Joana Petiz

Joana Petiz

O que dois salários dão ao Estado pagava outro trabalhador

Num país em que quase metade das famílias não ganha o suficiente para pagar IRS, a discussão sobre o salário mínimo nacional, que todos os anos se torna audível quando se discute o Orçamento do Estado, omite sempre os elementos de brutal injustiça social que estão em causa. Por um lado, onde esta progressão se faz por matemática simples, os salários seguintes não sobem de degrau conforme aumentam os mais baixos, criando uma fatia cada vez mais alargada e indistinta de portugueses remetidos a rendimentos colados à fasquia mais baixa, muitos deles depois de terem trabalhado mais de uma década sem progredir ou vendo outros equiparar-se-lhes por simples razão de negociação política, não de mérito. Por outro, ao obrigar a aumentar progressivamente os que menos ganham - em teoria, menos qualificados, menos experientes e menos capazes de garantir mais-valia -, deixa-se os cofres públicos e privados sem margem para compensar melhor quem mais merece, para distinguir pelo mérito. E esfuma-se totalmente o fator de prémio, a ambição de chegar mais longe, os incentivos a melhorar.

Joana Petiz

Das incoerências e dos bons sinais

1. A pandemia está, até ver, controlada, e ainda que seja preciso manter cautelas, isso permitiu reabrir todas as atividades. Um regresso da normalidade que António Costa garantiu que aconteceria a partir de 1 de outubro e que se tornou realidade. Ou mais ou menos real, porque aparentemente há perigosos focos de contágio de covid que têm de ser controlados por quem entende mesmo de pandemias: a Direção-Geral da Saúde, braço armado português da mesma OMS a quem repetiu primeiro que não valia a pena usar máscaras e depois as impôs, que certamente percebeu que o vírus pegava mais de noite e ao fim de semana e por isso cortou horários e certas atividades e obrigou quem queria comer fora a levar certificado mas só nesses dias e horários, que advoga a testagem em massa mas não trabalha os dados obtidos com esses testes.

Joana Petiz

Deixem os miúdos divertir-se

Estamos a pouco mais de uma semana de arrancar o novo ano letivo, o terceiro em pandemia. O que significa que há crianças que estão a esgotar o pré-escolar sem nunca terem visto mais do que os olhos das educadoras - saberão exprimir-se, sorrir, reconhecer expressões faciais básicas e reagir-lhes, mimá-las? Que há miúdos que aprenderam a ler e a fazer contas - aprenderam mesmo? - sem terem estado mais do que um mês na mesma sala com os colegas e os professores, sem terem alguma vez brincado fora das bolhas desenhadas no recreio da escola, sem terem partilhado uma sanduíche com os amiguinhos. Se é que os conseguiram fazer à distância. Que há adolescentes que estão a escolher o que vão fazer na vida sem alguma vez terem trocado um beijo ou dançado numa discoteca ou andado à bulha por uma qualquer razão idiota. Que há universitários que pouco mais conhecem da faculdade do que as carteiras onde fizeram exames. Nunca puseram um pé no bar da universidade, nunca se baldaram a uma aula, raros amigos fizeram, nunca ficaram horas a discutir assuntos que sentem ser de vida ou morte - mesmo que sejam tão simples e inconsequentes como escolher o sítio de um jantar de turma. Que provavelmente também nunca tiveram, apesar de estarem a entrar para o último ano da licenciatura.

Joana Petiz

Entretanto, num país de faz-de-conta

1. Perto de uma centena de vítimas de tráfico de pessoas sinalizadas; 2 mil pedidos de asilo analisados; 200 concessões de estatuto de refugiado; 670 documentos de identidade e residência falsos apanhados; 70 mil pedidos de parecer de aquisição de nacionalidade processados; 130 mil autorizações de residência concedidas. Até entrar a pandemia, estes números compunham a fotografia do trabalho levado a cabo pelos inspetores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), que todos os anos lidavam pessoalmente com mais de 20 milhões de pessoas - alguns deles terroristas sinalizados, vigiados e travados.

Joana Petiz

32 hotéis vão abrir em Lisboa em 2021 e o AL é o problema?

O turismo em Lisboa é o que mais dificuldades está a ter em arrancar. Os dados do INE apontam para uma quebra nos proveitos do alojamento turístico em junho que ultrapassa os 74%, face ao pré-pandemia, bem acima da média de todas as regiões portuguesas, que foi de 54%. Estranha-se, neste contexto, que o presidente da câmara da capital, histórico defensor do potencial turístico da região que lidera - e dos correspondentes resultados financeiros, capazes de financiar novas ciclovias e a substituição de árvores seculares por outras mais modernas e bonitinhas -, venha agora assumir posição tão radical. Diz o autarca Fernando Medina, que manda em Lisboa desde que António Costa saiu para o governo (em 2015), que a primeira coisa que fará se for reeleito é travar a fundo no Alojamento Local. Essa praga que tem invadido Lisboa é para acabar, porque está a retirar camas ao arrendamento tradicional, explica na entrevista que pode ler aqui, e na qual revela também os seus planos para aumentar a habitação em Lisboa.

