Daniel Deusdado

Opinião

Bazuca de felicidade. Obrigado covid

Não querendo gastar tempo sobre a capacidade de Sócrates em detetar "mandantes" (alô Ivo Rosa :) ), partilho hoje a imensa alegria que me tomou na última sexta feira ao contemplar uma das aparições mais extraordinárias da minha vida. Estava eu desprevenido a ver o vídeo da apresentação do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) quando "aquilo" surge. Como agora se diz... então é assim: o primeiro-ministro fala e, ao fundo, está um gráfico com umas linhas a apontarem para cima, rumo ao céu, deixando antever a tão desejada... prosperidade. Sim, ela, finalmente.

Daniel Deusdado

Novo Banco: não, não, não... pagamos

É que não pagamos. E não, este não é um texto humorístico. Os "novos" "milhões" a meter de novo no Novo Banco não são pagos pelos contribuintes. "Não há dinheiro para os novos apoios sociais, mas há para o Novo Banco!!!" Só que há um problema: a realidade. Quem paga o Novo Banco são os bancos - os lucros do Millennium BCP, BPI, Santander e todos os outros, através do Fundo de Resolução. Ok, numa pequena parte a Caixa Geral de Depósitos (porque temos um banco público e perderemos alguns lucros da Caixa). Alguma vez isto será dito aos portugueses de forma séria?

Daniel Deusdado

Confinamento: bomba social sem meta à vista

1. O Presidente disse-nos que a vida se mantém congelada até ao fim de março... mas pode ser abril, ou mesmo até ao verão, não se excluindo que talvez só no outono isto alivie, porque muito depende da vacina, mas essencialmente de nós - dos casos. Mas quantos? Podem dizer-nos se estamos confortáveis com... três mil casos? Ou com apenas mil? E se forem cinco mil com alívio do SNS, por força da vacinação dos mais velhos, já podemos funcionar minimamente?

Daniel Deusdado

Aceita pagar 10 cêntimos ​​​​​​​à viúva de Ihor Homenyuk?

Neste momento parece fácil bater em Eduardo Cabrita mas já aqui havia escrito que o ministro da Administração Interna devia ter saído muito antes - aquando do caso do escândalo das golas antifogo, durante o primeiro Governo socialista. Já nessa altura se percebia que não havia um "ethos" no ministério e que faltava noção do que ali passava. Este caso permite compreender, de novo, como foi tão fácil chegar-se à total bandalheira na qual agentes do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) mataram uma pessoa acabada de chegar a Portugal e esconder o caso durante semanas. Um grau de inimputabilidade desta dimensão não sucede de um dia para o outro.

Daniel Deusdado

Há algum líder da direita ​​​​​​​que não se vá aliar ao Chega?

O crescimento do Chega em Portugal é igual ao sucesso de Trump nos Estados Unidos. Por mais que me custe, as opiniões de Ventura estão fadadas para o sucesso. A ideia de que os outros andam a "mamar" à NOSSA custa é transversal na sociedade - do taxista ao empresário, do reformado ao funcionário de shopping. Portugal está desejoso de um demagogo que berre a alto e bom som que vai arrasar o sistema onde a elite vive à grande e à francesa, por oposição à desigualdade, galopante, que grassa na vida real. Ventura tem razão em dizer que disputará taco a taco com Ana Gomes o segundo lugar nas Presidenciais. Pobre Marcelo, eleito bombo da festa.

