João Lopes

Cartaz francês de "Cortina Rasgada" (1966), de Alfred Hitchcock

João Lopes

A alegria dos agentes secretos

Vivemos em pleno niilismo mediático. Da política ao futebol, acordamos de manhã, ligamos as nossas antenas e ficamos a saber que nem sequer faz sentido temer o apocalipse - já aconteceu, é tudo pós-apocalíptico, nada resta do humano a não ser a miséria das suas obscenidades. Neste tempo que elegeu a queixa e a denúncia como linguagens dominantes, alguém se escapa às obrigações niilistas, escrevendo assim: "A alegria é a minha filosofia essencial. Alegria, jóias, pensem o que quiserem, mas a alegria antes de tudo. É uma espécie de contemplação contínua."

João Lopes

Amor, ódio, ação, violência e morte

As primeiras palavras que escutamos são estas: "Velázquez, depois dos 50 anos, deixou de pintar coisas definidas. Pairava em torno dos objetos, com o ar e o crepúsculo, extraía cores vibrantes da sombra e da transparência dos fundos e fazia delas o centro invisível da sua sinfonia silenciosa. Do mundo, colhia apenas essas trocas misteriosas que permitem que as formas e as tonalidades se misturem numa progressão secreta e contínua que nenhuma colisão ou movimento involuntário pode deter ou trair. O espaço reina. É como uma onda aérea deslizando sobre superfícies, absorvendo as suas emanações visíveis para as definir e moldar. Transporta-as como um perfume, como um eco, e espalha-as por todo o lado como uma poeira imponderável."

João Lopes

A arte de ser ou não ser

Ser espectador. Eis a expressão mais simples que, a meu ver, pode definir o paradoxo de avidez e serenidade inscrito na arte de Julião Sarmento (1948-2021). Lembro-me de, um dia, nos tempos heróicos da Secretaria de Estado na Cultura no prédio do restaurante Galeto, na avenida da República, em Lisboa, ele me falar do filme que tinha visto na véspera através de uma confissão em suspenso: "Não sei se gostei ou não gostei..." Não era blague. Não era bluff. Tão só uma manifestação da disponibilidade de quem, sendo espectador, sabe ser também o paciente cultivador das suas próprias dúvidas. E avançar, duvidando.

Opinião

A arte de conhecer, segundo Michelangelo Antonioni

Tomer Hanuka é um artista nascido em Israel, em 1974, desde os 22 anos a viver nos EUA. O seu trabalho como desenhador, ilustrador e cartoonista tem surgido em publicações como as revistas Time, The New Yorker e Rolling Stone, estando também ligado a novelas gráficas como The Divine (2015), escrita por Boaz Lavie, ilustrada por Hanuka e o seu irmão gémeo, Asaf Hanuka. No cinema, trabalhou em A Valsa com Bashir (2008), o filme de Ari Folman que evoca a guerra do Líbano, em 1982, através do cruzamento de desenhos animados e narrativa documental.

João Lopes

Drácula, Frankenstein e a essência da perceção

Percorrendo o Instagram, descubro que há uma exposição de obras de Luís Noronha da Costa (1942-2020) na galeria Artview, em Lisboa. Ironia dos tempos, trata-se, de facto, de uma iniciativa daquela galeria, disponível até 8 de maio, mas o lugar em que acontece é outro. Em boa verdade, de acordo com a geografia cultural de que somos herdeiros, já não é um lugar, mas um dispositivo. Ou seja: Imagens projectadas (assim se intitula a iniciativa) é uma "exposição virtual" concebida com o objetivo de "proporcionar encontros visuais e concetuais com o público mais vasto".

Opinião

Sob o signo da Nova Vaga

Eis uma imagem emblemática dos tempos heroicos da Nova Vaga francesa: Jean Seberg beija Jean-Paul Belmondo em cenário de rodagem de À Bout de Souffle (O Acossado), primeira longa-metragem de Jean-Luc Godard. Ele exibe aquele misto de ingenuidade e fatalidade de quem refaz a iconografia clássica de Humphrey Bogart em tom parisiense. Ela é a musa redentora, ma non troppo, que vende o New York Herald Tribune nos Campos Elísios (o nome do jornal está bordado na emblemática camisola de malha), desse modo impondo-se como ícone de um novo e amargo romantismo. Não por acaso, como muitas vezes acontece no cinema de Godard, há coisas para ler...

João Lopes

Os filmes a preto e branco já não são o que eram

Paradoxos da vida cinéfila... Ao longo dos anos, deparei com uma reação frequente aos filmes com imagens a preto e branco. Seriam sintoma de uma pobreza expressiva, e até técnica, que as cores vieram "corrigir". O preto e branco não passaria de um sinal de pretensiosismo estético e vaidade filosófica, apenas celebrado por um público minoritário de intelectuais... Sem esquecer que há toda uma cultura do insulto que aplica a palavra "intelectual" como um gesto automático de ostracismo e subsequente purificação.

João Lopes

Abraham Lincoln e o valor das palavras

No seu programa The Tonight Show (NBC), ao comentar algumas imagens da tomada de posse de Joe Biden, Jimmy Fallon referiu-se ao gesto tradicional do novo presidente, colocando a mão esquerda sobre a Bíblia, neste caso numa edição de dimensões francamente invulgares: "Biden fez o seu juramento com uma Bíblia gigante que pertence à sua família desde 1893." Depois de apresentar um plano aproximado do livro, seguro por Jill Biden, observou: "Aquilo não é uma Bíblia que se encontre num armário. Aquilo é um armário." Rematou mesmo dizendo que até o Papa terá considerado que "foi um bocadinho excessivo".

João Lopes

À procura de Frank Capra

As imagens da invasão do Capitólio, em Washington, são demasiado chocantes. Ainda sob os seus efeitos mais imediatos, será prudente não as encerrarmos numa qualquer "significação" determinista vocacionada para preencher os circuitos mais velozes do espaço mediático. Creio, em particular, que importa não ceder ao esquematismo moral e ao simplismo político segundo o qual, de repente, face à obscenidade do que vimos, sabemos "tudo" sobre as razões, determinações, modos de vida, ideias e sentimentos dos mais de 74 milhões de americanos que votaram em Donald Trump.