João Lopes

Opinião

Ser e não ser uma estrela pop

Face a um filme tão sedutor e intrigante como The Nowhere Inn (apresentado na secção musical do Indie.Lisboa), talvez seja inevitável evocar - e, num certo sentido, invocar - alguns modelos históricos. Estamos perante um retrato, que procura ser um auto-retrato, de St. Vincent, a persona artística de Annie Clark, fazendo-nos recordar toda uma genealogia de documentários sobre música e músicos que podemos definir a partir do pioneirismo de Do"nt Look Back (1967), de D. A. Pennebaker, sobre a lendária digressão britânica de Bob Dylan, em 1965, marcada pela integração "escandalosa" da guitarra elétrica.

João Lopes

A pintura é muito tempo

Como filmar a pintura? Eis uma pergunta que nos pode abrir as portas de um pensamento visual que pouco ou nada tem que ver com o cliché televisivo. Não basta, de facto, organizar uma montagem acelerada de quadros e fragmentos de quadros, colocando "por cima" uma voz off que, supostamente, nos explica o "sentido" do que estamos a ver... Programado em estreia para o IndieLisboa (a decorrer até 6 de setembro), o documentário Vieirarpad, de João Mário Grilo, nasce de um sereno enfrentamento de tal pergunta, envolvendo-nos numa beleza que se tornou rara, não apenas no cinema, mas em todos os ecrãs.

Opinião

A inocência perdida de Luis Buñuel

Cena clássica do espanhol Luis Buñuel: quatro homens e três mulheres chegam a um palacete, sendo encaminhados para uma sala onde está uma mesa preparada para uma refeição. Deduzimos que serão convidados, uma vez que são recebidos por um empregado, talvez um mordomo, que lhes diz: "O senhor e a senhora não vão demorar." Há uma estranheza no ar que se adensa quando o mesmo empregado surge com uma travessa com dois frangos assados (em plástico?); deixa-os cair no chão para, de imediato, os apanhar e colocar na mesa...

Opinião

A arte de conhecer, segundo Michelangelo Antonioni

Tomer Hanuka é um artista nascido em Israel, em 1974, desde os 22 anos a viver nos EUA. O seu trabalho como desenhador, ilustrador e cartoonista tem surgido em publicações como as revistas Time, The New Yorker e Rolling Stone, estando também ligado a novelas gráficas como The Divine (2015), escrita por Boaz Lavie, ilustrada por Hanuka e o seu irmão gémeo, Asaf Hanuka. No cinema, trabalhou em A Valsa com Bashir (2008), o filme de Ari Folman que evoca a guerra do Líbano, em 1982, através do cruzamento de desenhos animados e narrativa documental.

João Lopes

José Mourinho e o nosso mundo mediático

Na sequência do despedimento do cargo de treinador do Tottenham, José Mourinho tinha um batalhão de repórteres à porta de sua casa, em Londres. O canal Sky Sports divulgou um breve registo da sua chegada, com o repórter Gary Cotterill a perguntar-lhe se tinha algo para comentar; Mourinho agradece, dizendo que não. O treinador vai tirando alguns objetos da bagageira do carro, Cotterill segue-o, não obtém qualquer resposta, acabando por expressar um voto: "Regresse ao futebol assim que for possível." O vídeo termina com a frase: "Estou sempre no futebol."

João Lopes

Ler ou não ler, eis a questão

Saber ler é fundamental nas sociedades modernas. Mas a leitura, ao contrário da linguagem, não emerge naturalmente. Requer um ensino sistemático e coerente com o sistema de escrita. A aprendizagem do código alfabético é a primeira tarefa com que se confronta o aprendiz da leitura, constituindo, juntamente com a fluência, a base da compreensão da leitura. Da solidez desta base dependem todas as aprendizagens posteriores. Aprender o código alfabético significa conhecer as correspondências letras-sons, quer no contexto de letras isoladas, quer no contexto de cadeias de letras (palavras). O papel do ensino é particularmente relevante nesta aprendizagem, possivelmente mais do que em qualquer aprendizagem escolar posterior.