Guilherme D'Oliveira Martins

Guilherme D'Oliveira Martins

Escrever o sol

No ano em que se celebram 60 anos da Poesia - 61, cadernos publicados em Faro, por Casimiro de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Luiza Neto Jorge e Maria Teresa Horta, com ilustração de Manuel Baptista, tive o gosto de invocar o facto nos Anais do Município de Faro, que acabam de sair, através da publicação de uma carta inédita de Gastão Cruz a Fiama sobre a feitura dessa preciosidade bibliográfica que reúne as cinco plaquetes da Poesia - 61, oferecidas há dias generosamente por João Nuno Cruz, filho dos dois protagonistas da carta agora vinda a lume, à Biblioteca Municipal António Ramos Rosa, no dia de um sol tímido em que lançámos os Anais. Foi um momento memorável, com a apresentação de António Branco, antigo reitor da Universidade do Algarve, no qual sentimos connosco o espírito da poesia e de uma iniciativa cultural pioneira, pela qual os jovens de há 60 anos, sem criar um movimento, puseram em comum, e por caminhos diferentes, um modo de agitar ideias à semelhança de Orpheu, porque a cultura nunca se repete, sempre se renova. O número dos Anais insere ainda uma sentida invocação de Lídia Jorge em memória de Maria Aliete Galhoz, com episódios pitorescos, uma deliciosa lembrança da cidade de Faro de antigamente, de Teresa Rita Lopes, ou um testemunho de Carminda Cavaco, ilustre geógrafa, sobre o turismo mediterrânico.

Guilherme D'Oliveira Martins

A Feira do Livro

Quando trabalhei na Avenida da Liberdade, no palacete Lambertini, com o saudoso engenheiro José Álvaro Chaves Rosa, a tratar dos preços controlados, nos idos de 1976, tive o prazer supremo da presença da Feira do Livro à beira da porta. Não esqueço esse tempo em que me perdia entre velharias e livros que tinham passado despercebidos. A feira não é só uma montra, é um ponto de encontro de personalidades e sombras. Alguém nos recorda um episódio ou uma figura. Os temas são inesgotáveis e há sempre descobertas inesperadas, mesmo em velhas obras razoavelmente conhecidas. E lembrei-me de Italo Calvino em Porquê Ler os Clássicos?, uma obra de 1991, a dizer-nos que essa visitação é como se entrássemos numa sala, onde decorre um serão de celebridades e cada autor funciona como um anfitrião, educado e culto, disponível para nos apresentar aos seus convivas - Homero, Xenofonte, Ovídio, Plínio (o antigo, naturalmente), Ariosto, Galileu Galilei, Cyrano de Bergerac, Daniel Defoe, Voltaire, Diderot, Stendhal, Balzac, Dickens, Flaubert, Tolstoi, Mark Twain... E se falamos de salão de celebridades, percebemos a etimologia de "clássico" - o que merece a atenção das classes escolares.

Guilherme D'Oliveira Martins

A Escola Froebel...

Há dias, junto do coreto do Jardim da Estrela, António Homem Cardoso recordou-me que aquele era um cenário que nos lembrava o tempo do Passeio Público. De facto, recordando-nos de Eça de Queiroz, foi no velho Passeio, no enredo de O Primo Basílio, que Jorge conheceu Luísa e foi lá que D. Felicidade esperou pelo conselheiro Acácio, afrontada por flatulências. Aquele belo coreto da Estrela, o maior da capital, nasceu a pensar no fim do Passeio Público e foi da autoria do prolífero arquiteto José Luís Monteiro, que também assinou a Estação do Rossio e a Sala de Portugal da Sociedade de Geografia. O coreto foi inaugurado em 1894 na Avenida da Liberdade (depois de estar dez anos desmontado num armazém), tendo sido, apenas em 1936, transferido para onde está. A história conta-se em duas palavras: na reconstrução de Lisboa depois do terramoto, Sebastião José encarregou em 1764 o arquiteto Reinaldo Manuel de projetar um parque à inglesa, no leito alagadiço da ribeira de Valverde, nos terrenos das Hortas da Cera, da Mancebia e de São José, que ficou concluído entre 1773 e 1777. Depois da vitória liberal em 1834, houve uma renovação do Passeio Público, a construção de uma imponente cascata, a implantação das estátuas decorativas dos rios Tejo e Douro e o rebaixamento dos muros. Mas com o impulso de José Gregório Rosa Araújo, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, e segundo o plano da autoria de Frederico Ressano Garcia, sob um coro de protestos, o Passeio Público foi demolido, dando lugar em 1879 à Avenida da Liberdade, segundo o modelo parisiense.

Guilherme D'Oliveira Martins

Com Edgar Morin...

