Isabel Capeloa Gil

Isabel Capeloa Gil

O fumo das sondagens

Passada a eleição, fica o fumo da fogueira eleitoral onde, em todos os ciclos políticos, se tentam queimar as sondagens. Faz parte da natureza humana justificar as insuficiências com motivos externos, fora da nossa esfera de ação e responsabilidade. E a humaníssima política não é exceção. Em tempo de eleições, as sondagens são frequentemente apontadas como a raiz de todos os males. Porque sub ou sobre estimaram a intenção de voto. Porque foram manipuladas, se não servem os interesses de determinada fação política. Porque erraram na aferição do resultado final e, portanto, são uma vigarice. A trituradora da simplificação serve muito bem as diferentes agendas políticas, mas erra, deliberada e conscientemente.

Isabel Capeloa Gil

O país exausto

A viver o segundo verão de pandemia, Portugal dá sinais de um cansaço vital, que se estende da política à comunicação, da economia à saúde. Os portugueses estão cansados do vírus, do ziguezague das normas sanitárias, das verdades científicas, das fake news, do elogio e da crítica da tecnologia, do isolamento forçado, do trabalho remoto. O governo demonstra a exaustão decorrente da gestão da maior crise sanitária da época moderna e os cidadãos demonstram uma apatia interrompida apenas por explosões celebratórias - como os festejos do Sporting - ou conflituais - como o vandalismo de Vila Nova de Milfontes.

Isabel Capeloa Gil

Cancelem as Humanidades!

Não acredito na validade deste título, mas também disso se faz uma crónica. Nos nossos tempos de euforia tecnológica, o que em termos latos se designa por Humanidades tornou-se o foco de ódios e paixões. Depois de uma proclamada falta de relevância, de subfinanciamento, crise de prestígio e baixa atratividade para as profissões ditas de sucesso, tornaram-se o lugar de um debate intenso. Estão no olho do furacão de propostas societais em colisão, convocando agendas políticas opostas, mas que têm em comum a soberba moralista e a ignorância estratégica.