João Melo

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Misoginia(s)

A discriminação das mulheres no mundo árabe (nuns países mais do que em outros) tem sido um dos tópicos centrais da abordagem de políticos, intelectuais, jornalistas e cidadãos comuns no chamado Ocidente (como se a Terra não fosse redonda...) na sequência da recente retirada americana do Afeganistão e do regresso ao poder dos talibãs. Em parte, tal justifica-se pelo facto de se há forças que levam a discriminação das mulheres até ao grau zero da barbárie, uma delas são os talibãs. Mas será que faz sentido a tendencial simplificação do islamismo produzida pelo pensamento ocidental, a pretexto desse e outros factos?

João Melo

Literaturas de língua portuguesa: as trocas que não existem

É uma redundância lembrar que a língua portuguesa é uma língua pluricontinental, falada por 280 milhões de pessoas em todo o mundo, o que, supostamente, serve (ou pode servir) de substrato de uma comunidade reunindo o conjunto de países onde a mesma é usada como língua nacional e oficial. Mas, por detrás desse facto, um outro se impõe: os cidadãos de tais países estão impossibilitados de circular livremente entre eles, logo, a comunidade dos países de língua portuguesa só o é de nome.

Opinião

Brasil: amanhã há de ser outro dia?

Claro, responderia La Palisse à pergunta que escolhi para título do artigo de hoje, inspirado na famosa canção. A questão é saber se será melhor ou pior ainda do que já está a situação no maior país de língua portuguesa (e também o segundo país "negro" do mundo, depois da Nigéria), após três anos de governação de um confesso defensor da ditadura militar de 64 no referido país, mas sem a visão nacionalista e desenvolvimentista do regime em questão.

João Melo

Pela democracia global, marchar, marchar

Os atuais acontecimentos no Afeganistão, além das suas implicações internas ou, quando muito, bilaterais, estão igualmente relacionados com o tema da democracia global, colocando no centro do debate aquela que, afinal, é a pergunta chave: como implantar a democracia em todas as sociedades e regiões? O presidente norte-americano Joe Biden justificou a saída dos EUA do Afeganistão com uma afirmação brutal, que parece responder a tal pergunta. Disse ele (cito de memória): - "Se os afegãos não querem travar esta luta, não seremos nós a fazê-lo!".

João Melo

Jogos Olímpicos "misturados"

Após a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio, disputados até há dois dias, recebi uma mensagem de um amigo brasileiro pelo WhatsApp: "Você viu? A delegação da Alemanha tem mais negros do que nós!" Eu não tinha visto. Também não me preocupei em apurar se tal informação era rigorosamente factual ou apenas impressão à primeira vista, provocada pela (ainda) relativa surpresa que é descobrir que a Alemanha, afinal, também tem negros. Mas, por curiosidade, passei a prestar uma atenção particular à composição "cromática" de todas as delegações.

João Melo

A América e a democracia global

Na sua primeira viagem à Europa depois de eleito, o presidente dos EUA, Joe Biden, prometeu aos seus parceiros liderar o combate global pela democracia, atualmente ameaçada por uma clara deriva autoritária em todo o mundo. Trata-se, no fundo, de reciclar uma narrativa que a hoje maior potência mundial sempre soube elaborar e difundir, por todos os meios, desde a sua fundação: a ideia da América como farol da democracia, exemplo a seguir por todos os povos.

João Melo

Enquanto isso, na América Latina – 2

O candidato progressista Pedro Castillo venceu as eleições presidenciais do passado dia 6 no Peru. Matematicamente, a candidata conservadora, Keiko Fujimori, não tem mais hipóteses, mas continua a reclamar fraude, apesar de o Júri Nacional de Eleições do país ter afirmado que a disputa foi limpa. A Organização de Estados Americanos, que não pode, pelo seu histórico, ser acusada de "esquerdismo", reafirmou a lisura e o êxito das eleições. Castillo tomará posse no próximo mês.

João Melo

Lula, o incontornável

No passado dia 8 de março, um dos juízes membros do Superior Tribunal Federal (STF) do Brasil, Edson Fachin, anulou os processos penais contra o ex-presidente Lula da Silva, por "absoluta incompetência" do foro da cidade de Curitiba, que os havia instaurado antes da última eleição presidencial, em 2016, sob a suspeita de ter agido para impedir a candidatura do líder do PT, amplo favorito naquela eleição. A decisão de Fachin confirma, segundo alguns, a referida suspeita.

João Melo

Ato falho ou cinco equívocos de António Costa

A entrevista do primeiro-ministro português, António Costa, ao jornal Público, no passado dia 4 de março, é uma contundente demonstração das dificuldades da sociedade portuguesa em lidar com o seu passado colonial e as respetivas sequelas, das quais a principal é, sem sombra de dúvida, o racismo (antinegro, sobretudo). Da sua leitura, uma ilação se impõe, inquestionável: a superação da mentalidade colonial da sociedade portuguesa ainda tem um longo caminho a percorrer.