Hugo gonçalves

máquina de escrever

E o Rio, continua lindo?

Na Rua 3 do Vidigal, a TV no bar do Carlão mostra os jogos internacionais e os moleques suspendem a peladinha sempre que passa um mototáxi, o cheiro da gasolina tornando a humidade e a doçura da clorofila ainda mais pegajosas. O bar do Carlão: um barraco forrado a gordura e ferrugem, que serve hambúrgueres filé-minhau e onde a melodia do comentador desportivo, cantada nas colunas do plasma, parece narrar a peladinha dos moleques como se fosse uma final do campeonato do mundo. Lá em baixo, o mundo além da favela: o areal do Leblon ao Arpoador, o calçadão e a classe média-alta em movimento, uma fluidez erótica protagonizada por quem corre, pedala ou desliza num skate com pernas de caramelo e pele de muitos cremes franceses. Lá em cima: o morro Dois Irmãos, todo pedra e mato, Mordor dos cariocas, onde as nuvens se aninham como a namorada pós-orgásmica num motel. E, claro, um radiozinho a tocar algures em cada casa, quiosque, boteco, ônibus, a banda sonora da cidade entrecortada por buzinas, pregões, xingamentos e cantadas: "Me chama de previsão do tempo e diz que tá rolando um clima."