Jorge Moreira da Silva

Jorge Moreira da Silva

Pagar as dívidas

O tema da dívida tem sido recorrentemente tratado na esfera nacional e europeia. E também eu a este tema me tenho referido em diversas ocasiões, seja sublinhando o seu enorme peso em Portugal (134% do PIB) e o efeito que tem no confisco do direito ao futuro das próximas gerações, seja na necessidade de reduzir esse peso através da redefinição das funções do Estado, seja ainda preconizando que o resultado da redução da despesa e do défice orçamental seja canalizado não apenas para a redução da dívida mas também para a redução da carga fiscal sobre os cidadãos e sobre as empresas.

Jorge Moreira da Silva

Direito ao Futuro: erros, estratégia e liderança

Lancei, esta semana, o meu livro Direito ao Futuro - por um mundo mais justo, mais verde e mais seguro, numa muito participada sessão organizada na Fundação Calouste Gulbenkian. A minha motivação é clara: estamos a viver a crédito do planeta e dos nossos filhos e é urgente reabilitar o seu direito ao futuro. A falta de ambição na resposta a desafios globais - como as alterações climáticas, a extinção de biodiversidade, a pobreza e as desigualdades, os conflitos, as migrações forçadas e a digitalização -, assim como na resposta aos nossos problemas estruturais - crescimento económico medíocre, elevada dívida pública, envelhecimento da população, insustentabilidade do sistema de pensões, agravamento das desigualdades e da pobreza infantil -, traduz-se numa gigantesca hipoteca cujo pagamento é endossado às novas gerações. É, aliás, desse fracasso que se alimenta o populismo e o alheamento eleitoral, em especial, dos jovens.

Jorge Moreira da Silva

Coerência e coragem na ação climática

Nem a retórica sobre transição climática nem os anúncios de mais financiamento verde reduzem as emissões de gases com efeito estufa. É tempo de exigir, em Portugal, um amplo compromisso político em torno de objetivos mais ambiciosos de redução das emissões e de um pacote de reformas que assegure uma descarbonização assente em objetivos de proteção ambiental, de justiça social e de eficiência económica. É inegável que nenhuma mudança de comportamentos, na sociedade, na economia e no Estado, será alcançada, ao nível da mitigação das alterações climáticas, sem que se coloque um verdadeiro preço nos produtos e nos serviços. Mas a minha experiência permite-me dizer que está ao nosso alcance desenhar políticas que, sendo amigas do ambiente, são amigas da economia e da justiça social. Dois exemplos:

Jorge Moreira da Silva

A arquitetura global já está a mudar

Não me recordo de nenhuma crise global que não tenha dado origem à criação de novas instituições ou a uma reconfiguração da arquitetura global. Por maioria de razão, também esta pandemia covid-19, que, evidenciando a interdependência entre todos os países e a dimensão multidimensional das crises, agravou as desigualdades dentro e entre países, terá de dar origem a um reforço do multilateralismo e da cooperação internacional. Mas não nos equivoquemos: estas reformas raramente se anunciam com solenidade e na maioria dos casos concretizam-se através de pequenos passos, pelo que, em regra, só a posteriori nos apercebemos da dimensão estrutural da mudança. Noutros artigos, já me referi a um exemplo concreto de mudança na arquitetura global: a criação da coligação das vacinas (Covax) que, juntando quase 200 países, desempenhou um papel crucial na aceleração da investigação, do desenvolvimento e da produção das vacinas e, apesar da lacuna financeira que ainda enfrenta, na distribuição de vacinas aos 92 países de rendimento baixo ou médio. Hoje, quero chamar a atenção para sinais que evidenciam outra mudança: o reforço do papel do G7 e do G20 na arquitetura internacional.

Jorge Moreira da Silva

Proteger os bens públicos globais

Poucos duvidam do potencial disruptivo desta pandemia na forma como passaremos a abordar temas como a saúde, a investigação científica, a organização do trabalho, o ensino à distância, as cadeias de valor globais e a digitalização. Contudo, uma das mudanças que menos discussão tem merecido é a da inexorabilidade da reforma da arquitetura global e da própria noção clássica de Estado-nação, agora que ficou bem demonstrada a interdependência entre o bem-estar das pessoas e do planeta, assim como a verdadeira interdependência entre todos os países.

Jorge Moreira da Silva

Regular o futuro do trabalho e criar os empregos do futuro

Com a pandemia, surgiram algumas discussões sobre a inevitabilidade de algumas das alterações introduzidas ao nível da organização do trabalho, durante as fases de confinamento, acabarem por perdurar ou inspirar mudanças mais profundas quando regressarmos à normalidade. Isto é, mudanças como o teletrabalho, a substituição de reuniões presenciais e viagens de negócio por teleconferências e a própria reconfiguração física dos locais de trabalho, mais do que conjunturais podem revelar-se estruturais.

Jorge Moreira da Silva

Enfrentar a fragilidade e investir na resiliência global

Esta pandemia - assim como as crises dos refugiados da Síria, os fenómenos climáticos extremos que afetaram algumas ilhas no Pacífico e Moçambique, o acidente nuclear de Fukushima, o terramoto do Haiti, os incêndios florestais em Portugal, na Austrália e na Califórnia - colocou em evidência a interdependência entre os países, a assimetria nos efeitos sociais económicos das crises (penalizando os mais vulneráveis) e a importância da cooperação e solidariedade internacionais e do investimento em prevenção e resiliência. Apesar de o conceito, ou o rótulo, de resiliência se ter recentemente generalizado na comunicação pública, não me parece que se tenha ido suficientemente longe na abordagem de outro conceito essencial: a fragilidade.