo-nos lembrando. Estava um português, um francês, um inglês, um papagaio e o menino Zezinho. Cada anedota faz que nos lembremos de mais uma ou duas e, pouco depois, chegamos a um ponto em que temos de marcar vez para falar. As paisagens sucedem-se nas janelas. Avançamos no sentido contrário das árvores que passam por […]

José Luís Peixoto

A maior herança: uma crónica de José Luís Peixoto

Discordo sempre quando ouço alguém dizer que as crianças não aproveitam as viagens. Ainda não têm idade para aproveitar, diz essa pessoa que pode ter muitos rostos diferentes. Não consigo entender esse ponto de vista. Parece-me que as crianças aproveitam as viagens de forma diferente, desfrutam de aspetos que nós, muitas vezes, já esquecemos de prestar atenção. As crianças não fingem interessar-se por aquelas histórias que os guias repetem, com mais ou menos rotina na voz, e que toda a gente esquece após algum tempo, se é que chegam a ouvi-las. Em vez disso, as crianças deixam-se invadir por cheiros […]

José Luís Peixoto

Paloquemao: uma crónica de José Luís Peixoto

Não é comum que o mundo apresente cores tão vivas e contrastantes. Vermelhos mesmo vermelhos, amarelos que iluminam uma auréola à sua volta, laranjas inequívocas, cor e fruta. No Mercado de Paloquemao, em Bogotá, as cores são alimentadas pela fertilidade tropical desta terra. Não sei o nome de todos os frutos que vejo, da mesma maneira que não conheço todas as variedades de batatas andinas. A natureza inventa formas inesperadas. Avanço por corredores entre caixotes e sacas a transbordar de vegetais, entre cachos de bananas empilhados em bancas. Também as bananas são de muitas espécies, enormes para gigantes, ou pequenas, […]

José Luís Peixoto

Esta viagem: uma crónica de José Luís Peixoto

Nenhuma viagem existe apenas no espaço, todas as viagens precisam de tempo. E temos tanto tempo. Resistimos a essa verdade, convencemo-nos ou deixamos que nos convençam. Mas não é preciso chegarem os meses grandes, de dias largos, para sabermos que temos tempo, basta pararmos por um instante breve, pouco tempo, e olharmos em volta. Estamos rodeados de tempo. De nada adianta levantarmos os braços, como se estivéssemos num filme ou num pesadelo, com água pelo peito, que continua a subir, a encher. Não, de nada adianta, porque nós estamos submersos pelo tempo, é tanto e está em todas as direções. […]

José Luís Peixoto

Helsínquia interior: uma crónica de José Luís Peixoto

Passeio pelo centro de Helsínquia sem obrigação de estar a horas em qualquer lugar. Ninguém me espera, sou livre dos compromissos mais simples. Essa tranquilidade, adicionada a todos os corpos que passam sem olhar para mim, torna-me invisível. Como se me atravessassem, as pessoas não precisam de desviar-se, não dão qualquer sinal da minha presença. Com passos sucessivos, sem pressa, estendo o movimento longo da perna, sinto-me imaterial, como uma nuvem a pairar sobre os passeios do centro de Helsínquia. Sou feito sobretudo dos meus olhos. Apenas o frio repara em mim. O frio chama-me desde longe e, logo a […]

Volta ao Mundo

Sandaga: uma crónica de José Luís Peixoto

Eis o grande mercado. É como se a cidade crescesse a partir dele, como se existisse apenas para justifica-lo. As ruas de Dakar são os longos braços do mercado Sandaga. Aqui começam todos os cheiros, todos os estímulos dos sentidos. Este movimento é constante e permanente, é imparável, é uma fonte. Passam crianças a empurrar um carro de madeira carregado de bidões de água, as crianças rodeiam o carro com as suas vozes e os seus corpos. Quem irá beber desta água? A tarde começa, o sol queima as cores e, mesmo assim, levo os olhos cheios, estas cores começam […]

Volta ao Mundo

Paloquemao: uma crónica de José Luís Peixoto

Não é comum que o mundo apresente cores tão vivas e contrastantes. Vermelhos mesmo vermelhos, amarelos que iluminam uma auréola à sua volta, laranjas inequívocas, cor e fruta. No Mercado de Paloquemao, em Bogotá, as cores são alimentadas pela fertilidade tropical desta terra. Não sei o nome de todos os frutos que vejo, da mesma maneira que não conheço todas as variedades de batatas andinas. A natureza inventa formas inesperadas. Avanço por corredores entre caixotes e sacas a transbordar de vegetais, entre cachos de bananas empilhados em bancas. Também as bananas são de muitas espécies, enormes para gigantes, ou pequenas, […]

Volta ao Mundo

Lugar à janela: uma crónica de José Luís Peixoto

É uma viagem sem turbulência. Olho pela janela e, lá em baixo, vejo a Mongólia, planícies imensas de uma única cor. Este voo entre Chengdu e Amesterdão saiu à hora marcada, sem atraso, no início da manhã. Ao andarmos para trás na diferença horária, contra o tempo, resistindo-lhe com os motores gigantes deste avião gigante, faremos toda a viagem durante o dia. Somos centenas de pessoas, uma maioria de chineses a falar alto.

Volta ao Mundo

"País, cidade, praça, música", uma crónica de José Luís Peixoto no México

País, cidade, praça, música Uma crónica de José Luís Peixoto Centenas ou milhares: um número impossível de contar, como as estrelas. São um sonho surreal, um engano de espelhos, uma história exagerada. Avançamos pela praça da mesma maneira que atravessaríamos um rio, submersos. Para onde olhamos apenas vemos mariacheros. Há novos e há velhos, há altos e baixos, gordos e magros. Mesmo quando usam roupas da mesma cor, brancas ou pretas, é fácil perceber a que formação pertencem, mas são tantos que precisam de distinguir-se uns dos outros. Por isso, há grupos vestidos de todas as cores, a apelar para […]