Guilherme d' Oliveira Martins

Guilherme d' Oliveira Martins

Comunidade de cidadãos...

A Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), ao celebrar 25 anos de vida, está confrontada com a exigência de corresponder à necessidade de assumir uma maior relevância na cena internacional, em linha com as profundas alterações que ocorrem no mundo. Não bastam as boas intenções. É necessário considerar as dificuldades e os ventos adversos com que a organização se tem debatido. E importa ter presente que falamos de uma comunidade que reúne países com uma língua comum, mas com culturas diferentes. A língua portuguesa tem presença em todos os continentes, mas não é uma realidade uniforme, abrangendo várias línguas e tradições. Os crioulos do português são exemplos de uma extraordinária riqueza.

Guilherme d' Oliveira Martins

Encontros no Marais

Era Paris, e encontrei-o no Marais, perto de sua casa. Senti-o assoberbado com a organização da Europália-91, mas o entusiasmo era, como sempre, transbordante. Havia a extraordinária alegria de viver, de pôr uma máquina em movimento, e de lidar com novas coisas e ideias. Acompanhei-o no sentido do Quartier Latin. Falou-me da equipa, de amigos comuns e da surpresa para muitos da riqueza da moderna cultura portuguesa, a somar ao peso da herança histórica. O tempo era um constante vaivém, em que o presente se enriquecia pela lembrança dos acontecimentos e das pessoas, que inesperadamente surgiam, vindos de diversos horizontes, sem o risco de anacronismo. Numa avidez saudável, ele sabia tudo o que se passava e o que iria passar-se, assinalando religiosamente no Pariscope o que valia a pena ver, ouvir e sentir.

Guilherme d' Oliveira Martins

Jacarandás em flor

Eugénio de Andrade fala-nos de um encontro singular. "Nesta cidade, onde agora me sinto / mais estrangeiro do que os gatos persas; / nesta Lisboa, onde mansos e lisos / os dias passam a ver as gaivotas, / e a cor dos jacarandás floridos se mistura à do Tejo, em flor também, / só Cesário vem ao meu encontro..." A cidade lembra esse momento. Desde o dia 5 de maio que os jacarandás estão floridos, agora na sua máxima pujança, dando às artérias da cidade, em São Bento, São Mamede, Rato, Rua Castilho, Parque Eduardo VII ou na 5 de Outubro, uma beleza fulgurante, numa verdadeira explosão violeta que nos deixa extasiados. Lembra-se o tempo em que a capital foi o Rio de Janeiro.

Opinião

Europa, memória e património cultural

O ano 2018 está à porta e o comissário europeu para a Educação e Cultura, Tibor Navracsics, ao abrir oficialmente o Ano Europeu do Património Cultural, recordou no dia 6, no decorrer do Fórum Europeu da Cultura, que não estamos apenas a falar "de literatura, arte, objetos, mas também de competências aprendidas, de histórias contadas, de alimentos que consumimos e de filmes que vemos". De facto, precisamos de preservar e apreciar o nosso património, como realidade dinâmica, para as gerações futuras. Compreender o passado, cultivá-lo, permite-nos preparar o futuro. Estamos a encetar um momento importante na vida da União Europeia. Apesar dos sinais de crise (e é significativo que contemos com muitos representantes da sociedade civil e da comunidade científica do Reino Unido, bem como com muitos jovens de todos os países da União Europeia, mas também do Conselho da Europa), há uma clara consciência de que uma cultura de paz começa pelo culto e pelo cuidado relativamente ao património cultural. Como poderemos avançar sem considerarmos as nossas raízes? Como poderemos preparar, de modo informado e conhecedor, o progresso futuro sem cuidar da continuidade e da mudança - segundo um processo de metamorfose, como Edgar Morin tem defendido? Procuramos, assim, sensibilizar a sociedade e os cidadãos para a importância social e económica da cultura - com o objetivo de atingir um público tão vasto quanto possível, não numa lógica de espetáculo ou de superficialidade, mas ligando a aprendizagem da História e o rigor no uso e na defesa das línguas, articulando educação e ciência, numa perspetiva humanista, aberta e exigente.