No dia em que Edgar Morin completou 100 anos, recebendo com entusiasmo as mensagens dos amigos, Vasco Wellenkamp apresentou na Fundação Gulbenkian o espetáculo Amar Amália, singular encontro entre a criatividade e o talento da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo e a força das palavras do fado. E a memória de Graça Barroso ali esteve também, inesquecível. Foi uma coincidência feliz, já que Morin ama intensamente, no fundo de si mesmo, as raízes ibéricas, no genuíno sentido da palavra sefardita. Ao ouvir a Gaivota, de Alexandre O'Neill e Alain Oulman, o Barco Negro ou Partindo-se - nos ritmos compassados do coração português, encenados por Wellenkamp, sentimos que Edgar estava connosco. Como esteve tantas vezes, nas vicissitudes da oposição à ditadura ou, apaixonadamente, na "revolução dos cravos" - "momento de êxtase na história portuguesa que, como todos os grandes êxtases da história, nos marcou para sempre com a sua poesia, iluminadora e fugitiva", antes que o mundo voltasse a cair na prosa. Edgar Morin lembra esses tempos inolvidáveis e a fraternal amizade com Helena e Alberto Vaz da Silva e António Alçada Baptista.

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A magia da palavra...

Fernão de Oliveira, autor da primeira Gramática da Linguagem Portuguesa (1536), alertou: "Não desconfiemos da nossa língua, porque os homens fazem a língua e não a língua os homens"; e João de Barros, quatro anos depois, afirmou que o português "não perde a força para declarar, mover, deleitar e exortar a parte a que se inclina, seja em qualquer género de escritura". É a língua o nosso mais importante valor civilizacional. Deve, por isso, ser por todos protegida. E como fazê-lo? Falando-a e escrevendo-a bem. Compreendemos, por isso, Fernando Pessoa, num texto muito referido mas pouco compreendido: "Odeio com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon..."

Guilherme D'Oliveira Martins

O Campo de Ourique

Luís Alves Dias foi a alma da Livraria Ler de Campo de Ourique, uma das lojas lisboetas com história. Costumava dizer que o bairro é o nosso Quartier Latin. Tinha razão. A memória de muitas personagens ilustres dá cor à ideia. Mas a história tem algo mais que se lhe diga. Nos mapas anteriores ao terramoto, grande parte dos terrenos do atual bairro eram chãos rústicos de quintas com searas e olivais, além das olarias e da fábrica de telha e tijolo... Chamava-se Campo de Pousos. O centro da urbanização foi o quartel, iniciado em 1758 - com camaratas, casa da pólvora e logradouros. A instalação de um campo de manobras deveu-se a D. Lourenço de Lencastre e Noronha, descendente do conde dos Arcos, 5.º marquês das Minas. Era um centro de mercenários, pois não havia serviço militar obrigatório. É o mais antigo edifício militar de Lisboa construído de raiz. A designação deve-se à invocação pelo marquês das Minas do milagre de Ourique - presente nas quinas de Portugal.

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Luís Salgado de Matos

O Luís Filipe Salgado de Matos era das pessoas mais argutas e inteligentes que conheci. Investigador exímio, conversador inesgotável, era capaz de ver para além do imediato e das aparências, com quem dava gosto estar e conviver. Os temas que estudou (o Estado de Ordens e as relações institucionais das Forças Armadas e da Igreja) foram marcados pela originalidade e pelo modo próprio de analisar criticamente ideias feitas ou simplificações. Quantas vezes, em centenas de horas de convívio, ouvia placidamente os circunstantes e, aparentemente, sem discordância formal, com a sua voz inconfundível, mudava a perspetiva ou os ventos que pareciam dominar aquele ambiente.

Guilherme D'Oliveira Martins

Uma questão toponímica…

O Doutor António de Sousa de Macedo (1606-1682) que dá o nome ao largo em que se inicia em Lisboa a Calçada do Combro está longe de ser um desconhecido. É verdade que não foi a literatura que o celebrizou e que Ulissipo - Poema Heroico (1640) é uma obra mitológica sua que hoje quase passa despercebida. Não foi como poeta ou escritor que se singularizou. Alberto Manguel, novo munícipe naquele Largo, conta que perguntou quem conhecia o literato, mas ninguém soube responder.

Guilherme D'Oliveira Martins

O tecido cultural da Europa

Quando falamos de património cultural, há a tentação de pensar que falamos de antigualhas, de coisas do passado, irremediavelmente perdidas num canto recôndito da nossa memória. Puro engano! Referimo-nos à memória viva, seja ela referida a monumentos, sítios, tradições, seja constituída por acervos de museus, bibliotecas e arquivos. Mas fundamentalmente tratamos de conhecimentos ou de expressões da criatividade humana... Ter memória é, assim, respeitarmo-nos. Cuidar do que recebemos é dar atenção, é não deixar ao abandono. Por isso, o património cultural que devemos proteger é sinal para que o que tem valor hoje e sempre não seja deixado ao desbarato. Como poderemos preservar o que é novo se não cuidarmos do que é de sempre?