Guilherme D'Oliveira Martins

Guilherme D'Oliveira Martins

Amava sobretudo a liberdade

António Alçada Baptista era um contador de histórias inesgotável. E a amizade era fecunda fonte de contentamento. Era absolutamente extraordinário ouvi-lo, fruto de uma memória prodigiosa, que manteve pela vida fora e que lhe permitia fixar pormenores, sinais e sentidos. Era a lembrança viva de quem amava sobretudo a liberdade. Recordo o entusiasmo com que partilhava episódios como o do padre Anchieta sobre uma viagem no sertão brasileiro. Com urgência em regressar a uma aldeia recôndita, o jesuíta pediu aos carregadores rapidez na caminhada. Contudo a andança era muito longa e, na terceira jornada, os índios pararam inesperadamente. O padre indagou sobre o motivo da interrupção e a explicação não se fez esperar: "Temos vindo depressa de mais e a nossa alma ficou lá para trás. Temos de esperar que ela regresse, pois sem ela não podemos continuar."

Guilherme D'Oliveira Martins

O senhor Manassés

Um bairro a sério tem os seus fantasmas. Conheci pessoalmente o senhor Manassés, o célebre barbeiro de Fernando Pessoa, na pequena loja de uma cadeira só, de madeira à antiga, sem ademanes, apenas com a possibilidade de fazer circular o assento, já que o artífice cortava cabelos e escanhoava barbas, sempre sentado em exígua cadeira. Tinha, quando o conheci, pouco mais de 65 anos, mas hoje vejo-o mais idoso. Vindo do liceu, passava à sua porta todos os dias. Quando lhe falavam do poeta, recordava-o cerimoniosamente, referindo-se-lhe sempre como "o senhor Pessoa". E essa invocação era um misto de respeito e veneração.

Guilherme D'Oliveira Martins

O valor da cultura

Como tirar consequências das duas crises que o mundo viveu nos últimos anos? Como dar valor à cultura? A emergência é sanitária, mas há que tomar consciência de que o tempo pós-pandemia vai-nos obrigar a jogar em vários tabuleiros, como numa simultânea de xadrez. Como afirmaram há uma semana António Guterres, Angela Merkel, Charles Michel, Emmanuel Macron, Macky Sall e Ursula van der Leyen, "as crises mais graves pedem soluções mais ambiciosas".

Guilherme D'Oliveira Martins

Eduardo Lourenço: Portugal como ideia

A atribuição do Prémio Vasco Graça Moura, na sua primeira edição, a Eduardo Lourenço constitui um reconhecimento e uma homenagem. É reconhecimento da obra de Eduardo Lourenço como fundamental, no seu sentido crítico, para a compreensão de Portugal, como cultura e identidade aberta. É homenagem, na medida em que Vasco Graça Moura, na sua expressão multifacetada, sempre deu ao pensamento do ensaísta de Nós e a Europa ou as Duas Razões uma especial importância, como intérprete de quem somos enquanto vontade e recusa de um qualquer fatalismo desistente. Lembramo-nos do modo como Graça Moura se empenhou e conseguiu que o Prémio Europeu de Ensaio fosse atribuído ao pensador português. Daí esta ligação natural e justa. Eduardo Lourenço segue os passos da Geração de 70 demarcando-se da religiosidade tradicional, e de um sentimento universal, notados em Fradique Mendes e depois na galáxia Fernando Pessoa e no modernismo. Nesta ligação, o ensaísta assume grande originalidade ao articular (como antes ninguém fizera) as Conferências Democráticas e o Orpheu. "A história e o destino de Portugal nunca foram trágicos fora da tragédia adiada que a vida é. Também não o são agora. Pela primeira vez, o nosso país vive-se a si mesmo e começa até a ser visto pelos outros, como um povo insolentemente feliz." Lourenço falou, por isso, de "maravilhosa imperfeição", como marca indelével de Portugal. Nem contentamento nem desconcerto, do que se trata é de procura de um sentido emancipador. Perante as nuvens negras da crise, o seu tema é o da vontade, que supere uma ciclotimia antiga. O tema de Portugal como Destino está de pé. Longe dos mitos da glorificação ou do pessimismo são urgentes a liberdade e a vontade! Afinal os mitos obrigam a ter deles uma leitura exigente e crítica.