Daniel Deusdado

Bin Laden destruiu as Torres, Trump a Estátua da Liberdade

A declaração de fraude (ou seja, derrota) que Trump fez ontem à noite a partir da Casa Branca, com o selo Presidencial na tribuna e na pele de Presidente, é um dos maiores atentados planetários feitos à democracia desde a Grécia antiga. Surge a partir do cargo mais importante do mundo, na sede da maior potência livre, difundida para o globo inteiro. Quando isto é possível nos Estados Unidos, é possível em qualquer país, em qualquer instituição, nas empresas ou na vida de todos os dias. É a mentira como método, com a agravante de atrair 70 milhões de americanos. E só não prevaleceu por uma unha negra. No discurso de ontem, Trump tentou criar a cortina de fumo para encobrir a palavra que ele tão bem conhece: "Fired" (despedido). Não que tenha tido um mau resultado - aliás, é tristemente surpreendente como conseguiu ir tão longe. Só que não aceita perder porque a democracia foi apenas um meio de chegar ao poder, não que lhe esteja no sangue. Tudo o que Donald tentou alinhar como argumentário de fraude, foi traído por duas evidências: o sentimento interior de derrota em cada palavra e, depois, a postura corporal (de desastre) com que abandonou a sala. A raiva esmagadora a corroer-lhe cada célula não tem apaziguamento possível - exceto por fúria e sangue a correr na rua para que devolvam o poder de "Comandante Supremo". Por isso mesmo recuperemos a história do seu amigo Roger Stone, o gangster preso por fraude e ligação aos russos na eleição de 2016 (e depois indultado por Trump). No notável documentário biográfico "Get me Roger Stone" (Netflix), o próprio explica como criou, a pedido dos republicanos, o tumulto que gerou a paragem da recontagem dos votos na Flórida por ordem do Supremo Tribunal - dando a vitória a George W. Bush por 539 votos. Já com Trump, Roger Stone assume subtilmente os méritos do "atentado" a Hillary Clinton dias antes das eleições de 2016 (o caso dos e-mails oficiais na sua conta pessoal) e de como a FBI foi iludido (e decisivo) para criar uma suspeita inapagável na candidata. Já nesta campanha, a tentativa de envolver o filho de Biden num esquema de corrupção na Ucrânia tem a marca do sinistro Stone, ainda que desta vez o caso não tenha tido o mesmo sucesso. A verdade é que Trump perdeu, mesmo que vá contestar a legitimidade da votação por correio. Barafustará como uma criança zangada e egocêntrica, mas alguém terá de pegar nele pelo colarinho e pô-lo fora. Esperemos que os juízes conservadores do Supremo não se tenham tornado instrumentos de fanatismo político e assegurem a Constituição e a História do país. Não nos limitemos, no entanto, à excrescência que Donald representa enquanto personagem. A descrença no sistema que ele protagoniza é um sentimento de milhões de pessoas por todo o mundo. A desigualdade é o maior problema das nossas sociedades, a par da questão climática. Que Trump seja escolhido por 70 milhões de pessoas para o resolver (e quase ganhe as eleições) é algo, no entanto, que obriga a pensar. O discurso de ódio de Trump, ontem, reflete a questão mais complexa: pode o populismo tomar o poder sem se tornar anti-democrático? Putin na Rússia, Modi na Índia, Erdogan na Turquia, Órban na Hungria, Duda na Polónia e Maduro na Venezuela, são a prova de que há sempre este perigo. Quem vota neles quer, a prazo, perder o direito/privilégio de manter a democracia a funcionar sem golpes baixos e imprensa livre. A vida é uma permanente surpresa, no entanto. Na madrugada de 3 para 4 de Novembro, a América parecia algo irrecuperável. Esta noite a esperança ressurge. Não que Biden seja extraordinário. Mas pelo menos é um homem decente. Podemos voltar a ter esperança que retome o Acordo de Paris, não insista numa maior militarização do mundo e faça uma luta coordenada contra a covid. Uma coisa é certa: mesmo que Biden falhe, mais vale uma América algo paralisada politicamente do que vê-la avançar furiosamente na direção errada, com um louco ao comando. Para já, a decência e dignidade venceu. Por pouca margem, mas venceu. Não é pouco nos tempos que correm.

Daniel Deusdado

Quanto vale o rio Tejo?

"Tejo: como matar um rio". O título estava na primeira página do DN de sábado e era desenvolvido em três páginas com a explicação: "O sal está a fazer um cerco a Lisboa". Num mundo de catástrofes, o prenúncio de morte do principal rio português é apenas uma notícia. Não mexe um ponteiro de emoção em quase ninguém, exceto nos pescadores e agricultores que vivem aquela vida pobre e típica de quem depende da mãe-natureza. Mas excetuando o efeito sobre eles, o Tejo é tão real no quotidiano dos lisboetas como um ecrã de televisão: uma imagem, um belo horizonte, uma mais-valia imobiliária. Quantas pessoas alguma vez tocaram no rio ou tomaram banho nele? O que lhes diz enquanto memória?

Daniel Deusdado

Este Natal é o nosso "11 de Setembro". "Go shopping!" Já. Por favor

Uma coisa é ver-se na televisão, outra bem diferente é experimentar a desolação dos aeroportos. Não apenas os aviões da TAP, em fila, nas pistas e parques do aeroporto da Portela, mas igualmente os próprios aparelhos das low-cost, sempre frenéticos, mas agora encostados algures. Pior: Munique, meio da tarde de quarta-feira. Entrar-se no terminal 2 da Lufthansa/Star Alliance, em pleno arranque de setembro, e não haver mais do que meia dúzia de pessoas a fazer check-in, significa que há uma gigantesca paragem da economia mundial a agravar-se. Conseguimos sobreviver economicamente a algo assim?

Daniel Deusdado

Covid e gripe: bons testes, hospitais preparados, mas o país não tem de parar

Lembram-se daquele período, por alturas de Maio, em que Portugal "falhou" porque a Áustria e a República Checa já estavam a sair da Covid-19? Pois, olhe-se para a implacável (e ridícula) lista dos países excluídos pelos ingleses e assinale-se a entrada da República Checa esta semana (a Áustria já lá está há algum tempo) e nós de fora. Conclusão: isto está sempre a mudar. Mas há algumas conclusões que atravessam já estes oito meses e uma delas é esta: a covid-19 exige todo o cuidado, mas não é a peste, o ébola ou a cólera. E por isso precisamos de ponderar muito melhor as decisões de "manada" onde o medo desencadeia muitas outras doenças e mortes não estimadas.