João Melo

Premium

João Melo

Entre o silêncio e o gueto

Em texto anterior, lembrei que a presença africana em Portugal, incluindo quer os berberes e os árabes do norte de África quer os indivíduos originários da região subsariana do referido continente, remonta ao século VII. Talvez devido ao atual aspeto cromático dos árabes e berberes do norte, em particular as suas elites, que passaram por um processo de embranquecimento histórico, a sua condição de indivíduos africanos tende a ser omitida, o que serve ao mesmo tempo para silenciar a contribuição africana em geral para a formação portuguesa e para alimentar o preconceito racial contra os africanos negros, na sua maioria oriundos do sul do Sara.

João Melo

O fator racial e as eleições americanas

A escassos meses das eleições presidenciais de novembro, a América continua a viver um clima de protestos massivos clamando por mais justiça racial. Três meses após o assassínio de George Floyd, que provocou um movimento de fúria e contestação que se repercutiu globalmente, outro afro-americano foi vítima de um crime cometido por um agente policial: Jacob Blake foi alvejado pelas costas com sete disparos diante dos próprios filhos, na sequência de um incidente familiar. O facto desencadeou uma nova onda de manifestações antirracistas em várias cidades americanas. Numa delas, um adolescente branco de 17 anos, simpatizante da extrema-direita, disparou contra os manifestantes, tendo causado a morte de dois deles e ferido um terceiro. À luz dos acontecimentos recentes - que, na realidade, se enquadram num fio histórico que vem de séculos atrás, mais precisamente do odioso período da escravatura -, é previsível que o tema da "raça" jogue um papel importante nas próximas eleições, que opõem Donald Trump a Joe Biden. A confirmá-lo, o atual presidente fez saber, expressamente, que irá utilizar a cartada da "law & order" (lei e ordem), tal como fez Richard Nixon nos anos 60, na sequência das grandes manifestações pelos direitos cívicos, tendo acabado por ser eleito. Quando as atuais manifestações antirracistas eclodiram, vários observadores previram a repetição desse cenário. Outros, porém - entre os quais me incluo -, consideram que o contexto, hoje, é significativamente diferente, pelo que o atual clima pode gerar um decisivo voto a favor de Joe Biden no próximo mês de novembro. A pergunta que todo o mundo faz é a seguinte: irão os negros americanos (e os jovens progressistas, de todas as cores) comparecer às urnas? Se o fizerem, dificilmente a vitória escapará ao candidato democrata. A verdade é que os brancos conservadores, principal, para não dizer (quase) exclusiva, base eleitoral de Donald Trump, já não são a maioria da população. Existe hoje uma nova maioria demográfica, composta por brancos democratas, negros, hispânicos e asiáticos, a qual, aliás, elegeu Obama por duas vezes. Em 2016, Hillary Clinton só não foi eleita por duas razões: primeiro, a elevada abstenção entre os negros e os jovens progressistas; segundo, o erro fatal que cometeu ao esquecer o tradicional eleitorado branco do Partido Democrata em estados onde este último não perdia desde a década de 80. Mesmo assim, na votação popular, teve mais de três milhões de votos do que Trump. Ou seja, se o sistema eleitoral americano fosse o usado em todas as democracias (um homem, um voto), teria ganho. A questão, portanto, é essa: o sistema eleitoral americano é um sistema quebrado, que não pode, a rigor, ser considerado totalmente justo. Mais grave ainda, o mesmo parece ter sido desenhado para dificultar ou inviabilizar o voto dos negros. Três fatores contribuem para isso, como veremos a seguir. Em primeiro lugar, as eleições americanas são realizadas durante a semana, não sendo decretado feriado para o efeito e não existindo nenhuma lei que obrigue as empresas a permitir que os seus trabalhadores vão votar. Os negros, que normalmente têm empregos mais precários e salários mais baixos, confrontam-se, portanto, com uma escolha difícil: ir votar ou poder ser despedido, com todas as consequências daí decorrentes. Em segundo lugar, em vários estados, quem for condenado por um crime, qualquer que seja a sua gravidade, perde o direito de voto para sempre. Acontece que a população afro-americana constitui a maior percentagem de presos nos EUA, em grande parte por ser alvo de assédio sistemático por parte da polícia, com razão ou sem ela, como os recentes acontecimentos naquele país vieram confirmar mais uma vez. Em terceiro e último lugar, em muitos estados, igualmente, os distritos que elegem representantes locais são desenhados (configurados administrativamente) para assegurar que não haja misturas de votos entre as minorias e a população branca, normalmente republicana, modelo que não nos pode deixar de evocar o sistema de apartheid. É o chamado gerrymandering. O vote supression é, estranhamente, uma realidade nos EUA. É a todas essas dificuldades, mantidas, sobretudo, nos estados governados por republicanos (a maioria), que Biden e os democratas terão de contrapor uma estratégia de "ampla coalização", se quiserem desalojar Trump da Casa Branca. Jornalista e escritor angolano. Diretor da revista África 21

João Melo

"Em nome de Deus"

O título tem aspas por profundo e sincero respeito aos religiosos de boa-fé. Esclareço-o sem quaisquer trocadilhos ou ironia, pois a verdade é que muitos crentes, de todas as religiões, usam a sua fé para objetivos escusos e condenáveis. Como o fazem também, aliás, muitos defensores de outras formas de ideologia. Dizer que ninguém, absolutamente, é santo ou puro seria, como é óbvio, um nítido exagero, mas a história dos seres humanos demonstra que muitos não praticam o que dizem defender e aconselham ou exigem que os outros o façam. Os "santos" e "puros" que existem talvez sirvam apenas, infelizmente, para confirmar essa provável regra.