Joana Petiz

Na casa das minhas avós não havia desperdício

Em casa das minhas avós, os jantares de restos eram uma alegria. Havia carnes frias ao lado das fatias da que sobrara do assado de há uns dias, ovos mexidos com restos de peixes, batata e cebola na mais deliciosa roupa velha que já provei, pequenos empadões e saladas com tudo o que de fresco era aproveitável. Um festim, especialmente para nós, os miúdos, que vivíamos aquilo como uma espécie de piquenique à mesa, em que cada um se servia do que mais gostava - e raramente sobrava alguma coisa para contar a história. "Há meninos a morrer à fome em África" era a frase repetida semanalmente na escola à minha geração, para nos tentar convencer a não deitar comida fora - que nos tais jantares da casa das avós era argumento dispensável, porque eram os melhores petiscos que nos podiam pôr à frente.

Joana Petiz

A vida além do vírus passa pela saúde mental

Já sabíamos que os efeitos da pandemia deixariam feridas profundas na sociedade e que os estudantes estariam entre as principais vítimas. E o primeiro diagnóstico está aí a comprovar o pior: solidão, ansiedade, depressão, sobretudo entre mulheres e afetando mais as que estudam em áreas de Humanidades, nas quais a troca de ideias, o intercâmbio de experiências e a convivência mais pesam na aprendizagem. A conclusão é, porém, pouco mais do que a ponta do icebergue.

Joana Petiz

Tudo isto que já nos cansa

A serenidade de Marcelo Rebelo de Sousa tem-lhe rendido pontos de refúgio nos últimos tempos, mas mesmo isso não chegou para evitar o cansaço que os portugueses demonstram sentir em relação aos seus líderes políticos. E se é verdade que o Presidente da República continua a ser querido pela maioria, o barómetro que se publica aqui é bem revelador do limite a que os portugueses estão a chegar. E que se traduz num claríssimo cartão vermelho a António Costa e ao seu governo - com destaque para um ministro da Administração Interna que, dia sim dia não, é notícia pelos mais inacreditáveis motivos, e para uma ministra da Saúde semidesaparecida em ano e meio de pandemia, que de quando em vez aparece em programas de entretenimento a anunciar as suas resoluções para a pasta. Mas há também um alerta bem presente à oposição, com Rui Rio à cabeça do infeliz cortejo, graças à surpreendente capacidade do líder social-democrata de sempre cavar mais fundo o buraco em que meteu o PSD.

Joana Petiz

Dom Rodrigues e pouca sabedoria

Quase 70 pessoas multadas e mais de mil mandadas para trás é o saldo da operação das forças de segurança que fiscalizaram neste fim de semana entradas e saídas da Área Metropolitana de Lisboa. Nenhuma delas, nem multa nem ordem de recuo, foi para Ferro Rodrigues, o presidente da Assembleia da República, que depois de ver o Presidente cortar-lhe as vasas de abalar para Sevilha para ver o Portugal-Bélgica ao vivo, decidiu fazer as malas e ir de fim de semana para o Algarve. É certo que governo e DGS recomendam cautela e pouco movimento, mas Ferro já está vacinado, já não há covid que lhe chegue. Também não há multas ou reprimendas em nome de Graça Freitas, a diretora-geral da Saúde que nos tem alertado a cada oportunidade para a importância de "ainda não podermos levantar o pé" ou "abrandar a pressão", porque o vírus anda aí e continua feroz. E que parece ter escolhido o mesmo destino de Ferro Rodrigues para descansar uns dias.

Joana Petiz

Aprender e antecipar

Desta vez, não levou 24 horas a desfazer-se o "erro". Perante a inesperada decisão de fechar fronteiras a quem não exibisse teste negativo ou certificado de vacinação - agora declarada precipitação voluntarista da Direção-Geral de Saúde espanhola -, o governo português ameaçou retaliar com mão pesada. Arrependidos da resignação que mostraram face aos desígnios britânicos, os nossos governantes foram agora inflexíveis: "Se Madrid insistir, faremos o mesmo aos deles", ameaçaram.

Joana Petiz

Desconfinar pela medida pequena

O nome de António Costa ficará para sempre associado a compromissos. Mas agradar a gregos e a troianos tem o efeito secundário de deixar amargos de boca generalizados. Ontem, no anúncio das novas fases de desconfinamento, o primeiro-ministro voltou a pautar-se pelo seu jeito único de dar uma no cravo e outra na ferradura. Deixa os restaurantes servirem até à 01h00, mas limita os espetáculos a 50% da lotação e mantém fechadas a cadeado as portas de bares e discotecas. Nos transportes públicos já se pode voltar a andar como sardinhas (é época delas), mas em eventos desportivos só se admite um terço dos lugares ocupados. Começa-se a acabar com o teletrabalho... mas continua a fazer-se depender o regresso ao escritório das taxas de incidência de contágios covid e de outras condições para impedir que se concretize sem o proibir.

Joana Petiz

A crise começa hoje

Veremos hoje que dimensão tomam, mas o simples aviso do regresso de uma grande greve na função pública, com o PS num governo apoiado pelos partidos à sua esquerda, é bem sintomático dos tempos que aí vêm. Para a última semana deste mês, são os transportes que prometem parar, com CP, Metro de Lisboa e Transtejo a entregar pré-avisos de greve. Mas o primeiro teste acontece já hoje, quando professores, trabalhadores de administrações locais e outros serviços do Estado saem à rua naquele que será o maior protesto desde que a pandemia nos obrigou a confinar pela primeira vez. Leia-se, desde que o governo obrigou o país a fechar portas, impôs o trabalho à distância para quem tinha autorização para continuar a funcionar - recomendando às empresas que assumissem as despesas dos serviços utilizados mas escusando-se, ele próprio, de seguir essa regra - e abriu a bolsa dos subsídios com regras quinzenais e pedidos de despacho rápido despejados no colo dos seus funcionários.