Cartas da América

Cartas da América

Da democracia na América

A frieza e a humildade são as melhores conselheiras do analista. Reconhecer que confiou novamente e em demasia na maior indústria de sondagens do mundo e que, apesar da prudência quanto ao desfecho, foi balizando as suas interpretações nesses dados. Reconhecer que os modelos clássicos de análise quantitativa dedicados a segmentos do eleitorado americano já não servem e que há "latinos e latinos", "mulheres e mulheres", "millennials e millennials", "classe média e classe média". E conceder que, pese embora o momento absolutamente crítico que os EUA e a Europa atravessam, há muitos milhões de pessoas que não partilham genuinamente os encantos das democracias liberais, da tolerância, da multietnicidade social e da abertura das economias à globalização.

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Uma eleição europeia

Há dias, um dos institutos com força para moldar a política externa dos dois grandes partidos realizou a sua grande conferência anual, dedicando painéis a mais de trinta tópicos da atualidade. Apenas dois diziam respeito à Europa: brexit e Putin. Estarão a ver a fotografia toda ou só a parte que interessa? E que tem isto que ver com as eleições? Já sabemos que a Europa não é um tópico atraente às análises políticas em Washington, compulsivamente à procura da next big thing, como mais uma vez pude comprovar pelo seminário que ontem liderei no McCain Institute. E quando olhamos para o financiamento europeu nos principais think tanks, a Alemanha aparece sem rival. Faltam visões alternativas se os europeus quiserem moldar a política externa americana, seja em função dos interesses nacionais ou da UE. O que não podem é ficar restritos à negociação do brexit e ao futuro da Rússia de Putin. Claro que o Kremlin se tornou central na campanha, o que obrigará uma possível "administração Hillary" a endurecer posição face à Rússia e a envolver-se com outra dinâmica nos assuntos europeus (financeiros, por exemplo), mas é essencial articular uma política europeia digna desse nome. As instituições europeias estão fragilizadas e as três grandes potências da UE estão dessincronizadas como nunca se viu no pós-Guerra Fria: a Alemanha demasiado sozinha, a França demasiado em baixo, o Reino Unido demasiado fora. O problema é que os russos estão demasiado dentro e os EUA relutantemente comprometidos. É preciso fazer ver que dramas europeus são potenciais riscos americanos (e vice-versa) e que poucos foram os momentos na história recente tão demonstrativos como este em que tantos pontos se ligam numa espiral transatlântica tão negra: populismo, radicalismo, nacionalismo, protecionismo, estagnação económica. Por isso esta é também uma eleição europeia.

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A outra eleição

Fala-se pouco nela, mas a eleição para o Senado é tão ou mais importante do que a da Casa Branca. Não está a ser travada no mesmo charco e não aconchega o ângulo europeu que se entretém a pôr os ovos todos do poder na cesta presidencial, mas pode definir o modo e o alcance do exercício do próximo presidente. Uma coisa é certa, vença quem vencer, não haverá um só segundo de estado de graça, luxo que a política atual não tolera.

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Lama na ventoinha

O caso dos e-mails só forçosamente encaixa na "surpresa de outubro", dado que há mais de três anos atormenta Hillary Clinton. A sua negligência é conhecida e escalpelizada à exaustão pela imprensa, WikiLeaks, pundits de serviço, procuradoria e por uma comissão do Congresso. Para ser uma "surpresa de outubro" teria de se aproximar da hecatombe de Wall Street que atarantou por completo John McCain em 2008; ou da emergência na Costa Leste depois da devastação do furacão Sandy (que aqui vivi na pele) e que distinguiu a coragem política entre Obama e Romney; ou do anúncio de Kissinger, em 1972, sobre a proximidade de paz no Vietname, depois de quatro anos infrutíferos de Nixon, e que acabaria reeleito com 20% de diferença sobre George McGovern. Em todo o caso, desde que as "surpresas de outubro" foram cunhadas que o seu impacto pouco alterou a vantagem já detida por um dos candidatos, o mesmo é dizer que os e-mails podem não provocar uma reviravolta a favor de Trump, até porque a apreciação de confiança (ou falta dela) em Hillary não se altera com este caso. Em bom rigor, a dinâmica de aproximação de Trump já tinha arrancado antes da carta enviada aos congressistas pelo diretor do FBI, o que significa que há um caráter enraizadamente popular e seguro em redor da natureza política de Trump. E isto é ainda mais pernicioso para os EUA. Hoje, a existir surpresa é o comportamento do diretor do FBI, que além de tocar no limite do abuso de poder e da violação da lei Hatch imiscuindo-se na campanha, justificou a reabertura da investigação com insinuações vagas e insensatas. Depois das acusações à Rússia por ciberataques - que o mesmo diretor do FBI se recusa a oficializar, mesmo partilhando o diagnóstico -, a América vive uma insubordinação no topo da investigação criminal. O pior é que depois de dia 9 a lama continuará na ventoinha.