Opinião

Os novos desafios africanos

No início deste ano, o Fundo Monetário Internacional (FMI) previu um crescimento económico entre cinco e seis por cento em 21 países africanos. Contudo, e como lembra o economista bissau-guineense Carlos Lopes, a narrativa global dominante acerca de África, de matriz ocidental, mas alimentada igualmente pelos próprios africanos, não fala desses "campeões", mas apenas dos países com problemas e deficiências. As economias mais ricas possuem um rácio da dívida pública relativamente ao respetivo produto interno bruto (PIB) superior ao da generalidade das economias africanas, mas as agências de rating focalizam-se unicamente nestas últimas, tendendo a dramatizar irreversivelmente o problema. Como consequência, as primeiras continuam a ter acesso facilitado aos créditos concessionais, a juros entre zero e um por cento (por vezes, inclusive, negativos), enquanto os países africanos são forçados a ir aos mercados, onde, para conseguir empréstimos, têm de pagar juros que podem chegar aos sete por cento. O curioso, segundo nota igualmente Carlos Lopes, é que emprestar às economias africanas é dois por cento mais rentável do que à região mais próxima, a Ásia do sudeste, o que torna ainda mais difícil de entender as dificuldades que tem África de aceder aos referidos empréstimos. O que se passa, portanto? E o que fazer para alterar esse cenário? Duas razões, quanto a mim, explicam a narrativa dominante sobre a situação em África, que, como vimos, está ao arrepio dos números. A primeira é a persistência da ideologia e da estratégia neocolonial por parte do chamado Ocidente (Europa e EUA) em relação ao continente africano, que continua a ser visto, preferencialmente, como um mero fornecedor de matérias-primas. A segunda é a incapacidade das elites africanas, em especial os políticos e os quadros técnicos, de formularem um pensamento próprio e de desenharem um modelo de desenvolvimento que não seja uma mera cópia dos modelos globais hegemónicos. A atual pandemia da covid-19 veio, entretanto, pôr em xeque algumas verdades incontestáveis estabelecidas nas últimas quatro décadas, desde a relação entre crescimento económico e respeito pela natureza até ao papel dos Estados, sobretudo em áreas como a saúde e a pesquisa científica, apontando para a necessidade de mudanças estratégicas globais, como o reforço da digitalização e a redução das energias fósseis. Isso abre certas oportunidades ao continente africano, que poderá queimar algumas etapas. Dois exemplos: por um lado, a juventude da população africana é comprovadamente um fator de potenciação do processo de digitalização do continente; por outro lado, África tem recursos - água, sol, vento, minerais estratégicos - que lhe permitem transitar diretamente, em muitos casos, para as energias renováveis. Temos, para isso, dois grandes desafios pela frente. O primeiro é livrarmo-nos da armadilha do pensamento global único, imposto pelo Ocidente, pelo que as nossas elites, formadas em grande parte, precisamente, nas escolas ocidentais, têm de ser capazes, como as asiáticas, de usar os conhecimentos adquiridos para formularem estratégias próprias. O segundo é agir como um bloco, condição fundamental para negociar com os outros blocos e as principais potências mundiais em condições mais vantajosas do que ainda acontece. Jornalista e escritor angolano. Diretor da revista África 21

Opinião

CEDEAO, 1 - Guiné-Bissau, 0

Como previ em crónica anterior publicada nestas páginas, a comunidade internacional cansou-se, em definitivo (?), do país de Amílcar Cabral. A começar pela Comunidade dos Países da África Ocidental (CEDEAO), que na prática tutela o país desde 2012, resolveu, por isso, lavar as mãos em relação ao impasse político gerado pelas eleições presidenciais realizadas em dezembro do ano passado, reconhecendo a vitória do candidato Umaro Sissoco Embaló, à revelia do Tribunal Supremo bissau - guineense.

João Melo

Entre o passado e o futuro, o que mudará de facto?

Afirmar que, no pós-covid 19, o mundo não será o mesmo é rigorosamente lapalissiano. A questão é: será melhor ou pior do que o presente? De súbito, alguns começaram a ver (com aspas ou sem elas) a atmosfera das grandes megalópoles menos poluídas, golfinhos nos canais de Veneza e leões nas ruas de Harare. Outros enterneceram-se com os pequenos gestos de solidariedade mútua que, em todo o mundo, os homens começaram a praticar entre si. Uns quantos passaram a acreditar que o modelo de desenvolvimento da humanidade nos últimos quarenta anos está com os dias contados.